Burrel e Morgan (1979) compartilham a ideia de que todas as teorias sobre as organizações estão embasadas em uma filosofia das ciências e uma teoria sobre a sociedade. A respeito das ciências sociais, Guba e Lincoln (1994) propõem três grupos de pressupostos, relativos a aspectos ontológicos, epistemológicos e metodológicos. Apesar de constituírem três campos de análise distintos, estão inter-relacionados. As questões ontológicas “dizem respeito à verdadeira essência do fenômeno sob investigação” (BURREL; MORGAN, 1979, p.5). Já as questões epistemológicas, referem-se à “pressupostos sobre as bases do conhecimento – de como alguém poderia começar a entender o mundo e transmitir este conhecimento para seus semelhantes em forma de comunicação” (BURREL; MORGAN, 1979, p. 5). E, quanto às questões metodológicas, estas procuram, de acordo com Guba e Lincoln (1994), incidir sobre o modo de proceder do investigador de maneira a chegar aos conhecimentos que acredita ser possível obter. Burrel e Morgan (1979) afirmam, ainda, que o conjunto de pressupostos constitui um instrumento valioso para a análise da teoria social. Os mesmos autores destacam que os pressupostos sobre a natureza da ciência estão contidos numa dimensão subjetiva – objetiva; e os pressupostos sobre a natureza da sociedade, em uma dimensão regulação – mudança radical. Essas duas dimensões conduzem à quatro paradigmas, quais sejam: funcionalista, interpretativo, humanista radical e estruturalista radical.
De acordo com Khun (1978), os cientistas que compartilham dos mesmos paradigmas estão comprometidos com as mesmas regras e padrões para a prática científica, assim, “um paradigma governa, em primeiro lugar, não um objeto de estudo, mas um grupo de praticantes da ciência” (KHUN, 1978, p. 224). O mesmo autor define paradigma como “realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares a uma comunidade de praticantes de uma ciência”. O termo paradigma supõe “toda uma constelação de crenças, valores, técnicas, etc., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada” (KHUN, 1978, p.218).
Com base no exposto, o presente estudo foi embasado na visão do paradigma funcionalista. Segundo Birochi et al. (2012), existe uma predominância deste paradigma na condução da sociologia acadêmica. Nos eixos de classificação propostos por Burrell e Morgan (1979), o paradigma funcionalista está enraizado dentro da sociologia da regulação e na abordagem objetivista do mundo social, sendo caracterizado principalmente pela preocupação de fornecer explanações racionais do status quo, da ordem social, do consenso, da integração social, pautando-se em uma postura realista, positivista, determinista e nomotética da realidade social.
Ainda conforme Burrell e Morgan (1979), o paradigma funcionalista possui uma orientação pragmática, em que a compreensão da sociedade deve ser posta em termos de conhecimentos gerais para depois serem colocados em prática.
Cabe ressaltar, ainda, que em uma investigação científica, o papel desempenhado na teorização varia de acordo com a perspectiva encarada pelo investigador. Assim, este trabalho seguiu a abordagem dedutiva-indutiva, pois além de ir até o campo empírico com um referencial teórico já consolidado acerca dos temas BPM e Estratégia enquanto Prática, também se partiu de uma realidade em busca de teorizações.
Em relação à abordagem dedutiva, é possível chegar até a certeza por meio da razão. Partindo das teorias e leis gerais pode-se chegar a determinação ou previsão de fenômenos. Aqui, parte-se de princípios considerados verdadeiros e indiscutíveis e chega-se a conclusões formais, usando apenas a lógica.
O método dedutivo proposto pelos racionalistas Descartes, Spinoza e Leibniz, pressupõe que só a razão é capaz de levar ao conhecimento verdadeiro. O raciocínio dedutivo tem o objetivo de explicar o conteúdo das premissas. Por intermédio de uma cadeia de raciocínio em ordem descendente, de análise do geral para o particular, chega a uma conclusão. Usa o silogismo, construção lógica para, a partir de duas premissas, retirar uma terceira logicamente decorrente das duas primeiras, denominada de conclusão (LAKATOS; MARCONI, 1993, p. 92).
Já na abordagem indutiva, observam-se casos particulares da realidade para chegar a uma conclusão geral. Pode-se dizer, então, que esta abordagem realiza-se em três etapas: observação dos fenômenos, descoberta da relação entre eles e generalização da relação.
O método indutivo proposto pelos empiristas Bacon, Hobbes, Locke e Hume, considera que o conhecimento é fundamentado na experiência, não levando em conta princípios preestabelecidos. No raciocínio indutivo a generalização deriva de observações de casos da realidade concreta. As constatações particulares levam à elaboração de generalizações (LAKATOS; MARCONI, 1993, p. 92).
Quanto à abordagem do problema, optou-se por uma pesquisa qualitativa- quantitativa.
Durante muitos anos a pesquisa científica foi marcada por estudos que valorizavam o emprego de métodos quantitativos para descrever e explicar fenômenos. Após, surge outra forma de abordagem identificada como qualitativa que, partindo de uma perspectiva diferenciada, busca interpretar estes fenômenos do mundo social. Porém, os últimos anos revelam que o método misto se firmou como promissora possibilidade de investigação, pois o vínculo entre os dados estatísticos e a visão do pesquisador, serve de base para o surgimento de novos conhecimentos, por meio de técnicas qualitativas e quantitativas que se complementam.
Dito isto, cabe mencionar, que a teoria busca realizar o objetivo da pesquisa, oferecendo resposta ao problema que suscitou investigação. Portanto, ao escolher a metodologia de uma pesquisa científica deve-se indagar se os dados concebem proporções ou conceitos. É necessário esclarecer a pretensão de se trabalhar com números, mensurando a realidade, ou com palavras, desenvolvendo uma abordagem mais voltada à compreensão do conteúdo. Observa-se, atualmente, apesar da dicotomia da pesquisa quantitativa versus qualitativa, uma perspectiva significativa da utilização de ambas as estratégias metodológicas concomitantemente.
Segundo Creswell (2007), enquanto na pesquisa quantitativa, as hipóteses e as questões são comumente fundamentadas em teorias que o pesquisador procura testar, na qualitativa, o investigador emprega a teoria como uma explicação ampla, para comportamentos e atitudes, que aparece ao final do estudo como uma teoria gerada a partir da coleta e análise dos dados. Em relação aos pesquisadores de métodos mistos, utilizam tanto a teoria dedutivamente, em teste e constatação de teoria, quanto indutivamente, como em uma teoria emergente ou padrão.
Assim, em relação à pesquisa quantitativa e a pesquisa qualitativa, concebe-se que de fato existe uma diferença entre as duas abordagens, mas que elas não são excludentes e sim complementares. Santos Filho (2001) afirma que pesquisadores têm reconhecido que a complementaridade existe e, é fundamental, tendo em vista os vários e distintos desideratos da pesquisa em ciências humanas, cujos propósitos não podem ser alcançados por uma única abordagem metodológica.
A partir dessa visão, percebe-se que as duas formas de abordar a pesquisa científica (qualitativa e quantitativa), que até então eram vistas como antagônicas, estavam apenas preocupadas com problemas e tópicos diferentes, todavia, igualmente importantes.
Contudo, percebe-se que o uso dessas duas abordagens na pesquisa de um mesmo problema, pode proporcionar um resultado mais expressivo e considerável, podendo contribuir para um melhor entendimento do fenômeno estudado.
Na mesma linha de pensamento Pope e Mays (1995) argumentam que:
Os métodos qualitativos e quantitativos não se excluem. Embora difiram quanto à forma e a ênfase, os métodos qualitativos trazem como contribuição ao trabalho de pesquisa uma mistura de procedimentos de cunho racional e intuitivo capazes de contribuir para a melhor compreensão dos fenômenos. Pode-se distinguir o enfoque qualitativo do quantitativo, mas não seria correto afirmar que guardam relação de
oposição (POPE; MAYS, 1995, p. 42).
Para Triviños (2011), muitos dados sobre a vida das pessoas não podem ser quantificados e necessitam ser interpretados de maneira muito mais ampla que restringe à informação objetiva. Creswell (2007) identifica características que devem estar presentes em um procedimento qualitativo. Para o autor, a pesquisa deve ocorrer em um cenário natural com métodos múltiplos de coleta de dados, deve ser emergente e fundamentada nas interpretações do investigador, ser vista de forma holística, ser reflexiva, usar processos de raciocínio indutivo e dedutivo e aplicar uma estratégia de investigação. Triviños (2011) aponta que na pesquisa qualitativa as informações adquiridas e interpretadas, muitas vezes, demandam novas buscas de dados, devido ao fato de o investigador não ter principiado seu trabalho guiado por hipóteses.
Ainda em relação à pesquisa qualitativa, consigna-se o estudo de caso como um dos tipos mais relevantes. O estudo de caso consente ao pesquisador concentrar-se num aspecto ou situação particular e identificar os diferentes processos que interagem no contexto estudado.