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PARADIGMAS, PRIMATOLÂNDIA E UM PADRE EXCOMUNGADO

No documento Cerqueira César/SP ISMAEL TAVERNARO FILHO (páginas 116-138)

Há experiências na vida que são demasiadamente marcantes, concorda?

Falam que o grau de nitidez, de energia de uma memória, é sempre equivalente à intensidade vivida no momento.

Exemplo: O primeiro beijo, a morte de alguém estimado, um aniversário surpresa e etc. Quanto mais viva a lembrança, maior é o indício de que foi uma ocasião marcante.

Tem sentido, não acha?

Digo isso pela noite que bebi o possível enteógeno.

Acredito que levarei cada detalhe na memória. Foi bem profunda a viajem e, se não bastasse,

sonhei com tantas coisas loucas quando dormi. Me recordo de um hospital antigo, umas pessoas esquisitas, um quarto branco.

Sei lá... Sonhos muitas vezes são confusos.

Você arrisca dizer o que é um sonho?

Existem diversos pensadores falando sobre o tema. É bem interessante, leitor! Não recomendo um livro específico, por que não sei. Contudo, explicarei de maneira simples o funcionamento dessa linguagem.

Todos nós sonhamos, pois, somos criaturas desejantes por natureza. Quem deseja também reprime. É factual. Não podemos ter ou fazer tudo que queremos na hora em que gostaríamos. Os meios são escassos, lembre-se bem disso.

Sonhos podem ser vestígios da memória ordinária ou também situações não realizadas, desejos que reprimimos por infinitas razões (cultura, família, moral). Eles são vidas que não vivemos. Em outras palavras: queremos fazer um punhado de coisas que muitas das vezes não fazemos, não podemos, que não vale à pena o “custo benefício” e etc... Sonhar é a maneira que encontramos para viver algo que queremos. Projetamos isso em alguma dimensão para depois experienciar.

Está aí a grande sina da psicanálise. Freudianos adoram os sonhos. Aliás, dizem que a única maneira de conhecer verdadeiramente um homem ou uma mulher é pelos seus sonhos.

Neles encontramos as legítimas vontades, intenções e objetivos.

Faça um teste se quiser.

Durma com fome e sonhará com um belo banquete imperial. Durma com vontade de fazer xixi e sonhará com um rio, uma cacheira ou simplesmente que está no banheiro.

Outro exemplo: Na bela manhã ensolarada da Rua Augusta, você está caminhando pacificamente ao trabalho. De repente, é surpreendido por um kit 4x4 de pernas e peitos que afloram os mais loucos desejos libidinais. As coisas são difíceis para os casais tradicionais e monogâmicos.

Sabe do que estou falando leitor (a)? Se não..., aguarde seu príncipe encantado ou sua princesa dos contos de fadas e verás.

Bom, ele volta para a residência e no fechar dos olhos, as pernas e os peitos de alguma maneira voltarão para “inquietá-lo”.

Entende o funcionamento agora?

Toda repressão é fruto do processo civilizatório. Ou seja, quanto mais civilizado é o homem/mulher, mais reprimido será.

Consequentemente, mais sonhos terão.

Dizem que os animais e as tribos primitivas não sonham.

Talvez seja realmente verdade! Bichos selvagens não reprimem os instintos, homens selvagens também não.

Lembrei de um pedacinho da música do Raul Seixas:

“Sonho que se sonha só É só um sonho que se sonha só

Mas sonho que se sonha junto é realidade”

Putz! O que vou dizer fará o maluco beleza rolar no túmulo.

Nem sempre os sonhos que se sonham junto são realidade.

E sabe por quê?

Por que sonhos são sonhos! Independentemente do número de pessoas que compartilham o fenômeno, eles não deixam de ser o que são.

Quantidade nunca foi sentença decisória para o elemento qualitativo. Na cosmografia do período arcaico, a galera “sonhava”

coletivamente que a Terra era plana. A ideia de um planeta esférico surgiu bem depois.

Bom, voltando aos conceitos de sonhos... Existem outras maneiras de categorizá-los, porém, não tenho bagagem vivenciada e nem tanta estima.

Mas, se quiser uma amostra... Vai que se interesse? Depois, é só pesquisar.

Alguns estudiosos dizem que podemos fazer uma viagem astral, nos desdobramos conscientemente durante o sono ou pelo menos, o que entendemos como sono.

Todos se projetam à noite. É um processo natural do corpo, diariamente ele faz isso. O ser humano é formado por várias carcaças (pelo menos é o que dizem), irei me atentar em duas - a física e a espiritual. Essa última tem muitas nomenclaturas (perispírito, corpo astral, psicossoma, envoltório fluídico, corpo etéreo e etc...). Quando dormimos, o nosso espírito se projeta em outro plano - o astral.

Creio que você já teve algum ensaio parecido.

Exemplo:

 Sonhar que está flutuando e ver a cidade de cima;

 Se ver dormindo (como em terceira pessoa);

 Voltar do sonho rapidamente e não conseguir se mexer na cama;

 Encontrar parentes distantes ou falecidos e bater o maior papo.

É matéria para um livro inteiro, não vou me alongar.

Tem uma instituição no Brasil chamada IIPC (Instituto internacional de Projeciologia e Conscienciologia) que faz diversas pesquisas referentes ao assunto. Caso tenha interesse, segue humildemente um pitaco.

E agora, já que estamos falando sobre esse tipo de assunto, eu seria um hipócrita descompromissado com a verdade se não levasse em consideração minha experiência:

“A vida NÃO termina após da morte”.

Contudo, esse argumento é estruturado unicamente na biografia do sujeito chamado Ismael. Não posso falar por outros.

São fatos ocorridos na minha vida, que se mostraram cabais (igual

ao exemplo dos 80 dedos no pé esquerdo que citei). Não houve dúvidas!

A verdade e a fé são fenômenos que não causam interrogações, eles têm raízes em comum – O veredicto do coração! E isso é o suficiente.

William Shakespeare (poeta e dramaturgo inglês, em torno de 1564-1616) era um dito-cujo arretado. Ele compreendeu a magnitude que é a vida e a alma humana.

Ele disse assim, através de Hamlet (personagem principal da peça):

“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”.

Tenho bastante simpatia por essa frase. Já os Aristotélicos (termo relativo ao discipulo de Platão: o filósofo grego Aristóteles, 384 a.C.. – 322 a.C..) dirão o contrário, pois o silogismo baseia-se no raciocínio, na lógica e não em batimentos provindos da caixa torácica.

A filosofia Kardecista se empenhou de corpo e alma para desvendar os mistérios da existência. Tenho um grande respeito pela honestidade e veemência de Hippolyte Léon Denizard Rivail (educador francês do século XIX e codificador da doutrina espírita) em propor argumentos fidedignos para codificar o mundo além-túmulo. Não enxergo as obras espíritas como religiosas e muito menos científicas, por esse motivo coloquei o termo

“filosofia Kardecista”. Mas isso não diminui seu peso e nem suas medidas, pelo contrário... O cerne da filosofia é o compromisso com a verdade e não com dogmas ou paradigmas.

Por falar em paradigmas, você sabe como nascem, leitor?

A religião e a política que os criaram. Eles se manifestam

superficialmente com intenções de natureza variada, mas todos os desejos culminam em uma só ponto confluente: o Poder!

Então, seguimos feito gados de corte "inquestionáveis" às leis e tradições.

Contarei uma anedota que ajudará a entender.

Na cidade dos macacos havia um cacho de banana suculento. Era período de miséria geral. Dois chimpanzés astutos guardavam as frutas para ninguém comer. Eles queriam usá-las para fazer um “macaco-teste-social”. O povo da ”Primatolândia”

estava insatisfeito e faminto.

Os dois chimpanzés bolaram um plano.

A estratégia era o seguinte: Construíram uma cabana, onde seriam distribuídas as frutas. Na porta do local, uma mensagem:

“SILÊNCIO, SEM PERGUNTAS!".

Combinaram com oito micos (em troca de algumas bananas estragadas), para ajoelharem toda vez que o tambor soasse.

Os primatas chegavam em busca de alimento e ao entrarem se deparavam com os atores se prostrando quando escutavam o barulho. Lentamente, cada um dos oito micos saiu, ficando apenas os macacos que estavam sendo testados no experimento.

Esses últimos, continuaram se joelhando toda vez que o tambor ecoava, iguais aos micos que foram embora. A única diferença, é que eles nem sabiam o motivo de fazer aquilo.

Tempos depois, outros macacos apareceram e viram a mesma cena que o primeiro grupo: o som do tambor e macacos se curvando até receberem as bananas. Como era de se esperar, os últimos macacos repetiram o ritual.

Enxerga alguma semelhança, leitor? Fazemos isso sem questionar. Seguimos os paradigmas como se fossem estruturas imperativas e categóricas.

Existem as classe dos chimpanzés, dos micos e o “povão”

(nós).

Somos primatas sendo testados diariamente.

O que preciso esclarecer de forma transparente, é o seguinte: chega um ponto na vida do ser humano que o cogito (como diria Descartes) sobre dimensões extrafísicas é irrelevante.

Veja bem o que digo!

“Se não fizermos do planeta Terra, da nossa realidade imediata um paraíso, nenhum outro lugar do Cosmos será”.

Compreende?

Devido a isso, afirmo a irrelevância da vida após a morte, do efêmero ciclo da roda da vida.

O fenômeno reencarnacionista, a comunicabilidade com os entes queridos e a existência de vida em outros planetas, não transforma objetivamente ninguém.

Tem um pintor turco de nome Esref Armagan que é cego de nascença. Você compreende a proporção disso? Ele faz quadros de beleza magnífica, sem ter ideia do que significa luz ou

cor. Um super-humano contemporâneo a nós. Percebe? Ainda assim, matamos crianças de outras nacionalidades por petróleo... O fato de a vida continuar depois da morte não transforma as pessoas.

O espiritismo como busca pela verdade é admirável. Já os ditos espíritas são tão hipócritas e mendigos quantos os bêbados da Rua Augusta.

As religiões entendidas como instituições ou repartição pública, nada mais são que "o ópio do povo", como diria Karl Marx (filósofo, sociólogo, jornalista e economista alemão do século XIX) na “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”.

Reencarnação, ressurreição, samsara, metempsicose e outras balelas mais, são indiferentes enquanto não fizermos do aqui e agora um Jannah dos mulçumano. Existe uma frase de Dogen Zenji (mestre zen-budista japonês, século XIII), que fala mais ou menos o seguinte:

“A lenha se transforma em brasa e depois vira cinza. Mas, a cinza não se torna lenha novamente”.

Veja a profundidade e maestria desse sábio.

Lenha, brasa e a cinza têm sua posição na existência. Têm um começo, um meio e um fim.

A lenha não se transforma em brasa, tanto quanto uma pessoa que morre não volta à vida.

Em outras palavras: “Dane-se o papo de reencarnação e de vida após a morte”. Independente se for verdade ou não, as duas fases existem em si mesmas, tem seu próprio tempo.

Ninguém fala que o inverno se transformará em primavera (como diz o mestre). Então, por que desperdiçarmos o tempo?

Não vamos esperar pela felicidade, não vamos esperar pelo paraíso, não vamos esperar pela bem-aventurança, não vamos esperar pela salvação e nem por Deus.

A vida está acontecendo e você nem se ligou.

Tem uma historinha que se enquadra bem no que digo:

Uma enchente alagou toda a cidade... O crente correu para o telhado da casa a fim de salvar-se. O nível da água subia feroz. Ele pedia socorro para Deus, queria ser resgatado. Passou um barco e ofereceu-lhe ajuda:

– Obrigado amigo, mas Deus irá me salvar!

Passou um helicóptero e jogou uma corda:

– Agradeço piloto, Deus virá me ajudar!

Simples... a chuva não parou e o sujeito morreu afogado.

Somos esse cara no telhado. A vida é um presente diário.

Deus está mostrando o barco, a corda e não enxergamos. Somos cegos esperando um paraíso inexistente, mas enquanto ele não vem, caçamos a felicidade em algum boteco de esquina.

Após a "tempestade" do chá, uma atmosfera de calmaria nos envolveu serenamente.

Boquinha estava feliz pelo quarteto retomar suas ocupações. Bancou uma leva para todos do melhor amigo do homem: “o cão engarrafado”, como diria Vinícius de Moraes (poeta e compositor brasileiro do século XX):

– Enrico! Traz uma dose da bebida do artista famoso.

Manu parecia um tanto quieto. Fora do comum. Ele estava sentado aos pés do divã, como se aguardasse um coração aflito gritando por ajuda.

Resolvi não perguntar nada. Talvez fosse um cansaço acumulado, ou sei lá.

Eu estava com um sentimento do tipo:

“Pode cair o mundo, que hoje tô de boa”.

Já ficou assim, leitor? tipo mestre Dogen... Zen?

Preciso que se imagine dentro do bar. Ao meu lado. Nós quatro.

Projete aqui na mesa sete seu atual estado de espírito.

Independentemente de qual for ele: alegria, tristeza, azedume, ansiedade... Não interessa! Escolha o que deseja tomar, que hoje é por minha conta. Rum, gin, martini, contini, campari, jurubeba, água de coco, tônica, suco de laranja, café. O que quiser. Fique à vontade.

Ah! Antes que me esqueça, gostaria de entregar um presente a você, uma charada filosófica que terá que resolver. Não tem nenhum motivo especial. Senti vontade de compartilhar e pronto.

Uma singela homenagem ao poeta e filósofo grego Epimênides (meados do ano 600 a.C..) que ferveu o cérebro em devaneios e abstrações paradoxais.

Vamos lá, muita atenção.

“TUDO O QUE ESCREVI É UMA MENTIRA!”

Ora, está afirmação pode ser verdadeira ou falsa, certo?

Se considerarmos que ela é falsa, eu acabei de dizer uma verdade, e se considerarmos que é verdadeira, é falsa, pois tudo o que eu disse é mentira.

Tente resolver esse impasse.

No boteco, uma jovem de cabelos vermelhos apresenta seu talento como ilusionista de rua. Tirou do casaco marrom uma caixa de baralho e uma caneta enigmática. Pediu para que indicássemos uma carta de nossa preferência e fizéssemos cada um de nós uma rubrica, sem deixá-la ver.

Com habilidade própria de mágico, ela vira a carta para baixo em cima da mesa, deixando oculta a nossa escolha.

A beleza da garota fez com que eu desviasse minha atenção. O busto avantajado e meio exposto, nos desconcentrou.

Talvez fosse uma jogada intencional.

Ela falou algumas coisas sobre o poder da mente e depois citou palavras de efeito:

– Verdade! Mentira! Vida! Morte! Sonho! Realidade!

Então, silenciosamente ela mirou em nossos olhos e disse:

– Abram suas carteiras por gentileza.

Por que faríamos isso? Pensei comigo. Seria um golpe para nos roubar dinheiro?

Segundos se passaram e resolvi entrar na brincadeira.

Estava duro que nem pau de galinheiro, era mais fácil ela me ajudar do que me furtar.

Quando abrimos... Adivinhe, leitor: a carta que escolhemos estava em cada uma de nossas carteiras e ainda RUBRICADAS!

Oh louco! Como assim?

Mas espera, não acabou ainda.

Ela pega em nossas mãos e fala:

– Desvirem a carta que está em cima da mesa.

Seguramos juntos (eu e você) na ponta da carta e viramos.

Meu, isso não é real!

Sabe o que tinha na carta?

O mesmo paradoxo que disse anteriormente (o do filósofo Epimênides).

Como?

Lembro que indicamos uma carta e colocamos em cima da mesa virada para baixo, assim ninguém poderia ver nossa escolha.

A carta dizia:

“TUDO O QUE FIZ É UMA MENTIRA.”

Não, não! É muito para minha cabeça.

Essa bela rapariga tinha algum pacto com o chifrudo, não é possível.

Como sabia o que conversamos? De que maneira apareceu escrito? Ela nem estava no bar.

Fiquei completamente extasiado. Que mágica! Que garota!

Que truque ou sabe-se lá o que houve!

Simplesmente ela pegou as tralhas e foi embora. Não quis dinheiro pelo show, não quis aplausos ou elogios.

Virou-se e partiu!

Amo esse bar por isso. É uma caixa de surpresas. Nunca sabemos o que vai acontecer. Parece até uma fantasia.

Carl Gustav Jung (psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, 1875-1961) teve um dos maiores insights que houve na história do Ocidente, ele inventou o termo “sincronicidade”. Caso você se interesse pela matéria, sugiro o livro “Sincronicidade: Um Princípio de Conexões Acausais”, onde Jung sistematiza sua teoria de maneira genial.

Tentarei explicar de um jeito bem simples (como aprendi e compreendi). A vida é uma sucessão de acontecimentos que, ao serem observados, se faz evidente a “causalidade”.

E o que quer dizer a palavra causalidade?

Exemplo (dos mais grosseiros): Hoje nós dois beberemos essa garrafa inteira de conhaque. Juntos, eu e você, certo?

Depois de tomarmos tudo, felizes da vida, adivinhe a consequência?

Sim, chapadões pelas ruas.

Veja bem! Causalidade é a relação entre dois eventos, um a

“causa” e o outro o “efeito”. Sendo que o segundo é consequência do primeiro.

Ou seja: Matamos uma garrafa – Causa, e ficamos bêbados pra caramba – Efeito óbvio.

Só que a coisa não para por aí. Depois do porre, cheguei em casa e deitei na cama. Chute o que houve?

O universo girava a 360 km/h. Vomitei até o fígado.

Agora, o que era efeito (bebedeira) se tornou a causa de uma nova consequência (lavar a roupa de cama). Assim é a dinâmica existencial! O que uma hora é o efeito, em outra se torna a causa de outro efeito. Uma cadeia sem fim. Um movimento sucessivo dos eventos.

E onde fica a sincronicidade nessa história?

Bacana que fez a pergunta (pelo menos acho que a dúvida brotou na sua cabeça).

Sincronicidade são aquelas “coincidências significativas” e

“improváveis” que surgem em nossas vidas.

Imagine um evento que seria quase impossível de ocorrer em termos de probabilidades entre causas e efeitos.

Vou utilizar o próprio relato de Jung num atendimento. “O caso do Escaravelho”.

Resumindo, estava ele na sessão com uma jovem paciente.

A moça era resistente demais ao tratamento da análise. Bem naquele dia ela conta ao médico um sonho, onde ganhava de presente um escaravelho de ouro.

Por “coincidência” Jung escuta um barulho do lado de fora da vidraça. Rapidamente ele abre a janela e pega no ar um besouro de cor verde-dourada.

Entrega o bichinho para sua cliente (espantada) e diz:

“Está aqui o seu escaravelho.”

Depois daquele evento improvável, a jovem mudou completamente a forma de receber o tratamento.

Ficou mais fácil entender com o relato de Jung?

Exatamente isso que adveio conosco, leitor. A jovem ilusionista, misteriosamente apareceu com uma carta de baralho contendo a mesma frase do paradoxo que falei anteriormente a você.

É pura sincronicidade!

Episódios dessa natureza são um indicativo de que estamos ligados ao universo, aos sinais que o Cosmos nos envia.

Pode ser que você já tenha presenciado coisas do tipo e não se lembre.

Exemplo: Está pensando em alguma música e de repente a pessoa ao lado canta.

Sabe umas coisas loucas assim? É a tal sincronicidade.

Claro que a teoria é demasiadamente mais profunda que essa explicação chula que dei. No entanto, se você compreendeu está tudo certo.

Albert Einstein (físico alemão, 1879-1955) diz o seguinte:

“Se você não consegue explicar algo de modo simples é porque não entendeu nada.”

Falando em Einstein, a ideia de sincronicidade se desenvolveu primeiramente nas conversas que Jung teve com ele.

Foi quando começou a criar a teoria da relatividade. Enquanto um levou adiante no campo da física o outro levou no campo da psicologia.

Ah! Uma curiosidade: O besouro para os egípcios simboliza renascimento.

Voltemos ao bar...

Mesmo depois de um espetáculo alucinante com cartas e teorias Junguianas, Manu continuava reservado. Reparei que ele fixou os olhos na entrada do bar. A luz da rua oscilava e na penumbra havia um homem encostado no poste.

Algo estava sucedendo... Manu andou até o balcão central e virou num gole só o copo de whisky. Ele parecia conhecer o sujeito de fora.

Boquinha sorriu matreiro e disse:

– Calma amigos, não estranhem o homem parado lá na frente. Nosso divã é companheiro antigo dele.

O indiano foi até o hall de entrada e chamou:

– Padre João! Venha comigo, temos muito que papear.

Da escuridão, saiu um homem alto de cabelos longos e barba por fazer. Trazia no pescoço um crucifixo de cabeça para baixo.

Imaginei que fosse uma brincadeira de Manu quando o chamou de padre.

Que membro eclesiástico blasfemaria assim?

João entrou acanhado no bar. Caminhou para o divã e disse baixinho:

– Me paga um shot, velho amigo (se referindo a Manu). A angústia me consome o peito.

O garçom trouxe um petisco requentado e uma garrafa de conhaque.

Enrico se aproximou do miserável e falou:

– Chega, João! Hoje sairá daqui livre. Vamos te ajudar.

Não precisa mais beber. Cuidaremos da sua saúde mental a partir de agora.

Boquinha acenou afirmativamente:

– Estamos do seu lado, padre. Sabe disso!

Todos voltaram para a mesa, restando somente nosso psicólogo de turbante e ele no divã.

Você não acha estranho, leitor? Um membro da igreja viciado em álcool.

Percebi que já se conheciam. Dialogaram por mais de uma hora, quando Manu nos chamou:

– Juntem-se companheiros! Estamos no mesmo barco.

Nosso amigo aqui vai partilhar de sua história.

O padre ajeitou-se, tomou fôlego e iniciou:

– Era uma manhã quente, igual a todas as outras do sertão Nordestino. Lá parece que o verão nunca acaba.

Eu me estabeleci num lugar chamado Bairro do Macuco.

Fui o único padre da redondeza por mais de cinco anos.

Fui o único padre da redondeza por mais de cinco anos.

No documento Cerqueira César/SP ISMAEL TAVERNARO FILHO (páginas 116-138)