CAPÍTULO I: SOCIEDADE, UNIVERSIDADE E CONHECIMENTO:
1.2 Conhecimento Científico e Relações com o Ensino Superior
1.2.2 Parasitologia como conhecimento científico
A Parasitologia como um todo, veterinária e médica, foi reconhecida como uma especialidade na Inglaterra e somente no início do século nas Américas. O reconhecimento ocorreu entre os anos 50 e 60 do século XX, tendo como marco a organização do primeiro Congresso Internacional de Parasitologia, realizado em Roma, em 1964.
Os periódicos de divulgação dos resultados e descobertas em Parasitologia datam do início do século. Em 1908, foi criado o Parasitology; em 1914, o Journal of Parasitology; em 1951, o Experimental Parasitology; em 1971, o International Journal of Parasitology; e em 1985, o Parasitology Today. Em Parasitologia Veterinária, o primeiro periódico específico foi criado em 1975, o Veterinary Parasitology (SANDEMAN, 2000).
O Brasil é tradicionalmente um país de descobertas na área da Parasitologia. Ainda no início do século XX era fundado, a 25 de maio de 1900, o Instituto Soroterápico Federal sendo nomeado como seu primeiro diretor, em 1902, o Dr. Oswaldo Cruz. O Instituto de Manguinhos, como é conhecido até hoje, foi batizado com o nome de Instituto Oswaldo Cruz, em 1908. Já nesta época, passou de instituição produtora de vacinas para uma instituição que primava pela realização de pesquisa. Figuram no panorama da pesquisa em Parasitologia as descobertas do Trypanossoma cruzi em 1909, por Carlos Justiniano das Chagas e todas as descobertas da doença que leva o seu nome; os estudos sobre a biologia e morfologia do
Schistosoma, desenvolvidos pelo médico baiano Pirajá de Silva, são alguns exemplos dos
feitos mais importantes da pesquisa na Parasitologia brasileira.
A Sociedade Brasileira de Parasitologia (SBP) foi criada em setembro de 1963, tendo como objetivos estimular as pesquisas em Parasitologia, fomentar o intercâmbio entre pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, promover encontros e congressos e divulgar o conhecimento relativo à Parasitologia.
Com regularidade bienal, foi realizado, em 2001, o XVII Congresso Brasileiro de Parasitologia, em São Paulo, SP, juntamente com o XV Congresso Latino Americano e o I Congresso da Sociedade Paulista de Parasitologia. Nesta ocasião, nota-se o interesse dos pesquisadores pelo ensino da Parasitologia, sendo este assunto abordado em 16 trabalhos científicos apresentados (CONGRESSO BRASILEIRO DE PARASITOLOGIA, 2001) e em mesa redonda. Desta forma, observa-se que a preocupação com o ensino se torna reconhecida e ganha um espaço de discussão maior, quando passa a compor parte das discussões oficiais no XVIII Congresso Brasileiro de Parasitologia constando do temário principal deste evento. Este encontro ocorreu em outubro de 2003, no Rio de Janeiro e trouxe para a discussão, no ítem “Educação em Parasitologia” outros 16 resumos (CONGRESSO BRASILEIRO DE PARASITOLOGIA, 2003).
Muito ligada à Medicina, o desenvolvimento da Parasitologia como área específica, realmente se deu após a Segunda Guerra, como as outras disciplinas, paralelamente ao
19 desenvolvimento econômico e social mundial e o crescimento do capitalismo, da sociedade de consumo e do mercado. Cada vez mais o conhecimento e sua produção se mostraram atrelados ao desenvolvimento da universidade estatal. Também no Brasil não foi diferente. A disciplina de Parasitologia faz parte do currículo dos cursos de graduação na área médica (Medicina, Enfermagem, Nutrição, Odontologia e Ciências Biológicas) e veterinária (Medicina Veterinária e Zootecnia), tendo sido incluída como disciplina obrigatória desde as suas origens.
Especificamente sobre os temas relacionados à Medicina Veterinária, realiza-se anualmente o Congresso da Sociedade Brasileira de Parasitologia Veterinária. Recentemente, em setembro de 2002, completando o 15o encontro, o tema de abertura abordado pelo sociólogo e educador Pedro Demo, em participação numa mesa redonda foi: “Os desafios da educação universitária: pesquisa e ética na ciência”. Perante os congressistas, o autor assume: “Só pode ser aceito por científico, o que for discutível formal e politicamente” (2002b).
E continua, afirmando: “Diante de tantas virtuosidades do conhecimento, talvez seja
possível, com conhecimento, contornar os males do próprio conhecimento” (2002b, p. 2).
Ao final, o palestrante revela que a percepção da ciência e do conhecimento, como a vontade de descobrir, é que impulsiona em direção à crítica e ao questionamento, num mundo que admite a aventura, incerteza e imprecisão, e favorece a compreensão da pesquisa como princípio educativo. Compreendido desta forma, o conhecimento é energia humana comum a todos e a melhor motivação na formação do cidadão.
De acordo com Sandeman (2000), discutindo a importância das pesquisas em Parasitologia, o reconhecimento de certa área de estudo se dá quando o assunto ou tema de pesquisa é considerado básico ou importante para a saúde humana. Este assunto irá provavelmente atrair investimentos e pesquisadores. Um exemplo é o caso das pesquisas em AIDS que cresceram como reflexo dos investimentos. Estas pesquisas, também devido aos altos investimentos, atraíram muitos pesquisadores. O autor considera como forma clássica de se conseguir fundos, o modelo do “cientista dedicado”. Define este profissional como sendo aquele que se interessa por uma linha de pesquisa ainda quando estudante e nela trabalha, predominantemente, pelo resto da sua vida. E continua afirmando: “O cientista não é afetado
por fatores externos como os investimentos ou questões de relevância. Ela ou ele, não possuem o conhecimento para o seu próprio esclarecimento e proposta... Contudo o cientista clássico faz ciência para salvar a sua própria curiosidade” (p. 855).
Este tipo de posicionamento demonstra uma visão clássica das ciências aplicada à Parasitologia e aponta a forma como o pesquisador se insere na sociedade. Apesar de concordar que o modelo econômico tem fundamental influencia sobre a realização dos feitos em ciência, revela que o que move o pesquisador é a sua curiosidade.
Desta forma reflete-se: Até que ponto pode-se falar de neutralidade? Até que ponto pode-se falar de imposição econômica? Até que ponto pode-se negá-la? Quem são os produtos desta imposição?
E o autor continua refletindo: “Embora nosso conhecimento em Parasitologia esteja crescendo rapidamente, somente umas poucas espécies são investigadas detalhadamente e elas se tornam modelos de estudo” (SANDEMAN, 2000, p. 857).
Da mesma forma, para Coles (2000), o futuro da Parasitologia Veterinária precisa de recursos e fundos para se desenvolver. Afirma que somente na Dinamarca, Bélgica e Nova Zelândia este estímulo e reconhecimento parecem efetivar-se. Nestes países, é obrigatório ter habilidades individuais para levantar fundos. Na Inglaterra e Austrália, a situação é grave, com muitos cortes dos investimentos.
De acordo com Nansen (1999), é importante fortalecer a interação e a colaboração internacional na Parasitologia Veterinária. Por um lado, existe um promissor crescimento no tamanho dos programas nacionais e por outro, esquecemo-nos de explorar os pequenos
20 convênios e projetos de pesquisa de forma flexível. Existe uma necessidade de construir a capacidade de pesquisa nos países menos desenvolvidos que pode ser obtida através da participação.
Para Thompson (1999), a Parasitologia Veterinária é uma disciplina específica que enfoca a prevenção e o controle das infecções nos animais domésticos, com destaque na economia e na saúde pública. O autor mostra a evolução na Parasitologia como fruto do uso de novas tecnologias. Aponta vários aspectos como os riscos num mundo em transformação, que requer um outro olhar do realizar científico em Parasitologia Veterinária. Mostra que os estudos epidemiológicos em Parasitologia não dependem somente das novas tecnologias mas de uma combinação entre formas tradicionais de controle, métodos de análise e da sua interpretação.
O outro olhar, que é apontado pelo autor acima, inclui o ensino e a educação. O conhecimento que é desenvolvido e divulgado nas salas de aula das universidades, através do ensino, no convívio acadêmico, entre docentes e discentes, vive também um momento de crise e transição de paradigmas. Como verificá-la?
21