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A parceria com a Fundação Rockefeller no tratamento das endemias em Minas

CAPÍTULO II: SANEAMENTO RURAL E O TRATAMENTO DAS ENDEMIAS:

2.2 A parceria com a Fundação Rockefeller no tratamento das endemias em Minas

A “Fundação Rockefeller foi criada em maio de 1913, em Nova York, por um poderoso grupo econômico dos Estados Unidos, constituído a partir da Standard Oil” (BENCHIMOL, 2001, p. 112). Apresentou-se como uma instituição filantrópica e começou a desenvolver ações sanitárias voltadas para a educação e saúde no sul dos Estados Unidos com o intuito de erradicar a ancilostomose. “A doença foi escolhida por uma razão econômica- abatia o rendimento da força de trabalho” (BENCHIMOL, 2001, p. 112). A partir de 1914, a Fundação Rockefeller ampliou sua atuação por diversos países da América Latina, Europa, Ásia e África por intermédio da Comissão Internacional de Saúde.

O primeiro contato com o Brasil ocorreu em 1916. A partir de então, vários acordos de cooperação foram feitos entre a Rockefeller e os governos dos estados e, mais tarde, com o Departamento Nacional de Saúde brasileiro. Por meio dos contratos, as ações se voltaram para tratar a febre amarela, a ancilostomíase e a malária, bem como para promover o ensino da medicina e enfermagem (BENCHIMOL, 2001, p. 115).

Ao estudar a atuação da Fundação Rockefeller e o campo biomédico em São Paulo, Marinho (2010) expõe que,

através do Instituto de Higiene, a Fundação Rockefeller foi responsável, também, pela introdução de um conjunto de normas de conduta, práticas higiênicas e procedimentos sanitários visando à regulação de atividades sociais e individuais, baseada na crença de que a enfermidade era causadora da pobreza. Desse modo, pregava a higienização das coletividades e a educação sanitária como forma de combater a miséria das massas urbanas e, por extensão, o radicalismo e o ativismo político decorrentes das grandes aglomerações (MARINHO, 2010, p. 185).

Nas investigações sobre o Instituto de Higiene de São Paulo, Rocha (2003) evidencia as ações empreendidas pelo Instituto de Higiene de São Paulo e a parceria com a Rockefeller. A autora examinou o processo de criação do Instituto de Higiene de São Paulo, trazendo elementos para a reflexão sobre outra dimensão da atuação da Rockefeller no Brasil: a formação de médicos higienistas. Vale lembrar que a entrada em São Paulo, na criação da cadeira de Higiene da Faculdade de Medicina, foi

importante nas ações de saneamento rural nos estados brasileiros. Deste modo, o Instituto de Higiene de São Paulo também se voltou para a higienização e para a educação sanitária dos escolares, assim como da população em geral:

Difundindo a educação sanitária, incutindo na população novas formas de viver, pensar e se comportar, ensinando-lhes, enfim, uma nova moral, o Instituto de Hygiene estaria assumindo o papel de liderança que deveria caber às instituições científicas na obra de homogeneização e uniformização da população (ROCHA, 2003, p. 79).

Os estudos de Marques (2004) sobre as ações da Rockefeller em Minas Gerais trazem informações importantes quanto aos investimentos feitos pela instituição no Brasil. Dentre os 13 bilhões de dólares aplicados nos programas sanitários e de educação nos países do continente americano, 7 milhões foram “direcionados para o ensino médico, de pesquisas científicas e campanhas sanitárias no Brasil (MARQUES, 2004, p. 179).

Um exemplo da proporção desses investimentos aparece na publicação subvencionada pelo Congresso mineiro, intitulada Minas Gerais em 1925. O livro trata, entre outros assuntos, da saúde pública no estado e menciona o contrato firmado entre Minas Gerais e a Fundação Rockefeller para o atendimento nos Postos Permanentes de Higiene, cujo propósito principal era realizar a instrução sanitária do povo e dos escolares, pela demonstração prática.

O contrato em cada um desses postos é feito por cinco anos: no primeiro o Estado entra com 50% das despesas, o município com 25% e a Rockfeller com 25%, ficando a direção com a Rockefeller, de acordo com a diretoria de higiene do Estado. Anualmente a Rockefeller diminui de 5% a sua quota e o município acresce a sua quantia correspondente, de maneira que ao fim de cinco anos ficam só em campo o Estado e o município, e a Rockefeller passa a outro contrato com outro município (SILVEIRA, 1926, p. 1208).

Marques aponta que “a vocação agrícola do país foi um fator importante para sua escolha como o local onde seriam desenvolvidas as maiores ações de combate do ancilóstomo na América Latina” (2004, p. 179). A autora cita as próprias palavras de Hackett, representante da Rockefeller no Brasil:

Já que o Brasil está destinado a ser, por muitos anos, país mais agrícola que industrial, é evidente que a infestação generalizada de sua

população agrícola é um obstáculo muito sério ao seu desenvolvimento e prosperidade, e que toda a propaganda e atividade dos serviços de saneamento rural se justificam cabalmente (HACKETT, 1921, p. 344, apud MARQUES, 2004, p. 179).

O serviço de Profilaxia Rural foi criado e regulamentado pelo Governo Federal do Presidente Venceslau Brás, em 1918. “Disposto em lei federal como deveriam ser organizados os serviços de profilaxia e as relações com a Fundação Rockefeller, os governos estaduais começaram a estruturar seus programas de saneamento” (MARQUES, 2004, p. 185). É possível perceber que no Brasil houve uma confluência entre os interesses do movimento sanitarista, encabeçado por Belisario Penna, que foi o diretor nacional dos Serviços de Profilaxia Rural a partir de 1918, e os objetivos da Rockefeller para tratar das endemias e realizar o saneamento do país.

Em Minas Gerais, Samuel Libanio, no relatório de 1917, anunciou que “os trabalhos preliminares serão iniciados já e, uma vez escolhido o lugar ou zona mais conveniente, será instalado o primeiro posto de profilaxia, similar aos já existentes em outros Estados, mantidos pela mesma instituição” (RELATÓRIO, 1918, p. 17). O Diretor não informou quais eram os outros estados em que a Rockefeller já estava atuando.

Marques (2004), ao abordar a atuação da Rockefeller em Minas, afirma que “a missão americana visitou em 1916 quinze localidades (do Brasil) e avaliou os seguintes itens: educação médica, organização hospitalar, prevenção de doenças e a existência de agências de saúde pública” (p. 179) para, posteriormente, fechar acordos com o Brasil.

Marinho (2010) e Rocha (2003) também abordaram que a visita da Comissão ao Brasil em 1916 resultou em acordos entre a Rockefeller e a Faculdade de Medicina de São Paulo e o início das atividades no estado de São Paulo iniciaram em 1918.

Já Lacerda (2002), que estudou os “Retratos do Brasil: uma coleção do Rockefeller Archive Center”, afirmou que os trabalhos da Comissão Rockefeller para tratar da ancilostomíase começaram em abril de 1917 na cidade do Rio de Janeiro (p. 632).

Sobre as ações realizadas pela Rockefeller em Minas Gerais, Marques (2004) pontua:

(...) o trabalho realizado em Minas Gerais mereceu a seguinte nota no jornal O Paiz de 19 de abril de 1925: “Em assuntos sanitários, Minas passou a vanguarda dos Estados do Brasil” (a imprensa paulista dizia o mesmo), e boa parte do sucesso mineiro, afirmava-se, era devido aos

serviços permanentes de higiene municipal em colaboração com a Rockefeller. A gerência da Comissão Rockefeller em Minas Gerais estava nas mãos do dr. Jansen de Faria e visava principalmente, à instrução sanitária da população, em especial dos estudantes, por meio da demonstração prática. Postos de saneamento e educação básica foram criados em várias cidades do estado (MARQUES, 2004, p. 186; as aspas e a nota entre parênteses são da autora).

As autoras que estudaram a Fundação Rockefeller confirmam que a comissão esteve no Brasil em 1916 para visitar várias regiões e que os acordos realizados entre a Rockefeller, o Governo Federal e os estados e partiram dessa aproximação em 1916.

Desse modo, o acordo entre a Rockfeller e Minas Gerais está presente no Relatório da Diretoria de Higiene de 1918. O Diretor, Samuel Libanio, detalhou como os procedimentos para o acordo foram feitos e o início das atividades no estado:

Ancilostomíase – Em 21 de maio firmou a Diretoria de

Higiene contrato com o dr. Lewis Hackett, digno representante no Brasil do Conselho internacional da Fundação Rockefeller, para realizar uma inspeção geral no Estado afim de determinar a extensão e a intensidade da ancilostomíase e seus efeitos sobre a saúde da população.

A Diretoria de Higiene por sua vez constituiu uma comissão científica com o fim de completar aqueles estudos, armando-se assim dos necessários elementos para orientar os trabalhos de saneamento rural. As comissões verificaram a existência da ancilostomíase em todo o Estado de Minas, em proporção tal que excedeu às previsões mais pessimistas.

Assinalando-se a distribuição da moléstia por um ponto preto, transformaríamos o mapa do Estado em um único borrão negro, na expressão dolorosa e verdadeira do Prof. A. Osorio de Almeida.

Em certa zona do Estado, de população mais densa e de terra mais intensamente trabalhada, a verificação microscópica encontrou 93% de pessoas parasitadas pelo ancilóstomo, porcentagem já em si altamente impressionante a qual se deve aumentar um certo número de pesquisas que resultaram negativas pelo fato de ter sido feito um único exame (RELATÓRIO, 1919, p. 03; grifo meu).

As comissões médicas coordenadas pela Rockefeller e pela Diretoria de Higiene na inspeção de Minas encontraram em todo o estado a presença maciça da verminose. Após constatar a doença, Libanio também expressou a avaliação feita pelos médicos das comissões sobre a população e sua (in)capacidade para o trabalho:

Em tais regiões o trabalhador rural é um tipo em lamentável estado de decadência física, amarelo, exangue, com teor de hemoglobina reduzido, o seu organismo predisposto a invasão

vitoriosa de várias doenças; com notável déficit intelectual, incapaz de ação, de vontade e progresso.

Ora, sabendo-se que a ancilostomíase é moléstia que dissimula os seus malefícios em complexa sintomatologia e que sua ação nociva se exerce sobre o indivíduo como sobre sua progênie, “não se pode, por maior esforço que se despenda, fazer uma ideia do que será dessa gente e de sua prole, com o correr dos tempos, a menos que se faça alguma coisa contra essa moléstia” aviso cheio de verdade partido do nosso sábio Prof. A. Lutz.

Demonstrando ainda estudos cuidadosamente feitos que o indivíduo parasitado pelo ancilóstomo tem sua capacidade de trabalho reduzida de 20 a 90% conforme grau de infestação, bem fácil será avaliar o enorme prejuízo que esse fato representa sob o ponto de vista da economia pública e particular.

O trabalhador rural opilado passa a produzir cada vez menos, até nada produzir, mas consome sempre e muitas vezes se torna fator social de valor negativo que pesa sobre os que produzem e que em vastas regiões do Estado já o faz, por via de regra, com déficit (RELATÓRIO, 1919, p. 03-04; grifo meus).

O Diretor de Higiene, após considerações sobre a alarmante situação da verminose e de outras doenças no estado e sobre o prejuízo que elas causavam à economia, por tornar o trabalhador do campo improdutivo e, às vezes, de valor negativo, “com notável déficit intelectual, incapaz de ação, de vontade e progresso”, demonstrava sua preocupação com o futuro da população. Segundo o médico, não se podia “fazer uma idéia do que será dessa gente e de sua prole, com o correr dos tempos” em meio a tantas doenças (RELATÓRIO, 1919, p. 06). Observa-se que, em seu discurso, Libanio tratava a população doente “dessa gente e de sua prole”, pois o doente e o pobre não eram o modelo de indivíduo desejado pela República. O desejo da medicina e das elites brasileiras era que esses sujeitos fossem transformados em cidadãos produtivos por meio da cura, da civilização, do trabalho e da educação.

Nos relatórios, há várias outras passagens sobre a grave situação das endemias no estado, com comentários negativos sobre a população, como será visto em alguns episódios sobre a investigação da Diretoria de Higiene a respeito da presença de doenças epidêmicas no estado. Além da ancilostomíase, foi encontrado alto índice de outras doenças endêmicas no estado, como o impaludismo, a doença de chagas e a lepra. Elas também constavam nos planos de tratamento dos serviços de profilaxia rural:

O impaludismo nos vales dos nossos grandes rios representa um grave empecilho ao desenvolvimento de vastas e ubérrimas regiões, onde assola e dizima em grande escala a população ribeirinha, inutilizando temporária ou definitivamente milhares e milhares de indivíduos. [...]

Para um eficaz combate ao impaludismo propõe o regulamento de profilaxia rural medidas referentes ao domicílio, ao solo e aos indivíduos (RELATÓRIO, 1919, p. 06).

A doença de chagas também era endêmica e preocupante para o Estado. O Diretor de Higiene descreveu os malefícios causados pela doença. Como os médicos da Diretoria de Higiene declaravam a precariedade das habitações rurais, apontavam que as medidas profiláticas eram necessárias e deveriam ser empreendidas, além de cuidados com o aspecto físico dos doentes:

A doença de chagas institui grave endemia que assola vasta região do centro do Estado.

O combate a este flagelo representa um dos mais sérios problemas que jamais tiveram de encarar as autoridades sanitárias. A profilaxia desta doença prende-se a questões do domicílio, por ser transmitida por um hematófago vulgarmente denominado “barbeiro” ou “chupanção” encontrado nos domicílios primitivos – nas cafuas – tipos de habitações rurais em grande parte da zona assolada pela “doença de Chagas” ou “doença do barbeiro”.

As casas cujas paredes são construídas a “pau a pique”, barreadas à mão – a “sopapo” – colimadas de sapé, oferecem condições ótimas para abrigo do triatoma megista ou barbeiro, transmissor da doença.

Para iniciar a profilaxia da doença de Chagas, enquanto não é ela feita sistematicamente e com todo o rigor, a Diretoria de Higiene estudou tipos de casas rurais, simples, higiênicos e altamente econômicos, cujas plantas, com todas as minúcias para a respectiva construção, serão amplamente divulgadas entre as autoridades municipais e particulares, nas zonas infestadas pelo “barbeiro”, com o fim de substituírem as obsoletas e perigosas cafuas que deverão desaparecer.

[...]

São do nosso sábio conterrâneo e glorioso descobridor da doença do “barbeiro”, Carlos Chagas, as seguintes palavras que nos afirmam dolorosa verdade, quando se refere ao alto índice deste flagelo em certas zonas do nosso Estado: “Nas zonas de alto índice endêmico não encontrareis alguém sem qualquer das determinações orgânicas do mal e mesmo naquelas cuja aparência poderia induzir a uma apreciação favorável, as pesquisas da semiótica vão revelar alteração do ritmo cardíaco, vão denunciar uma hiper função glandular, ficando assim demonstrada a constância da infecção pelo trypanosoma. De regra, nos casos mais intensos, o doente não atinge a idade adulta, desaparecendo cedo para o benefício coletivo; quando, porém, o mal lhe permite crescer em idade, perturba-lhe o desenvolvimento físico, daí resultando as miseráveis criaturas, de aspecto monstruoso, que naquelas regiões atentam contra a beleza da vida e contra a harmonia das coisas” (RELATÓRIO, 1919, p. 06-07, aspas do autor).

Em relação à doença de chagas, percebe-se a preocupação com os males que a ela poderia causar às pessoas em longo prazo, pois as deixaria permanentemente debilitadas, inválidas ou mesmo morreriam antes de se tornarem adultos, o que prejudicava a situação econômica do estado, por não se tornarem trabalhadores produtivos. Por isso, uma das medidas propostas seria acabar com moradias rurais (“cafuas primitivas”) que fossem consideradas focos de barbeiros e substituí-las pelos modelos higiênicos indicados pela Diretoria. Mais uma vez, não há indicação sobre como pessoas muito pobres teriam condições de trocar suas “cafuas” pelas casas indicadas.

O Diretor de Higiene afirmou que a situação da lepra era ainda pior, pois o “Estado de Minas” era “considerado um dos focos de lepra no Brasil” (RELATÓRIO, 1919, p. 06). Por esse motivo, o regulamento de profilaxia rural de Minas Gerais havia traçado “com o maior cuidado seguras regras para o combate ao mal” (RELATÓRIO, 1919, p. 06). Também havia sido elaborado e publicado um regimento, destinado ao primeiro asilo colônia fundado no Estado para a “sequestração dos leprosos”, o Hospital de Lázaros de Sabará, que era “absolutamente insuficiente para o início da campanha” contra a lepra. Além disso, “a tentativa feita pela Diretoria de Higiene para conhecer o número de leprosos existentes em Minas resultou negativa” (RELATÓRIO, 1919, p. 06). Apesar das propostas do estado de Minas Gerais,

Os morféticos continuam, pois a expor seu triste mal pelas ruas das nossas cidades e pelos campos, a propagar a terrível doença, cruelmente repelidos pela sociedade, sem hospitais que lhes abram a esperança de cura e sem um asilo onde possam morrer tranquilos.

A criação de asilos-colônias para os leprosos, proposta em nosso relatório anterior e prevista no Regulamento de Profilaxia Rural é medida da maior urgência, não só sob o ponto de vista humanitário como também sob o ponto de vista da defesa social, pois constitui a base da luta contra o mal de S. Lázaro (RELATÓRIO, 1919, p. 07). De acordo com o Diretor, a situação dos leprosos em Minas era de penúria, pois eram rejeitados em todos os espaços sociais e faltavam-lhes asilos para “morrerem tranquilos” (RELATÓRIO, 1919, p. 07). A maior preocupação do Estado era defender a sociedade, tendo em vista que o contato dos leprosos com o restante da população poderia provocar o contágio da doença.

Segundo Foucault, as medidas em relação à lepra no Ocidente estiveram inseridas no “modelo da exclusão do leproso”, presente, principalmente, na Idade

Média. Ele se caracterizava pela exclusão e expulsão do leproso para fora dos muros da cidade, fora do contato social na comunidade. O leproso era considerado um morto e seus bens eram transferíveis. Essa medida tinha por função purificar a comunidade (FOUCAULT, 2002, p. 54-55).

No século XIX, surgem outras práticas, como o internamento compulsório dos leprosos em asilos e hospitais, o que demonstra uma preocupação governamental de proteção da população sadia, mas também continua sendo um mecanismo de exclusão social do leproso, que era confinado nessas instituições até a morte. Em relação às medidas sobre a lepra no Brasil,

[...] a política de profilaxia da “lepra” foi implementada a partir do Decreto nº 16.300, de 31 de dezembro de 1923, que determinou o isolamento das pessoas com hanseníase em sanatórios, hospitais, asilos e colônias agrícolas. Segundo o parágrafo 1º do Artigo 139 do Decreto, as colônias poderiam ser equipadas com hospitais, creches, orfanatos e asilos para os incapazes, formando “vilas de leprosos” (SECRETARIA de Direitos Humanos, s/d)25.

Em Minas Gerais, foi aprovada em 1921 a lei de criação do leprosário Santa Isabel, que ficaria a aproximadamente 45 quilômetros de Belo Horizonte. Em 1922, o Diretor de Higiene, Samuel Libanio, enviou o plano para a construção do leprosário para combater a propagação da lepra por meio do internamento compulsório. Mas a construção só teve início em 1926 e o término da obra se deu em 1931. O hospital, também chamado de Colônia Santa Isabel, tinha capacidade inicial para abrigar 1500 internos (CARVALHO, 2012)26.

O próprio diretor de Higiene dizia reconhecer a “complexidade do problema” das endemias no estado por

conhecer pessoalmente as condições de várias regiões do Estado onde as construções domiciliares são, em grande maioria, de tipos primitivos e em tudo condenadas, nem mesmo apresentando muitas vezes aspecto de habitações humanas; desprovidas de instalações

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A internação compulsória dos leprosos deixou de ser uma política de governo no Brasil com o Decreto 968, de 7 de maio de 1962. Em 1976, o governo brasileiro publicou a “Portaria do Ministério da Saúde nº 165, de 14/05/1976, que garantiu o oferecimento, por parte do Estado, de mecanismos para diagnóstico e tratamento adequados em serviços públicos de saúde, e não mais em leprosários”. Apesar das medidas postas em prática nos anos 1960 e 70 contra a internação compulsória, o “Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) identificou casos de internação compulsória em hospitais-colônia até 1986” (SECRETARIA de Direitos Humanos, s/d).

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Sobre a lepra em Minas Gerais e o funcionamento do Leprosário Santa Izabel, ver tese de Keila Auxiliadora Carvalho (2012), Colônia Santa Izabel: a lepra e o isolamento em Minas Gerais (1920- 1960).

sanitárias, por mais rudimentares que sejam, decorrendo este fato mais da ausência de educação higiênica do povo do que das dificuldades econômicas, porquanto não há necessidade de grandes dispêndios para o estabelecimento de instalações, modestas porém eficientes; julgamos cumprir um dever duplamente humanitário e patriótico, esforçando- nos por procurar remover tal estado das coisas.

É bem verdade que tais males não só em Minas se verificam, senão, e infelizmente, em todo o País, mais intensos, aqui, mais atenuados acolá (RELATÓRIO, 1919, p. 08).

O discurso do Diretor evidencia como a educação higiênica e sanitária ganharam destaque pela medicina, aponto de colocá-las como capazes de resolver os problemas, majoritariamente de ordem econômica, sem levar em conta as intensas desigualdades sociais no país. Em alguns casos, a Diretoria até indicava que derrubassem as casas – as “cafuas” – consideradas focos de doenças para impedir que se tornassem um transtorno para a saúde pública, sem mencionar o que essa ação poderia causar ao morador que tivesse casa derrubada.

Mais um diagnóstico sobre a população e seus modos de vida aparece no relato