III. PROTOCOLOS DE PARCERIA NO ÂMBITO DA ARFA
3.3 Protocolos de parceria no setor farmacêutico no âmbito da ARFA
3.3.1 Parcerias da ARFA com congéneres brasileiras
A Cooperação Sul-Sul (CSS)18, nasceu com o Movimento dos Países Não-Alinhados, mas ganhou ímpeto quando um punhado de países de rendimento baixo como o Brasil, Índia, México e África do Sul determinaram a melhorar a sua posição como atores globais (Leite, 2012). Estes países têm vindo a desenvolver programas sociais considerados bem-sucedidos, o que os tem levado a partilhá-los com outros países em desenvolvimento.
Em particular, as relações de cooperação entre Cabo Verde e Brasil no âmbito dos projetos bilaterais têm, de fato, constituído um instrumento de promoção do desenvolvimento uma vez que possibilita a transferência de conhecimentos e técnicas, de formato não comercial, para Cabo Verde. Por outro lado, promove igualmente o adensamento de suas relações – políticas, económicas e comerciais entre os dois países.
No quadro específicos das relações de cooperação entre a ARFA e entidades estrangeiras, as relações de cooperação técnica com instituições congéneres internacionais tem fornecido elementos e orientações pertinentes para a organização e o desenvolvimento dos seus pilares fundamentais - em particular a legislação e regulamentação técnica, a informação/comunicação e a formação orientada para os diferentes intervenientes do sistema. Assim, desde 2007, a Agência tem criado condições necessárias para mobilizar esforços no sentido de desenvolver ações de cooperação e parceria com instituições estrangeiras, desde logo com destaque para as congêneres brasileiras e, como veremos no ponto seguinte, portuguesas.
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A CSS refere-se à cooperação técnica e económica entre dois ou mais países em desenvolvimento. De acordo com a definição do PNUD, a CSS é um mecanismo de desenvolvimento conjunto entre países emergentes em resposta a desafios comuns (Leite, 2012).
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No quadro das relações de cooperação existentes entre Cabo Verde e a República Federativa do Brasil, a ARFA identificou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, do Brasil, como uma instituição estratégica no sentido de a prestar a cooperação técnica de que carece, tendo em devida conta a renomeada capacidade técnica e a sua sólida experiência na atividade reguladora dos setores alimentar e farmacêutico. Nesse quadro foi assinado o Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica para a implementação do subprojecto “Consolidação da ARFA como agente regulador dos sectores farmacêutico e de alimentos visando ao fortalecimento de sua capacidade institucional”.
O objetivo geral do projeto de cooperação técnica foi de consolidar a ARFA como agente regulador nas suas áreas de intervenção, por meio da capacitação e intercâmbio de experiências em modelos utilizados na vigilância sanitária brasileira. Para tal delineou-se um plano que permitisse a aquisição de conhecimentos sobre modelos de regulação do setor farmacêutico; o estabelecimento de relações institucionais e pessoais entre as duas instituições na matéria em referência; e a recolha de subsídios necessários para a conceção das grandes linhas estratégicas para a regulação do mercado em Cabo Verde.
Em geral as atividades foram constituídas pela troca de documentos e regulamentos entre as congéneres; planeamento de estratégias; discussão de propostas de intervenções; visitas técnicas de preparação/estágios em serviços com temas pré definidos; discussão conjunta de propostas de regulamentos técnicos; troca de material de comunicação e informação; análise de impacto e capacitação de ações regulatórias.
O objetivo específico e resultados estabelecidos no projeto, quanto à área farmacêutica, foram os seguintes:
i) Promover capacitação e intercâmbio de informações e experiências na área de regulação farmacêutica.
ii) Os resultados a serem alcançados na área farmacêutica diziam respeito à capacidade na área de farmacovigilância com enfoque em uso racional de medicamentos da ARFA fortalecida; Capacidade da ARFA na área de registo de medicamentos sintéticos, com ênfase em
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genéricos, fortalecida; Capacidade na área de regulação económica de medicamentos fortalecida; Capacidade na área de inspeção de medicamentos da ARFA fortalecida.
Para que a cooperação técnica contribua efetivamente para os objetivos a que se propõe, é necessário que o planeamento das ações a serem implementadas seja consistente, no sentido de buscar com que o trabalho desenvolvido realmente apresente os impactos positivos almejados. Isso requer a adoção de metodologias adequadas de planeamento, de acompanhamento e de avaliação dos projetos de cooperação técnica (ABC, 2005).“Assim, pode-se considerar, à luz das propostas, que os resultados” (A2-Q16) dos projetos de cooperação técnica entre a ARFA e as suas congéneres “foram extremamente satisfatórios, tendo sido atingidos integralmente” (A2- Q16).
Concretamente, no que se refere ao projeto com a ANVISA, o acordo desse subprojecto foi assinado em julho de 2008, com vigência de três anos, prevendo a realização de 27 atividades, divididas em sete resultados, entre as quais quatro da área farmacêutica. O projeto teve o seu término em abril de 2011, aquando da realização da última atividade inscrita, nomeadamente, a Avaliação Final do Subprojecto. Essa atividade contou com a participação da Agência Brasileira de Cooperação - ABC, ANVISA e técnicos da ARFA sendo de realçar, de acordo com o Relatório de Avaliação Final (ABC, 2011), a execução do projeto gerou para ambas as partes envolvidas benefícios e impactos positivos na área da vigilância sanitária.
Após os ajustes necessários ao projeto19 verifica-se que a execução das atividades em relação aos objetivos e metas propostas ocorreu de modo satisfatório, ou seja, praticamente todas as atividades atingiram os objetivos delineados, tiveram sua programação executada conforme prevista nas agendas elaboradas pelas partes e permitiram atingir os fins especificados. À exceção, fica uma atividade relacionada com um estágio na área de uso racional de medicamentos, cuja agenda de trabalho foi comprometida em função de mudanças na direção da ANVISA à época, que provocaram cancelamento de parte das atividades previstas.
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Durante o meio percurso de realização das atividades, o subprojecto foi monitorado, ocasião na qual foi identificada a necessidade fazer uma revisão com o objetivo de adequar e acrescentar atividades para a otimização do alcance do objetivo de desenvolvimento.
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Observa-se que o cronograma inicial do projeto não foi cumprido, sendo também objeto de ajustes para o término da execução do projeto. As alterações que se fizeram necessárias em termos de cronograma do projeto, deveram-se, além do processo de Reforma do Estado Cabo- Verdiano, por questões de agendas das instituições.
Pode aferir-se da análise do Relatório Final (ABC, 2011) que o projeto logrou executar com efetividade a quase totalidade de seus resultados previstos, em função das atividades realizadas. Um dos resultados, que previa fortalecer as capacidades da ARFA para o registo de medicamentos sintéticos, com ênfase em genéricos, não atingiu os objetivos almejados uma vez que todas as suas atividades foram excluídas da execução do projeto, tendo sido mantido apenas a partilha da legislação brasileira, em função do processo de Reforma do Estado e serão remetidas para posterior ponderação no âmbito de discussão da segunda fase.
Entre os beneficiários diretos do projeto realça-se que além do corpo técnico da ARFA igualmente foram técnicos da Direção Geral das Pescas, Direção Geral de Alfândega, Ministério do Desenvolvimento Rural, dos hospitais centrais de Cabo Verde. Da metodologia utilizada (análise documental de questionários e entrevistas) para inferir o grau de satisfação dos beneficiários diretos pode-se averiguar que em sua maioria, os beneficiários manifestaram-se bastante satisfeitos com a execução do projeto e os resultados obtidos em decorrência dos conhecimentos adquiridos durante sua realização. No que se refere aos beneficiários indiretos pode-se referenciar o Ministério da Saúde e demais estruturas públicas de saúde, operadores dos setores farmacêut ico tais como produtores e importadores e consumidores em geral.
Ainda de acordo com o Relatório, a contribuição direta do corpo técnico da ARFA na elaboração e na execução do projeto, denotam o nível de preparação e do compromisso da Agência com as ações desenvolvidas e com os efeitos decorrentes, já que por se tratar de quadro permanente o conhecimento adquirido pode ser replicado, de forma a dar continuidade às ações desenvolvidas.
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A sustentabilidade das ações iniciadas com a execução desse projeto é visível ainda se levado em conta que foram desenvolvidos pela ARFA, no âmbito do projeto, ferramentas e procedimentos, como os Sistemas de controlo, além de ações de sensibilização em vigilância sanitária, em decorrência dos conhecimentos adquiridos durante a execução do projeto. Foram criados também os marcos legais, Decretos e Regulamentos Técnicos, nas áreas de regulação e vigilância que garantem a sustentabilidade das ferramentas e sistemas desenvolvidos, assim como elaborados termos de referências para os sistemas de informação de suporte.
Assim, o projeto foi considerado um modelo de êxito no marco da cooperação Sul-Sul, por trazer ganhos para ambas as agências reguladoras, na medida em que proporcionou o estabelecimento de diálogo regulatório considerando as semelhanças e especificidades de cada realidade.
A experiência desenvolvida no âmbito do projeto já é considerada modelo de sucesso por outros países africanos, que demonstraram interesse em conhecer a experiência cabo-verdiana realizada com a ANVISA e a ABC. Destacam-se os casos de Moçambique e Guiné Bissau, que buscaram conhecer os avanços de Cabo Verde na área da regulação de medicamentos, alcançados no âmbito da cooperação.