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Conforme pudemos acompanhar até o presente momento, a política de atendimento ao público-alvo da educação especial foi se ampliando por meio da diversificação de ofertas educacionais públicas. Porém, o setor privado também adentrou nesse município. Inicialmente, por meio de propostas concernentes a profissionalização de jovens e adultos e, posteriormente, pelo convênio com escolas especiais particulares que ofertavam escolarização substitutiva. Esta Seção explanará sobre essas parcerias.

3.5.1 A Associação Santo Inácio para Integração do Trabalhador Especial

A Associação Santo Inácio para integração do trabalhador especial (Asiite) foi fundada em 1980 e destinava-se “a atender alunos egressos das escolas municipais de educação especial, que após vencer o programa destas, encontravam-se prontos para o desenvolvimento de trabalho abrigado” (SÃO BERNARDO DO CAMPO, 1985, p. 48). Inicialmente, fora subsidiada por um grupo de pais que pertenciam a Associação das Famílias Rotarianas (Asfar) e contavam com o apoio da prefeitura. Em 1989, a Asfar deixou de ser mantenedora e a prefeitura estabeleceu com a Asiite um convênio

Em 16 de dezembro de 1991, a Prefeitura cedeu para a Asiite uma área de 108.656m² com o intuito de que fossem desenvolvidos programas de horticultura com os jovens e adultos com deficiência. À época, existia a intenção de que esse local também comportasse a criação de animais de pequeno porte e um programa de residência para os adultos com deficiência. (SÃO BERNARDO DO CAMPO, 19[?])

Em 2004, as unidades da Asiite foram denominadas: Centro de Vivência, Pesquisa e estudo (Cevipe) I e II.

90 A Emip é uma unidade que oferece cursos abertos à comunidade tais como: mosaico, manicure, marcenaria,

O Cevipe I funcionava como uma oficina abrigada e objetivava “propiciar a capacitação profissional das pessoas com deficiência, assim como promover sua atuação em atividade profissionais [...]” (SÃO BERNARDO DO CAMPO, 2004, p. 62). Dentro dessa unidade, os jovens e adultos realizavam artesanatos e atividades que eram enviadas por empresas, as quais eram denominadas de sequência industrial. Existia ainda, a possibilidade de eles serem inseridos no mercado de trabalho.

Já o Cevipe II, conforme ilustra a figura 7, proporcionava atividades de capacita- ção de jovens e adultos com deficiência e de

membros da comunidade visando o desenvolvimento de projetos agrícolas tais como: a produção de hortaliças, de mudas, entre outros. (SÃO BERNARDO DO

CAMPO, 2004) Foto 7 – Centro de Vivência Pesquisa e Estudos II

Em 2000, o grupo Integrarte também passou a ser um dos Programas da Asiite, mas suas atividades eram desenvolvidas na Escola de arte-educação Paulo Bugne, conforme já mencionado.

3.5.2 Bolsas de estudo

Uma temática bastante paradoxal e controversa, concernente aos serviços educacionais especializados no município de SBC, referia-se à concessão de bolsas de estudo para que os alunos com deficiência frequentassem escolas especiais particulares.

Conforme foi possível identificar por meio deste estudo, o município criou duas escolas especiais, a Emebe Rolando Ramacciotti e a Emebe Marly Buissa Chiedde, para atender pessoas com deficiência mental, surdocegueira, deficiência múltipla e condutas típicas. Porém, também constatamos que essas escolas não atendiam a todos que as procuravam, em virtude de possuírem critérios de elegibilidade, ou seja, os munícipes que não se encaixavam no perfil dos alunos atendidos à época, não tinham acesso a essas escolas. Assim, em 1999, o município possuía uma lista de crianças, jovens e adultos que não eram atendidos.

De acordo com o relato do Profissional1, que foi entrevistado, uma das assistentes sociais que atuou na educação especial, desencadeou ações para garantir a viabilização do

direito à educação a esses munícipes que não eram contemplados com vagas pelas escolas especiais públicas.

Tais ações culminaram com a criação da Lei 4.753, de 31 de maio de 199991 que, dentre outras deliberações, estabeleceu a concessão de bolsas de estudo aos alunos da educação especial. A partir da promulgação desta Lei, o chamamento aos munícipes interessados em pleitear essas bolsas passou a sair publicado na imprensa oficial do município, o que acabou por desencadear uma grande procura por essas escolas especiais particulares. (INFORMAÇÃO VERBAL) 92

Conforme preconiza esta Lei:

Art. 1º Fica o Município autorizado a conceder bolsas e auxílios à educação aos alunos carentes regularmente matriculados e frequentadores dos seguintes cursos: I- de ensino supletivo de 1° e 2° graus

II- regulares de Ensino Fundamental ou em Instituições de Educação Especial

com classes especiais para atendimentos a alunos portadores de deficiência com agravantes de desenvolvimento;

III de 2° grau técnico ou de qualificação profissional, devidamente reconhecido;

III- de 3° grau. (SÃO BERNARDO DO CAMPO, 1999a, s/p, grifo nosso).

A nosso ver, a partir desse momento, o município passou a ter uma sobreposição desnecessária de serviços, uma vez que as escolas especiais públicas deveriam absorver esses munícipes que eram direcionados às instituições particulares de educação especial.

Assim, como diretriz definiu-se que a SEC-SBC poderia oferecer bolsa de estudo para as escolas da rede particular e que a utilização desse recurso se daria somente quando não fosse possível o atendimento às necessidades do aluno nos recursos existentes na rede municipal. ”(SÃO BERNARDO DO CAMPO, 2006)

Tal concessão de bolsas de estudo gerou um impacto tangível na política de atendimento ao público de educação especial, pois adentrou-se no setor público municipal, o que o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado,93 denominou de serviço não

exclusivo, que:

Corresponde ao setor onde o Estado atua simultaneamente com outras organizações públicas não-estatais e privadas. As instituições desse setor não possuem o poder de Estado. Este, entretanto, está presente porque os serviços envolvem direitos humanos fundamentais, como os da educação e da saúde [...] (BRASIL, 1995, p. 41- 42).

91

Disponível em: <http://www.leismunicipais.com.br/cgi-local/showinglaw.pl >. Acesso em 28 Dec. 2011.

92 Informação concedida por um ex-gestor que atuou na Seção de Educação Especial, à época em que ocorreram

os acontecimentos relatados.

93 O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado define objetivos e estabelece diretrizes para a reforma da

administração pública brasileira. Foi implantado no Brasil a partir de 1995, no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, tendo Luiz Carlos Bresser Pereira como Ministro da Administração.

O Plano citado, também define as atividades exclusivas do Estado, ou seja, os serviços que só o Estado pode realizar. Infelizmente a educação não faz parte dessas

atividades exclusivas, mas dos serviços não exclusivos, nos quais essas escolas particulares se

encaixam.

Com base nos dados coletados, pudemos constatar que essa interface pública- privada estabelecida no município de SBC com as escolas especiais particulares, virou um grande negócio, no qual, o Estado financiava, e o setor privado gerenciava e usufruía das verbas públicas.

Em nossa opinião essa interface foi um grande retrocesso, uma vez que defendemos que a oferta da educação é de responsabilidade do Estado, portanto, ocorrer nos sistemas públicos de ensino. De acordo com o Profissional 1 que foi entrevistado:

[...] essa ideia de que a Prefeitura custeava [ bolsas de estudo] se espalhou pelos municípios do grande ABC [Santo André, São Bernardo e São Caetano] como um grande negócio. As escolas especiais [particulares] de outros municípios acabaram se mudando para o município [de SBC], pois, no começo a Prefeitura pagava bolsa para escolas da região. (PROFISSIONAL 1)

O Profissional 1 nos esclareceu que, paulatinamente, o município passou a organizar os critérios para a concessão dessa bolsa, criando normas, ou seja, as escolas deveriam ser do município, necessitariam estar regulamentadas como escolas e não como clínicas, e possuir a documentação necessária.

Ao analisarmos essa história, concluímos e defendemos que à época a “luta” deveria ser para que as escolas públicas municipais especiais se desvencilhassem dos critérios de seletividade e fossem mais integradoras ou inclusivas.

Atrelando a história do município de SBC, ao contexto nacional e internacional da época, observamos que essa lei de concessão de bolsas emerge em 1999, ou seja, após a publicação de documentos como a Conferência Mundial de Educação para Todos (UNESCO, 1990), Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) e a LDB/96, ou seja, documentos que garantiam o direito à educação e ao atendimento educacional especializado. Se tomarmos como referência a Declaração de Salamanca (1994), o princípio defendido era o de que as escolas comuns deveriam acolher todas as crianças, independente de suas condições, e a escolarização em escolas ou classes especiais viabilizar-se-ia como exceção, apenas em casospouco frequentes nos quais a escola comum não conseguisse prover as necessidades desses educandos.

O Profissional 1, que foi entrevistado, elucidou que o grande encaminhador de alunos para essas escolas particulares, era a própria educação especial e com mais veemência uma das escolas especiais. O pressuposto que embasava esse encaminhamento era o de que em algum momento essas crianças/jovens poderiam adquirir os pré-requisitos necessários e, posteriormente, retornar ao sistema municipal. Relatou ainda que, essa política de encaminhamento de alunos para essas escolas especiais particulares criou embates entre os profissionais que encaminhavam e os que se posicionavam contrários a esta ação. Em sua opinião, muitos alunos encaminhados não deveriam sequer frequentar uma escola especial.

Pelas palavras do profissional 1:

Eu acompanhei sete escolas. Destas, duas tinham um compromisso com o educacional e com o terapêutico, as outras, eram amadoras demais! A Prefeitura no começo pagava um adicional por terapia e depois foi “cortado.” Quanto mais nos aproximávamos das escolas, percebíamos que não tinha sentido usar dinheiro público para custear aquele serviço. Elas não eram regulamentadas, não tinham Plano de Ação [...]. A nossa rede encaminhava para a rede particular, porque os alunos seriam trabalhados lá (pré-requisitos), um dia ficariam “bons” e voltariam. Na prática não dava para dizer que isso aconteceria porque “lá na ponta” não se trabalhava o que de verdade, as crianças precisavam [...]. (PROFISSIONAL 1)

Com base no exposto, podemos concluir que as mesmas dificuldades que as escolas regulares enfrentavam para lidar com alunos/jovens com deficiência, também apareceram na atuação das escolas especiais, que ao menos teoricamente, deveriam estar preparadas para atender esses alunos. Desvelou-se que tais escolas municipais especiais públicas encaminhavam para as escolas particulares alunos que não se encaixavam em seus critérios de atendimento, ou seja, a própria escola especial, com a anuência do Estado, excluía os alunos da rede pública.

Conforme é possível observar, uma ação que inicialmente objetivou assegurar às crianças e adolescentes com deficiência uma garantia de direitos (acesso à educação), tornou- se um mecanismo de exclusão. O setor privado, representado por essas escolas, rapidamente se apropriou dessa nova engrenagem que emergiu, na qual o setor público passou a subsidiar a educação desse público-alvo, até então, expropriado dos processos educativos.

Com o intuito de elucidar a quantidade de vagas fornecidas no último ano da administração de William Dib (PSB-2005/2008), ano que antecede a eleição do atual prefeito Luiz Marinho (PT- 2009/2012), apresentaremos a Tabela 5 que ilustra a quantidade de bolsas concedidas para os diferentes níveis e modalidades de ensino.

Tabela 5 – Distribuição de bolsas de estudo concedidas no ano de 2008 Etapas e modalidades de educação básica e educação especial Ano: 2008 Especial 336 Infantil 57 Fundamental 169 Médio 255 Superior 251 Total 1.068

Fonte: São Bernardo do Campo, 2009.

Nota-se que a educação especial foi a modalidade que mais manteve os alunos nas escolas particulares, ou seja, a verba pública migrou para o setor privado.

As mudanças em relação às bolsas de estudo que passaram a ocorrer a partir de 2009, serão exploradas no próximo capítulo.

3.6 A inserção das temáticas de integração e inclusão nas ações dos profissionais e nos