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CAPÍTULO II A LEI 10.693/2003

2.1 Parecer CNE/CP 003/2004

O Parecer CNE/CP0003/2004 além de constituir-se como um documento regulatório das modificações introduzidas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei Federal 9.394/1996, referente ao ensino de História e Cultura Afro- Brasileira e Africana nos estabelecimentos de educação básica e nível superior, preconizados na Lei 10.639/2003, está amparado e referenciado nos princípios do ordenamento jurídico do Estado Democrático de Direitos, em especial, a Constituição Federal de 1988, que nos dispositivos relativos à educação brasileira,

[...] assegura o direito à igualdade de condições de vida e de cidadania, assim como garantem igual direito às histórias e culturas que compõem a nação brasileira, além do direito de acesso às diferentes fontes da cultura nacional de todos os brasileiros (DCN, 2013, p. 497).

Não só reconhece as contribuições dos africanos e afro-brasileiro na composição do metabolismo social brasileiro, mas também é um instrumento de ações afirmativas, ou seja, políticas de reparações e de reconhecimento e valorização da história, cultura e identidade do povo preto. O parecer desdobra a temática da educação das relações étnico- raciais para a estruturação, em nível nacional, de diretrizes que permitam a materialização da lei 10.639/2003 em sala de aula reordenando a organização do trabalho educativo, isto é, constitui-se como uma política curricular com o objetivo de combater o racismo e as mais variadas formas de discriminação racial.

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Embora a população afro-brasileira seja a maioria da população em termos demográfico, conforme Pesquisa Nacional Amostragem de Domicílios de 2014, segundo o IBGE, pretas e pretos (pretos e pardos) são a maioria da população brasileira, representando 53,6% da população, enquanto os que se declararam brancos eram 45,5%. Demograficamente maioria, no entanto, sócio e economicamente, ocupam as últimas fileiras em termos políticos, econômicos e sociais. A legislação não modifica os estigmas, resultado do processo de escravização e nem de longe toca no ethos racista da Casa Grande, cristalizada nas mentes colonizadas de grande parte dos branqueados brasileiros.

Para a integração de diferentes povos, no caso, daqueles que foram escravizados para fornecer a força de trabalho necessária que o capitalismo embrionário, se faz necessário além do aparato jurídico, estabelecer “diretrizes que orientem a formulação de projetos empenhados na valorização da história e cultura dos afro-brasileiros [...] comprometidos com a educação das relações étnico-raciais positivas” (DCN, 2013, p. 497).

O Parecer em tela aponta para a criação das Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro- Brasileira e Africana. Acrescenta-se ainda a orientação dos educadores, educandos, profissionais da educação e demais cidadãos que buscam no entendimento da educação para a diversidade étnico-raciais, a ratificação e valorização do legado histórico e cultural dos afro-brasileiros, da diversidade dos povos que compõem a nação brasileira, do direito à educação de qualidade e à formação de cidadão ativos, no sentido da construção de uma sociedade democrática. Para além das possibilidades instrumentais e orientadoras, o Parecer objetiva dar respostas à demanda da população afro-brasileira, quanto às políticas de ações educativas, formas tímidas do governo brasileiro, reparar os danos causados pelo período escravista instituído pelo Estado na estrutura da sociedade, nos seus períodos colonial e imperial.

E por políticas de ações afirmativas, não devemos situá-las nos certames do vitimismo ou do racismo às avessas, trata-se de uma forma de reparação e ressarcimento, em que o Estado Brasileiro, elenca uma série de medidas positivas que visam incluir os descendentes de africanos, a população preta marginalizada durante o escravismo e a pós- abolição de 1888, pelos danos irreparáveis de dimensão psicológica, material, social, política e educacional a que milhões de africanos na diáspora sofreram a partir do regime da escravização e do branqueamento. Estas medidas devem se concretizar como iniciativa de combate ao racismo e discriminação racial. As políticas de ações afirmativas,

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reparadoras, direcionadas à educação do povo preto, do porte da lei 10.639/2003 visa garantir o acesso,

[...] permanência e sucesso na educação escolar, de valorização do patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro, de aquisição das competências dos conhecimentos tidos como indispensáveis para a continuidade dos estudos, de condições para alcançar todos os requisitos [...] para atuar como cidadãos responsáveis e participantes, além de desempenharem com qualificação uma profissão (Idem, p. 498- 99).

No que se refere a prática docente, aponta para uma política curricular de combate ao racismo, em termos de formação inicial de professor, garantia de direitos do educando e a valorização das identidades e diversidade étnicas. Dentro da dimensão educativa sobre educação para as relações étnico-raciais perspectivada pelo parecer, à escola atribui-se um papel de suma importância no sentido do combate e eliminação da discriminação racial e o empoderamento dos grupos étnicos historicamente discriminados,

[...] ao propiciar acesso aos conhecimentos científicos, a registros culturais diferenciados, à conquista de racionalidade que rege as relações sociais e raciais, a conhecimentos avançados, indispensável para a consolidação e concerto das nações como espaços democráticos igualitários (Idem, p. 501).

Ao que tudo indica o Parecer suscitou a necessidade de se organizar caminhos para o exercício de uma educação das relações étnico-raciais que possa abarcar positivamente as identidades dos povos situados em solo brasileiro, principalmente da população preta. E para romper com o etnocentrismo e a visão do africano como escravo objetivou-se a criação de diretrizes para a educação das relações étnico-raciais que valorizem a convivência entre os diversos povos que compõem a nação brasileira. A educação para as relações étnico-raciais está dada a partir do Parecer, agora é preciso trilhar o caminho. E o caminho fora concretizado na Resolução n.º de 01 de junho de 2004, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

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