O parecer da Procuradoria-Geral da República, elaborado pela então Procuradora-Geral Eleitoral, Deborah Macedo Duprat de Britto Pereira, e aprovado pelo então Procurador-Geral da República Roberto Monteiro Gurgel Santos, manifestou-se pela total procedência da ação.
No entendimento do MP a possibilidade de declaração parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto, como pretendido pelo CFOAB em relação aos dispositivos que permitiam as doações de pessoas jurídicas a partidos e candidatos, estaria consagrada na doutrina pátria, já tendo sido admitida na jurisprudência do STF. Ao proferir este tipo de decisão, o STF não atuaria como legislador positivo, invadindo o “âmbito da discricionariedade do Poder Legislativo”, mas apenas exerceria seus poderes de intérprete da Constituição para “expelir do ordenamento jurídico” normas contrárias aos princípios fundamentais da Constituição.68
67 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Petição Inicial na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 33-34.
68 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 7-8.
O Parquet federal manifestou-se favoravelmente à modulação de efeitos pretendida pelo requerente, de forma a conceder ao Congresso Nacional “prazo razoável” para a edição de norma “em consonância com os parâmetros constitucionais aventados”, de forma a evitar a criação de lacuna jurídica. No entendimento da Procuradoria-Geral da República a fungibilidade entre ADI e ADO, que já teria sido reconhecida pelo STF, permitira a cumulação do pedido de modulação com os demais.69
O parecer do MP discorre sobre a formação social e política do Brasil, buscando destacar as diferenças entre a realidade político-jurídico de nosso país em relação aos Estados Unidos e aos países europeus que foram citados pela Advocacia-Geral da União como exemplos de democracias maduras que permitem a participação das empresas no financiamento da política. Para a PGR, enquanto nos países do atlântico norte o processo de consolidação da cidadania teria se dado pelo reconhecimento de uma série de direitos ao longo de séculos, no Brasil as práticas oligárquicas e patrimonialistas não teriam permitido que a consolidação da cidadania se desse da mesma forma.70
Segundo o Ministério Público os partidos políticos seriam as únicas pessoas jurídicas legitimadas pela Constituição a participar no processo eleitoral, conforme o art. 17 da Constituição. Nem mesmo os sindicatos, “por mais que tenham finalidades políticas”, gozariam de prerrogativas de participar do processo político-eleitoral, assim como as demais organizações elencadas nos incisos do art. 24 da Lei das Eleições. Neste sentido, na visão da PGR, com mais razão ainda as pessoas jurídicas de direito privado, sem conotação política e com fins lucrativos, deveriam
“ficar afastadas da participação, direta ou indireta, nos processos eleitorais”.71 Para o MP os interesses particulares legítimos devem ser manifestados no ambiente político por via da participação dos cidadãos, “de modo que se garanta a isenção do processo eleitoral perante interesses puramente econômicos”.72
No entendimento dos procuradores signatários do parecer o acolhimento dos pedidos elencados na ADI não configuraria uma reforma política a partir do
69 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 9-10.
70 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 11-16.
71 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, 2012, p.17-18.
72 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p.18-19.
Judiciário, por se tratar apenas de análise da adequação, ou não, das regras de financiamento da política ao perfil de processo eleitoral preconizado pela Constituição. Para o Ministério Público, embora a Constituição não tenha indicado expressamente a proibição da participação de empresas no financiamento eleitoral, a leitura sistemática e integrativa da Constituição levaria à conclusão de que os dispositivos questionados seriam inconstitucionais.73
O Estado, afirma o parecer da PGR, na medida em que representa, no regime democrático, os interesses da sociedade como um todo, deveria atuar para conter a influência do poder econômico na esfera política. Desta forma estaria justificada, na perspectiva republicana, a “intervenção na liberdade econômica da minoria da população em prol da maximização da participação cívica de todos os cidadãos”, levando a legitimidade representativa a patamares mais elevados, em consonância com o disposto no § 9º do art. 14 da Constituição, que prevê o dever do Estado de proteger a normalidade e a legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico.74
No entendimento do MP o financiamento das campanhas eleitorais por um número pequeno de doadores, geralmente grades empresas que efetuam doações muitas vezes multimilionárias, reforçaria a “apatia política e a desmobilização dos cidadãos em geral”. Daí a necessidade de, no contexto das democracias representativas de massa, como a brasileira, onde em função da escassez de tempo disponível para a militância política por parte do cidadão prepondera a profissionalização da política, fosse estabelecido um sistema de financiamento da política mais igualitário. Desta forma os cidadãos seriam encorajados a participar mais ativamente do debate público, candidatando-se ou apoiando financeiramente os candidatos e partidos de sua preferência.75
O MP acolheu ainda a tese, defendida pelo CFOAB, de que o sistema de financiamento político impugnado afrontaria o princípio da proporcionalidade, em sua vertente de proibição de proteção deficiente, devendo o Estado “agir na proteção de bens jurídicos de índole constitucional”.76 Neste sentido a Procuradoria-Geral da
73 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 20.
74 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 22.
75 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 23-24.
76 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Parecer da Procuradoria-Geral da República na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650/DF, p. 28-31.
República manifestou-se pela total procedência da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4650.