5. O SUSPIRO DA VIRTUDE: GARANTISMO INTEGRAL
5.1 PARIDADE DE ARMAS NO PROCESSO PENAL E O PORQUÊ DO TERMO
A paridade de armas no processo penal brasileiro é entregue como um mecanismo garantista, por definição, assim como o sistema acusatório e os princípios constitucionais registrados na Carta Magna. Páreas devem ser as armas das partes do processo, para que possam duelar na batalha jurídica. Tal simbologia encontra sustento filosófico nos ideais de “combater o bom combate”, com os “arsenais” equânimes. Não se trata de romantizar o duro processo penal, mas sim de ilustrar de maneira factível as complexas definições que pairam sobre o tema.
É preciso ter em mente, todavia, que a paridade de armas no processo penal não encontra vazão em sentido estrito, ou seja, as armas não são iguais para as partes da lide, mas devem ser equiparadas entre si. Igualdade é diferente de paridade e equidade.
O princípio da paridade das armas é um conglomerado de vários outros princípios, como os da legalidade, isonomia, contraditório e ampla defesa e recorribilidade. Isto é, para cada “arma” infligida ao “adversário” na batalha processual, há um “escudo” possível. Para cada recurso, há uma alternativa, para cada acusação, há uma defesa, para cada prova, há a contraprova. Isto é, segundo este princípio, a “arena” jurisdicional que deve fornecer condições equânimes para que o processo se desenrole observando todos os princípios existentes.
Desta forma, a estrutura dialética do processo penal brasileiro entrega a paridade de armas como elemento essencial à lide. O processo deve desenvolver-se à luz da equidade. Não se nega, aliás, que a parte acusada se apresenta como mais vulnerável, vez que o aparato estatal é invocado em seu desfavor. Daí extrai-se a premissa supramencionada de que igualdade é
74 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de L. Vallandro e G. Bornhein da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo, Abril, 1987. (Coleção Os Pensadores), livro II.
diferente de paridade. Isto é, em razão da hipossuficiência do acusado frente ao Estado, deve o primeiro ter mais mecanismos para que seja expandido seu campo de defesa. É a máxima da equidade: tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.
Como exemplo, pode-se citar a possibilidade do uso de provas ilícitas em benefício do réu, cenário inimaginável no sentido oposto. O próprio princípio in dubio pro reo e a possibilidade de revisão criminal em favor do condenado são ótimos exemplos dessa (dis)paridade equânime, como deve ser em um fiel sistema processual garantista.
Com efeito, Ferrajoli reconhece o Sistema Garantista como um mecanismo que visa, exatamente, evitar o abuso do poder estatal sobre os indivíduos, premissa muito diferente do abordado nos delírios jurídicos consoantes ao “mal” do garantismo, embasados justamente pelo garantismo à brasileira. Visitando as premissas garantistas, compreendemos que garantismo é essencialmente a tutela de direitos fundamentais de uma sociedade - e não somente dos acusados. Ou seja, há uma visão integral por parte do garantismo originário, pois este defende a tutela das garantias constitucionais, em sua integralidade.
As ideias garantistas visam equilíbrio, portanto pressupõem que o processo penal deve buscar ser proporcional, páreo e justo. Por isso, no Brasil, é quase uma obrigação usar o termo “garantismo penal integral” quando se fala em garantismo, por tão deturpado que foi o brocardo original trazido por Ferrajoli. Quando se critica o garantismo penal (no Brasil), não se invoca a maximização do direito penal. Ao contrário, quando se reclama um garantismo penal, quer- se clamar pelo respeito aos princípios, valores e normas que permeiam um ordenamento jurídico, de maneira integral. Por isso, necessário é desvincular a ideia de garantismo com impunidade – ideia provocativamente trazida no título deste estudo. Acerca da vinculação entre garantismo e impunidade, com clareza ensina Aury Lopes Junior (Saraiva, 2020):
Há de se compreender que o respeito às garantias fundamentais não se confunde com impunidade, e jamais se defendeu isso. O processo penal é um caminho necessário para chegar-se,
legitimamente, à pena.75
O propósito do uso da palavra integral como uma espécie de sufixo do termo original é justamente a ideia de desvinculação do garantismo com as mazelas da impunidade.
Tais considerações legitimam, portanto, a criação do termo garantismo penal integral, proposto na obra de mesmo nome, escrita por vários juristas que se incomodaram com a criminalização do termo garantismo penal, por culpa, como já dito, da manipulação da teoria, na maioria das vezes, em favor da impunidade. Em especial, a concepção do termo integral coube ao professor e procurador regional da república Douglas Fischer.
Eis o conceito de um garantismo integral, explicado por Calabrich (et. al. Verbo Jurídico, 2017), na obra supramencionada:
O equilíbrio entre o respeito às liberdades individuais - com a necessária limitação à atividade estatal que fira a esfera inquebrantável do cidadão - e a mão firme do Estado a coibir e reprimir as condutas que atentem contra a ordenação básica do convívio (proteção dos interesses coletivos e sociais) é o que se espera, especialmente das instituições encarregadas de traduzir em termos práticos o que dita no todo a Constituição da República. (p. 26)
Indubitavelmente, é necessário levar em consideração o sopesar entre direitos individuais e direitos coletivos quando se fala em garantismo integral, pois se o intuito ativo de um ordenamento jurídico é resolver os conflitos sociais, há de se analisar esse equilíbrio entre as liberdades públicas. Ou seja, ao passo em que se busca proteger a liberdade individual daquele indivíduo acusado de um crime, deve-se também ensejar tutelar os bens jurídicos da sociedade, homenageando a teoria funcionalista do direito penal, trazida por Claus Roxin76, onde, de maneira teleológica, o Direito Penal tem a função de
assegurar bens jurídicos.
Para que esses bens jurídicos sejam tutelados, deve haver, portanto, um garantismo integral. Neste cenário, à luz do garantismo, o Estado não pode agir sem a devida legitimidade contra os direitos fundamentais individuais,
75 LOPES JUNIOR, Aury. Direito processual penal. – 17. Ed. – São Paulo: Saraiva: Saraiva Educação, 2020, p. 39
76 ROXIN, Claus. Funcionalismo e Imputação Objetiva no Direito Penal. Rio de Janeiro:
observando a proteção da liberdade. Contudo, o Estado tem também o dever de agir na proteção dos demais direitos fundamentais entregues à sociedade. É dizer, o processo penal não serve somente ao acusado, mas cumpre também uma função social, por isso não se deve ter excessos (garantismo negativo) e tampouco deve haver ineficiência (garantismo positivo).
Em apertado resumo, falamos em integralidade - garantismo penal integral - pois consideramos, de forma justa e equânime, as noções do garantismo negativo (vedação de excessos, por meio da proteção de direitos e garantias individuais) e do garantismo positivo (vedação da ineficiência estatal, por meio da proteção de direitos e garantias da sociedade).
5.2 PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DA PROTEÇÃO INEFICIENTE: