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Paris de Nuit e 100 x Paris de Germaine Krull

3 Transversalidades e convergências na obra de 1932:

3.2 Paris de Nuit e 100 x Paris de Germaine Krull

Por volta de 1929, a alemã Germaine Krull lança um livro de fotografias que mostra a metrópole francesa em plena efervescência. Intitulada 100 x Paris, a obra abarca desde renomadas avenidas repletas de veículos em deslocamento, vistas de telhados, até episódios de vendedores oferecendo seus produtos nas ruas.

É possível que a pioneira e vasta produção fotográfica de Atget tenha inspirado Germaine Krull no livro de 1929, e posteriormente Brassaï em 1933. Evidentemente, o amor pela cidade e as características urbanas singelas estão presentes nas obras desses artistas.

Em alguns momentos de seu trabalho, Brassaï parece expor a influência da obra de Germaine Krull. Segundo David Travis78, por volta dos anos de 1930 a alemã já era uma fotógrafa experiente. Contabilizava em seu currículo um considerável número de livros publicados, o que a tornava referência para os iniciantes.

No período da elaboração de Paris de Nuit, ensaios que tinham como tema o mercado de Les Halles, as pontes parisienses e os clochards, moradores de rua, já tinham sido abordados por Krull e também por Kertész.79

A quantidade de fotografias que Brassaï planejava que fossem originalmente utilizadas em seu livro é a mesma centena que figura em 100x Paris de Krull. Em 1931, ele afirma: “Eu imediatamente compilei minha coleção (cerca de 100 fotografias fixadas em papel de preservação) porque penso que é hora de mostrar meu trabalho a potenciais editores”.80

78 PHILLIPS; TRAVIS; NAEF, 1985, p. 79. 79 PHILLIPS; TRAVIS; NAEF, 1985, p. 77.

80 BRASSAÏ, 1997, p. 187 (tradução nossa, grifo nosso). Trata-se de carta de Brassaï remetida aos pais em 5 de novembro de 1931. No original: “I immediately compiled my collection (about a hundred photos mounted on fine paper) because I thought it was time for me to display my work to potential publishers”.

É plausível que o criador de Paris de Nuit tenha examinado o livro da fotógrafa alemã. Em 100 x Paris há imagens de trabalhadores populares, um trem na estação de metrô, o cemitério Montparnasse. Nessa busca, alinho-me com a constatação de Quentin Bajac:

Mas, depois de Kertész, sua principal fonte de influência foi sem dúvida o trabalho de Germaine Krull (1897-1985): desembarcou em Paris em 1926 sob recomendações do escritor populista Francis Carco, ela se dedicou, de 1927 a 1928, a fotografar à noite a Paris pitoresca e popular – o que constituirá assunto de predileção de Brassaï em 1930. 81

Fotografias são apresentadas lado a lado nos dois livros e os símbolos convencionais da vida urbana aparecem. Germaine Krull, ao contrário de Brassaï, enfatiza o movimento acelerado da cidade, os veículos, os engarrafamentos, o volume de pessoas. As situações inerentes à jornada diária e os comportamentos urbanos que surgiram com a industrialização são demarcados.

Alguns edifícios e esquinas da cidade em 100 x Paris, também nos remetem à obra de Atget. As conexões acontecem pelo mistério e pela poesia que há no vazio, transcendendo a interpretação convencional.

Aluna da Bauhaus, Krull traz em suas fotografias pontos de visão vanguardistas que apresentam inovadores ângulos oblíquos. O interesse da fotógrafa em questões referentes à industrialização e ao acelerado desenvolvimento das cidades já estava expresso em trabalho anterior. A icônica obra Métal, publicada em 1928 pela Librairie des Arts Décoratifs, mostra vistas de estruturas metálicas industriais presentes em Paris e na Holanda. Nela, a modernidade é fortemente evidenciada.

Lugares populares de Paris estão presentes nos livros de Brassaï e Krull, mas os inovadores ângulos fotografados são um diferencial nas imagens da alemã. Entretanto em 100 x Paris isso não aparece com os mesmos vigor e intensidade que em Métal.

David Travis afirma que o livro 100 x Paris de Germaine Krull era “basicamente um programa turístico, mesmo que dotado de belíssimas e inovadoras fotografias”. 82

81 AUBENAS; BAJAC, 2012, p. 192 (tradução nossa, grifos nossos). No original: “Mais, auprès de Kertész, sa principale source d’influence a sans doute été le travail de Germaine Krull (1897-1985): arrivée à Paris em 1926, sur les recommandations de l’écrivain populiste Francis Carco, ele avait entrepris dès 1927-1928 de photographier de nuit le Paris pittoresque et populaire – Brassaï en fera son sujet de prédilection à partir de 1930”.

82 PHILLIPS; TRAVIS; NAEF, 1985, p. 79 (tradução nossa). No original: “[...] was basically a tourist’s program althoght dotted with innovative photographs of striking beauty”.

Na segunda página de 100 x Paris, Krull apresenta a igreja de Notre Dame observada por trás, enquadrando um aspecto empobrecido das margens do Sena. Nessa imagem, uma outra faceta, menos glamurosa, da cidade de Paris é descortinada. Essa fotografia está ladeada pela célebre vista da fachada principal do santuário.

Curiosamente, em Paris de Nuit, Brassaï também mostra uma visão inusitada desse monumento. O fotógrafo húngaro apresenta a basílica somente de costas e se abstém de fazer uma representação cliché ao omitir sua visão frontal.

O retrato insólito da Notre Dame mergulhada na escuridão, repleta de efeitos de opacidade e transparência, se assemelha a uma gravura em maneira-negra. A imagem se distancia do caráter comum de representação dos monumentos de Paris. O adorno conferido pela cintilância das luzes da cidade é o que sobressai.

Fig. 8 - Fotos de 100x Paris, 1929. Notre Dame por Germaine Krull, p. 2 e 3. Fonte: Centro Georges Pompidou, Paris.

Na imagem adjacente à fotografia diurna da Torre Eiffel por Germaine Krull há homens em desvantagem econômica. Todavia, a menção aos que vivem à margem da sociedade ocorre de forma menos aprofundada que nos livros de Kertész e Brassaï.

Entretanto, a derradeira imagem de 100 x Paris é a que indica, mais explicitamente, uma conexão entre as obras. Trata-se da Torre Eiffel cintilando à noite. O enquadramento das duas imagens é similar e o mesmo fulgor da Torre capturada por Krull aparece em Paris de Nuit, todavia neste ensaio está ladeada pela recepção de uma festa no luxuoso Hotel Crillon.

Essa centésima e última imagem é a única noturna em 100 x Paris. Mergulhada na escuridão, ela parece anunciar o livro de Brassaï que viria poucos anos depois.

Fig. 9 - Fotos de 100x Paris, 1929. Clochards e Torre Eiffel, p. 94 e 95. Fonte: Centro Georges Pompidou, Paris.

Fig. 10 - Última fotografia de 100x Paris de Germaine Krull, 1929 e acima desta, Torre Eiffel por Brassaï em Paris de Nuit, 1933, p. 57. Fonte: Paris, Centro Georges Pompidou e Maison Européenne de la Photographie, respectivamente.