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7.3. Casos de Estudo

7.3.1. Parque da Gleba E – Península

O Parque da Gleba E está localizado no município do Rio de Janeiro, no bairro da Barra da Tijuca, zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, junto da Planície Costeira de Jacarepaguá, numa península lagunar que se encontrava em processo de desertificação. O projeto de restauração ecológica desta área foi uma proposta pioneira, tendo como base conceitual a convivência entre natureza e espaço construído, visando a melhoria da qualidade de vida e valorização econômica da região.

Figura 7.3 As áreas em destaques representam o dois Parques: Parque da Gleba e o Parque Mello Barreto. Fonte: Google - Acedido em:20/10/2019.

Figura 7.4 Imagem de divulgação do Empreendimento Condomínio Península, localização. Fonte: https://slideplayer.com.br/slide/11647953/ - Acedido em:20/10/2019.

Chacel e um grupo multidisciplinar de trabalho realizaram o diagnóstico e o “Estudo de Viabilidade Ambiental” buscando conhecer as condições ambientais do lugar, na qual foram levantadas as informações sobre o solo, o clima, a vegetação e principalmente o nível de degradação ambiental, além de levar em consideração os fatores urbanísticos e culturais. Baseado no Estudo de Viabilidade Ambiental é produzido um relatório geral contendo todas as informações relativas à área de intervenção. Era imperativo para a concepção do projeto estabelecer uma nova paisagem cultural, isto é, restabelecer um novo ecossistema semelhante ao original. Fundamentado no estudo do relatório geral é definido o zoneamento, incluindo as áreas de proteção permanente e daí serem definidas as possibilidades de uso e ocupação das áreas (Chacel, 2001), servindo como critério de projeto para o desenvolvimento das propostas paisagísticas. Para a implantação do projeto foi necessário descrever o processo de construção da paisagem, mostrando as diferentes etapas de recondicionamento do ambiente, como os movimentos de terra e as sucessivas etapas de replantio, até o completo restabelecimento da cobertura vegetal.

Figura 7.5 Vista aérea da Gleba E antes do início do processo de ecogênese. O ecossistema encontrava- se destruído, restando apenas poucos trechos isolados de manguezal ás margens da Lagoa Tijuca Fonte Chacel, 2001, p.51.

Para a primeira etapa do projeto foi realizado o inventário florístico do local. A partir do inventário foi possível criar um plano de ação que estabeleceu duas diretrizes:

1. Preservação e restauração do manguezal;

2. Replantio de espécies de restinga na área dos solos mais elevados, que não ficassem sujeitos à ação das marés.

Estas diretrizes formaram as bases para o projeto de recomposição da paisagem, com a finalidade de devolver uma cobertura vegetal conectada com a região, o solo e o clima, e que garantisse a salvaguarda da fauna residual.

O conceito do projeto estabeleceu três modelos de intervenção na paisagem: modelo mangue, modelo restinga e modelo parque. Essas três “faixas” criaram uma área de proteção marginal à lagoa e dois parques de 40.000 m² cada um, além da área verde que circunda toda a área a ser edificada.

O modelo mangue concentrou-se na recuperação do manguezal. Havia a necessidade de manutenção da faixa marginal de proteção da Lagoa da Tijuca, para atender o cumprimento das legislações ambientais. O objetivo do modelo mangue era de criar o alargamento da espessura vegetal em locais onde a vegetação se encontrava consolidada e ligações vegetais entre essas “massas”, garantindo a continuidade paisagística do entorno do terreno. Para tal, foram utilizadas mudas de mangue do próprio local, uma vez que estas espécies têm um grande poder de regeneração. Assim, os manguezais foram restaurados e ampliados, ocupando toda a margem da lagoa onde havia a influência direta do fluxo e refluxo das marés.

O modelo restinga foi recomposto através do processo de ecogênese, uma vez que estava praticamente extinta no local. Para esta recomposição foram plantados elementos e grupos de espécies de restinga, usando principalmente bromélias e cactáceas, espécies arbustivas criando as áreas de transição entre o modelo mangue e modelo parque. Esse grande jardim além de seu valor estético, de proteção e manutenção dos elementos das paisagens de restinga, tem a função de zona “tampão” de proteção ao manguezal.

O modelo parque fica responsável pela transição paisagística, Chacel concebeu este setor como “um espaço aberto e colorido” emoldurando as áreas de caminhar e estar. Para conseguir esse efeito foi introduzida uma série de espécies arbóreas dotadas de rica floração, que conta com espécies frutíferas, com copas variadas para provocar o efeito de sombreamento alternado que permitissem perspectivas abertas e iluminadas, permeadas de palmeiras colocadas sobre áreas gramadas e relvadas. As espécies de

pós-mangue seriam as mais utilizadas no modelo parque, criando conexão entre os mosaicos florísticos de manguezal, jardins de restinga e praças ao lado das faixas de proteção do mangue.

O conjunto dos três modelos (mangue, restinga e parque) deveriam estar em sintonia formal com as praças e integrar-se com os jardins sobre lajes, quando da consolidação da estrutura edificada. Este parque, em todo o conjunto, seria dotado de um continuum paisagístico que atenderia a qualidades estéticas e de conforto climático, bem como a recuperação do ecossistema.

Figura 7.6 - Corte da implantação do Parque da Gleba . Da direita para a esquerda, vemos as distintas áreas do projeto: o manguezal na cota mais baixa, margeando a lagoa; a restinga, o parque de transição paisagística e a área urbanizada com jardins sobre lajes. Fonte: Dourado, 1997.

Figura 7.7 – Planta baixa da implantação, onde se vê a faixa de manguezal à margem da lagoa, a área de parque com a trilha ecológica e caminhos de acesso a área urbanizada. Fonte: Dourado, 1997;

Segundo Chacel, o sucesso da iniciativa e a mais valia do projeto começou a se manifestar com o progressivo retorno da fauna; aves, répteis e anfíbios de diversas espécies passaram a ser observados no novo ecossistema. Durante quase vinte anos

a Gleba E passou por um processo de recuperação ecogenética, e somente a partir de 2002 foram iniciadas as construções dos edifícios residenciais (Chacel, 2001).

Figura 7.8 e 7.9 – Parque da Gleba E, e a vegetação formada depois de vinte anos implantado. Fonte: https://uffpaisagismo.wordpress.com/2015/09/12/ecogenese/ - Acedido em: 28/10/2019