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3. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO 1 Dimensão territorial

3.3 Dimensão física

3.3.1. Parque do Catimbau: testemunho do mar Devoniano

tem uma origem bastante singular. Segundo Petri & Fulfaro (1983, p.4-8), toda a área do sertão pernambucano constituiu, num passado geológico, fundo de mar, de modo que se estabeleceu no Siluro-Devoniano a maior transgressão marinha do continente americano. Teorias apontam que esse mar teria inundado a América do Sul pelo ocidente, através da borda continental, onde atualmente se encontra a cordilheira dos Andes. Assim, durante esse período a plataforma sul-americana encontrava-se imersa (PETRI & FULFARO, 1983, p.317), a não ser por uma estreita faixa de terras emersas situada na extensão das atuais Guianas até a Bolívia setentrional.

Mendes & Setembrino (1971), por sua vez, afirmam que durante o Devoniano, esse mar teria inundando as bacias brasileiras até o Permiano. Quando atingiu sua maior extensão esse mar recobriu e, teria unido por determinado tempo três bacias sedimentares brasileiras: a Amazônica, do Paraná e Parnaíba (SALGADO- LABOURIAU, 2001, p.178).

Daemon (1976) apud PETRY & FULFARO (1983), trabalhando num contexto global, corroboram a ligação entre as três grandes bacias brasileiras durante boa parte do Devoniano brasileiro, principalmente no Devoniano Médio. Essas bacias se comunicavam entre si por corredores. Um corredor de rumo nordeste passaria pela

futura fossa tectônica de Barreirinhas . Outro corredor dirigido para leste ligaria a bacia à região do Jatobá, Estado de Pernambuco (PETRI & FULFARO, 1983) e,

finalmente, um outro corredor que estabelecia ligação com a Bacia do Paraná. Nesse período, o Brasil e a África ainda se encontravam unidos em uma grande massa continental, Gondwana.

Com a separação da América do Sul ocorreu o soerguimento andino. Este fenômeno epirogenético soergueu parcialmente as plataformas e bacias sedimentares. Acarretou, ainda, um recuo total do mar interior Devoniano. Esse fenômeno geológico é o que explica o porquê dos planaltos ocuparem cerca de dois terços do território nacional, daí a expressão o Brasil é uma terra de planaltos (OLIVA & GIANSANTI, 1999, p.218; ROSS, 2001, p.50-64).

Outro importante e principal evento a ser destacado nesse processo refere-se ao modo como se deu a erosão (ROSS, 2001, p. 51-65). Esses processos erosivos lentos e contínuos se estabeleceram justamente nas áreas em que havia o contato entre os planaltos de terrenos cristalinos (plataformas, também denominados de cinturões orogênicos) e, os planaltos sedimentares. Essa erosão contínua acabou resultando em um rebaixamento expressivo nas bordas dos escudos cristalinos, devido à erosão intensa

nas bacias (ROSS, 2001, p.51-65).

Jatobá & Lins (2001, p.71) afirmam que os processos erosivos presentes nas bordas de bacias determinaram a formação de cuestas no Brasil . À proporção em que esses antigos fundos de mares iam sendo promovidos a elevadas terras emersas, deixaram de representar áreas de sedimentação para oferecer superfícies fortemente trabalhadas por agentes erosivos de climas úmidos e, posteriormente, secos. A erosão

conseguiu, ao longo de milhões de anos, entalhar, desmontar e carrear quase que totalmente o espesso capeamento sedimentar de origem marinha do período devoniano, fazendo desenterrar o piso do embasamento cristalino (ANDRADE, 1977, p.69).

Dessa forma, a origem do Catimbau estaria associada a importantes e seqüenciados processos geológicos e geomorfológicos presentes na história geológica do Fanerozoico no Brasil. A possível seqüência desses eventos obedeceria primeiramente, à seguinte ordem: a) início da formação das bacias intracratônicas no

Siluriano ou aurora do Devoniano formando uma peneplanície pré-devoniana; b) ocorrência de uma grande transgressão marinha no Devoniano, denominada fase talassocrática; c) um desaparecimento dos mares no Neopaleozóico; d) desenvolvimento de fossas tectônicas costeiras no Neojurássico (Reativação Waldeniana) fase geocrática; desaparecimento da individualidade das bacias intracratônicas no cretáceo (PETRI & FULFARO, 1983, p.08) . Assim, após a

reativação da plataforma os sedimentos soerguidos foram erodidos por circundenudação, resultando em um relevo cuestiforme.

Percebe-se, ao exame dessas citações, a exemplo de: Mendes (1971); Andrade (1977); Petri & Fulfaro (1983); Salgado & Laboriau (2001); Popp (2002); Ross (2001), entre outros, uma tendência em considerar de fato a existência de uma transgressão marinha no interior do Brasil durante o Devoniano. Por isso, quando se analisam os parques nacionais do nordeste, a exemplo do Parque Nacional da Diamantina (MG); da Serra da Capivara (PI); da Serra das Confusões (PI); Sete Cidades (PI); Ubajara (PI) e do Catimbau (PE), todos guardam uma semelhanças geológicas, pois são formados por arenitos continentais.

Segundo o GUIA PHILIPS (2003), oficial dos parques nacionais do Brasil, observa-se que a principal justificativa para criação desses parques é o fato de estarem localizados em bordas de bacias , áreas afetadas pela circundenudação. Assim, as formas de relevo exuberante que compõem o quadro natural dessas áreas. Essas rochas

sedimentares oferecem formas de relevo, resultantes da ação dos fatores erosivos atuantes no pretérito e presente, desenvolvendo paisagens ímpares e exuberantes. São essas importantes feições rochosas que dão nome às trilhas de visitação. Daí serem comuns em parques de arenito nomes de locais associados a animais e objetos, como por exemplo: Pedras do Cachorro, do Elefante, da Igrejinha, da Concha, Morro do Chapéu, estes no Parque do Catimbau.

Uma outra particularidade do arenito é a sua coloração rica em cores vermelha, ocre, lilás, amarela, entre outras. Estas cores, ao reflexo da luz solar, permitem formação de cenários especulares de cor e luz. Um exemplo desse fato é o Parque das Serras das Confusões, nome pelo qual deriva das inúmeras cores refletidas pelo arenito. Assim, ao exame das citações, parece não haver duvida que a caatinga do nordeste brasileiro, no pretérito, esteve mesmo submersa em águas salgada. No Parque Nacional do Catimbau a grande evidência desse fenômeno geológico é a presença do arenito. Aliás, tem sido esse aspecto que muitas vezes tem prevalecido como elemento fundamental para a criação de alguns parques nacionais nordestinos.