3.1 Askésis grega
3.1.1 Parresía
Para introduzir propriamente o tema da parresía, vamos abordar a aula de 12 de janeiro de 1983. Em certo momento do texto, Foucault começa o questionamento sobre o que pode ser esse dizer-a-verdade – lembrando que anteriormente ele analisava o encontro de Platão com o tirano de Siracusa. Assim, ele coloca quatro hipóteses. A primeira como maneira de demonstrar, a segunda, persuadir, a terceira,
ensinar e quarta, discutir (FOUCAULT, 2010, p. 52), assim, o filósofo francês desenvolve cada uma das hipóteses. A parresía pode se utilizar de momentos de demonstração, mas ela mesma é mais que isso (dizer a verdade não é apenas demonstrar algo). A segunda questão, coloca uma possível relação com a retórica.
Esta técnica de dizer a verdade pode se utilizar da retórica, mas ela também é mais que isso. Pois a retórica visa persuadir e, para isso, não precisa dizer a verdade.
Não obstante, esse dizer-a- verdade pode acontecer em diversas formas de discurso.
Acerca do terceiro ponto, identificamos que a parresía não é uma pedagogia, uma forma de ensinar. Ela não está preocupada com as formas pedagógicas de manifestação de um discurso, ocorrendo de uma forma um pouco mais violenta.
[...] quem diz a verdade lança a verdade na cara desse interlocutor, uma verdade tão violenta, tão abrupta, dita de maneira tão cortante e tão definitiva, que o outro em frente não pode fazer mais que calar-se, ou sufocar de furor, ou ainda passar a um registro totalmente diferente, que é, no caso de Dionísio ante Platão, a tentativa de assassinato (FOUCAULT, 2010, p. 54).
Ou seja, observamos algo que pode ser até contrário a uma prática pedagógica. Por fim, a quarta hipótese. Foucault defende que a parresía não pode ser uma arte de discussão, pois nela o que reina é o que se acredita ser verdadeiro.
Portanto, Foucault busca nos mostrar o que caracteriza-se dizer-a-verdade. O grande ponto central dessa tarefa e que, será encontrado de alguma forma em todas suas manifestações, o perigo que o falante corre ao proferir a verdade. É um risco de vida (FOUCAULT, 2010, p. 55), pois, ao falar a verdade o locutor se depara com as consequências e toda essa relação faz com que a parresía não seja apenas uma maneira de mostrar algo, de ensinar, persuadir ou de discutir.
Outra característica que consideramos importante é, a que Foucault define como veridicidade (véridicité). Esse termo resume o ato de dizer a verdade é. Logo, a parresía, é então, um ato de falar e:
Mais precisamente, é uma maneira de dizer a verdade. Em terceiro lugar, é uma maneira de dizer a verdade tal que abrimos para nós mesmos um risco pelo próprio fato de dizer a verdade. Em quarto lugar, a parresía é uma maneira de abrir esse risco vinculado ao dizer-a-verdade constituindo-nos de certo modo como parceiro de nós mesmos quando falamos, vinculando-nos ao enunciado da verdade e vinculando-vinculando-nos à enunciação da verdade.
Enfim, a parresía é uma maneira de se vincular a si mesmo no enunciado da verdade, de vincular livremente a si mesmo e na forma de um ato corajoso (FOUCAULT, 2010, p. 63-64).
A pessoa que se dedica a veridicidade de seu discurso só pode ser aquela que diz a verdade, assumindo o risco dessa ação, e que, ao agir assim, efetiva o vínculo de si consigo – afirmando sua existência18.
Na Hermenêutica do Sujeito temos outro ponto fundamental, que é a ocasião (kairós) em que a parresía ocorre (FOUCAULT, 2006, p. 464), ou seja, é em relação com os outros que a forma deste franco em falar pode ser ou não justificada. Assim, pode não haver o discurso, muitas vezes agonístico, da verdade sem o outro. No entanto, Foucault nos mostra que isso ocorre porque não há interesse próprio da pessoa, pois o objetivo é a generosidade, que fará com que a pessoa que ouve possa construir para si uma relação de soberania.
Levando em conta o princípio da ocasião, identificamos que a outra pessoa que receberá o discurso tem de contar com um princípio, para que seja válida na relação. O princípio que lhe referencio é da parresía. Entende-se que, as necessidades de ambos estejam em igualdade quanto ao uso do discurso, para que se possa estabelecer o discurso verdadeiro (FOUCAULT, 2011, p. 8), ou seja, além da veridicidade, há também a ocasião e a relação com a pessoa a quem a verdade dita é dirigida, como pontos fundamentais deste conceito.
3.1.1.1 Sócrates e o discurso filosófico como prática da verdade
Entendendo esse sentido da parresía, gostaríamos de ver a particularidade do dizer-a-verdade de Sócrates para posteriormente tratarmos do discurso filosófico como prática da verdade. Acerca de tal ponto, Foucault prefere trabalhar os textos que formam o “ciclo da morte” de Sócrates (Apologia a Sócrates, Críton, Fédon).
Após analisar o desenrolar destas obras, Michel Foucault nos mostra a veridicção 18 É interessante notar que, linhas abaixo, Foucault afirma que em Nietzsche há uma relação entre sua veridicidade/forma-de-dizer com a origem da parresía, ou seja, nesse caráter de risco daquele que diz a verdade. “E [...] me parece que a veridicidade nietzschiana é uma certa maneira de fazer agir essa noção cuja origem remota se encontra na noção de parresía (de dizer-a-verdade) como risco para quem a enuncia, como risco aceito por quem a enuncia” (FOUCAULT, 2010, p. 64). Esse ponto é interessante, pois há um artigo de Yunus Tuncel que vai de encontro com essa leitura. Ele defende que a forma de escrita de Nietzsche é agonística – ou seja, combativa. Para não nos estendermos nessa questão agora gostaríamos de trazer os pontos principais dessa fala combativa.
“1. Atacar causas vitoriosas (que significa, atacar aqueles que estabeleceram a si mesmos como fortes); 2. Atacar sozinho sem aliados já que o agon é uma luta individual (no espírito dos Gregos Olímpicos Nietzsche não considera disputas em grupo); 3. Não atacar pessoas (ou sem motivos pessoais, rancores, etc.) mas atacar por uma questão de grandeza na cultura; 4. Atacar por boa vontade, até mesmo de gratidão (não de vingança ou ressentimento)” (HUTTER, H; FRIEDLAND, E.
2013, p. 89, tradução nossa). Ou seja, ao atacar sozinho e de boa vontade os interesses que estão fortemente estabelecidos, Nietzsche está usando uma fala agonística – até porque pode colocar sua vida em risco – e isso pode ser uma atualização da parresía Antiga.
em Sócrates. O primeiro ponto está na relação com deus Apolo, o deus que lhe passa a tarefa de cuidar dos outros. Não entendendo, Sócrates quer colocar a teste o que foi dito. Ele interpreta o que foi dito pelo oráculo e busca resultados concretos (FOUCAULT, 2011, p.70-71).
O segundo ponto se dá através da busca de Sócrates, em função de uma investigação, que é bem conhecida, que ocorre em dialogar com diversos tipos de cidadãos gregos. No entanto, aqui notamos a aparição do termo exétasis/exetázein que significa essa atitude de colocar algo sob exame/investigação. Esse exame serve, então, para provar se o oráculo disse a verdade,
[...] consiste em provar as almas, provar o que elas sabem e não sabem a propósito das coisas, do seu ofício, da sua atividade [...], mas também a propósito de si mesmas (o que elas sabem que sabem e que não sabem).
E, enfim, trata-se, nessa exétasis, [...] de confrontar essas almas com a alma de Sócrates (FOUCAULT, 2011, p.72-73).
Ou seja, aqui temos a parresía voltada para a ética, tendo em mente que estamos no contexto político/jurídico da morte de Sócrates. Identificamos grande preocupação com as formas de vida e como as pessoas se relacionam consigo mesmas. Os três termos fundamentais do texto são, a zétesis, exétasis, epiméleia.
O primeiro é a busca que foi empreendida, o segundo diz respeito a esse confronto com os outros, logo o, terceiro é o termo do cuidado, que será central na filosofia de Sócrates e que foi analisado no primeiro capítulo.
Agora, podemos partir para a filosofia como pr ática de dizer-a-verdade – assim, veremos que há uma ligação com práticas ascéticas. Na aula de 02 de março de 1983, trazemos a abordagem de Sócrates sobre o discurso filosófico e a justificativa deste ser a forma de falar que diz a verdade19, logo, apresentamos, três pontos destacados na forma como Sócrates se manifesta: 1) a linguagem comum/ordinária, que era utilizada em seu cotidiano; 2) utilizava a fala como forma de palavra, surgindo no pensamento, sem se preocupar com táticas de retórica; 3) logo, apresentamos, três pontos destacados na forma como Sócrates se manifesta:
1) a linguagem comum/ordinária, que era utilizada em seu cotidiano; 2) utilizava a fala como forma de palavra, surgindo no pensamento, sem se preocupar com táticas 19 Aqui estamos no contexto da Apologia de Sócrates e Fedro, que são analisados por Foucault.
Vemos um debate acerca do discurso verdadeiro e do discurso retórico. Assim, temos a forma como Sócrates usa o vocabulário jurídico perante o tribunal, porém com a qualidade de dizer a verdade a partir desse discurso. Assim, no texto, temos o surgimento sobre a manifestação do discurso a verdade. A resposta levará ao discurso filosófico.
de retórica; 3) é uma linguagem na qual ele manifesta exatamente o que pensa (FOUCAULT, 2011, p. 284). De tal modo, temos os pontos principais da linguagem de Sócrates.
A partir disso, nos é apresentado que o discurso filosófico tem de portar essas três características, através do modo de falar de Sócrates. Foucault nos mostra que a justificativa está no logos autêntico (étymos lógos), pois a linguagem tem uma relação desde sua origem com a verdade. Assim, fica claro que a forma como a linguagem é usada implicará se a verdade será dita ou não. Por conclusão, é no discurso filosófico que a verdade será dita. Agora, remetendo a discussão da parresía, podemos ver que a filosofia está ligada a ela. Filosofar é, então, também uma forma de coragem. É, através disto, que as práticas ascéticas contribuem nessa relação do sujeito com a forma de falar e com o dizer-a-verdade. Compreendendo o papel do ascetismo na filosofia, onde Sócrates pode ser uma figura importante para estabelecermos essa relação.
Tendo isso em mente, pensamos que abordamos o que há de necessário para nosso trabalho na hermenêutica de Foucault. Assim, entraremos em contato com a Genealogia da Moral de Nietzsche, para compreender sua posição acerca do ascetismo e começarmos nossas comparações acerca do que vimos em Foucault.