CAPÍTULO 1: TEORIA E DESDOBRAMENTOS
2.2 A estruturação do corpus desta pesquisa: metodologia e fundamentos teóricos
2.2.3 Parte 3 Artigos selecionados e seus percursos de busca
Nosso interesse em apresentar diferentes pesquisas – de diferentes autores – no campo do bilinguismo tem a ver com a multiplicidade de significações que podem acontecer durante a apropriação da segunda língua. Cada pesquisa aponta aspectos
relevantes das relações de ensino na segunda língua e com isso identificam os modos de apropriação e as formas de participação que surgem nesses contextos, trazendo com isso um olhar diferente ao campo do bilinguismo. Identificamos nessas pesquisas muitas das ideias de Vigotski de seu artigo Sobre a questão do multilinguismo na infância.
Após as buscas indicadas nas fontes acima foram selecionados alguns artigos com diferentes abordagens sobre o bilinguismo ou aquisição de segunda língua72.
Se tomarmos a análise feita por Saville-Troike (2007) sobre teorias e modelos formulados para abarcar as questões do campo da aquisição de segunda língua, podemos assumir que os artigos aqui selecionados estão primariamente fundamentados dentro de uma perspectiva social, com preocupações dentro do foco macrossocial.
Eles analisam variados contextos bilíngues que incluem, entre outros, crianças imigrantes inseridas em ambientes escolares com idioma diferente do ambiente doméstico; adultos vivendo em países estrangeiros; estudantes de ensino médio em salas de aula de aquisição de segunda língua; grupos de crianças inseridas em contextos escolares de imersão em uma segunda língua (educação bilíngue).
Nosso foco foi a busca por pesquisas que se utilizavam da contribuição da perspectiva histórico-cultural, e que, de certa maneira, se afastava do cognitivismo e evidenciava outros aspectos do desenvolvimento de crianças bilíngues ou de crianças inseridas em um contexto bilíngue. Dentre as pesquisas encontradas da perspectiva histórico-cultural, privilegiamos aquelas que consideramos mais relevantes no que diz respeito às questões da teoria de Vigotski e suas contribuições para o campo do bilinguismo e seu impacto no processo de desenvolvimento.
Também consideramos a relevância dos autores dentro da perspectiva histórico- cultural e a forma como assumem os conceitos elaborados por Vigotski na fundamentação de seus objetivos. Dentro disso vale ressaltar que as autoras John- Steiner e Saville-Troike, com trabalhos escritos da década de 80, são ainda retomadas
72 O termo aquisição de segundo língua é comumente utilizado no campo da lingusítica no que se refere aos diferentes modos de aprendizagem de língua estrangeira, principalmente na literatura de língua inglesa. Deste modo dentre a bibiliografia analisada para esse trabalho o esse é o principal termo encontrado e por isso faz-se necessário mencioná-lo.
em muitas análises do campo do bilinguismo dada a relevância de suas ideias para o aprofundamentos das questões do bilinguismo no desenvolvimento infantil.
Indicamos no quadro73 abaixo, os artigos selecionados, com seus títulos
originais, autor e ano de publicação.
Quadro 8
ARTIGO AUTOR
The road to competence in an alian land: a Vygotskian
perspective on bilingualism VERA JOHN-STEINER, 1985 Towards na explanatory model of bilingualism and
cognitive development RAFAEL M. DÍAZ e CYNTHIA KLINGLER, 1991 Private speech: evidence for second language learning
strategies during the 'silent' period MURIEL SAVILLE-TROIKE, 1988
Bilingual selves ANETA PAVLENKO, 2006
Perspectives on the 'silent period' of emergent bilinguals
in England CAROLINE BLIGH e ROSE DRURY, 2015
Fonte: elaborado pela pesquisadora.
Insistindo em encontrar artigos que tratassem do bilinguismo na perspectiva histórico-cultural, revisamos o conteúdo daquelas consideradas as principais obras na área e, foi então, que encontramos o artigo de Vera John-Steiner, The road to competence in an alian land: a Vygotskian perspective on bilingualism, que está no livro organizado por James Wertsch (1986) Culture, Communication, and Cognition: Vygotskian Perspectives. John-Steiner faz diversas referências aos estudos de Díaz, o que nos levou a aprofundar a busca de artigos desse autor.
Pesquisando por outros artigos de Díaz chegamos no livro Language Processing in bilingual Children, editado por Byalistok (1996). A autora reúne pesquisas que abordam a influência que o bilinguismo pode ter sobre aspectos linguísticos e cognitivos no desenvolvimento infantil, e um dos artigos é de Rafael Díaz, em parceria com Klingler que trazem a perspectiva vigotskiana para o problema dos efeitos do bilinguismo no desenvolvimento. Rafael Díaz também tem um artigo no
livro Vygotsky and Education: Instructional Implications and Applications of Sociohistorical Psychology, editado por Moll (1992).
O artigo de Aneta Pavlenko foi encontrado na análise do artigo Intrapersonal Communication and Internalization in the Second Language Classroom de James Lantolf (do livro Vygotsky’s Educational Theory in Cultural Context), onde ele fazia referência aos seus trabalhos em parceria com Aneta Pavlenko. Vale aqui salientar ainda que chegamos até os livros de James Lantolf a partir de nossa análise da tese de Quast (2009).
Ao procurar por mais artigos de Aneta Pavlenko encontramos seus estudos sobre personalidades bilingues, Bilingual Selves, e suas ideias de como as emoções estão entrelaçadas na constituição dessas personalidades diferentes para cada língua.
James Lantolf também cita o estudo de Saville-Troike de 1988 e foi também através dele que chegamos ao artigo de Saville-troike. Assim como Lantolf, outros autores aqui selecionados também apontam o estudo da autora como referência para o entendimento da fala privada em crianças bilingues.
Para chegarmos até o artigo mais atual, de Caroline Bligh e Rose Drury (2015) - Perspectives on the 'silent period' of emergent bilinguals in England – , foi preciso uma busca ainda mais demorada. Considerando que até então os artigos encontrados eram de mais de duas décadas atrás, adensamos as buscas nas plataformas online, disponíveis através do modulo remoto de bibliotecas da Unicamp, que dá acesso a diferentes sites de publicações acadêmicas. Foi por meio dessas buscas nas grandes plataformas online de busca acadêmica que chegamos ao artigo de Bligh e Drury.
Passaremos agora para uma pequena apresentação dos artigos selecionados para análise nesta pesquisa.
Em seu artigo “The road to competence in an alian land: a Vygotskyan perspective on bilingualism”74, Vera John-Steiner (1985) aborda diferentes panos de
fundo para suas análises em bilinguismo sob a perspectiva vigotskiana. A autora – a fim de apresentar evidências que apoiem sua tese de que a aquisição de segunda língua depende do nível de desenvolvimento da língua nativa (habilidades metalinguísticas) – revisa pesquisas que estudaram principalmente crianças
74 O caminho para a competência em uma terra alienígena: uma perspectiva vigotskiana sobre o
imigrantes inseridas em contextos escolares em situação de imersão ou sala de aula; além de outras que analisaram adultos vivendo em países estrangeiros e estudantes de ensino médio em salas de aula de aquisição de segunda língua.
Os autores Rafael Díaz e Cynthia Klingler (1996) analisam diferentes grupos de crianças inseridas em contextos escolares de imersão em uma segunda língua (educação bilíngue). Eles se concentraram em desenvolver um modelo explicativo sobre a relação entre bilinguismo e desenvolvimento cognitivo – apoiados nos resultados de habilidades metalinguísticas das crianças bilíngues – a partir da teoria Vigotskiana que leva em consideração principalmente a relação entre processos sociais e psicológicos em desenvolvimento.
Na pesquisa etnográfica feita por Saville-Troike (1988), o foco da análise está em crianças que passaram por um período silencioso, silent period, no início do desenvolvimento da segunda língua. Em seu artigo “Private speech: evidence for second language learning strategies during the silent period”75, ela analisou nove
crianças de origem chinesa, japonesa e coreana, de três a oito anos, filhas de estudantes estrangeiros de graduação da Universidade de Illinois. As crianças não possuíam nenhum conhecimento prévio na língua inglesa e passaram a frequentar o contexto da escolar regular. Saville-Troike fundamenta sua pesquisa sobre a visão vigotskiana de fala privada76, e nesse sentido destaca o importante papel dado a ela
por Vigotski como parte profunda e constante das funções psicológicas superiores e como organizadora, unificadora e integradora de aspectos como percepção, memória e solução de problemas (VIGOTSKI, 2007).
Caroline Bligh e Rose Drury (2015), em seu artigo “Perspectives on the 'silent period' of emergent bilinguals in England”77, apontam questões sobre como uma
jovem criança bilingue faz significações78 durante o período silencioso. O estudo foi
feito com crianças de origem indiana e asiática que frequentavam a pré-escola na
75Fala privada: evidencia para estratégias de aprendizagem de segunda língua durante o período silencioso (tradução nossa).
76 "Fala privada é o termo cunhado por Flavell (1966) para se referir à fala egocêntrica, conforme discutida por Vygotsky (1987, 2001), sendo então utilizado por pesquisadores que adotam a perspectiva histórico-cultural ao investigar o processo de ensino/aprendizagem de liguas estrangeiras, seguindo a recomendação de Wertsch (1979:79).A escolha do termo ‘fala privada’ deve-se ao fato deste não ter a conotação de inabilidade de adotar a perspectiva do outro, relacionada à concepção piagetiana". (QUAST, 2009, p. 2)
77 Perspectivas no 'periodo silencioso' de bilingues emergentes na Inglaterra (tradução nossa). 78 Make meaning (tradução nossa)
Inglaterra e cujas famílias mantinham a língua materna no ambiente doméstico. Para tanto, contextualizam essas significações dentro do conceito de participação periférica legítima79 definido pelos sucessores de Vigotski, Jean Lave and Etienne Wenger
(1991 apud BLIGH, 2014) e exploram, por meio de sua pesquisa etnográfica, a articulação de como o silencio medeia o acesso à participação de jovens crianças bilingues.
Pavlenko (2006) vai além e busca, em seus estudos sobre bilinguismo, evidenciar a questão de personalidades diferentes em indivíduos bilíngues a partir do entendimento das fontes atribuídas a essa autopercepção, trazendo à tona a questão das emoções. A autora analisa as respostas de um questionário eletrônico submetido a indivíduos bilingues e, a partir disso, procura entender as influências-chave que constroem as percepções individuais da relação entre língua e personalidade.
Passaremos agora para uma análise mais detida das pesquisas selecionadas, tentando apontar nossas reflexões sobre as contribuições das mesmas para melhor entendimento do campo do bilinguismo e suas relações com o desenvolvimento humano na perspectiva histórico-cultural.
CAPÍTULO 3: ANÁLISE DE PESQUISAS NO CAMPO DO BILINGUISMO FEITAS