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PARTE 1 Conceito e Contexto da Património Cultural

Diana Carvalho Historial do artigo:

1. PARTE 1 Conceito e Contexto da Património Cultural

1.1. Património Cultural - uma unidade social ou política?

“Para os efeitos da presente lei integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização” (Lei 107/2001, Artigo 2º: 5808).

Esta citação é o começo da definição das bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural. A sua apresentação está formatada por uma natureza “etic”, aliada de quem legisla. Esta definição pretende albergar um conjunto de elementos que considera serem parte de um todo, mas não hesita em categorizá-los, por exemplo: “O interesse cultural relevante, designadamente histórico, paleontológico, arqueológico, arquitectónico, linguístico, documental, artístico, etnográfico, científico, social, industrial ou técnico, dos bens que integram o património cultural reflectirá valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade” (D.R., nº209, 8/9/2001, Artigo 2º: 5808). Isto é apresentado publicamente sem uma definição concreta dos conceitos subjacentes da informação que está a ser emitida, como por exemplo, o de “autenticidade”. O que é a autenticidade na cultura, se não uma das forma de isolar o material do imaterial? E o que são “os valores de memória”? Parece expressão relativamente vaga que pretende conjugar e albergar todo um conjunto de experiências sociais que, na longa duração, são distintos e inconciliáveis, na medida em que a realidade social era uma hierarquia assente na projecção económica e cultural de cada classe. Também é de questionar o reflexo de “exemplaridade”. Pode dizer-se que o holocausto reflectiu um valor de exemplaridade? Pode dizer-se que foi singular? Único e irrepetível? Ou, pelo contrário, está numa linha de continuidade do comportamento humano? Não se procura responder a estas questões ou apresentar soluções definitivas, no entanto, para evitar uma pobre interpretação da legislação acerca do património cultural propõe-se fazer compreender estas afirmações e conceitos, descodificá-los, torná-los acessíveis, uma vez que a maioria da população não foi preparada pelos trâmites da burocracia para entender de forma directa o que pretendem as leis base do património cultural dizer de si mesmas. Não havendo um investimento na educação patrimonial para dotar a população e as suas comunidades de uma maior compreensão das leis que estão a ser impostas ao património que também lhes pertence, dificilmente haverá cooperação e entendimento entre os pelouros da cultura e as suas comunidades. A unidade e harmonia que se pretende entre política, cultura e sociedade, através dos trâmites oficiais, torna-se difícil de consolidar.

Não havendo uma total disponibilidade para um debate aprofundado sobre quem, como, quando, de onde e por que é que controla a noção geral de património cultural, existem outras fontes de informação que auxiliam a compreensão daquilo que é um tema indissociável do desenvolvimento das sociedades. É também nessas fontes que se foca o desenvolvimento deste artigo. Baseado nelas, segue-se um parágrafo que propõe uma perspectiva sobre a noção de património cultural.

Enquanto conceito, o património cultural deve ser compreendido como abrangendo duas dimensões, contemplando de forma intrínseca as suas expressões materiais ou imateriais. Enquanto produto deve ser autenticado e respeitado na sua renovação e negociação naturais,

em todas as gerações. É sobretudo necessário apreendê-lo como um processo composto por um conjunto de processos e por isso, não se pode definir e cristalizar num dado momento, pois o património cultural é uma construção social e cultural composta por produtos, práticas e significados ao longo e de várias gerações, sendo a sua construção um processo ativo e dinâmico no tempo e no espaço, dependente de acrescentos e novidades (VARINE, a, 2012). É, portanto, uma condição, uma herança, material e imaterial, composta por um conjunto de referentes humanos de uma determinada sociedade ou comunidade (SMITH, 2006).

1.2. O Património Cultural Imaterial - um tema controverso

“O PCI [Património Cultural Imaterial] significa as práticas, as representações, as expressões, o conhecimento, as competências – assim como os instrumentos, os objectos, os artefactos e os espaços sociais associados – que as comunidades, os grupos e, nalguns casos, os indivíduos reconhecem como parte do seu património cultural. Este PCI, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e pelos grupos em resposta ao seu ambiente, à sua interacção com a natureza e à sua história, e fornece-lhes um sentido de identidade e continuidade, assim promovendo o respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana.” (DUARTE, 2009: 46).

A designação de património cultural surge como um conceito conciliatório entre a dicotomia ´material´ e ´imaterial´ porque o conceito de património cultural imaterial, definido na citação em epígrafe, tornou-se conturbado, pois tem por base uma definição oficial que encerra contradições no sentido da sua “salvaguarda”. Os debates internacionais em torno do conceito de património intangível discutem a metodologia da UNESCO relativamente às suas regras de proteção do património imaterial. Determinou-se que a forma de o proteger é aplicando as mesmas regras que são utilizadas para preservação/conservação do Património material, como por exemplo, a inventariação. Contudo, mesmo para o património material, a inventariação não é suficiente: requer a aplicação de outras técnicas e uma articulação com as manifestações imateriais.

A UNESCO proclamou que o património imaterial “moribundo”, ou seja, património à beira de uma ruptura ou em risco de desaparecimento, responde aos critérios para ser listado e classificado, o que não só é limitativo como também é contraditório, pois se uma determinada prática se extingue numa determinada sociedade é porque já não constitui um objeto fundamental para a sua continuidade cultural, podendo dar lugar a uma nova “invenção” (HOBSBAWM, 2006) que perpetuará a construção cultural dessa sociedade. Segundo Alice Duarte (2009), a solução reside, em parte, na reformulação deste conceito, dado que as suas linhas de orientação acerca da conservação estão tendencialmente entregues a profissionais e pouco orientadas para os direitos das comunidades. Por conseguinte, tratar o património cultural imaterial ao nível oficial não é suficiente, porque é a dinâmica da construção cultural, conferida ao longo das várias gerações, que fomenta a sua continuidade. A reconceptualização proposta deverá contemplar a participação ativa das comunidades locais, tendo em vista, se pertinente, a perpetuação das tradições.

Uma das formas que permite a integração das comunidades no poder de decisão, relativamente ao seu património, é a sua formação. Vários autores subscreveram a esta opção,

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tais como ZANIRATO (2006) e HUGUES DE VARINE (a, 2012). No entanto, a educação patrimonial das comunidades, “É um ideal que será por muito tempo ainda difícil de se atingir na França, onde o hábito de ser servidos e assistidos por pessoas consideradas legítimas, competentes e responsáveis, corresponde à perda do hábito de cooperar no seio da sua comunidade de pertencimento.” (VARINE, a, 2012: 124).

Outra faceta do Património imaterial a ser reestruturada é o local onde é albergado, como por exemplo, o museu. A atualização dos museus é imperativa para uma melhorada inclusão e divulgação do Património imaterial, não se cingindo apenas à sua explicação mas alargando a sua projecção a demonstrações através da integração de membros das comunidades locais ou de eventos com elas concertados.

O património cultural imaterial é um ato dinâmico, capaz de se auto-renovar ao longo das gerações, pelo processo permanente de negociação de valores entre os membros da comunidade, em prole da manutenção e fortalecimento de laços culturais. Enquanto não se abolir a dicotomia material e imaterial, que impede que este conceito atinja a sua plenitude, não é possível compreender, ou evoluir, no sentido contrário ao da perda, ou seja, o da riqueza produzida por um património cultural, unificado nas suas vertentes. Por isso, é necessário não ficar pela discussão, alargando o diálogo entre todos os intervenientes, travando um conhecimento íntimo com as populações praticantes e produtoras das heranças culturais, recrutar o público, integrando os hábitos das pessoas nestes espaços de construção de memórias.