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Parte experimental

No documento rafaelcarvalhaesmachado (páginas 104-124)

Esquema 31: Representação do íon molecular e fragmentos para os derivados acridínicos

6.1 ATIVIDADE ANTIBACTERIANA

6.1.1 S aureus, E coli, P aeruginosa e S typhimurium

6.1.1.1 Parte experimental

Os ensaios biológicos para a determinação da concentração inibitória mínima (CIM) dos compostos preparados neste trabalho contra as bactérias S. aureus, E. coli, P. aeruginosa e S. typhimurium foram realizados no Laboratório de Produtos Naturais Bioativos no Departamento de Bioquímica da UFJF – campus Juiz de Fora, MG, sob supervisão da Profa. Dr. Elita Scio Fontes.

O ensaio de determinação da concentração inibitória mínima foi baseado no método proposto por Eloff (1998), sendo as substâncias sintéticas testadas frente a quatro linhagens de bactérias Salmonella entérica serovar typhimurium (ATCC 13311), Escherichia coli (ATCC 10536), Pseudomonas aeruginosa (ATCC 9027) e Staphylococcus aureus (ATCC25923). O ensaio foi realizado em duplicata e todas as cepas foram gentilmente cedidas pelo Laboratório Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde – INCQS – Fio Cruz, Rio de Janeiro. Foi preparada solução estoque de cada um dos compostos 1 mg/mL (80% caldo e 20% DMSO). O teste foi realizado em microplaca de 96 poços. Na linha A da placa foi adicionado 200 µL de caldo Muller Hinton (MH) e 160 µL da solução estoque do composto e da segunda a quarta fileira foi adicionado 180 µL de caldo. Em seguida, foi realizada uma microdiluição, obtendo-se os compostos nas concentrações de 100, 50, 25 e 12,5 µg/mL. Posteriormente foi adicionado a cada poço 20 µL do inóculo, dentro da escala McFarland entre 0,5 e 1. Os poços das colunas 11 e 12 foram reservados para a realização do controle negativo (linha A), apenas caldo MH estéril, e outros para o controle positivo de cada bactéria (linhas B, C e D), contendo caldo MH e bactéria. Também foi preparado o branco de cada amostra, caldo estéril com substância teste (ELOFF, 1998). A concentração mínima inibitória para o antibiótico eritromicina usado como referência foi determinada nas mesmas condições dos testes.

105 6.1.1.2 Resultados e Discussão

Os resultados dos ensaios realizados para os derivados piridínicos encontram-se na tabela 16.

Tabela 16: Atividade antibacteriana dos derivados 4-piridinil tiossemicarbazidas e semicarbazidas COMPOSTOS Estrutura (CIM – μg/mL)a Z R S. aureus E. coli P. aeruginosa S. typhimurium CP-PiTb S H >100 >100 >100 >100 1a S metil >100 >100 >100 >100 1b S n-butil >100 >100 >100 >100 1c S n-octil 50 50 50 25 1d S >100 >100 >100 >100 1e S NAd NAd NAd NAd 1f S >100 100 100 50 1g S NAd NAd NAd NAd 1h S >100 >100 >100 >100 1i S 50 >100 50 50 1j S >100 >100 100 100 CP-PiSc O H NAd NAd NAd NAd 2c O n-octil >100 >100 >100 >100 2e O >100 >100 >100 >100 2h O >100 >100 >100 >100 2j O >100 >100 100 100 Eritromicinae 50 50 50 50

aCIM: concentração inibitória mínima; bCP-PiT: Composto protótipo piridina-tiossemicarbazida;

cCP-PiS: composto protótipo piridina-semicarbazida; dNA – não avaliado; eFármaco utilizado

como referência.

Fonte: ELABORADA PELO PRÓPRIO AUTOR

Os resultados revelaram que a grande maioria dos compostos sintetizados não apresentou atividade antibacteriana nas concentrações avaliadas (12,5, 25, 50 e 100 μg/mL) porém, os compostos (1c), (1f) e (1i) apresentaram atividade antibacteriana, com uma CIM variando entre 25 e 50 μg/mL. O composto (1c) mostrou-se ativo frente as 4 espécies de bactérias testadas apresentando-se duas vezes mais ativo (CIM = 25 μg/Ml)

106 que a eritromicina (CIM = 50 μg/mL) contra a espécie de S. typhimurium e igualmente ativo (CIM = 50 μg/mL) a este fármaco de referência contra as demais espécies avaliadas. O derivado (1i), foi o segundo composto mais ativo desta classe apresentando atividade equiparada a eritromicina (CIM = 50 μg/mL) contra as espécies de S. aureus, P. aeruginosa e S. typhimurium. O composto (1f), mostrou-se ativo, CIM = 50 μg/mL, apenas contra a espécie de S. typhimurium.

Estes resultados sugerem que o maior caráter lipofílico apresentado pelo composto (1c), devido a presença do substituinte n-octil, pode favorecer a atividade antibacteriana quando comparado com o resultado apresentado pelo composto-protótipo piridina- tiossemicarbazida. Contudo, o análogo oxigenado, (2c), não foi ativo até a concentração máxima avaliada, indicando que o átomo de enxofre exerce influência positiva sobre a atividade antibacteriana.

Na tabela 17 estão descritos os resultados a atividade antibacteriana dos derivados quinolínicos.

Tabela 17: Atividade antibacteriana dos derivados 7-cloro-4-quinolinil tiossemicarbazidas e semicarbazidas (continua) COMPOSTOS Estrutura (CIM – μg/mL)a Z R S. aureus E. coli P. aeruginosa S. typhimurium CP-QTb S H 50 50 100 50 3a S metil >100 >100 >100 >100 3b S n-butil >100 >100 >100 >100 3c S n-octil 12,5 12,5 >100 >100 3d S 12,5 100 100 25 3e S >100 >100 >100 >100 3f S >100 >100 >100 100 3g S >100 >100 >100 100 3h S 100 >100 >100 >100 3i S >100 >100 >100 >100 3j S >100 >100 >100 >100 CP-QSc O H >100 >100 100 100

107 Tabela 17: Atividade antibacteriana dos derivados 7-cloro-4-quinolinil

tiossemicarbazidas e semicarbazidas (conclusão) COMPOSTOS Estrutura (CIM – μg/mL)a Z R S. aureus E. coli P. aeruginosa S. typhimurium 4a O metil >100 >100 >100 100 4c O n-octil >100 >100 >100 >100 4e O >100 >100 >100 >100 4h O >100 >100 >100 >100 4j O >100 >100 >100 >100 Eritromicinad 50 50 50 50

aCIM: concentração inibitória mínima; bCP-QT: composto protótipo quinolina-tiossemicarbazida;

cCP-QS: composto protótipo quinolina-semicarbazida; dFármaco utilizado como referência.

Fonte: ELABORADA PELO PRÓPRIO AUTOR

Dentre os derivados quinolínicos, os compostos CP-QT, (3c) e (3d) exibiram atividade em pelo menos duas espécies de bactérias com os valores de CIM variando entre 12,5 e 50 μg/mL. O composto (3c) apresentou atividade 4 vezes maior (CIM = 12,5 μg/ml) que a eritromicina (CIM = 50 μg/mL) frente as espécies S. aureus e E. coli, enquanto o composto (3d) exibiu atividade superior a eritromicina frente as espécies de S. aureus e S. typhimurium, CIM = 12,5 e 25 μg/mL, respectivamente.

Comparando os compostos ativos CP-QT e (3c), com seus respectivos análogos oxigenados, observa-se que os últimos não apresentaram atividade antibacteriana nas concentrações avaliadas, sugerindo mais uma vez que o átomo de enxofre exerce influência positiva na ação antibacteriana deste grupo de moléculas. Baseando-se ainda na estrutura dos compostos ativos, vale ressaltar que a inserção do grupo n-octil (derivado (3c)) na posição N-4 da tiossemicarbazida resultou no aumento da atividade antibacteriana frente as espécies de S. aureus e E. coli quando comparado ao protótipo CP-QT (R = H). Tal fato pode estar relacionado novamente com o aumento da lipofilicidade.

Os resultados obtidos dos ensaios biológicos dos derivados acridínicos estão listados na tabela 18.

108 Tabela 18: Atividade antibacteriana dos derivados 9-acridinil tiossemicarbazidas e

semicarbazidas COMPOSTOS Estrutura (CIM – μg/mL)a Z R S. aureus E. coli P. aeruginosa S. typhimurium 5a S H >100 >100 >100 >100 5b S metil >100 >100 >100 100 5c S n-butil >100 >100 >100 >100 5d S n-octil >100 >100 >100 >100 5e S >100 >100 100 50 5f S >100 >100 100 100 5g S 100 >100 >100 25 5h S >100 >100 100 100 5i S >100 >100 >100 >100 6a O H >100 >100 >100 >100 6b O metil >100 >100 100 50 6c O n-octil >100 >100 >100 >100 6d O >100 >100 >100 >100 6e O >100 >100 100 100 6f O >100 >100 >100 >100 Eritromicinab 50 50 50 50

aCIM: concentração inibitória mínima; bFármaco utilizado como referência.

Fonte: ELABORADA PELO PRÓPRIO AUTOR

Dentre os derivados acridínicos avaliados, os compostos ativos foram (5e), (5g) e (6b), os quais apresentaram ação antibacteriana frente a espécie S. typhimurium, CIM= 50, 25 e 50 μg/mL, respectivamente. Os compostos ativos desta classe mostraram-se seletivos a esta espécie de bactéria exibindo atividade antibacteriana comparável ou superior ao apresentado pelo fármaco de referência eritromicina (CIM = 50 μg/mL).

A análise dos resultados dos ensaios biológicos destas três classes nos permite relacionar a atividade antibacteriana dos compostos sob três aspectos estruturais: 1) a subunidade (tio)semicarbazida; 2) o caráter do substituinte R e 3) o núcleo heterocíclico. De modo geral, os compostos contendo a subunidade semicarbazida não foram ativos nas concentrações avaliadas, com exceção do composto (6b), enquanto os

109 compostos contendo a subunidade tiossemicarbazida, compostos (1c), (1f), (1i), CP-QT, (3c), (3d), (5e) e (5g), exibiram atividade antibacteriana. Tal comportamento sugere que o átomo de enxofre tem influência na atividade. Uma vez que os compostos (1c) e (3c) (R = n-octil) foram os derivados sintéticos mais ativos, infere-se que a lipofilicidade exercida pelo substituinte R foi um fator diferencial na atividade antibacteriana destas moléculas. Com respeito a contribuição do heterociclo na atividade antibacteriana, nota- se que o composto (1c) (Heterociclo = Piridina) foi ativo em todas as espécies de bactérias testadas (CIM = 25 a 50 μg/mL) enquanto que o composto (3c) (Heterociclo = Quinolina), exibiu melhor ação antibacteriana que o composto (1c) frente as bactérias S. aureus e E. coli (CIM = 12,5 μg/mL) e o composto (5d) (Heterociclo = Acridina), por sua vez, não apresentou atividade antibacteriana.

6.1.2 Tuberculose

A tuberculose (TB) é uma doença bacteriana infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium tuberculosis (MBT) e, por se tratar de uma das doenças infecciosas que mais causa mortes no mundo é considerada como um grave problema de saúde pública mundial.

A rifampicina, fármaco de primeira escolha mais efetiva contra TB, é utilizada desde a década de 60 e, atualmente o tratamento de novos casos de TB baseia-se na combinação de fármacos de primeira escolha: isoniazida, rifampicina, etambutol e pirazinamida administradas durante um período de seis meses. No caso de cepas de M. tuberculosis resistentes a múltiplos fármacos (MDR-TB), ou seja, cepas resistentes à isoniazida e rifampicina, estas precisam ser tratadas com fármacos mais tóxicos e de custo elevado como etionamida e tiacetazona, fármacos de segunda escolha, por um período de tempo mais longo (WHO, 2013). As estruturas químicas destes fármacos estão representadas na figura 67.

A falta de adesão às terapias, o surgimento de cepas multirresistentes aos fármacos já utilizados e a coinfecção com o vírus da AIDS comprometem o controle da tuberculose e estimulam a busca por novos agentes anti-TB.

110 Figura 67: Estrutura química de fármacos empregados contra TB

Fonte: ELABORADA PELO PRÓPRIO AUTOR

6.1.2.1 Parte Experimental

Os ensaios biológicos para a determinação do potencial anti-TB de alguns compostos preparados neste trabalhos foram realizados no Laboratório de Micobacteriologia no Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP - campus Araraquara, SP, sob supervisão do Prof. Dr. Fernando Rogério Pavan.

A atividade anti-TB dos compostos sintéticos foi determinada pelo Ensaio de Microdiluição com Resazurina, denominado método REMA (Resazurin Microtiter Assay) (PALOMINO et al., 2002). Soluções estoque dos compostos sintéticos a serem analisados foram preparadas em DMSO e diluídas em meio Middlebrook 7H9 (Difco), enriquecido com ácido oleico, albumina, dextrose e catalase (enriquecimento OADC - BBL/Bectron Dickinson, Sparks, MD, USA), de modo a se obter concentrações dos compostos sintéticos variáveis entre 0,15 e 250 µg/mL. A isoniazida foi dissolvida em água destilada, de acordo com as recomendações do fabricante (Laboratórios Difco, Detroit, MI, USA) e utilizada como fármaco de referência. A cepa de M. tuberculosis H37Rv ATCC 27294 foi cultivada durante 7 a 10 dias em meio Middlebrook 7H9 enriquecido com OADC, mais 0,05% de Tween 80, para evitar grumos. Após uma diluição adicional de 1:25 em meio Middlebrook 7H9 enriquecido com OADC, 100 µL da cultura foi transferida para cada um dos 96 poços de uma microplaca (NUNCTM), juntamente com os compostos sintéticos a serem analisados. Cada análise foi realizada

111 em triplicata. As microplacas foram incubadas durante 7 dias a 37ºC, quando foi então adicionada resazurina. Após 24 h foi feita a leitura da fluorescência num microfluorímetro SpectraFluor Plus (Tecan®) (filtros: 530 nm de excitação e 590 nm de emissão). Os poços nos quais houve alteração da coloração de azul para rosa, com desenvolvimento de fluorescência, indicaram crescimento das células bacterianas, enquanto a manutenção da coloração azul indicou inibição bacteriana.

Os resultados foram expressos em concentração inibitória mínima (CIM), medida que é definida como a menor concentração de um composto capaz de inibir o crescimento de 90% da cepa de M. tuberculosis (COLLINS; FRANZBLAU, 1997). Como teste padrão, a CIM da isoniazida foi determinada em cada microplaca. A faixa aceitável de CIM para a isoniazida é 0,015-0,06 μg/mL (COLLINS; FRANZBLAU, 1997).

6.1.2.2 Resultados e Discussão

Os resultados obtidos dos testes anti-TB para alguns dos compostos sintetizados neste trabalho encontram-se na tabela 19. De acordo com o National Health Institute (NHI) novos candidatos anti-TB devem apresentar valores de CIM < 6,25 μg/mL (ou o equivalente molar) contra culturas de MBT (PROGRAM, 2001). Com base nos resultados obtidos nenhum dos compostos sintéticos avaliados são considerados promissores agentes anti-TB. Contudo, dentre os compostos avaliados os que apresentaram menores valores de CIM foram os derivados (1c), (2h) e (6e) (CIM = 12,5 μg/mL).

Tabela 19: Atividade antitubercular das 4-piridinil, 7-cloro-4-quinolinil e 9-acridinil tiossemicarbazidas e semicarbazidas (continua) Estrutura Compostos CIM a (μg/mL) Compostos CIM a (μg/mL) Compostos CIM a (μg/mL) Z R S H CP-PiTb 62,5 CP-QTd 31,3 5a >25 S n-octil 1c 12,5 3c >25 5d >25 S 1e >25 3e >25 5f >25 S 1h >25 3h >25 5g >25

112 Tabela 19: Atividade antitubercular das 4-piridinil, 7-cloro-4-quinolinil e 9-acridinil

tiossemicarbazidas e semicarbazidas (conclusão) Estrutura Composto s CIMa (μg/mL ) Composto s CIMa (μg/mL) Composto s CIMa (μg/mL ) Z R S 1j >25 3j >25 5i >25 O H CP-PiSc >25 CP-QSe 125 6a >25 O n-octil 2c >25 4c >25 6c >25 O 2e >25 4e >25 6d >25 O 2h 12,5 4h >25 6e 12,5 O 2j >25 4j >25 6f >25 Isoniazidaf 0,03

aCIM: concentração inibitória mínima; bCP-PiT: composto protótipo piridina-tiossemicarbazida;

cCP-PiS: composto protótipo piridina-semicarbazida; dCP-QT: composto protótipo quinolina-

tiossemicarbazida; eCP-QS: composto protótipo quinolina-semicarbazida; fFármaco utilizado

como referência.

Fonte: ELABORADA PELO PRÓPRIO AUTOR

6.2 ATIVIDADE ANTICÂNCER

O câncer é caracterizado como um crescimento descontrolado de células o qual pode invadir e se espalhar para várias partes do corpo. Há mais de cem tipos diferentes de cânceres resultantes de diferentes anomalias celulares. Depois das doenças cardíacas, o câncer é uma das principais causas de morte em todo o mundo. 30% dos casos de câncer são causados por tabagismo enquanto outros 30% estão relacionados com a alimentação. Alguns cânceres também podem ser formados por razões genéticas. Os cinco tipos de câncer mais frequentes em homens são os cânceres de pulmão, próstata, colorretal, estômago e fígado. Nas mulheres os mais frequentes são os cânceres de mama, colorretal, pulmão, colo do útero e estômago.

113 O principal problema associado ao tratamento do câncer é o fato de que ele não é uma doença única e desta forma um tratamento que é efetivo no controle de um tipo de câncer pode ser ineficaz para outro (PATRICK, 2009). Além dos tratamentos tradicionais que incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia o tratamento do câncer emprega o uso de terapia combinada (uso simultâneo de vários fármacos anticâncer com diferentes mecanismos de ação) a qual é mais efetiva que o uso de um único fármaco. As principais vantagens da terapia combinada incluem aumento da eficiência, diminuição da toxicidade e de riscos de resistência ao fármaco (PATRICK, 2009).

Os principais agentes quimioterápicos empregados no tratamento do câncer apresentam diversos efeitos farmacológicos nas células podendo agir diretamente no DNA inibindo suas várias funções, inibir enzimas envolvidas na síntese de DNA ou de seus nucleotídeos, interferir na síntese de hormônios essenciais à células cancerígenas ou atuar por outros mecanismos (KIDWAI et al., 2001). Alguns exemplos de fármacos anticâncer estão representados na figura 68.

Figura 68: Exemplos de fármacos com ação anticâncer

Fonte: ELABORADA PELO PRÓPRIO AUTOR

6.2.1 Parte Experimental

Os ensaios biológicos para a determinação da atividade citotóxica dos compostos preparados neste trabalho foram realizados no Núcleo de Investigação de Complexos de Platina (NICOP)no Departamento de Química da UFJF - campus Juiz de Fora, MG, sob supervisão da Profa. Dra. Heveline Silva.

A atividade citotóxica foi investigada contra linhagens de células tumorais, tais como células cancerígenas de cólon (CT26) e melanoma metastático de rato (B16F10) e em linhagens de células não tumorais como células BHK-21. Todas as linhagens celulares foram propagadas em meio de cultura RPMI 1640, pH 7,4, suplementado com 10% de

114 Soro Bovino Fetal (SBF) inativado por calor, HEPES (4,0 mmol/L), NaHCO3 (14,0 mmol/L), ampicilina (0,27 mmol/L) e estreptomicina (0,06 mmol/L).

As células foram recolhidas por tripsinização e semeadas em placas de cultura de tecidos com 96 poços (100 μL/poço) a uma densidade definida (1 x 103 células viáveis/poço) e incubadas a 37°C em atmosfera umidificada contendo 5% de CO2 durante 24 h. As soluções estoque das substâncias em DMSO foram diluídas em série no meio de cultura (<1 % DMSO). Após a exposição da substância sintética por 72 a 37°C e 5% de CO2, as células foram incubadas com MTT (0,01 mol/L em solução aquosa – 10 μL/poço) durante um período de 4 h a 37°C e 5% de CO2. O MTT é metabolizado por células viáveis resultando em um complexo violeta que após ser solubilizado em 100 μL de DMSO, pode ser quantificado pelo método colorimétrico (absorbância em 570 nm).

O controle negativo (valor de 100% de viabilidade) foi obtido com a exposição de células no meio RPMI 1640 suplementado com 10% de SBF. A cisplatina foi utilizada como controle positivo contra estas linhagens de células.

6.2.2 Resultados e Discussão

Os resultados da atividade citotóxica para os alguns dos derivados piridínicos de tiossemicarbazida e semicarbazida estão listados na tabela 20.

Tais resultados mostram que os compostos, CP-PiT, (1a), (1h), CP-PiS, (2e) e (2h), não exibiram toxicidade em células saudáveis (BHK-21) e nem em células cancerígenas (CT26 e B16F10) enquanto o composto (2j), que também não apresentou toxicidade para células normais, mostrou-se tóxico apenas para as células tumorais. Os demais derivados, compostos (1c), (1j) e (2c), apesar de serem tóxicos para ambas as linhagens de células tumorais não exibiram um índice de seletividade aceitável em comparação às células normais.

Comparando os compostos ativos, (1c), (1j), (2c) e (2j) nota-se que os compostos (1c) e (2c) (R = n-octil) exibiram maior toxicidade do que os derivados (1j) e (2j) (R = p- ClC6H4) fato que pode estar relacionado com o maior caráter lipofílico apresentado por estas substâncias. Vale ressaltar também que o átomo de enxofre parece influenciar na toxicidade das substâncias nas quais se encontra uma vez que os compostos sulfurados, (1c) e (1j) são mais tóxicos para ambas as células tumorais e saudáveis que seus respectivos análogos oxigenados, (2c) e (2j).

115 Tabela 20: Atividade citotóxica contra células tumorais (CT26 e B16F10) e não tumorais (BHK-21) dos derivados piridínicos

Compostos Z R CT26 - CI50a (μM ± DP) ISb B16F10 - CI50a (μM ± DP) ISb BHK-21 - CI50 a (μM ± DP) CP-PiTc S H >100 NDf >100 NDf >100 1a S metil >100 NDf >100 NDf >100 1c S n-octil 3,6 ± 1,4 1,5 24,5 ± 7,0 0,2 5,5 ± 1,6 1eg S - - - - - 1h S >100 NDf >100 NDf >100 1j S 64,5 ± 5,0 1,1 37,9 ± 7,0 1,9 74,2 ± 0,8 CP-PiSd O H >100 >100 >100 NDf >100 2c O n-octil 18,6 ± 2,8 1,7 45,8 ± 1,2 0,7 36,6 ± 2,1 2e O >100 NDf >100 NDf >100 2h O >100 NDf >100 NDf >100 2j O 62,6 ± 0,7 NDf 61,8 ± 3,1 NDf >100 Cisplatinae <0,1 392,0 0,9 ± 0,7 43,6 39,2 ± 1,0 aCI

50: concentração inibitória de 50% do crescimento celular; b IS: Índice de seletividade. Obtido pelo CI50(célula saudável)/CI50(célula tumoral); cCP-PiT:

composto protótipo piridina-tiossemicarbazida; dCP-PiS: composto protótipo: piridina-semicarbazida; eFármaco utilizado como referência. fND: valor não

determinado; g composto insolúvel.

116 Os valores obtidos para a atividade citotóxica dos derivados quinolínicos estão descritos na tabela 21.

Para alguns compostos desta classe não foi possível a determinação do CI50 em virtude de sua precipitação durante a realização do ensaio biológico. Dentre os compostos avaliados, os derivados CP-QT e CP-QS, não apresentaram toxicidade em nenhuma das células empregadas enquanto o composto (3h), mostrou-se tóxico para todas as linhagens de células avaliadas. Em relação aos derivados (3a) e (4a), análogos sulfurado e oxigenado, respectivamente, observou-se que ambos foram tóxicos para as células tumorais B16F10 porém, apenas o derivado oxigenado apresentou seletividade para as células cancerígenas. A comparação entre estes dois compostos mostra uma tendência contrária a observada para os derivados piridínicos ativos em que os compostos sulfurados apresentavam maior toxicidade que os análogos oxigenados.

117 Tabela 21: Atividade citotóxica contra células tumorais (CT26 e B16F10) e não tumorais (BHK-21) dos derivados quinolínicos

Compostos Z R CT26 - CI50a (µM DP) ISb B16F10 - CI50a (µM DP) ISb BHK-21 - CI50a (µM DP) CP-QTc S H >100 NDf >100 NDf >100 3a S metil >100 NDf 71,9 ± 0,4 0,7 48,2 ± 2.8 3cg S n-octil - - - - - 3eg S - - - - - 3h S 22,9 ± 2,7 0,8 38,1 ± 3,3 0,5 18,3 ± 3,3 3jg S - - - - - CP-QSd O H >100 NDf >100 NDf >100 4a O metil 42,4 ± 1,1 NDf 46,9 ± 4,5 NDf >100 4cg O n-octil - - - - - 4eg O - - - - - 4hg O - - - - - 4jg O - - - - - Cisplatinae <0,1 392,0 0,9 ± 0,7 43,6 39,2 ± 1,0 aCI

50: concentração inibitória de 50% do crescimento celular; b IS: Índice de seletividade. Obtido pelo CI50(célula saudável)/CI50(célula tumoral); cCP-QT:

composto protótipo quinolina-tiossemicarbazida; dCP-QS: composto protótipo: quinolina-semicarbazida; eFármaco utilizado como referência. fND: valor não

determinado; gcomposto insolúvel.

118 Na tabela 22 encontram-se descritos os resultados da atividade citotóxica dos derivados acridínicos.

Novamente, a baixa solubilidade de alguns compostos sintéticos no meio de cultura, comprometeu a determinação de seus valores de CI50. De maneira geral, para os compostos (5a), (5b), (5c), (5e), (5h), (6a), (6b) e (6e), para os quais foi possível a avaliação da atividade citotóxica, observou-se que os mesmos exibiram toxicidade frente as células saudáveis, com exceção dos derivados (5e) e (5h). Para aqueles que também exibiram toxicidade nas células tumorais, compostos (5a), (5b), (5c) e (6b), a concentração necessária para tal ação já era suficiente para causar toxicidade às células saudáveis.

119 Tabela 22: Atividade citotóxica contra células tumorais (CT26 e B16F10) e não tumorais (BHK-21) dos derivados acridínicos

(continua) Compostos Z R CT26 - CI50a (µM DP) ISb B16F10 - CI50a (µM DP) ISb BHK-21 - CI50a (µM DP) 5a S H 52,9 ± 4,4 0,7 49,1 ± 1,3 0,8 37,3 ± 2,5 5b S metil 34,6 ± 2,1 0,8 30,8 ± 1,1 1,0 29,6 ± 2,3 5c S n-butil 32,1 ± 7,0 0,7 72,4 ± 7,8 0,3 22,6 ± 6,4 5de S n-octil - - - - - 5e S >100 NDd >100 NDd >100 5fe S - - - - - 5ge S - - - - - 5h S >100 NDd >100 NDd >100 5ie S - - - - - 6a O H >100 NDd >100 NDd 61,2 ± 3,3 6b O metil >100 - 19,5 ± 0,7 1,0 19,2 ± 2,1 6ce O n-octil - - - - - 6de O - - - - -

120 Tabela 22: Atividade citotóxica contra células tumorais (CT26 e B16F10) e não tumorais (BHK-21) dos derivados acridínicos

(conclusão) Compostos Z R CT26 - CI50a (µM DP) ISb B16F10 - CI50a (µM DP) ISb BHK-21 - CI50a (µM DP) 6e O >100 NDd >100 NDd 31,1 ± 3,4 6fe O - - - - - Cisplatinac <0,1 392,0 0,9 ± 0,7 43,6 39,2 ± 1,0 aCI

50: concentração inibitória de 50% do crescimento celular; b IS: Índice de seletividade. Obtido pelo CI50(célula saudável)/CI50(célula tumoral); cFármaco

utilizado como referência. dND: valor não determinado; ecomposto insolúvel.

121 7 CONCLUSÕES

Neste trabalho foi descrita a preparação de 68 compostos dos quais 39 são inéditos, a saber: 2 tiossemicarbazidas (8b e 8c), 1 semicarbazida (9b), 10 derivados de 1-(4-piridinil)tiossemicarbazidas (1a-j), 4 derivados de 1-(4-piridinil)semicarbazidas (4a, 4c, 4e, 4h e 4j), 10 derivados de 1-(7-cloro-4-quinolinil)tiossemicarbazidas (3a-j), 4 derivados de 1-(7-cloro-4-quinolinil)semicarbazidas (4a, 4c, 4e, 4h e 4j), 9 derivados de 1-(9-acridinil)tiossemicarbazidas (5c, 5d, 5e, 5h e 5i) e 2 derivados de 1-(9- acridinil)semicarbazidas (6c e 6f).

Utilizando a estratégia de hibridação molecular, foram preparados os compostos aqui denominados 4-piridinil-tiossemicarbazidas e semicarbazidas, 4-(7-cloro)- quinolinil-tiossemicarbazidas e semicarbazidas e 9-acridinil-tiossemicarbazidas e semicarbazidas. Tais compostos foram planejados para conter as unidades farmacofóricas piridina, quinolina e acridina, além das unidades tio e semicarbazidas. Os heterociclos foram escolhidos por serem unidades farmacofóricas já presentes em diversos compostos bioativos, particularmente em antibacterianos e antitumorais e as subunidades tiossemicarbazidas e semicarbazidas devido ao seu amplo perfil farmacológico.

A preparação destes compostos foi realizada por duas rotas sintéticas distintas: uma empregou a reação de SNAr entre os derivados halo-heterocíclicos (4-cloropiridina, 4,7-dicloroquinolina e 9-cloroacridina) e as tiossemicarbazidas e semicarbazidas N-4 substituídas; a outra, procedeu-se através da reação de adição dos derivados heterocíclicos de hidrazina (4-hidrazinopiridina, 7-cloro-4-hidrazinoquinolina e 9-hidrazinoacridina) aos isotiocianatos e isocianatos. A escolha da melhor rota sintética dependeu do heterociclo, dos substituintes dos isotiocianatos ou isocianatos e dos substituintes das tiossemicarbazidas e semicarbazidas.

Em resumo, os derivados piridínicos foram obtidos através da reação de adição, com exceção do derivado (1a) que foi obtido pela reação de SNAr. Os rendimentos para

No documento rafaelcarvalhaesmachado (páginas 104-124)

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