Capítulo II: Voronoff visita o Brasil
3. Parte Voronoff; ficam os macacos e os operados
No dia seguinte, depois de receber as últimas visitas no Esplanada Hotel, no qual se hospedava, Voronoff partiu para Santos, onde conheceu a Delegacia de Saúde e o Hospital de Isolamento, na companhia de Desiderio Staples, Madeira de Freitas e Belmiro Valverde, que o acompanharam, ainda, em um passeio ao Guarujá (Correio Paulistano, 25 jul 1928, p. 4). A reportagem do Correio Paulistano informa que na manhã do dia 25, Voronoff se dirigiu ao porto de Santos, para embarcar no “Cap Arcona”, o navio que o levaria para Montevidéu.
Dos macacos que havia trazido consigo e que ficaram expostos no Jardim Zoológico durante o mês de julho, dois foram enviados a Buenos Aires. Os nove82 demais foram doados a instituições científicas brasileiras83, para que o Brasil pudesse iniciar sua própria criação de cinocéfalos (Diário Nacional, 25 jul 1928, p. 3). Uma vez que o valor de cada macaco era estimado em torno de nove ou dez mil francos, o “gesto de cordialidade” de Voronoff à classe médica brasileira foi calculado como algo em torno de noventa mil francos. (Diário Nacional, 25 jul 1928, pp. 1 e 3; Correio Paulistano, 20 jul 1928, p. 10). O Diário Nacional acrescenta:
Sabemos que se vae promover, junto ao governo do Estado, uma representação medica, solicitando que seja enviada aos nossos sertões uma commissão scientifica que se destinará ao estudo dos nossos macacos, suas especies e modalidades, procurando, ainda, proceder a uma captura, em grande escala, dos que forem considerados bons, para servirem de doadores ao homem (Diário Nacional, 25 jul 1928, p. 1).
No dia primeiro de agosto foi noticiado que Feliciano de Moraes havia retornado ao Hospital Evangélico. Acompanham esta notícia alguns rumores, sobre o operado de Voronoff, impaciente, não ter respeitado o repouso que lhe fora recomendado, o que lhe teria trazido complicações de infecção, fazendo-se necessária uma segunda intervenção, executada pelo Dr. Castro Araújo, ou mesmo a remoção do enxerto (A Noite, 1º ago 1928, p. 3; Diário
Nacional, 2 ago 1928, p. 1). Mais tarde, o próprio Diário Nacional e o Correio da Manhã
divulgam o esclarecimento que lhes deram o Dr. Castro Araújo e o próprio Feliciano de Moraes sobre o caso. Estes afastam os rumores, explicando aos jornais que o ocorrido havia sido um simples retorno do paciente para avaliação de seu estado, em data prevista, que não implicou em nenhuma intervenção. Havia um pequeno hematoma na região operada, avaliado
82 Note-se aqui uma imprecisão em relação a este número. Se eram dez os animais que vieram pelo Alcântara, e
dois os encaminhados para a Argentina, os macacos que restaram, incluindo aquele utilizado na operação de Feliciano, deveriam ser oito.
pelo médico como inofensivo e até esperado (Correio da Manhã, 2 ago 1928, p. 3; Diário
Nacional, 3 ago 1928, p. 8).
Ao que indica o Diário Nacional, o touro Mozart, mais de vinte dias depois de enxertado, continuava doente. Desde a data de sua operação sua saúde não era das melhores e um dos enxertos havia supurado (Diário Nacional, 12 ago 1928, p. 8). É bem provável que o animal tenha morrido naquele mesmo ano. Quanto ao carneiro “voronoffizado” no Rio de Janeiro, não foi encontrada, nesta pesquisa, nenhuma informação relativa a seu estado depois da operação.
No dia 7 de agosto Voronoff esteve, mais uma vez, no Rio de Janeiro, durante uma escala do Andalucia – o transatlântico que o conduziu de volta à Europa – no cais Mauá. A brevidade desta escala fez com que Voronoff suspendesse de vez a operação da “Mme. Lima”, pensada para aquele dia.
No entanto, enquanto o transatlântico esteve atracado no porto, o médico-cirurgião pôde receber na cabine de luxo do Aldalucia alguns colegas e admiradores, falar a alguns jornais, e avaliar as condições de Feliciano de Moraes. Houve ainda, um rápido passeio de automóvel pela cidade e, por fim, um discurso entusiasmado feito por um jovem clínico, Dr. Wenceslau Junior, em sua homenagem. Pode-se inferir que Voronoff esteve mais preocupado com a publicidade em torno de sua figura do que com as operações propriamente ditas.
Foi um representante d‟O Jornal, “em lancha especial”, que conseguiu abordar Voronoff para uma última entrevista, na qual o médico-cirurgião reporta a excelente impressão que tivera das repúblicas do Prata, e o vivo interesse dos governos locais sobre seu método de enxertia de animais. A indústria pastoril argentina, aliás, já o empregava em seus rebanhos havia cerca de um ano (O Jornal, 8 ago 1928, p. 1).
Nas palavras do redator d‟O Jornal, “debruçado à amurada”, o franco-russo expunha “todo o contentamento que lhe ia n‟alma”, em razão do sucesso de sua tournée pela América do Sul (O Jornal, 8 ago 1928, p. 1). Ao seu lado, ia o dedicado o irmão, Alexandre Voronoff. Próximo ao entrevistado ia também Yero, o tratador dos macacos que o auxiliou na operação de Feliciano de Moraes. O Jornal insere em meio à sua matéria um longo devaneio, para comentar a presença de Yero no transatlântico:
Mais adeante, não debruçado ao parapeito da amurada, mas erecto, firme, attento a tudo, naipe negro da trinca espreitava os acontecimentos: era o já celebre Yero, criado senegalez de que Voronoff se faz acompanhar, dizendo-o seu “valet de chambre”, mas que bem mais parece assim uma espécie de mammifero de luxo, mixto de “mascotte” e de bicho decorativo.
Yero, cuja carinha redonda apparecia como um borrão de nankin sobre a alvura lavada dos esmaltes de bordo – esboçava, a espaços, um sorriso de dentes brancos, ethiopicos. E era muito de pensar nos caprichos do destino, que enfarpelou em roupa
européa, e alojou em transtlanticos de luxo aquelle egresso da selva africana, emquanto, às mesmas horas, os seus irmãos de raça e, quiçá, de sangue, vagueiam ainda semi-nús, untados de banha de hyppopotamo, pela brenha de seu paiz de origem...
E todavia elle ali estava, pobre Yero, gozando e sofrendo (sabe-o Deus e elle) as maneiras e os costumes da civilização...
E Yero sorri... Yero passeia em derredor da nave, o olho arisco e branco...
Entretanto, uma sombria expressão de tristeza, de uma tristeza imensa, cae, por vezes, sobre o semblante do senegalez... E‟ que Yero suspeita, talvez, de seu proprio destino, nas mãos de Voronoff (O Jornal, 8 ago 1928, p. 1).
Senegalez, etíope ou “preto da Guiné francesa”, Yero foi abertamente hostilizado pelo
Jornal. Nota-se de imediato o racismo transbordante dessas linhas. Mas em segundo plano, no
último parágrafo do trecho citado, aparece outro tipo de formulação, que sugere uma continuidade entre as atrocidades que recaíam sobre os negros e sobre os animais. O redator talvez tenha sido o mesmo que escreveu a matéria que cobriu a operação de Feliciano de Moraes, onde se lê:
A dois metros da mesa do animal humano, do donatário venturoso, imóvel, atados tambem pés e mãos, chloroformizado, dormia o cinocephalo. Yero olhava o seu irmão africano com infinita ternura. Era o irmão a apiedar-se da sorte daquela victima imbelle do egoismo civilizado (O Jornal, 19 jul 1928, p. 3).
Mas voltemos à cena da partida do Dr. Voronoff, no cais Mauá. Em relação ao Brasil, Voronoff expressou que levava daqui as melhores impressões; ficara bastante admirado com as belezas naturais do Rio de Janeiro e com o espírito profissional e cortês que havia encontrado entre os médicos brasileiros. Comentou com pesar o incidente com o Dr. Fernando Magalhães, mas frisou não guardar qualquer ressentimento pessoal, por acreditar que Magalhães tenha agido de boa fé e que lhe tenha feito oposição em termos puramente teóricos (O Jornal, 8 ago 1928, p. 1).
Voronoff recebeu Feliciano de Moraes, em sua cabine, constatando o êxito da intervenção, depois de avaliar o operado: os quatro enxertos haviam aderido bem ao organismo, sem sinais de rejeição. Diz aos jornalistas que, para aqueles que desacreditavam da eficácia dos enxertos, deixaria aqui a prova viva: Feliciano de Moraes e o progressivo rejuvenescimento que deveria operar-se em seu organismo nos próximos meses. Estiveram a bordo, ainda, representantes da Associação de Medicina e Veterinária do Exército, bem como diretores e médicos do Hospital Evangélico (Correio da Manhã, 8 ago 1928, p. 3).
Por fim, o Dr. Wencelsau Junior proferiu um discurso no qual passou em revista a evolução da carreira de Voronoff e os benefícios de suas contribuições. Enquanto palestrava, comentou que era natural que o célebre cirurgião encontrasse alguma oposição dentro da própria classe médica, obstáculo enfrentado por tantos gigantes da ciência ao longo da história
da medicina, e elogiou a persistência de Voronoff em suas investigações. Por fim, aclamou o sucesso que vinha sendo atestado sobre seu método, por outros profissionais de renome no meio médico-científico. Emocionado com as palavras do orador, despediu-se o médico franco-russo (O Jornal, 8 ago 1928, p. 1).
Depois de passar por Montevidéu e Buenos Aires, Voronoff seguiria viagem ao Oriente, visitando o Egito, a Índia, a Pérsia e a Indochina, ao fim da qual retornaria aos Estados Unidos e, finalmente, à França, em 1929 (Barnabà, 2014: 134).
Os Drs. Moura Azevedo, Castro Araújo e Belmiro Valverde foram os médicos que se responsabilizaram por dar prosseguimento às “voronoffizações” no Brasil. Já o faziam antes mesmo da visita de Voronoff. Em janeiro de 1929, O Jornal anunciava a fundação da “primeira casa de saúde especialmente adaptada ás necessidades da technica de Voronoff”, no Rio de Janeiro (O Jornal, 10 jan 1929, p. 1).
No início do mês seguinte chegaram ao Rio de Janeiro, pelo vapor Eubée, dezessete macacos provenientes de Dakar: doze machos e cinco fêmeas, enviados pelo Dr. Voronoff ao Dr. Belmiro Valverde, para que fossem por ele utilizados em operações de enxertia glandular. De acordo com a matéria publicada pelo A Noite, Belmiro Valverde, em rápida entrevista ao jornal, teria adjetivado o grupo de símios como “hóspedes meus [...] prisioneiros africanos” (A
Noite, 6 fev 1929, p. 1). O próximo capítulo explora equações sintomáticas como esta, que
volta e meia aparecem dentre as fontes, sobrepondo raça e animalidade. Se por um lado, este tipo de material expressa um racismo latente, por outro, deixa-nos entrever uma condição de opressão comum a negros e animais.