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A problematização do saber-fazer das parteiras, no que tange a essa pesquisa, pressupõe a introdução desse sujeito social no contexto do universo amazônico. Na medida em que se tem claro a ideia de que não existe cultura pura, afirma-se também que a cultura amazônica, assim como todas as demais, possui peculiaridades e singularidades que precisam ser tratadas e compreendidas de forma específica, considerando as redes de relações que aqui se estabeleceram e se estabelecem. Pois segundo Burke “se todas as pessoas numa determinada sociedade partilhassem a mesma cultura, não haveria a mínima necessidade de se usar a expressão “cultura popular” (2010, p, 50).

Sobre a Amazônia, um primeiro aspecto a ser refletido, que assinalou de forma bastante incisiva a riqueza dessa cultura, foi justamente a mistura de crenças e ritos indígenas com credos e rituais católicos. Existe uma considerável “aproximação”, entre as práticas do catolicismo popular adicionados aos elementos afro-brasileiros, estes oriundos principalmente

dos negros que fugidos das grandes senzalas levantaram seus mocambos ou quilombos no meio desta grandiosa floresta. Com isso passou a repartir espaços com os povos indígenas que aí habitavam. Sem deixar de mencionar a presença dos europeus que aqui se estabeleceram. A coexistência dessas várias facetas acabou por marcar mais ainda a dinamicidade e a diversidade dessa região, fazendo surgir e se consolidar muitas práticas de intervenção e de cura, alicerçadas nos costumes e nas crenças indígenas e africanas, comumente denominadas de medicina popular.16

No plano étnico-cultural, essa transfiguração se dá pela gestação de uma etnia nova, que foi unificando, na língua e nos costumes, os índios desengajados de seu viver gentílico, os negros trazidos da África, e os europeus aqui querenciados. Era o brasileiro que surgia, construído com os tijolos dessas matrizes à medida que elas iam sendo desfeitas (RIBEIRO, 1995, p, 30).

Colocado dessa forma pode parecer que todo esse processo de constituição do povo brasileiro e, por conseguinte, da região amazônica se deu de maneira harmoniosa, ao contrário, segundo esse mesmo autor, não é simplificado dar conta da complexidade de todo esse movimento,

Parece impossível, reconheço. Impossível porque só temos o testemunho de um dos protagonistas, o invasor. Ele é quem nos fala de suas façanhas. É ele, também, quem relata o que sucedeu ais índios e aos negros, raramente lhes dando a palavra de registro de suas próprias falas. O que a documentação copiosíssima nos conta é a versão do dominador (RIBEIRO, 1995, p, 30).

Notadas essas contradições, cabe ainda destacar que na Amazônia aparecem dois espaços sociais da cultura, o da cultura urbana e o da cultura rural, essa divisão se deu em virtude das transformações inerentes ao desenvolvimento regional, sendo que cada um deles apresentou e ainda hoje apresenta características bem definidas, que, embora marcados por uma intensa articulação mútua, não podem ser discorridos igualmente. “A cultura popular rural, portanto, estava longe de ser monolítica. Apesar disso, ela pode ser contrastada com a cultura popular das cidades” (BURKE, 2010, p, 65). A cultura urbana se fundamenta e se materializa na vida das cidades, predominantemente naquelas de porte médio e nas capitais da

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A respeito dessa temática, são bastante ricas e relevantes as fomentações de Raymundo Heraldo Maués. Medicinas Populares e “Pajelança Cabocla” na Amazônia. In Alves, P.C. & Minayo, M.C. de S. (Org.). Saúde e Doença: um olhar antropológico

região, pois devido à rapidez das mudanças serem maior no ambiente urbano, as trocas simbólicas com outras culturas são mais intensas. Já no ambiente rural, a cultura parece cultivar, ainda que não de forma total, sua forma mais clássica, principalmente a ligada às comunidades ribeirinhas. Ela está mais direcionada à disseminação e conservação dos valores frutos de sua constituição história e está debruçada num ambiente onde sobressai a comunicação oral.

Partindo dessas premissas, força-nos um entendimento de apreensão do contexto amazônico na perspectiva da heterogeneidade, o que se opõe drasticamente ao entendimento que muitas vezes é divulgado pelos meios midiáticos, de um espaço demográfico feito em sua maioria de florestas e animais, com povos que vivem afastados das modificações sociais. Ao contrário, seja ponderada sob seus mais variados aspectos, físicos, políticos, econômicos ou sociais, nota-se uma região transformada pelas mediações externas e internas. Encontramos um espaço multifacetário, que concatena variados povos e etnias (indígenas, seringueiros, garimpeiros, remanescentes quilombola e outros) que arquitetam cotidianamente um estilo de vida que caracteriza e singulariza essa região, pois onde há povo há cultura.

A Amazônia é, sobretudo, diversidade. Em um hectare de floresta existem inúmeras espécies que não se repetem, em sua maior parte, no hectare vizinho. Há a Amazônia da várzea e da terra firme. Há a Amazônia dos rios de água branca e a dos rios de águas pretas. Há a Amazônia dos terrenos movimentados e serranos do Tumucumaque e do Parima, ao norte, e a da serra dos Carajás, no Pará, e há a Amazônia das planícies litorâneas do Pará e do Amapá. Há a Amazônia dos cerrados, a Amazônia dos manguezais e a Amazônia das florestas (GONÇALVES, 2001, p. 09).

Igualmente, podemos destacar no que concerne à configuração do universo cultural amazônico, a intensa relação existente entre cultura e natureza, essas duas dimensões são fundantes para a constituição do imaginário dos povos que habitam esse espaço. Para essas populações não existe uma separação entre ciência e religião, entre o material e o imaterial. O seu modo de vida é preconizado por experiências concretas, que, partindo do ambiente natural, acaba por fomentar o capital simbólico que subsidia os valores e as concepções de vida que direcionam suas práticas. Para Loureiro,

A cultura mantém sua expressão mais tradicional, mais ligada à conservação dos valores decorrentes de sua história. A cultura está mergulhada num ambiente onde predomina a transmissão oralizada. Ela reflete de forma predominante a relação do

homem com a natureza e se apresenta imersa numa atmosfera em que o imaginário privilegia o sentido estético dessa realidade cultural (1995, p. 55).

Ainda nesse sentido, Castro salienta que “no campo dos saberes tradicionais as ações práticas respondem por um entendimento formulado na experiência das relações com a natureza, informando o processo de acumulação do conhecimento através das gerações” (1997, p. 225). Assim, no arranjo das práticas que protegem o universo amazônico tudo aufere vida. Os rios, as matas, as lendas, os mitos, tornaram-se tão essenciais à edificação da vida coletiva quanto os meios de produção material. Nesse universo cultural, existe uma linha tênue nos limites entre o real e o imaginário e essas formas de representação edificam as variadas formas de apreensão do mundo e da vida dos indivíduos.

As proposições fomentadas neste estudo vêm corroborar a visão desses autores, uma vez que as práticas das parteiras tradicionais se fundamentam exatamente na lógica das sociabilidades particulares, aonde existe uma relação intrínseca entre o natural, o social e o cultural. Nesta mesma linha de análise, e partindo de um olhar mais empírico nessas práticas, é perceptível que as vivências e experiências que se estabelecem na contextura do saber-fazer dessas mulheres estão justamente sedimentadas na relação direta dos mundos imaterial e material.

Não é sem sentido que, na concepção de mundo do povo amazônico, o mundo interiorano seja encantado, pois seu universo é habitado por vários seres que transitam entre o mundo natural e o sobrenatural. È um universo repleto de elementos mágico-simbólicos, onde tudo se relaciona com tudo, havendo significados para tudo o que nele existe. Na relação com as doenças, esse mundo simbólico aparece como um explicativo para dar sentido à desordem. A doença e a sua respectiva cura se traduzem no grande eixo explicativo para as relações entre o natural e o sobrenatural. A partir daí se misturam concepções religiosas formadoras do universo simbólico da região (PINTO, 2004, P. 234).

II CAPÍTULO: Caminhos metodológicos: Compreendendo os sujeitos da