CAPÍTULO VI SABERES E PRÁTICAS DAS PARTEIRAS
4.5. Parteira Tradicional: nem bruxa, nem fada Outro lugar de poder
Durante todo o percurso investigativo estive mobilizada teórica e afetivamente para captar os elementos indicativos do lugar de poder ocupado pela parteira tradicional. Em verdade, nunca tive clareza de tais elementos, tinha dificuldade de compreender se, de fato, existia uma rede de poder forjada a partir do saber e do fazer da parteira, quando imaginava esse ofício tão duramente atacado pelos avanços no âmbito da medicina moderna e, particularmente, a cobertura de atendimento ao parto industrializado na Amazônia.
Depois da vivência de campo e, já na etapa final de elaboração desse estudo, ponho- me a refletir sobre essa questão e sou levada a acreditar que o ofício das parteiras tradicionais tem vida longa. Na realidade, essa atividade tem uma imensa capacidade de se reorganizar, de ser (re)significar recolocando-se no conjunto do trabalho social fundamental à vida de sua comunidade. Isso significa, portanto, que o desaparecimento ou enfraquecimento desse trabalho não está limitado aos avanços no campo médico, pois se assim o fosse já teria desaparecido.
O ofício do partejar não é estático e, embora apresente poucas mudanças em relação a sua execução em tempos ancestrais, como toda prática social, essa atividade está sujeita a mudanças e alterações decorrentes, inclusive, das transformações históricas, observadas em cada contexto comunitário. Análises superficiais podem fazer crer que o nascimento sofre poucas alterações e mudanças ao longo da história da humanidade, entretanto, eu compreendo que os
96 Ao longo da entrevista não foi possível aprofundar a discussão sobre a ajuda recebida dessa “entidade espiritual” e,
também, qual era sua interpretação sobre esse fato. Contudo, destaco esse depoimento por considerá-lo uma pista significativa para o desenvolvimento das análises acerca do natural e do transcendente.
avanços da medicina moderna e a industrialização alteraram, substancialmente, as formas de nascer em nossa sociedade interferindo, até mesmo, nas práticas de base tradicional.
Esse destaque é pertinente para explicitar que considero o partejar uma prática social que se amplia para além de uma mera intervenção terapêutica, convertendo-se em forma particular de cuidado no nascimento e ajuda entre as mulheres. Essa prática social expressa o conteúdo de relações de cuidado e afetividade característica da teia de vida e solidariedade que unem mulheres de determinados grupos sociais.
Isto posto, direciono, novamente, meu olhar para a base de poder que sustenta essa prática. Para chegar a uma formulação coerente volto-me para as vivências de campo, para as expressões das comunidades onde estive e para a relação com os membros dessas comunidades. A partir daí sou levada a afirmar que o poder da parteira está ancorado na confiança e no respeito conquistado ao longo de sua atuação no ofício do partejar. Esses são os dois elementos que fundam, estruturam e consolidam o lugar de destaque que essa mulher aparentemente tosca, sem instrução e conhecimento ocupa na vida de seu grupo comunitário. Obviamente, o respeito e a confiança são conquistados pela parteira que revela saber, habilidade e perícia no exercício do partejar. Esse reconhecimento social da parteira exige que em sua trajetória a parteira tenha sido capaz de resolver partos difíceis, sem colocar em risco a vida da mãe e da criança.
Em outro momento do texto, destaquei a fala de parteiras que vêem seu trabalho como uma atividade de grande coragem. Essa imagem da parteira como mulher corajosa é, em minha opinião, muito forte para a comunidade. Essa imagem está associada à parteira tradicional que atuam há muitos anos sem reconhecimento ou apoio institucional. Está relacionada não somente com a realização dos partos, mas também, com os perigos e intempéries enfrentadas durante os deslocamentos, com as dificuldades que caracterizam a realização desse trabalho.
Percebo, ainda, que o reconhecimento da parteira tem raízes na base tradicional de sua prática. Essa atividade milenar é respeitada e reconhecida porque realizadas historicamente com determinado sucesso. O partejar institui uma forma tradicional de nascimento considerada segura e saudável e institui, ao mesmo tempo, uma forma de cuidado com o corpo feminino. Vale lembrar, como foi dito anteriormente, que tais cuidados não se restringem a uma dimensão terapêutica, eles são, também, estéticos. Desta forma, o reconhecimento social da parteira é expressão de processos e fenômenos sociais mais amplos. Em síntese, o lugar da parteira na vida
material e simbólica de seus grupos comunitários guarda conexão com uma forma de ser e de viver de tais populações tradicionais.
Compreender esse ofício e seu lugar social levou a desenvolver uma reflexão que fez chegar a dois níveis diferenciados de reconhecimento: a primeira instância de reconhecimento da parteira é verificada entre as mulheres, sobretudo as que já pariram com parteira. Nesse caso, o partejar assume uma posição particular daquela observada entre os demais integrantes da comunidade. As parteiras reconhecem que suas companheiras, assistidas durante os seus partos, são as primeiras pessoas a reconhecer o valor e a importância dessa atividade.
Esse primeiro nível de reconhecimento do trabalho da parteira é recorrentemente destacado na fala das entrevistadas. Sobre o reconhecimento que as mulheres têm pelo trabalho da parteira, Canela, parteira que por dezessete vezes esteve na posição de parturiente declara:
Pelo menos nós mulher, eu acho que nós valoriza muito, uma a outra companheira, principalmente numa hora dessa né que a gente tá no perigo de vida, ai chega uma colega da gente pra acudir a gente, eu acho que é muito bom porque ali ela tá ajudando a dar uma vida, uma vida nova, porque tanto a criança como a gente ali tá numa hora muito difícil né. Eu pelo menos agradecia muito quando eu tinha, que os meus filho quase todos foram nasceram assim, em casa, só um na maternidade, tive 18 filhos todos em casa, 16, 17 em casa e um na maternidade.
De fato, acredito que a primeira esfera de reconhecimento social do partejar é aquela que se dá entre as mulheres que, em um momento decisivo de suas vidas e da vida de seus filhos, podem contar com o apoio e a solidariedade de outra mulher. Esse gesto é inesquecível e estabelece laços para sempre entre essas duas mulheres e essa criança.
Para muitas que desenvolvem esse ofício a visão que a comunidade tem do trabalho da parteira é diversa e depende sempre do sucesso de sua intervenção no momento do parto. Em diferentes ocasiões, ela argumenta ter presenciado atitudes de outras mulheres, também parteiras, desqualificando a atuação de uma parteira que por infelicidade tenha vivenciado um momento de dificuldade quando da realização do parto. Arruda expressa sua discordância com esse tipo de atitude e anuncia que precisa existir mais união entre as próprias parteiras. Ela declara:
Isso ai em minha comunidade eu não sei nem lhe explicar porque uns falam bem, outro fala mal, como aqui e lá na minha comunidade. Uns falam uma coisa, contam a verdade, dizem que a parteira tratou da mulher dele, fez tudo isso. Outros já dizem que não, que a mulher dele ficou doente, ficou isso, ficou
aquilo outro, assim a senhora sabe. Nunca, porque olhe, eu vou te dizer uma coisa: nem Deus agradou todo mundo, nem Deus, e assim é aqui. Porque eu vejo o que acontece como falam das minhas colegas, porque estou aqui eu estou ouvindo tarem falam das minhas colegas. Porque um dia desses teve uma senhora que ganhou nenê pra ali. Eu estava doente, o marido dela chegou até a casa da minha nora pra vim atrás de mim aqui, só que eu estava doente, estava com febre. Ai ele não veio. Eu ainda disse: porque tu não fosse lá (chamá-la) eu tinha feito nem que fosse um remédio pra ela. Ela ganhou o nenê e não desocupou. Ai ela teve que ir pra Macapá, passou mais de oito dias, passou mal mesmo. As parteiras, sempre uma quer ser mais além da outra nem, ai fica falando besteira, foi isso que aconteceu, sempre acontece, sempre é isso. Que uma quer sempre mais uma das outras.
Considero que o lugar social e o poder da parteira tradicional são construídos nesse movimento dual, contraditório, pois a priori essa figura é percebida como alguém que pode ajudar num momento difícil. Entretanto, o seu desempenho na realização do parto pode reverter essa imagem e levá-la a uma condição de desrespeito e desconsideração. Assim, acredito que a imagem social da parteira difere da visão da bruxa, construída em diferentes sociedades, e historicamente apresentada como uma mulher capaz de fazer grande mal. Segundo Maluf, em um estudo das narrativas sobre as bruxas, contadas como histórias reais, na pequena comunidade de Lagoa da Conceição, localizada no litoral sul do Brasil, a bruxa é o poder nefasto, a causa dos
infortúnios e mal-estares; a benzedeira é o poder benéfico, capaz de curar e proteger
(1989:121). Ora, partilho da convicção que a parteira poder transitar entre essas duas personagens e converte-se hora em “bruxa”, hora em “fada”. A parteira não desfruta de uma imagem determinada a priori, sua inserção social está, sempre, submetida a desempenho efetivo de seu ofício e da rede de relações sociais que ela institui no grupo comunitário ao qual pertence.
CAPITULO V