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3.1 Análises das construções de tópico-sujeito

3.1.3 Partição de constituintes: Lunguinho (2006)

A proposta de Lunguinho (2006) é lidar com o fenômeno denominado partição de constituintes, presente em (15):

(15) a. O carro furou o pneu. b. O celular estragou a bateria.

c. A casa caiu o telhado. (Lunguinho, 2006, p. 133)

Esse fenômeno se caracteriza, segundo o autor, pelo fato de que os dois DPs de cada sentença são interpretados como um único constituinte semântico, em relação de todo-parte, mas se manifestam sintaticamente como um constituinte descontínuo. Assim, o português brasileiro permite sentenças tanto com partição de constituintes quanto sem partição, como em (16):

(16) a. O pneu do carro furou.

b. Furou o pneu do carro. (Lunguinho, 2006, p. 133)

Duas perguntas orientam a análise de Lunguinho (2006): i) como se licenciam os elementos nominais das sentenças com partição de constituintes? e ii) como se derivam as sentenças com e sem partição de constituintes, respectivamente ilustradas por (15) e (16)?

O autor concorda com Galves (1998, 2001) que os verbos no português do Brasil se movem para T abertamente; além disso, como a pesquisadora, afirma que não há, nas sentenças em estudo, argumento externo. Isso ocorreria, segundo Lunguinho (2006), porque os verbos que as formam seriam inacusativos – o que aproxima sua análise à de Lobato (2006).5

Além disso, o autor acredita, como Lobato, que o DP sujeito nas orações com partição de constituintes é um subconstituinte do argumento tema.

Lunguinho (2006) propõe que os processos que derivam estruturas como (15) e (16) envolvem Numerações distintas. Os itens lexicais que formam sintaticamente (16a) seriam:

(17) {o2, pneu1, de1, carro1, furou1, T1, C1} (Lunguinho, 2006, p. 139)

Vale observar que consta, na Numeração proposta, a preposição de, responsável pela interpretação semântica de todo-parte na sentença. A forma como se derivaria (16a) encontra- se descrita em (18):

(18) [TP o pneu do carro [T furou [VP furou [DP o pneu do carro]]]]

Agree (Lunguinho, 2006, p. 139) A derivação é assim explicada: o núcleo funcional T, por possuir traços-φ não interpretáveis, se constitui como uma Sonda. O verbo furar é inacusativo; portanto, o argumento interno o pneu do carro ainda não teve seu Caso valorado e pode ser o Alvo. Ocorre a operação Agree – os traços-φ do Alvo checam os traços-φ da Sonda, e a Sonda valora o traço de Caso do Alvo, como Nominativo. Além disso, T possui mais um traço não interpretável: EPP. A checagem desse traço ocorre por movimento do DP Alvo, o pneu do

carro, para a posição de especificador de TP. Daí resulta a sentença em (16a).

A Numeração de (16b) se distingue da de (16a) por conter o expletivo pro:

(19) {o2, pneu1, de1, carro1, furou1, pro1, T1, C1} (Lunguinho, 2006, p. 139)

Segundo o autor, a derivação de (16b) é similar à de (16a) até a operação Agree entre T e o DP o pneu do carro. O traço EPP de T, porém, não é valorado via movimento do DP, pois há o expletivo pro na Numeração. O expletivo é inserido na posição de especificador de TP. Daí resulta (16b), conforme ilustrado em (20):

(20) [TP proexpletivo [T furou [VP furou [DP o pneu do carro]]]]

Agree (Lunguinho, 2006, p. 139)

As derivações em (18) e (20) explicariam a geração de sentenças sem partição de constituintes. A derivação de uma sentença com partição de constituintes, como (15a), envolveria uma terceira Numeração:

(21) {o2, pneu1, carro1, furou1, T1, C1} (Lunguinho, 2006, p. 141)

Essa Numeração se diferencia das anteriores, pois não tem pro expletivo nem a preposição genitiva de. A ausência da preposição impede que seja formado o constituinte o pneu do

carro, de interpretação de todo-parte. Lunguinho (2006) então sugere que essa leitura

semântica decorre da configuração estrutural em que se concatenam os dois elementos nominais, formando um grande DP possessivo:

(22) DP 2 DPPossuidor D’ 2 D NP g NPossuído (Lunguinho, 2006, p. 142)

A evidência para (22) é encontrada em dados com quantificadores flutuantes, como (23), em que todos os carros e o pneu dianteiro formam um constituinte, e os carros é alçado:

(23) a. Todos os carros furaram o pneu dianteiro

b. Os carros furaram todos o pneu dianteiro

[TP Os carros furaram [DP todos os carros [D’ o pneu dianteiro] c. * Os carros furaram o pneu dianteiro todos

[TP Os carros furaram [DP o pneu dianteiro todos os carros]

(Lunguinho, 2006, p. 142)

Assim, dada a estrutura do DP proposta em (22), a derivação de (15a) seria esta: (24) [TP [DP o carro] [T furou [VP furou [DP [DP o carro] [D’o [NP pneu]]]]]]

Agree (Lunguinho, 2006, p. 142)

A Sonda T encontra o complemento do inacusativo furar, o DP o carro o pneu. Examinando o interior do Alvo, a Sonda identifica o DP possuidor o carro, que se encontra ativo e tem traços-φ. Agree opera, checando os traços-φ da Sonda e valorando o Caso do Alvo. Uma vez que a Sonda tem traço EPP e que a Numeração não inclui expletivo, esse traço é checado por meio do alçamento do possuidor para o especificador de TP.

Haveria, na verdade, dois Alvos possíveis: o DP o carro o pneu e o DP possuidor o

carro. A escolha do possuidor, dominado pelo DP o carro o pneu, é legítima, pois não viola

nenhuma restrição sintática. Conforme explica o autor, o elemento nominal possuído não pode ser Alvo por estar c-comandado pelo possuidor, não sendo, portanto, o constituinte mais próximo c-comandado pela Sonda. Segundo Lunguinho (2006, p. 143), “uma comprovação de que nas estruturas com partição de constituintes o Alvo é o DP possuidor vem dos contrastes com relação à concordância verbal”. O autor fornece como exemplos os dados em (25), em que é gramatical a concordância com o possuidor, mas não com o possuído:

(25) a. As bicicletas furaram o pneu.

b. * As bicicletas furou o pneu. (Lunguinho, 2006, p. 143)

Por fim, Lunguinho (2006) explica como se licencia o DP complemento o carro o

pneu, com base em características da operação Merge – especificamente, a propriedade de

continência imediata. O DP o carro o pneu (DP1) se forma pela concatenação de dois objetos sintáticos, um dos quais o possuidor o carro (DP2). Portanto, DP1 imediatamentecontémDP2. O traço de Caso de DP2 é valorado via Agree com a Sonda T, em um momento da derivação

em que DP2 ainda se encontra no domínio de DP1, cujo Caso não está valorado. A proposta é que a existência de um traço de Caso valorado no domínio de DP1, isto é, em DP2, serve para valorar o traço de DP1 e licenciá-lo.

Em síntese, o autor trata o chamado fenômeno da partição de constituintes em termos do alçamento de um DP possuidor para checar um traço EPP.6

As sentenças com partição de constituintes têm Numeração distinta da de sentenças sem partição, crucialmente em razão da ausência, naquelas, da preposição de. Não havendo a preposição, a interpretação de todo-parte dessas construções é garantida, segundo Lunguinho (2006), pela estrutura do DP possessivo.