4 DE AGRICULTORAS FAMILIARES INDIVIDUALIZADAS À
4.2 Construção conjunta do conhecimento e transformação
4.2.3 Participação coletiva e desenvolvimento pessoal
No decorrer da caminhada do grupo, paralelamente aos cursos realizados debates acerca de temas direcionados às mulheres foram introduzidos, discussões acerca da temática da igualdade de gênero foram realizados. Tais discussões e aprendizados levaram às mulheres do grupo a desenvolverem não só individualmente, mas também como coletivo.
A formação de coletivos é apontada por Medeiros e Paulilo (2013) como estratégia de resistência tanto a uma situação de subordinação que é vivida, enquanto mulheres, em relação ao poder masculino, quanto a um modelo produtivo dominante. No decorrer da trajetória do grupo, saberes foram sendo constituídos por meios de práticas diversas realizadas, dentre esses saberes destaca-se a valorização e reconhecimento da importância da participação coletiva para a superação de condições opressoras vivenciadas. A não aceitação da situação vigente e a percepção de que para haver mudança não deve haver resignação são revelados nas falas das mulheres entrevistadas:
O que eu acho interessante, quando você fala que diferente de outros grupos, você tem razão de falar, porque assim, cá entre nós, porque esse grupo é de resistência, porque ele vê primeiro e ele entende (Margarida).
Nota-se que os processos vivenciados pelo grupo conduziram à conscientização de que o coletivo proporciona oportunidade de ter voz e conquistar novos espaços. Na fala acima é revelado o posicionamento das mulheres frente a que é imposto, não aceitar sem entender, não ter medo de não concordar.
Bruno et al. (2013) ao tratar da motivação de mulheres para participar de grupos produtivos destacam que não se restringe apenas a motivações de ordem econômica. Conforme aponta os autores, tão importante quanto a melhoria da renda familiar e obter
independência financeira é estreitar laços de sociabilidade, fortalecida pelo convívio e pela união para enfrentar as adversidades. Essa perspectiva foi evidenciada nas falas das mulheres do grupo MOBI tanto nos grupos focais quanto nas entrevistas, momentos em foi exaltada a força do coletivo e a força da união, conforme trechos que se seguem:
O que eu aprendi com o MOBI foi a força que o coletivo tem, porque sem ele não teria nada, talvez não nada, mas muito menos do que se tem de representatividade dentro da cooperativa se não fosse o MOBI. Talvez, poderia até ter vindo, mas ia demorar mais (Paula).
A primeira coisa que a gente fez foi dar as mãos em busca do propósito do que queríamos porque se agente não se reunisse e não tivesse aquele propósito, igual falei com a (Joana), ser fiel ao horário daquele compromisso. Porque a gente não vai conseguir nada sem a união e ser fiel ao propósito (Dona Celina).
Conforme Bruno et al. (2013), a organização de mulheres em grupos contribui para que as mesmas reflitam a respeito da sua própria condição e descubram que são capazes de assumir uma atividade produtiva, fornecendo elementos simbólicos para que passem a perceber e questionar as desigualdades de gênero.
O posicionamento dos autores vai ao encontro dos resultados obtidos no projeto de extensão que visava o fortalecimento da identidade do grupo MOBI. No decorrer da execução do mesmo no grupo, de maneira participativa e reflexiva, conseguiu fortalecer sua identidade, tomar consciência sobre os objetivos e o sentido da existência enquanto coletivo de mulheres. Ficou perceptível as contribuições das ações coletivas para essa tomada de consciência, processo que seria mais difícil enquanto agricultoras individuais.
A colocação dos autores dialoga também com a entrevista da presidente da COOPFAM. A presidente ao discorrer a respeito da conquista da presidência, não só dela, mas de todas as mulheres da cooperativa, sendo representadas por uma presidente, destaca como o grupo contribuiu para que ela assumisse tão importante cargo estratégico na cooperativa.
E aí a primeira coisa que eu aprendi é que a união faz a força e que quando as mulheres, poucas mulheres que se reuniram no início. Eu fiz parte desse grupo no início, a gente se sentiu muito mais forte e com mais coragem né, porque às vezes a gente, principalmente a gente que é dona de casa, do meio rural, as vezes a gente se sente tão incapaz né e geralmente com uma baixa auto estima, o que eu posso fazer, eu não estudei, eu não me formei pra nada, não vai ter como eu buscar nenhum espaço né, no social, na cooperativa. Aí
quando a gente reuniu, a gente aprendeu muito a força da união, do grupo, de tá (sic) junto (Alberta).
Essas mulheres concebem esse momento que estão vivendo como um sonho, um desejo alcançado. Conforme Bruno (2013), o grupo produtivo representa a conquista de certa autonomia e liberdade, que foram sendo adiadas por diversas circunstâncias. Essa sede de conquistas represadas pelas circunstâncias da vida pode ser observada novamente na fala da atual presidente da COOPFAM:
[...] antes eu tinha todos aqueles sonhos, sabe, aqueles objetivos, de fazer alguma coisa, de sair, eh, não que eu não valorizasse o trabalho de dona de casa, de ser mãe, claro que isso vem em primeiro lugar, mas para mim isso era muito pouco sabe, eu não queria passar minha vida só com isso. E aí, eu não tinha nenhuma, assim, onde buscar isso, nenhuma... eh... eu não sei a palavra, onde eu buscar essas força (sic), eh essa, aí esse trabalho de grupo me deu muita força, que juntas, unidas ali, a gente podia realizar muita coisa juntas no grupo (Alberta).
Dessa maneira, é possível notar as contribuições do aprendizado da participação coletiva nas trajetórias dessas mulheres, tanto em seu percurso individual como na família e no espaço público. Os aprendizados adquiridos nos espaços convívio coletivos contribuíram também para o desenvolvimento pessoal dessas mulheres que através da força do coletivo passaram a sentir mais capazes, venciam barreiras como a timidez, baixa autoestima e passavam a valorizar seu trabalho enquanto mulheres rurais e trabalhadoras do café.
Eu acho que soma muito, eu sempre converso que eu acho diferente porque na sociedade as pessoas são muito individualistas, querem pra si e esconder, como aquelas cozinheiras que tem ciúme das receitas e não querem passar. E eu achei que aqui vocês estão dispostas a ensinar e melhorar o outro, foi o que me despertou o interesse de querer participar e conhecer o projeto (grupo MOBI) e acabou que somou muito mais, que eu vi um coletivo de mulheres diferentes, de mulheres como tem que ser, unido, e não assim, vocês estão aqui para dividir compartilhar, ensinar. Para falar a verdade é outro mundo o MOBI (Marta).
O trecho acima foi retirado da fala da última mulher que havia se ingressado no grupo, ela havia se ingressado há menos de um ano quando da realização da pesquisa. Porém, mesmo tendo pouco tempo de participação, é possível perceber em seu discurso a valorização do compartilhamento do conhecimento, da união do coletivo para a transformação. Assim, essa visão alinha-se à concepção da educação social proposta por Machado (2013) em que
construção de conhecimento, a transformação da realidade e a emancipação acontece através da conscientização crítica dos fatos do cotidiano.
Assim, essa vivência constitui-se como um aprendizado de vida para as mulheres tanto no espaço público como no doméstico que estão interligados e se misturam, sendo que o coletivo caminha paralelamente ao individual. Conforme Bruno et al. (2013) um grupo, muitas vezes, é visto como lugar de maior autonomia e espaço de liberdade para se reunir, “aprender a falar”, “saber como lidar com o dinheiro”.
A primeira coisa foi mesmo melhorar a timidez, aprender a conviver, aprender a falar. Foi muito bom pra (sic) mim (Rose).
Com relação ao desenvolvimento pessoal, foi possível perceber as contribuições de cursos tais como Psicologia, informática, liderança, liderança para mulheres, administração e autoestima da mulher no campo. A convivência coletiva contribuiu não só para que aprendessem uma prática nova, mas também para vencer barreiras individuais, isso pode ser percebido nos relatos que seguem:
Eu para mim, essa reunião de mulheres do grupo MOBI foi a coisa melhor do mundo, eu não saia de casa, eu não sabia andar nem aqui no Poço Fundo (Maria Ernestina).
Um exemplo disso é a Aline, um dia ela falou assim: Nossa, muito obrigada por me convidar para esse grupo, porque nesse grupo eu aprendi a ser gente, porque eu não me sentia gente. Ela precisou sair do grupo, mas até hoje ela fala que de todas as experiências que ela teve, que igual ao MOBI não teve (Zilda).
Por meio dos relatos acima, depreende-se que sair de casa, com todas as adversidades e empecilhos que enfrentam para participar da reunião já representa uma conquista pessoal. As atividades realizadas contribuíram para que essas mulheres passagem de uma situação de mulher tímida que não saia de casa para mulheres participantes do grupo MOBI que venceram ou estão vencendo a timidez e já são capazes de representar a Cooperativa até mesmo em eventos internacionais e dar entrevistas para mídias diversas.
Diante disso, percebe-se por meio da atuação dessas mulheres no espaço público que elas venceram barreiras tais como a timidez e baixa autoestima, levando-as a desenvolver-se fora do espaço privado. As imagens que seguem demonstram uma atuação confiante de membros do grupo, sendo a primeira figura correspondente a um evento internacional na
Guatemala em que uma das mulheres do grupo realizou apresentação e a segundo entrevista dada à EPTV:
Figura 6 - Mulher do MOBI em evento internacional na Guatemala e Coordenadora do MOBI dando entrevista para repórter da EPTV.
a) b)
Fonte: MOBI
Ressalta-se que conquistas pessoais e coletivas diversas foram acontecendo nas entrelinhas das atividades realizadas. No decorrer dos relatos foi possível notar a satisfação pessoal de cada mulher ao relatar que a participação no grupo trouxe para elas maior autonomia, se tornaram mais desinibidas, aprenderam dirigir e tiraram carteiras de motoristas, isso além da conscientização da condição desigual e de invisibilidade que viviam. Assim sendo, as diversas atividades realizadas levaram à construção de um olhar crítico das mulheres em relação à percepção sobre desigualdade de gênero. Medeiros e Paulilo (2013) evidenciam que essa percepção se dá através da participação de mulheres em grupos incentivadores de uma prática democrática.
Na análise dos relatos das participantes, é possível perceber a relevância do grupo em suas vidas, pois este estimula o crescimento individual a partir do coletivo, e do coletivo a partir do individual, enquanto mulheres que se organizaram e buscam a igualdade através do reconhecimento do seu trabalho enquanto agricultoras familiares.
Diante do exposto, entende-se que o envolvimento coletivo gerou um amadurecimento das mulheres que fortaleceu as mesmas para enfrentar as desigualdades. Além disso, esse amadurecimento conquistado ao longo do percurso levou às mesmas a um maior direcionamento das atividades realizadas para a produção do café.