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Participação da comunidade e modos de uso

2 PROGRAMA PRAÇA CEU – CENTRO DE ARTES E ESPORTES

3.2 AS PRAÇAS CEU DE FEIRA DE SANTANA

3.2.3 Grupos de gestão: pontos de vista e percepções

3.2.3.2 Participação da comunidade e modos de uso

gente também conseguiu fazer dois eventos, um em 2018 e um em 2019, o Garota Primavera [...] E com esse dinheiro que a gente vem buscando e arre-cadando da própria comunidade, a gente o converte em brinquedo para o Dia das Crianças e em brinquedo para o Natal.147.

Outro destaque é abordado pelo professor Brito, membro do grupo gestor do CEU Ci-dade Nova, que cita a utilização da Praça pelas escolas do bairro para eventos culturais e gin-canas. Segundo ele, como a procura era grande, foi criado como critério priorizar as cessões de pauta para as escolas municipais e estaduais e por último os colégios privados. No início houve questionamentos, mas depois as escolas teriam compreendido as determinações, conforme conta.

Brito revela ainda que 100% da programação da praça era sugerida pelo grupo gestor da Praça Cidade Nova, discutida e pensada em reunião. “Vai ter capoeira? Vai ter capoeira, vai ter isso, vai ter aquilo?’ Pensávamos em ações para os idosos. Ações para datas comemorativas, como o São João, por exemplo, e como solicitar da Fundação para fazer uma arrumação aqui, colocar um palco e trazer atrações musicais”.

No que diz respeito à gratuidade, os entrevistados revelam que as atividades oferecidas nas Praças são sempre com entrada franca, estando em conformidade com o previsto nos docu-mentos referenciais do Programa. Segundo Neto, no entanto, algumas ações “podem, a título de filantropia, pedir um alimento para ajudar uma entidade. Isso aí é possível, agora, cobrar não podem”, conforme vimos, inclusive, que é feito pela comunidade Praça CEU Aviário com vis-tas a arrecadação de fundos para atender a própria comunidade.

A seguir abordo como a comunidade se apropria dessas e de outras ações desenvolvidas nas Praças.

atestar esse uso pelas comunidades, principalmente nas Praças Cidade Nova e Aviário, ainda mais na primeira. No final da tarde, próximo ao pôr do sol, as pessoas começam a circular, seja para um simples passeio ou para realização de atividade física, individual ou coletivamente.

No entanto, no início das atividades na Praça CEU Cidade Nova, a ex-coordenadora Fátima Suely revela que o público era bastante desconfiado e demorou um pouco a se aproximar e participar das atividades disponibilizadas.

Hoje, segundo o atual coordenador da Praça, Danilo Cerqueira, a comunidade frequenta muito o espaço e mesmo na pandemia esse uso permaneceu, a exemplo de atividades como vôlei, baleado, futebol, andar de skate, etc. Segundo ele, “o uso é diário, não fica um dia sem uso. O tempo todo tem gente na Praça, na quadra, na pista de skate, em todas as áreas abertas”.

Para Neto, a comunidade do Jardim Acácia também se apropria de todas as atividades que são disponibilizadas: “Nós só tivemos dificuldade de montar uma turma de futsal no turno da manhã, porque é a realidade do bairro”. Ele faz uma ressalva, no entanto, em relação a bi-blioteca, no qual acredita que poderia ser melhor utilizada se o acervo pudesse ser emprestado ao público, algo ainda por fazer pois depende da catalogação e implantação de um sistema informatizado. Nesse sentido, ele alerta sobre a dificuldade, apesar das parcerias que fazia com escolas, de promover a visitação e uso da biblioteca:

Embora o equipamento possua um acervo variado: infantil, livros pedagógi-cos, livros técnipedagógi-cos, temos clássipedagógi-cos, temos um acervo bastante variado, o ma-terial é apenas para consulta, pois o sistema que permitiria empréstimos de livros ainda não foi implantado. Há uma certa dificuldade na questão da lei-tura, as pessoas, principalmente nessa era tecnológica, não têm esse hábito.

Então por ser uma biblioteca comunitária, sempre tenho dito isso, ao coorde-nador e às pessoas que lá trabalham, nós temos que criar atrativos, temos que atrair, já que ela é uma biblioteca comunitária. Nós estamos com projetos nesse sentido, para que as pessoas despertem o interesse em frequentar a bi-blioteca, já que ela é uma biblioteca comunitária e está à disposição para a comunidade.

Na Praça CEU Jardim Acácia há ainda dois grupos residentes que dinamizam o uso dos equipamentos: o grupo de capoeira Meninos do Eucalipto e a Escolinha de futebol Nova Geração.

O primeiro é voluntário na Praça e atua por meio do CRAS, oferecendo aulas de capoeira para moderadores do bairro; o segundo é uma escolinha de caráter socioeducativa, também para mo-radores do bairro, que desenvolve aulas, torneios e campeonatos de futebol na quadra da Praça.

A instalação da Praça CEU Aviário foi bastante aguardada por Dilza Matos Garcia, que viria a compor o grupo de gestão após participar ativamente das reuniões de mobilização social antes da inauguração do espaço. Mãe de duas filhas, uma adolescente e outra criança, Dilza

narrou em seu depoimento a ansiedade em que ficou enquanto aguardava a abertura da Praça, pois vislumbrava ali uma oportunidade de entretenimento e ocupação do tempo livre das filhas, principalmente a menor. Em seu relato ela enaltece a importância da biblioteca, por exemplo, o quanto a entusiasmava ter em seu bairro, tão próximo de sua casa, um equipamento que apenas era possível encontrar no centro da cidade.

Por exemplo, para mim, assim, ter uma biblioteca no meu bairro, para mim é uma coisa maravilhosa, entendeu? Eu só ia em uma biblioteca se eu fosse no Centro da cidade. Eu só brincava no parque se eu fosse no Centro da cidade.

Um teatro num bairro de periferia não [existe], você tem que ir para o Centro da cidade. Então, é uma diferença grande depois que a Praça veio.

Apesar da satisfação com a biblioteca e demais equipamentos, Dilza faz uma dura crítica à postura da comunidade a qual acredita subaproveitar as ações promovidas, o que comprome-teria, inclusive, segundo ela, o compromisso do poder público na disponibilização das ativida-des.

E para você ver as pessoas na biblioteca é difícil. É uma coisa já cultural mesmo, uma coisa do bairro, da comunidade. As pessoas não aproveitam as coisas que são oferecidas. Não enxergam, assim, além. Por exemplo, muita gente da comunidade prefere ficar tomando partido da vida alheia. A Praça tem tantas coisas, tem um lado muito bom, tem professor de educação física muito bom, tem a biblioteca, tem nutricionista... Então essas coisas que vêm para a comunidade, as pessoas não dão muito valor. [...] A participação da comunidade que é falha, porque a praça oferece muita atividade e as pessoas não aderem. Por exemplo, atividade para criança de manhã praticamente não tem, porque as mães não mandam as crianças de manhã, o público maior da praça é a tarde, entendeu? Teve uma oficina uma vez de xadrez e não tinha público. [...] E aí não veio mais, né? Teve outro professor também que fazia também uma aula de percussão, a demanda também foi pouca. E outras ativi-dades que também vieram, que a comunidade não aderiu. E aí você fica triste...

agora eu acho que também não precisa trazer tanta coisa, porque se não tem a demanda, como é que eles vão colocar? A gente pede. Eu não estou dizendo que eles estão certos de não mandar, tem que mandar realmente, mas a comu-nidade também não adere muito.

Questionada sobre por que a comunidade não adere, Dilza diz não entender ao certo, mas que tem a impressão de as “pessoas não gostarem de participar dessas atividades culturais”

e que “o pessoal da Praça faz o que pode para chamar a atenção da comunidade, mas a partici-pação em relação às atividades é baixo”. Segundo ela, ultimamente, o movimento da Praça tem se concentrado no CRAS, por conta da atualização do Bolsa Família e cadastro para

recebi-mento do auxílio emergencial destinado pelo governo federal às famílias afetadas pela pande-mia de Covid-19.

Em consonância com a fala de Dilza, sua colega de grupo gestor na Praça Aviário, Gilma Cordeiro Lopes também acha que os moradores poderiam participar mais: “Olha, participava, mas eu acho que as mães deveriam participar mais, porque tem muita gente aqui que está de-sempregado e dava para ir para a Praça. E não deixar muito as crianças à toa, botar as crianças nos projetos”. Nas palavras dela: “A gente tem uma bênção dessa nessa comunidade, mas nem todo mundo dá valor, porque é uma coisa, é uma cultura, tem a biblioteca para os nossos filhos lerem, tem mãe que não liga, preferem as crianças à toa. [...], prefere deixar à toa, eu fico re-voltada”.

Gilma acredita que os moradores não se interessam porque “gostam mais de participar da vida dos outros do que tentar crescer”. Ela diz acreditar nas oportunidades que podem ser geradas a partir das atividades que são realizadas nas Praças, exemplifica, inclusive, citando as possibilidades que aulas de teclado podem gerar na vida de uma criança ou adolescente do bairro.

uma criança em uma aula dessas de teclado, ele vai crescer futuramente. A gente pensa que é uma besteira, mas a criança pode pegar o gosto pela música e depois crescer... Aí vem a pintura... tem cada criança que faz cada desenho...

além de ser uma terapia para a mente da criança. Aí tem o balé... elas não ligam. Tinha uma aula também que fazia parte do CRAS, que é na Praça tam-bém, a percussão. Tem muita coisa boa que podem gerar outras oportunidades para a criança, só que elas não enxergam isso. Aí depois fica chorando.

Indagada se havia algum trabalho por parte do grupo gestor ou da prefeitura de sensibi-lização dessas mães para que estivessem mais presentes nas atividades das Praça e a resposta de Gilma foi que “já teve, a gente fazia reunião, chamava, mas desistimos”.

Os depoimentos de Dilza e Gilma evidenciam que a mera oferta de atividades não é garantia de adesão da comunidade sem que haja ações de mediação que busquem enfrentar as diversas barreiras que distanciam as pessoas de determinadas práticas e hábitos culturais. Os relatos remetem também a questionar sobre o cumprimento de um dos eixos centrais do Pro-grama CEU, que é o estabelecimento de uma proPro-gramação que dialogue com os interesses e demandas locais. Por exemplo, Gilma diz ainda que quando as atividades são de formação ou capacitação laboral a procura é maior e, em geral, “as vagas esgotam e muitos ficam de fora”.

O que sugere que a busca por emprego é a prioridade de muitas dessas famílias. A gestão da Praça precisa considerar esse fato e incluir essa demanda em seu planejamento.

Embora Ana Alice, também membro do grupo gestor da Praça Aviário, concorde que a comunidade poderia aproveitar melhor algumas atividades, ela destaca que há um uso perma-nente e muito respeitoso dos moradores em relação a Praça e as regras estabelecidas no Estatuto.

Para atestar isso, ela conta, por exemplo, que logo após a inauguração da Praça, alguns consu-midores de drogas ilícitas circulavam e usavam alguns espaços, mas que eles mesmos se orga-nizaram e estabeleceram que aquele local não poderia ser utilizado para o uso de substâncias dessa natureza.

Você não vê lixo jogado aqui, você não vê os meninos usando droga na praça.

Logo quando inaugurou eles usavam, a gente sentou com eles e conversou, que tinha crianças que faziam atividades, fazia balé, tinha idosas, então ficava uma coisa chata, e ali tinha muitas câmeras, até que terminava vindo a polícia o tempo todo. Então eles mesmos decretaram uma lei que não pode ser usado isso na praça, e eles não usam na praça, eles respeitam. Aqui tem, como em qualquer outro lugar tem, mas... Sabe, é uma coisa assim, eu acho bem bacana, eu acho isso super legal, eles respeitarem esse espaço e tal, essas coisas.

No que diz respeito ao poder público, Ana Alice é mais crítica. Ela considera a prefeitura negligente por conta dos inúmeros problemas estruturais, inclusive, apontados por ela antes mesmo da inauguração da Praça, ou gerados por falta de manutenção preventiva e corretiva dos prédios e equipamentos técnicos existentes. A seguir tratarei mais detalhadamente sobre esses e outros pontos que envolvem a conservação e medidas de segurança dos empreendimentos.