As partes que compõem o processo da mediação são, sem sombra de dúvida, as pessoas mais interessadas de que o conflito seja dissolvido, no qual para isto a sua participação é fundamental, devendo-se assim que integre a este método desenvolver e colaborar da melhor maneira possível, a fim de alcançar o acordo.
A mediação é um procedimento facultativo que requer a concordância livre e expressa das partes concernentes, sendo assim a mediação não pode ser imposta ou obrigatória, ela é aceita, decidida e realizada pelo conjunto de protagonistas, vindo as partes a escolherem por este método por acreditar ser este o mais viável e benéfico para a resolução das suas controvérsias (CACHAPUZ, 2011).
Ainda, Cachapuz (2011, p. 29) acrescenta dizendo que:
A mediação, no Brasil, alicerça seus fundamentos básicos no princípio da soberania da vontade, propondo-se a uma reorganização e reformulação da situação geradora da controvérsia. A liberdade das partes de procurarem o instituto, já produz a sua primeira tendência de resolução, pois partiu delas a ideia de rever a causa que veio provocar o desajuste, possibilitando a autodeterminação de cada indivíduo.
Com o desejo das partes de verem o seu problema resolvido favorece muito o trabalho do mediador, haja vista que se os mediandos não se ajudarem a mediação não chegará ao seu fim, já que ao escolher este instituto subtende-se que há vontade das partes em resolver a lide, no qual estas deverão ser passíveis, respeitando o seu próximo e repensando no relacionamento afetado, sem o intuito de sair apenas um vitorioso, mas, sim, obter a vitória completa da relação.
Aponta-se, nesse momento, os princípios básicos que norteiam a mediação, tendo em vista que para o bom desenvolvimento deste instituto é necessário observar e empregar estes princípios, que objetivam encaminhar da melhor maneira possível o processo da mediação. Dessa forma, Fiorelli, Fiorelli e Malhadas Júnior (2008, p. 61), asseveram:
O processo de mediação segue os seguintes princípios básicos: o caráter voluntário: os mediandos ali se encontram por livre vontade; o poder dispositivo das partes, respeitando o princípio da autonomia da vontade, desde que não contrarie os princípios de ordem pública; a complementaridade do conhecimento; a credibilidade e a imparcialidade do mediador; a competência do mediador, obtida pela formação adequada e permanente; a diligência dos procedimentos; a boa-fé e a lealdade das práticas aplicadas; a flexibilidade, a clareza, a concisão e a simplicidade,
tanto na linguagem quanto nos procedimentos, de modo que atenda à compreensão e às necessidades dos participantes; a possibilidade de oferecer segurança, em contraponto à perturbação e ao prejuízo que as controvérsias geram nas relações sociais; a confidencialidade do processo. Dentre os princípios básicos do instituto da mediação, há dois princípios que asseguram o interesse e participação das partes, sendo eles o princípio da liberdade das partes e o princípio do poder de decisão das partes.
Sobre o princípio da liberdade das partes, Sales (2004, p. 45) aduz:
A liberdade das partes como princípio da mediação significa que estas devem estar livres quando resolvem os conflitos através da mediação. As partes não podem estar sofrendo qualquer tipo de ameaça ou coação. A mediação é voluntária (depende da vontade das partes) [...] Presume-se, portanto, que o indivíduo, ao resolver optar por esse meio amigável de solução de conflitos, o faz conscientemente e por vontade própria; e ainda quando soluciona a controvérsia por via da mediação o faz também com total liberdade. [...] Neste ponto, resta esclarecer que a liberdade das partes envolve dois prismas: a liberdade para optar pela mediação como meio de solução de conflitos e a liberdade para decidir e resolver o conflito no processo de mediação.
Em relação ao princípio do poder de decisão das partes, Sales (2004, p. 47) menciona que:
Na mediação, o poder de decisão cabe às partes. Somente às partes cabe a resolução do conflito em pauta. Ao mediador atribui-se a tarefa de facilitar a resolução dos conflitos. O mediador auxilia as partes a restabelecer a comunicação entre si e a avaliar os objetivos, opções e consequências de seus atos, conduzindo a um entendimento que seja satisfatório para ambas. Esse entendimento é alcançado pelas partes, por intermédio de reflexão e de novos vínculos que aparecem, como fruto do diálogo entre as partes, que antes encontrava-se prejudicado; uma comunicação nova que permite às partes acordarem. Mediação não é um processo impositivo e o mediador não tem poder de decisão. As partes é que decidirão todos os aspectos do problema [...]
Cabe destacar, nesse momento, a existência de duas formas básicas de mediação: a Voluntária e a Mandatória. A Voluntária é aquela que tem início por vontade das partes, que acordam em desenvolver tal processo. Para ser iniciada tem que ter o consentimento de todas as partes envolvidas. Já a Mandatória é aquela que tem início por determinação do juiz, que visa cumprir certa determinação legal ou por cláusula contratual que previa tal procedimento. Sua existência decorre do interesse de fortalecer tal instituto, e conscientizar os cidadãos da importância do diálogo para manter a harmonia social (SALES, 2004).
Diante do exposto, constata-se a importância do interesse e participação das partes em resolver o conflito, ressaltando-se a relevância dos indivíduos encontrarem-se em igualdade de condições no diálogo, pois se isto não ocorrer não será possível chegar a uma decisão justa e satisfatória para ambas as partes.
4.4 FUNÇÃO DO MEDIADOR
Ao aprofundar-se na mediação imediatamente ocorre o direcionamento dos estudos ao mediador, sendo este o terceiro imparcial que facilita a conversação entre as partes conflituosas a fim de chegarem a um acordo, ao ponto de que desvendando a figura do mediador entendesse como transcorre à mediação.
O mediador é visto como um agente de transformação social, apresentando-se como “instrumento” capaz de propiciar as partes novas oportunidades de solução para o conflito (MUSZKAT, 2008).
Sales (2004, p.79) conceitua a figura do mediador:
O condutor da mediação de conflitos é denominado mediador – terceiro imparcial que auxilia o diálogo entre as partes com o intuito de transformar o impasse apresentado, diminuindo a hostilidade, possibilitando o encontro de uma solução satisfatória pelas próprias partes para o conflito. O mediador auxilia na comunicação, na identificação de interesses comuns, deixando livres as partes para explicarem seus anseios, descontentamentos e angústias, convidando-as para a reflexão sobre os problemas, as razões por ambas apresentadas, sobre as consequências de seus atos e os possíveis caminhos de resolução das controvérsias.
O mediador é um indivíduo especializado em resolver conflitos, podendo esta característica ser obtida por meio de estudos ou então ser mediador nato, quando nasce com o dom para mediar. O mediador precisa ter capacidade intelectual e emocional, uma vez que precisa usar do seu intelecto para desenvolver uma boa conversação entre as partes, e ter seu emocional equilibrado a fim de passar segurança às partes e não se deixar levar pela turbulência do momento. Acima de tudo o mediador precisa ter a habilidade de escutar, ter paciência para ouvir toda a exposição de argumentos que será feita por cada parte, pois isto permitirá um esvaziamento das emoções em desiquilíbrio dos mediandos, fazendo com que ganhe confiança destes, encaminhando-os para um possível acordo, já que é com o desenrolar da conversa que se objetiva chegar a uma solução da controvérsia (CACHAPUZ, 2011).
Morais e Spengler (2012, p. 158) aduzem que:
O mediador é o terceiro que intermedeia as relações entre as partes envolvidas. A forma como age frequentemente é elemento determinante do êxito ou não do processo. Conforme dito anteriormente, utilizando-se da autoridade a ele conferida pelas partes, deve restabelecer a comunicação entre elas. Sua função primordial é de um facilitador, eis que deve proporcionar às partes as condições necessárias para que alcancem a melhor solução para o conflito. É função também do mediador conduzir as negociações, seu papel é o de um “facilitador, educador e comunicador”. Trata-se de um interventor com autoridade que não faz uso dessa autoridade para impor resultados.
Com relação à necessidade da formação do mediador, atualmente, no Brasil, ainda não há exigência de formação acadêmica, técnica ou de nível de escolaridade para exercer a função, assim, na perspectiva formal, é necessário para aquele que irá iniciar as atividades como mediador uma formação básica teórica e prática em mediação de conflitos, realizando um curso, com no mínimo 60 (sessenta) horas teóricas e 50 (cinquenta) horas práticas, em escola especializada e competente para tal formação, sendo então aplicado por profissionais experientes. No mais, verifica-se a importância da capacitação do mediador, para que este se habilite e consiga executar da melhor maneira a sua função, tornando-se um bom profissional (SALES, 2007).
Ao tratar da função do mediador, com base nos estudos realizados na escola de Massachussets, Calmon (2008, p. 123) pontua da seguinte forma:
Favorecer o intercâmbio de informação; prover de nova informação; ajudar a cada parte a entender a visão da contraparte; mostrar a ambas que suas preocupações são compreendidas; promover um nível produtivo de expressão e emocional; manejar as diferenças de percepção e interesses entre os negociadores e outros, inclusive advogado e cliente; ajudar aos negociadores a avaliar alternativas realistas para possibilitar o acordo; gerar flexibilidade; mudar o foco do passado para o futuro; estimular a criatividade das partes, ao induzi-las a sugerir propostas de acordo; aprender a identificar os interesses particulares que cada uma das partes prefere não comunicar à outra; prover soluções que satisfaçam os interesses fundamentais de todas as partes envolvidas.
No mesmo sentido é o posicionamento de Cachapuz (2011, p. 67-68) acerca das funções do mediador:
O mediador possui inúmeras tarefas, pois para atingir seu objetivo final de conciliar as partes, ou transformar o conflito, é necessário que ponha em prática algumas habilidades essenciais para chegar ao seu êxito, tais como:
melhorar a comunicação; apontar os pontos convergentes e divergentes; buscar alternativas de solução; restaurar a identidade; devolver a autonomia; sinalizar para um relacionamento futuro; assistir a negociação. [...] Aliviar os mediandos através do restabelecimento da comunicação pode se considerar de extrema importância, porque à medida que eles confiam no mediador conseguem desarmar-se e aliviar suas emoções. É o passo inicial da transformação ou resolução do conflito.
Muszkat (2008, p. 89-90) apresenta as funções do mediador por meio de quadro explicativo, relacionando as quatro funções principais:
Quadro 3 - O mediador deverá funcionar como:
Catalisador Educador Facilitador Tradutor
Alguém que, por meio de seu entusiasmo e
da crença nas possibilidades de mudança, alenta e
guia as partes;
Alguém que fornece novos conhecimentos
na área da comunicação, traz as partes para níveis de
realidade mais objetivos, facilitando- lhes a abertura de possibilidades; Alguém capaz de identificar os interesses em jogo, igualar os níveis de poder e promover o encontro entre as partes; Alguém que “interpreta” e “traduz” a comunicação, simplificando e explicando o sentido dos discursos, e recuperando suas conotações positivas. Fonte: MUSZKAT, 2008.
Por fim, verifica-se que o mediador é peça primordial no processo de mediação, haja vista a importância da sua participação para que ocorra o desenvolvimento do método alternativo de resolução de conflitos, pois sem ele perde-se a sua característica principal, que é a participação de um terceiro neutro, que busca tão somente facilitar a conversa dos mediandos a fim de alcançar uma resolução para o conflito. Destaca-se, que a função do mediador é de ouvir os mediandos com atenção, abstendo-se de julgamentos, do seu tempo, de críticas e de opiniões, acreditando que por meio de uma longa e produtiva conversa pode-se chegar a um consenso, ou então, transformar uma situação aparentemente impossível de ser ajustada, mostrando novas possibilidades e, especialmente, procurar restabelecer e manter os laços da relação estremecida pelo conflito.