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Um modelo de diferentes abordagens masculinas na gravidez e paternidade. Segundo Raphel-Leff (2001) o pai expectante vivência a gravidez da sua companheira como um período crítico, de grande vulnerabilidade extremamente desafiador. A autora sugere assim, a presença de três tipos de pai: “participante”, o “renunciante” e o “recíproco”.

O pai do tipo “participante”, tal como o nome sugere, satisfaz-se por participar da forma mais enérgica e vigorosa, na gravidez da sua companheira. Este torna-se activamente envolvido nas preparações para o nascimento, lendo e interessando-se por livros referentes a

cuidados de puericultura, assistindo a consultas pré-natais e aulas de preparação para o parto (Raphel-Leff, 2001a).

O pai “participante” tem patente em si mesmo, um livre acesso para a identificação com o bebé gerado, com a mãe cuidadora da sua tenra infância, tendo capacidade de dar ternura e afeição, sem que isso implique uma consciencialização obrigatória (Raphel-Leff, 2001a). Este tipo de pai encontra-se feliz e sente-se afortunado pelo milagre da gravidez, desejando ele mesmo também poder vivê-la. Está extremamente ligado ao seu filho, percepcionando o seu nascimento como uma reunião bastante esperada. Confiando plenamente na sua companheira que carrega o seu bebé durante nove meses, o pai do tipo “participante” irá cumprir a sua parte, acarinhando e conversando com o bebé na barriga, alimentando-o com amor e sémen, cuidando com igual dedicação da sua companheira (Raphel-Leff, 2001a).

Contudo, se o pai “participante” invejar a capacidade gravídica, exclusiva da mulher, poderá revelar-se incapaz de tolerar as boas experiências da companheira, sentindo-se comprometido ora a mimá-la, ora a tomar conta da situação. O pai poderá inclusive, negar a presença da companheira ou, tornar-se demasiado ansioso com a sua actividade diária ou com os seus hábitos alimentares, insistindo em participar exageradamente nas consultas pré-natais, com o intuito de a orientar, verificar o progresso da gravidez e ainda de controlar a gestação do seu bebé (Raphel-Leff, 2001a). Segundo a autora, alguns dos “participantes”, preocupados com a sua mãe arcaica da infância, podem identificar-se não com a mulher grávida, mas com o feto que uma vez fora (Raphel-Leff, 2001a). À medida que os sentimentos arcaicos vão eclodindo, o pai “participante” poderá eventualmente, sentir-se tão dependente como o bebé, querendo tal como ele, ser cuidado e acarinhado. Esta sobre-indentificação com o feto delicado, percepcionado pelo pai como estando preso dentro da barriga, torna o pai no seu porta-voz, fazendo-o interpretar cada movimento ou gesto que o bebé executa, e vocalizando de forma imaginária, os seus pensamentos e as suas preferências (Raphel-Leff, 2001a).

Para a autora, a forma como o “participador” resolveu as suas identificações femininas primárias, irá determinar se, por um lado ele poderá sublimar os seus aspectos ‘maternais’ no cuidar e dedicar-se à sua companheira grávida, ou se por outro, a sua inveja e competitividade leva-o a um ambiente de rivalidade ou de impossível separação com feto (Raphel-Leff, 2001a).

O pai do tipo “renunciante” é bastante convicto da divisão dos papéis entre o homem e a mulher durante a gravidez. No entanto, neste tipo de orientação, o pai expectante na sua

identificação precoce com a sua mãe feminina pré-edípica, pronta a afirmar-se nele, irá intensificar os seus atributos masculinos, bem como, a sua identificação com o seu pai, e com o papel parental fortemente tradicional (Raphel-Leff, 2001a). O pai “renunciante” dificilmente irá criar empatia com as experiências internas da sua companheira, encarando as suas alterações de humor e momentos de introspecção apenas como sinais de alerta. Este tipo de pai considera as consultas e toda a assistência pré-natal como um contexto exclusivamente reservado à mulher, embora se sinta preocupado e apreensivo, com o bem-estar da sua companheira e do seu bebé (Raphel-Leff, 2001a).

O pai do tipo “renunciante”, expectante pela primeira vez, apesar de encontrar alguma dificuldade em imaginar a sua vida com a presença de um bebé, poderá mesmo assim, fantasiar-se em educar ou uma criança mais velha ou em brincar com o seu filho ou filha (Raphel-Leff, 2001a). Tal como a maioria dos pais expectantes, um “renunciante” também imagina, frequentemente, sobre que tipo de pais, ele e a sua companheira se tornarão. Aqui, poder-se-à desencadear alguma ansiedade associada às suas memórias de infância, nomeadamente sobre o tipo de relação que mantinha com os seus próprios pais, ou por receio que a sua relação conjugal se altere com a chegada do bebé (Raphel-Leff, 2001a).

O pai do tipo “recíproco” está bem ciente da inevitável combinação de sentimentos e emoções inerentes à gravidez da sua companheira, ao parto e ao bebé. O pai desta orientação sente-se ambivalente perante a gravidez, antecipando-a por um lado, com entusiasmo, mas por outro com algum receio (Raphel-Leff, 2001).

Muito semelhante em vários aspectos à sua companheira grávida, serão as diferenças biológicas que mais se acentuarão. Neste sentido, apesar da gravidez ser um estado de graça desejado, é igualmente fonte de desconforto para a mulher, sendo que o pai “recíproco”, lamenta o facto da mulher ter de carregar e de dar à luz o seu bebé, suportando todos os sintomas indesejáveis, bem como, as dores do parto. Todavia, o pai do tipo “recíproco” está igualmente consciente, das experiências agradáveis e prazerosas que a sua companheira vive devido à gravidez.

Este pai pondera, relacionando-se à sua infância, sobre a forma como vivia e sentia quando era criança, no sentido de perceber como é que o seu bebé vive, naquele momento, a vida uterina, e posteriormente o parto, o nascimento e o contacto com o mundo. É esta experiência de continuidade e apreensão de, simultaneamente, sentir diferentes emoções referentes ao seu self, bem como, à sua capacidade de imaginar e projectar-se como novo/velho, masculino/feminino, grande/pequeno, bom/mau, que ajuda os “recíprocos” a tolerar a ambiguidade e ambivalência da situação. Tal atitude é acompanhada de auto-reflexão

e de habilidade para pensar sobre as intenções e significado dos seus pensamentos e acções, assim como, do efeito que os mesmos causam nos outros. O “recíproco”, tem assim a vantagem de elaborar uma abordagem flexível e de aceder a uma variedade de recursos internos se o inesperado ocorrer (Raphel-Leff, 2001a). É ainda importante salientar que, o nascimento de um primeiro filho causa um impacto muito forte na vida do pai expectante, dado que este, não tem experiências prévias como referência para se orientar.

Autores como Salmela-Aro, Nurmi e Halmesmaki (2000; cit. por Canavarro e Pedrosa, 2005) defendem que os pais pela-primeira-vez, apresentam, comparativamente aos indivíduos que já experimentaram anteriormente a paternidade, alterações mais significativas e profundas, nomeadamente no estilo de vida e identidade pessoais. Tais modificações, processam-se de forma mais tardia ao longo do tempo, no caso do nascimento do primeiro filho, pois os pais experientes, as conseguem adaptar e antecipar, adequando previamente os seus objectivos e estratégias (Salmela-Aro, Nurmi e Halmesmaki, 2000; cit. por Canavarro e Pedrosa, 2005).