Pouco importa assim, ao se encetar a análise e a indagação das transformações constituintes da revolução brasileira, saber se elas merecem esta ou aquela designação, e se se encerram nesta ou naquela fórmula ou esquema teórico. O que vale é a determinação de tais transformações, e isto se procurará nos fatos ocorrentes e na dinâmica desses mesmos fatos. É disso que precisam preliminarmente compenetrar- se os teóricos e planejadores da revolução brasileira. (Caio Prado Jr.,
1999, p. 15).
Uma vez conformada, teoricamente, a importância das formas particulares de desenvolvimento capitalista, bem como suas decorrências estruturais na constituição de novas formações sociais para o capital, é mister adentrar na análise concreta da situação brasileira para, a partir daí, aproximarmo-nos de uma explicação concreta da educação superior no país, fazendo jus ao propósito do trabalho.
A apreensão dessa especificidade histórica não é, por certo, uma proposta original no pensamento brasileiro. Segundo Ianni (1989, p. 259-60) foi Caio Prado Jr. quem, ainda nos anos 1930, deu início a um trabalho sistemático de interpretação do Brasil, numa perspectiva teórico-metodológica marxista. Sua obra, acrescenta Ianni, “inaugura um estilo de pensar a realidade brasileira” que deu corpo a toda uma historiografia. Florestan Fernandes corrobora essa apreciação afirmando que Caio Prado Jr. foi o “inventor e propagador de uma visão própria da história do Brasil”, trabalho que se iniciou com Evolução política do Brasil (1933) e se consolidou a partir de Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia (1942). O autor completa:
A sociedade colonial e o modo de produção escravista encontram, finalmente, o intérprete que iria considerá-las como uma totalidade in statu nascendi e no seu vir-a-ser. (Fernandes, 1995, p. 84).
Desnecessário alongarmo-nos nas referências que confirmam Prado Jr. como autor ímpar na definição deste novo objeto – a particularidade brasileira. Importante, porém, é mencionar o significado de sua obra no contexto em que foi produzida:
Caio Prado Jr. foi o primeiro entre os marxistas brasileiros a se contrapor às teses estalinistas aprovadas no VI Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou, em 1928. [...] Caio Prado Jr. rebateu uma a uma essas teses, equivocadas, principalmente, pelo transplante de determinações históricas do mundo europeu, transformadas em “classicidade”, num desrespeito flagrante às formas específicas da objetivação do capitalismo em nosso país, cuja gênese histórica encontra-se no sistema colonial. (Rago Filho, 2010, p. 76).
Conforme antecipado no final do capítulo 1, além de Caio Prado Jr. trabalharemos com um conjunto de autores-chave para a análise da problemática do desenvolvimento capitalista brasileiro nas condições da particularidade. São eles: Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes, num primeiro plano, e Francisco de Oliveira e Octavio Ianni, num segundo plano.48 Estes autores, evidentemente, não se integram num conjunto homogêneo. Porém, o que orientou as escolhas foi o fato de que todos se preocuparam com uma questão fundamental e coerente com as opções aqui feitas: a análise concreta de situações concretas.
Antes de passar, então, à exposição das ideias discutidas por esses autores, convém reforçar que, nesta tese, não serão endossados dois tipos comuns de análise, aparentemente opostos, mas que se complementam de muitas maneiras: o primeiro, de entender a especificidade brasileira num sentido isolacionista, que negligencia as visões globais; o segundo, de entender que a particularidade e a reflexão sobre a formação brasileira na ótica da sua relação imanente com as economias centrais, são equivocadas porque estariam fundadas em visões “eurocêntricas”.49
Estes dois grandes modos de proceder, evidentemente,
48 Estão ausentes aqui autores importantes para uma análise mais abrangente da particularidade da formação social brasileira. São referências que, pelos limites do trabalho, não poderão ser contempladas, embora se reconheça a sua importância. Destacamos, em especial, as obras de Celso Furtado, de Theotônio dos Santos e de Ruy Mauro Marini.
49 Destacamos entre esses autores, o historiador e professor da UFRJ, João Fragoso. Contrário às teses de Caio Prado Jr., Celso Furtado e Fernando Novais, Fragoso advoga que as razões do “atraso” brasileiro são muito mais “internas” do que resultado de nossas relações com as economias centrais. Diz ainda que, apesar de ser marxista, a “luta por status” é que foi o elemento decisivo na formação social brasileira, não as lutas de classes e a constituição do MPC em escala global como determinante da colonização. Sobre isso, ver Fragoso (2006). Numa outra vertente, a crítica ao eurocentrismo é mais sofisticada. É o caso de Fontana (2004), para quem os “preconceitos eurocêntricos” são entendidos como sinônimo, ora de uma espécie de teleologia histórica, ora
não são uniformes ou homogêneos, tampouco traduzem o que é o amplo campo das análises historiográficas sobre o desenvolvimento brasileiro. No entanto, são importantes indicadores do que vem ocorrendo, em particular, nos meios acadêmicos, políticos e intelectuais, no Brasil e mundo afora, e se colocam como força ideológica dominante no que vem sendo denominado como pensamento “pós-moderno”.
Diferentemente, portanto, dos modismos acadêmicos e/ou intelectuais, em que, muitas vezes, o caráter “inovador” de uma problemática importa mais do que seu próprio conteúdo, a recuperação do conjunto de problemas que se abre com Caio Prado Jr. nos anos 1930, nada tem a ver, hoje, com mera “inovação”. De um lado, porque efetivamente esta não é nova; de outro lado, porque, no interior do marxismo, a importância de toda e qualquer teoria só pode ser avaliada tendo como parâmetro suas implicações para o processo de transformação histórica. Isto refuta a consideração de que as teses sobre a particularidade capitalista, sobretudo nas formulações de Prado Jr., Sodré e Fernandes, se incluam numa espécie de “marxismo inovador”, como advoga, por exemplo, Almeida (2005). A adjetivação “inovador” parte do pressuposto de que seu oposto, o “marxismo ortodoxo”, seja equivalente a um conjunto doutrinário de teses, adequadas apenas à análise do desenvolvimento capitalista em certas formações sociais. Essa alternativa desloca o problema teórico da análise concreta de situações concretas (historicamente postas) para o campo da mera “aplicação” de pressupostos gerais, pré-concebidos, à realidade histórica, procedimento este que não encontra nenhum suporte na obra marxiana/engelsiana.
Longe de ancorar-se numa perspectiva acadêmica, a validade da teoria deve ser medida no campo das necessidades teórico-práticas (históricas) da mudança social. A força hegemônica de visões que combatem esta problemática na contemporaneidade, no interior do vasto complexo ideológico que compõe o chamado “pensamento único”, é um bom
como visões lineares e mecânicas da história. Ambas resultam em análises de tipo “fatalista”, adequadas à ótica e aos interesses dos “vencedores”, e induzem a concepções conservadoras do processo histórico, fechadas para quaisquer alternativas. Contra a percepção “fatalista” que resulta desses preconceitos, Fontana defende a necessidade de outra visão do processo histórico, atenta para essas “alternativas” (sempre existentes) e que signifique a superação das construções ideológicas conservadoras que querem impor um “modelo de história do progresso” (2004, p. 446) de tipo teleológico. Por fim, é válido dizer que ambos estão de acordo com a ideia de que o “dado histórico” essencial que justificaria a crítica ao eurocentrismo, é o de que os países ex-coloniais não se desenvolveram após os processos de emancipação política (com relação ao Brasil, para Fragoso, e com relação aos países africanos, para Fontana (idem, p. 459-60)), o que seria a “prova” histórica de que não é a colonização que explica o “atraso” de tais países. Nesta tese veremos que a questão fundamental desprezada nessa lógica é a da permanência dos traços determinantes, porque estruturais, do estatuto colonial.
parâmetro para medir sua importância. Do mesmo modo que a ideologia dominante busca cimentar e fortalecer os vínculos de dominação do capital, as ideologias não dominantes devem contrapor-se a ela, revertendo em políticas para a luta anti-hegemônica.
É nesse sentido geral que organizamos este segundo capítulo. Antes de prosseguir, uma ressalva é necessária: não reproduziremos, aqui, de forma exaustiva e detalhada, o processo da gênese histórica do capitalismo no Brasil. Pretende-se fazer um balanço geral daquelas que consideramos as principais interpretações originais deste processo, na perspectiva teórica que assumimos; destas, extrair sua contribuição para entendermos o fenômeno educacional brasileiro e suas condições particulares de desenvolvimento, consolidação e expansão no último quartel do século XX, tarefa dos capítulos subseqüentes.
Da “depuração” do marxismo oficial ao pioneirismo latino-americano
O pioneirismo e a originalidade na interpretação marxista da realidade do MPC na América Latina são atribuídos, em geral, a José Carlos Mariátegui. Como Caio Prado Jr. em relação ao Brasil, Mariátegui foi o primeiro autor a empreender uma crítica das condições históricas objetivas do desenvolvimento latino-americano – em especial do Peru, seu país natal – discutindo temas que iam da economia à educação, passando pela necessidade de construção do socialismo não como “cópia” nem como “decalque” de outras experiências históricas. Isso se deu, em especial, nas primeiras décadas do século XX50.
Mariátegui é polêmico nas proposições políticas que decorrem de seu pensamento, definido por Löwy (2005, p. 10) como um “marxismo herético” de traços claramente “romântico-revolucionários”. Não sendo do escopo deste trabalho analisar o conteúdo rigoroso de suas propostas, importa assinalar que este marxista peruano destacou-se por afastar-se da ortodoxia “oficial”, propagada pela Internacional Comunista. Taxado ora como pensador “romântico”, ora como defensor de um “socialismo pequeno-burguês” pelos críticos, Mariátegui atrai para si a indisposição dos ideólogos da Internacional pois, dentre outras coisas,
50
Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, principal obra de Mariátegui, foi publicada em 1928, pouco antes de sua morte em 1930.
não acreditava numa “etapa democrático-nacional e antifeudal” da revolução na América Latina: para ele, a revolução socialista era a única alternativa à dominação do imperialismo e do latifúndio; e porque, por outro, ele acreditava que esta solução socialista poderia ter como ponto de partida as tradições comunitárias do campesinato indígena” (Löwy, 2005, p. 18).
No limite, Mariátegui é pioneiro neste debruçar-se sobre as condições particulares do desenvolvimento das forças produtivas na América Latina, donde seu “romantismo”51
, que reivindica a importância da experiência inca como modo de produção de traços comunistas, promoveria a descaracterização das análises etapistas, eurocêntricas. “Na realidade, seu pensamento é uma tentativa de superar dialeticamente esse tipo de dualismo rígido entre o universal e o particular”, afirma Löwy (2005, p. 23). Afirmação esta que se torna efetivamente completa com a noção do caráter universal do socialismo, também presente em Mariátegui (2005, p. 120-1), não autorizando a apreensão de um socialismo “num país só”, específico para o Peru – ou coisa parecida –, mas destacando o processo de sua construção, as formas históricas particulares de transição entre os modos de produção. Enfim, o modo como os homens fazem a sua história, condicionados pelas especificidades de cada formação social. (idem, p. 103-4, 112, 118-21).52
O surgimento dessas primeiras tentativas originais de interpretação não decorre de mera eventualidade. A compreensão teórica das formas particulares do desenvolvimento capitalista, como tentamos mostrar no primeiro capítulo, torna-se uma exigência historicamente posta. E foi com Caio Prado Jr., nos anos de 1930 e 1940, que essa compreensão adquiriu os contornos de uma análise realista e concreta da formação brasileira. E isso ocorreu num contexto muito específico da história mundial, o mesmo que dera origem, por exemplo, a um Mariátegui: de um lado, ocorria um longo e complexo processo
51 Esse caráter “romântico”, que Löwy (2005, p. 09) afirma estar presente também no pensamento de Marx sobre a realidade russa, nada tem a ver com a problemática apresentada neste trabalho. Questões como a abrangência e a importância de se pensar nas formas particulares de construção do socialismo e do comunismo nas formações sociais que transitaram ao MPC de forma não clássica, exigem debates mais aprofundados, que não mantêm por sua vez nenhuma relação com a questão do “romantismo”.
52
É lícito mencionar que, nos primeiros anos do século XX, Manoel Bomfim faria uma das primeiras tentativas de fundar teoricamente a análise das condições concretas da realidade brasileira (e latinoamericano), fugindo das teorias “raciais”, hegemônicas à época, e das contaminações positivistas a ela associadas. Para uma síntese geral do pensamento de Bomfim sobre a particularidade brasileira, ver Baroni (2003); para uma visão geral da relação crítica de Bomfim com o conjunto de ideias hegemônicas na sua época, sobretudo as teorias raciais, ver Leite (1969, p. 250-5).
de “depuração” das ideias de Marx e Engels a partir do final do século XIX53
e que redundaria nas deformações da Internacional Comunista (Comintern ou “Terceira Internacional”)54
e no chamado “marxismo oficial”, sobretudo após a morte de Lenin; de outro lado, muitos dos países da “periferia” do MPC passavam, em todos esses difíceis anos do entreguerras, por processos de desenvolvimento acelerado das forças produtivas, avançando no sentido da industrialização e da formação de novos mercados (“internos”) para o capital.
Sobre o primeiro processo, Lukács (1997, p. 86) afirma que se trata do “marxismo que se desenvolveu na União Soviética depois que Stalin obteve uma vitória ideológica, política e organizacional sobre Trotski, Bukharin e outros”. Postula também que isso surgiu “como um processo” no decurso do qual “o marxismo foi reinterpretado para adaptar-se às necessidades derivadas dos resultados do governo stalinista”. Uma das grandes deformações de Stalin teria sido a de subordinar a análise histórica de cada situação, portanto as estratégias dela decorrentes, às “causas táticas”, que eram tomadas como primordiais e sobre as quais se construíam estratégias e teorias gerais para justificar certas ações.
Essa depuração concretizou-se, assim, numa adaptação das ideias centrais do marxismo aos desígnios imediatos do stalinismo, na sua forma de conceber as necessidades da revolução russa e do partido. Esta é a origem do que ficou consagrado como o “marxismo-leninismo”. Com ele, procurou-se adaptar a história da própria União Soviética e da “transição socialista” às necessidades da política do partido sob o comando de Stalin. Na prática, criou-se uma visão sobre o desenvolvimento daquele país que simplesmente “desistoricizava” sua formação, simplificando-a em esquemas abstratos, de caráter etapista. No dizer de Netto (1985, p. 52):
Investido na qualidade de retórica de um poder estatal, o marxismo da Terceira Internacional não só tende a perder rapidamente seus conteúdos críticos e a adquirir os contornos de um discurso vulgar e repetitivo. Mais ainda: ele também se torna um material ideológico
53 Nem Marx nem Engels tiveram vida fácil no que se refere à divulgação de suas ideias mais radicais. Ainda em vida enfrentaram problemas no seio do próprio movimento operário, haja vista a dificuldade de publicação da famosa Crítica ao Programa de Gotha, de Marx, realizada por Engels quinze anos após o Congresso de Gotha (1875) e contra a vontade da direção do Partido Social-Democrata da Alemanha. Segundo o próprio Engels, o texto foi inclusive “suavizado”, obedecendo às “objeções” da direção. Ver Marx (s/d, p. 232-3). 54
Esse assunto também já foi tratado no primeiro capítulo, nas observações sobre as contribuições de Lenin e, particularmente, de Trotski, com relação à particularidade russa.
submetido diretamente à propaganda e à agitação, manipulável segundo as exigências do momento.
A institucionalização do marxismo sob as condições da “oficialidade” stalinista deixara poucas brechas para que as mudanças no mundo capitalista do século XX, em especial pós-crise de 1929, pudessem ser apreendidas teoricamente. Fontana (2004, p. 312) afirma que, nesse processo, também se fez necessário descaracterizar a própria especificidade do desenvolvimento das forças produtivas na Rússia, haja vista, por exemplo, a invalidação daquilo que Marx chamara de “modo de produção asiático”, numa referência às condições específicas de desenvolvimento capitalista naquele continente. Procedendo desta forma, a maior parte da “historiografia oficial” equiparava a história do desenvolvimento capitalista russo ao europeu ocidental, conformando-o em “etapas”: economia primitiva, escravidão, feudalismo, capitalismo e socialismo. Criando, ainda para Fontana, uma espécie de “positivismo etapista” em que as ideias de Marx tornavam-se mero adorno, sempre maleáveis e adaptáveis às necessidades do partido.
Na década de 1950, evidenciou-se a crise desse marxismo oficial e a limitação teórica de seus postulados. A complexidade dos fenômenos postos pelo desenvolvimento capitalista no pós-2ª Guerra revelaram seu aspecto dogmático mais problemático (Cf. Netto, 1985, p. 59-61). Também é evidente que dessa longa depuração foram colhidos frutos no marxismo latinoamericano, em que pesem as influências de novas correntes que surgiam ao sabor da derrocada do “marxismo oficial” e a colocação de novos problemas históricos, nem sempre voltados para a superação dos problemas fundamentais da dogmática stalinista.55
No Brasil, esse processo de depuração teria efeitos significativos sobre a forma como os marxistas apreenderiam o processo histórico de constituição do capitalismo aqui. Nessa época, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) centralizava os debates da esquerda brasileira, sobretudo dentre os pensadores marxistas, e o fez com relativa autonomia no período que vai de sua fundação, em 1922, ao VI Congresso da Internacional Comunista, em 1928:
55 Sobre isso, Fontana (2004, p. 316-7) afirma que “O mais lamentável foi que os vícios do escolasticismo stalinista chegaram também aos países da Europa ocidental e da América Latina, onde o estruturalismo marxista à francesa, amparado por uma cobertura filosófica de aparência respeitável, converteu-se na forma dominante de difusão do marxismo”. Para um balanço geral do processo de refundação do marxismo no pós-2ª Guerra, ver Netto (1985, p. 62-73); sobre o advento do “marxismo ocidental”, ver Anderson (2004, p. 45-67). É importante lembrar que todos estes autores destacam as exceções, as teses não alinhadas com a dogmática oficial, não retratando, portanto, uma realidade uniforme.
Em 1929, as diretivas do VI Congresso são aplicadas ao Brasil, tendo como instrumento a I Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina. Juntamente com as novas diretrizes [...], que aplicará a linha de proletarização dos PCs ordenada pela Internacional. Seguindo essa linha, os delegados da IC substituíram quase todo o núcleo dirigente do partido brasileiro, reduzindo a pouca autonomia existente a quase nada, no que se refere a pensar a realidade nacional. Pautado por um pensamento esquemático e ditado por regras pré-moldadas nas teorias revolucionárias da IC, o núcleo dirigente do PCB, “proletarizado”, empobreceu enormemente suas análises sobre o Brasil. (Karepovs e Marques Neto, 2007, p. 121, grifos nossos).
Num contexto como o mencionado, era natural que uma análise crítica da realidade brasileira, que tentasse fugir da dogmática oficial, se expusesse criticamente às visões hegemônicas no partido56. E foi no fluxo dessa tendência que Caio Prado Jr. começou a pensar o Brasil de modo original, como afirma Sampaio Jr. (1999, p. 101):
Sua reflexão sobre a problemática do desenvolvimento deve ser vista como uma alternativa tanto às teses da Internacional Comunista, que defendiam a “revolução antifeudal e antiimperialista” como único meio de superar o subdesenvolvimento, quanto às teses “modernizadoras” e “internacionalizantes” inspiradas nas teorias convencionais de crescimento e ciclo difundidas no pós-guerra, que advogavam a aceleração do crescimento econômico como a via mais rápida para a autodeterminação do desenvolvimento.
Como em todos os momentos históricos de transição, a compreensão das múltiplas dimensões do desenvolvimento capitalista no Brasil tornava-se crucial, com o que retomamos o segundo processo, mencionado anteriormente (p. 59). Este se caracteriza pelas transformações sofridas pela economia brasileira nas primeiras décadas do século XX, em particular nos anos 1920-30, quando se consolidam as bases objetivas para a industrialização do país, a constituição de uma economia de mercado desenvolvida nos centros urbanos, a
56 São conhecidos os fundamentos dos debates que, dentre outras questões, travam polêmica sobre: se houve, ou não, feudalismo (ou “restos feudais”) no país; se o trabalhador do campo é camponês ou assalariado rural (proletário); se era preciso desenvolver as forças produtivas burguesas para depois se transitar para uma formação econômica socialista (“cumprir etapas”). Para o intuito deste trabalho, tais questões serão reproduzidas somente na medida em que a discussão da particularidade brasileira exigir.
crescente homogeneização das relações capitalistas pelo país, enfim, a transição para o “capitalismo de fato”57
. Para vários dos países ex-coloniais, as primeiras décadas do século