Doze encontros, seguindo a numerologia do Nkisi Nzazi88, a energia do fogo foi
propagada no grupo. Não o fogo destruidor, mas o fogo que aquece, fogo que estimula, agita o corpo e provoca a criatividade. Assim, uma das máximas de nossos encontros foi um bordão que não imaginava que alcançaria tanta relevância: - Vamos arder hoje? Esta era a promessa a cada dia que o Coletivo se reunia para experimentar. Arder no fogo de Nzazi era sinal de descolonizar o corpo, acessar lugares não tão explorados, de acordo com a castração colonialista que condicionou os corpos. Arder aqui é se reinventar. Suar, repetir, interagir, misturar o corpo com o outro. Nossa FG estava comprometida com o ardor dos corpos – sendo amparado pela força de Nzazi, fogo protetor.
O segundo encontro ficou a cargo da professora Fabiana Lima89,
experienciando as “Estéticas Kalunga: corpo e poesia”. Iniciar o percurso compreendendo a importância da Kalunga (melhor tratada no Caminho de Kisimbi) para os povos Bantu, sem dúvida foi impactante para os discentes do curso:
[...] Entre vários talentos que conversamos, falamos sobre Carolina de Jesus, autora que vendeu bem mais que Jorge amado e pouco se fala dessa mulher tão importante em nossa literatura.
Como sempre, a participação de cada membro do coletivo foi bastante importante, cada um com suas opiniões, trazendo suas experiências para a roda de conversa. Quando a professora Fabiana pediu para que todos nos deitássemos no tatame em posição fetal, enquanto ela lia alguns poemas, viajamos para um mundo só nosso onde tivemos a oportunidade de nos conectar com nós mesmos (MAÍRA SANTOS NEPOMUCENO, DIÁRIO DE BORDO, 2018).
A Kalunga é a grande mãe para os Bantu. É a divindade protetora em envolve toda a terra. Este dia foi inspirador para a criação da “Cena 04” do experimento cênico. Esta cena traz a tônica da travessia transatlântica e toda dor que incorre este trajeto. Para que seja possível atravessar, surgiu no meu imaginário a necessidade de conclamar Kalunga, para que tomasse conta daquela gente. A “Oração à Kalunga” é escrita minutos depois que cheguei em casa, ainda mexido com o trabalho
88 Nzazi – Nkisi relacionado a energia do fogo, do magma, toda a energia contida que aguarda seu
momento de expansão. Nzazi é a vida, porque o fogo institui a luz, ilumina o ambiente, aquece e desperta para o entorno. Nzazi pode ser comparado à energia do orixá iorubá Sángò, sendo este o representante da justiça em sua máxima.
89 Fabiana Lima tem graduação em letras vernáculas (bacharelado e licenciatura / UFRJ), Mestrado em
Literatura Brasileira (UFRJ) e Doutorado em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). É professora Adjunta da UFSB, atuando no campo das Artes e das Humanidades.
experienciado. Neste sentido, mistura-se aqui a referência marcante da religião católica, que ainda hoje existe em nossos terreiros, com a força desta energia ancestral. Por isto, oração como expoente de reconexão, de aproximação do corpo com o ancestral. Esta cena tem uma potência importante no experimento, porque é o instante que o mar é criado através da voz da atuante Claudia Rodrigues e dos fios de lã, em vários tons de azuis, que caem sobre o chão pelas mãos de alguns atuantes. O segundo encontro foi compartilhado pela Profa. Leila Oliveira90. Nos
corredores da Universidade soube que tínhamos uma colega da área de Engenharia que é bailarina, e que também tinha experiência com Dança Afro. Leila foi muito receptiva a proposta e de pronto aceitou colaborar.
Neste mesmo período, estava aguardando o nascimento de minha filha Darah Morena. Estava em um misto de alegria, em poder realizar um projeto tão caro a minha formação, e ansioso pela chegada de Darah. Aconteceu que Elaine, minha companheira, começou a sentir contrações, anunciando o trabalho de parto. Viajei para Salvador e deixei o Coletivo muito bem representado nas mãos de Leila e dos monitores. No dia 26 de junho Darah nasceu, mudando completamente o significado das coisas. Estava eu ali completando meu círculo de felicidade estando na Universidade, realizando um trabalho negrorreferenciado e segurando nos braços um serzinho que alterou o sentido da minha existência. Com isto, saí de licença por vinte dias, para me dedicar a Darah. Período em que não acompanhei de perto a FG.
Professora Leila conduziu dois encontros seguidos (20/06 e 04/07/2018), porque a mesma sentiu que um encontro era insuficiente. A esta altura, o encontro com Leila foi muito revelador, sobretudo pelo “[...] aprofundamento dos corpos, uma maior consciência sobre estes; mais uma intimidade individual e grupal alcançada (ALEX SILVA MOREIRA, DIÁRIO DE BORDO, 2018)”. Naturalmente esta participação no Coletivo gerou uma demanda de aulas de Dança na Universidade, levando Leila a ser colaboradora dos Colegiados de BI e LI, ministrando um CC livre de Dança Contemporânea.
90 Leila Oliveira é Engenheira Ambiental, bailarina e PROFESSORA Adjunta da UFSB, campus Jorge
Amado. Tem graduação em Engenharia Agrícola e Ambiental (UNIVASF), Mestrado em Geoquímica: Petróleo e meio ambiente (UFBA) e Doutorado no Centro Interdisciplinar de Ciências, Energia e ambiente (CIEnAm/UFBA). Tem experiência no âmbito da Dança Moderna, Sapateado e Dança Afro Contemporânea.
Fotografia: acervo particular
No quinto encontro (11/07/2018), a experiência se deu no campo mais teórico e conceitual, com a vasta experiência da professora Evani Tavares91 acerca do Teatro
Negro (Breve introdução do Teatro Negro orientado, a partir de algumas de suas experiências criativas). Evani apresentou um horizonte histórico, situando o grupo como se engendrou a construção de uma cena preta brasileira. Um encontro não foi suficiente, estendendo também para duas experiências. Na semana seguinte (18/07/2018) foi possível fazer uma experimentação corporal a partir do que foi levantado na semana anterior, de acordo com perspectivas da Performance Negra. Sobre os dois encontros, nos lembra o monitor Alex:
A professora também nos apresentou alguns trechos de espetáculos negros, tocando assim na parte teórica, de forma objetiva e compreensível, conceituou o que vem a ser um teatro negro, estando este muito além de colocar figuras como a baiana e do capoeirista em cena. Foi levantada discussão em torno da estética, do entendimento das simbologias africanas que passamos a ter conhecimento para dizer o que é teatro negro ou não (ALEX SILVA MOREIRA, DIÁRIO DE BORDO, 2018).
Acredito que as discussões acerca da Performance Negra muniram os estudantes de argumentos para compreender melhor a proposta da Afrocênica, em organizar uma Poética afrodiaspórica da cena, muito influenciado por grupos de teatro baiano os quais Evani cita nos encontros: Bando de Teatro Olodum e o Grupo NATA.
91 Evani Tavares é atriz, diretora e professora Adjunta da UFSB, campus Jorge Amado. É Pós-doutora
em Artes Cênicas (PPGAC/UFBA), Doutora em Artes (UNICAMP), Mestre em Artes Cênicas (PPGAC/UFBA) e Bacharela em Interpretação Teatral (UFBA).
Figura 17 Elaine (minha companheira), Darah e Eu em sua celebração de um ano de vida, em junho de 2019.
Ambos os grupos constroem cenas de forte cunho político, protagonizando a pessoa negra a partir de sua ancestralidade. O NATA investe sua poética a partir do candomblé Ketu e o repertório mítico deste; enquanto que o Bando passeia por diferentes temas concernentes à Performance Negra, sem perder de vista uma discussão contemporânea sobre racismo e seus desdobramentos.
Fotografia: Fillype Sales
No dia 25 de julho eu retorno à Universidade após a licença, estando presencialmente com o Coletivo novamente. Neste dia recebemos a Escola de Capoeira Casa do Vovô, a convite da monitora Camila Terra.
Neste encontro os/as estudantes exploraram a ginga e a capoeiragem, conhecendo aspectos históricos e novas dinâmicas corporais, exercitando a alteridade nos movimentos que se completam através dos corpos dos outros.
O encontro teve início com os toques dos berimbaus, tambores e atabaques, instrumentos essenciais para o funcionamento de uma roda de capoeira. De forma tímida os instrumentos foram sendo tocados, ganhando uma proporção e volume tão incrível que foi necessário mudar para um espaço aberto, para que essas sonoridades se espalhassem com mais malemolência pelos corpos (ALEX SILVA MOREIRA, DIÁRIO DE BORDO, 2018).
Figura 18 Roda de conversa com o grupo de Capoeira da Casa do Vovô
A necessidade de sair do Laboratório das Artes (sala 04) se deu pelo incômodo de outros colegas docentes, que interrompiam o trabalho. A verdade é que as salas não tem tratamento acústico adequado. Decidimos ir para o pátio na entrada no pavilhão de aulas. Esta travessia nossa acabou estimulando a participação de outros estudantes que apareceram envolvidos a partir da música do trabalho.
A capoeira tem uma coisa muito semelhante ao candomblé. Quando uma roda é feita, muitas pessoas querem participar de modo voluntário. Há sempre interesse da comunidade em estar neste ritual da roda. Muitos membros da Casa do Vovô foram de ônibus para o nosso encontro, sem nenhum reembolso meu ou da UFSB. De mesmo modo acontece quando vai ter festa na casa de algum Terreiro amigo. Há uma mobilização para se fazer presente e fortalecer a celebração.
Fotografia: Adeloyá Magnoni
Este encontro me levou a pensar no Princípio da Nginga (ver Talenu- Atmosfera) a partir do jogo dos corpos experimentando os movimentos da Capoeira. Recorri aos escritos de Evani Tavares Lima (2011) e consegui pensar em exercícios que poriam em prática este jogo de cena de complementação. Para além disto, a capoeira foi inspiração poética para a criação da “Cena 05: Nascido Kalunga”. Dispostos em oposição, a atuante Camila Terra representava as mulheres que pariram nos porões dos navios, no embalar do mar; enquanto o atuante Adilson
Santos percutia o agogô, e o som que ecoava, marcando a ladainha Navio Negreiro, do Mestre Vargas, remetia às contrações do parto, enquanto que a cabaça representava ali o útero preto das mulheres, registrada na imagem pelo olhar da fotógrafa Adeloyá Magnoni:
O mês de agosto foi iniciado com a dinâmica de corpos proposta por Tereza Sá92 e Jorge Batista93, em uma experiência intitulada “O fazer teatral: um ritual de
entrega” (01/08/2018). Tereza era membro do Coletivo, participando regularmente dos encontros. Enquanto que Jorge, precisou se desligar do grupo por incompatibilidade de horários. Ambos são artistas de renome na região de Itabuna e Ilhéus. Tereza atuando como professora, atriz e poeta; e Jorge como diretor de grandes espetáculos protagonizados por atores e atrizes de seu grupo Vozes, em solo Sul Baiano. Os exercícios propostos traziam à cena a relação de opressor e oprimido, relembrando a poética do Teatro do Oprimido – apesar de não ser citada a figura de Augusto Boal pelos dois professores na experiência com o grupo.
Na semana seguinte, mais precisamente no dia 08/08/2018, o encontro foi mediado pelo Prof. Egnaldo Franca94 e sua Dança Afro Contemporânea. Segundo
Egnaldo, este trabalho visa interação da arte com o saber popular ressignificado no cotidiano, resultando em estratégias para a educação das relações étnico-raciais.
Outra colega nossa tinha pouco tempo de chegada à UFSB foi convidada a colaborar com o projeto – Profa. Keu Apoema95, contadora de histórias, pesquisadora
de comunidades tradicionais – atualmente investigando os processos de aprendizagem de lideranças tradicionais de Timor Leste (Ásia). Convidei Keu para nos ajudar cuidando das questões de oralidade, já que estas são a base da educação africana e afrodiaspórica, sobretudo nas comunidades de Terreiro. No dia 15/08/18 ela ministrou uma experiência intitulada “Palavra e Memória: narração oral”. Keu propôs uma série de exercícios que trabalham no âmbito da escuta como primeiro
92 Tereza Sá é atriz, poetiza e professora. Graduada em Letras/Espanhol (UESC), Especialista em
Leitura e Produção Textual e Ensino e Relações Étnico-raciais(UESC) e Mestranda em Educação e Relações Étnico-raciais (PPGER/UFSB).
93 Jorge Batista é ator, diretor e professor Assessor Pedagógico. Graduado em Filosofia (UESC), Pós-
graduado em Filosofia Contemporânea (UESC) e Arte (Faculdade de Jacarepaguá), Mestre em Inovações Pedagógicas (Universidade de Madeira, Portugal).
94 Egnaldo França é ator, diretor, músico percussionista, fundador do Projeto Encantarte, e do Curso
de Pré-vestibular PREAFRO. É licenciado em História (UESC), tem especialização em Gestão Cultural (UESC), Mestrando em Educação e Relações Étnico-raciais (PPGER/UFSB).
95 Keu Apoema é contadora de histórias e professora assistente da UFSB, campus Jorge Amado. É
bacharela em Administração (Universidade de Pernambuco), especialista em Educação (PUC Minas), Mestra em Educação (FACED/UFBA) e Doutoranda em Educação (FAE/UFMG)
patamar para se contar alguma história. O coletivo exercitou contar histórias de si, de sua infância, de sua ancestralidade – crucial no processo de construção da “Cena 09: De onde eu falo”. Esta cena trazia relatos de racismo vivido pelos membros do Coletivo em vários âmbitos de sua vida. Para contar essas histórias eles/elas diziam o seu nome, sua cidade de origem e a opressão sofrida.
Dando sequência com o trabalho de escuta de si, Prof. Daniel Puig96 traz sua
contribuição no âmbito da voz e música. Sua experiência no Coletivo teve por título “Voz-Corpo, Voz-Corpo”. Neste trabalho, Daniel trouxe diversas referências vocais, musicais de comunidades e artistas africanos, desmistificando o fato de que só um grupo seleto é capaz de cantar. Além disto, compartilhou sonoridades diaspóricas e o canto responsorial (premissa dos povos africanos em que um canta e o coro responde). Pensar a voz pelo corpo foi algo revelador para o grupo, que experimentou diversas possibilidades de canto e uso da voz, a partir da singularidade de cada ‘corpo-voz’. A partir deste dia alteramos os nossos parâmetros de canto para a cena, compreendendo que toda voz canta e esta multiplicidade de formas de cantar está diretamente ligada a particularidade de cada corpo. Ao cantar o muimbo (música) em exaltação a Kisimbi, experimentamos a máxima de misturas tonais, vozes mais abertas, outras mais fechadas, timbres altos, baixos. O grande coro instaurou na cena uma música que tinha cheiro, música que inscrevia imagens e alterava a atmosfera do lugar.
Nosso último encontro, no dia 29/08/18 fechou o ciclo da Formação Geral, levando nossos corpos para arder, em todos os sentidos, ao experienciar a dança Maculelê com o Contra Mestre Rodrigo Miojo97. Neste último encontro foi possível
observar corpos em estados diferenciados, mais disponíveis ao trabalho. Certamente toda a experiência adquirida até aqui tirou da zona de conforto esses corpos desacostumados a se reconhecerem em seu potencial cênico.
Segundo relato dos estudantes a FG trouxe uma formação para além do artístico. Ao percorrer por várias perspectivas dos saberes, muitos deles invisibilizados, estes/as estudantes encontram o seu lugar no mundo:
Poder pensar as criações artísticas sob uma perspectiva respeitosa e referencial a existência e ancestralidade enquanto mulher negra e artista
96 Daniel Puig é músico e professor Adjunto da UFSB, campus Jorge Amado. Licenciado em Educação
artística (UFRJ), com habilitação em Música, Mestre em Música (UFRJ) e Doutor em Música (UNIRIO).
97 Miojo é Contra Mestre de Capoeira, tem graduação incompleta em Educação Física. É professor de
foram de suma importância para a minha compreensão do espaço tempo que ocupo neste mundo. Compreender melhor a leitura que o mundo tem deste meu corpo que fala, ainda que eu não diga uma palavra e reaprender a me expressar e impor, dentro deste mesmo mundo da forma como eu desejo ser lida. Esse processo de FG foi extremamente importante para a construção não só da minha identidade artística, mas também da minha personalidade e entendimento de quem é Emanuele Carmezina, mulher negra, baiana e daí então, multi-artista (EMANUELE CARMEZINA, 2019).
Outro dado interessante na reflexão do projeto são os outros componentes que ministrei nos quais houve abordagem afrodiaspórica, seja na Educação ou nas Artes. Como a maioria dos estudantes que fazem parte do Coletivo são também estudantes da graduação do BI ou LI em Artes, os conhecimentos dos componentes regulares sempre apareciam nas discussões ao final dos encontros. Eles/elas conseguiam estabelecer conexões e problematizar até mesmo a FG do Coletivo. Essa potencialidade de uma formação através de muitas camadas potencializou a experiência dos corpos, tornando este projeto incomum.
Esta Formação Geral é uma célula inicial para se pensar em uma formação plural dentro da Universidade, considerando, sobretudo o saber tradicional como conhecimento destacável na formação artística. Dentro da perspectiva de pensar uma formação em ciclos, os/as estudantes são capazes de disparar o sensorial, para que este ative sua memória corporal ancestral. Com isto, certamente a relação deste/desta com a cena é alterada, na medida em que este corpo representa não só a vida em sua relativização, mas a ancestralidade, amplificada pelos contornos das Artes.