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Passeio pelo campus do Gragoata 20 de junho de 2018

Fonte: Acervo da autora.

A abertura da caixa da memória aconteceu nos últimos meses do ano. No início do ano, a nossa relação com a caixa era de explicar o motivo de estarmos colocando aquele objeto na caixa e conversávamos sobre o que ele remetia. Durante o ano, abrimos a caixa algumas vezes para vermos as memórias que estavam ali e conversarmos sobre elas. Foi no final do ano que realmente abrimos a caixa e rememoramos cada uma das memórias guardadas em forma de texto, objetos e fotografias.

Nesse dia, 29 de outubro de 2018, pegamos as sementes. Quando se aproximava o final do ano, em algum momento da nossa rotina tínhamos o nosso momento com a caixa da memória. Pegava a nossa grande caixa de madeira, que, por ter rodinhas, era fácil de movimentar, e a levava para a nossa roda. As crianças empolgadas levantavam as mãos e as tremiam no ar fazendo o suspense para qual memória seria escolhida para rememorarmos. Assim, era o nosso ritual diário ao abrirmos a caixa da memória. E não foi diferente no dia em que rememoramos sobre as sementes encontradas por Heitor.

Como dito no fim do diálogo, aquele dia foi atípico. Foram somente cinco crianças do Grupo Vermelho a escola. Os outros grupos também estavam com poucas crianças, e então resolvemos fazer um passeio pelo campus do Gragoata, reunindo os grupos de multi-idade. Quando chegamos à orla Henrique, uma criança de 3 anos achou essas sementes e pediu para que eu guardasse, a fim de colocarmos na caixa da memória, e imediatamente as botei no bolso. Depois do passeio, dei a ele as sementes e ele as colocou na caixa com a ajuda dos amigos que estavam presentes. Os meses se passaram e, quando reabri a caixa e mostrei a semente para começamos a rememorar, ele apontou que aquele objeto foi encontrado por ele.

Entretanto, Henrique demorou a se concentrar e lembrar dos detalhes do que fizemos naquele dia. Foi quando sugeri a ele que pegasse o objeto em suas mãos para se lembrar, e ele começou a contar o que aconteceu. Isso mobilizou outra criança, Mel, de 5 anos, que estava presente, rememorando o passeio pela orla e as brincadeiras no campo. As adultas do grupo conduziram a conversa durante todo o tempo, instigando e dando algumas pistas que pudessem ajudar nessa rememoração.

Nesse momento, o pedido para que a criança segurasse a memória e que isso poderia ajudá-la foi instintivo. Não havia pensado sobre o contato físico com o objeto poder ajudar a rememorar. Porém, foi isso o que aconteceu; na hora da abertura da caixa, tive essa ideia ao perceber que a criança estava tendo dificuldades em se concentrar no que havia realmente acontecido e começava a imaginar outras situações como a presença do pai. As nossas memórias são ativadas por todos os nossos sentidos. No caso descrito, somente a visão não foi capaz de ativar toda a memória a partir do objeto, sendo necessário tocá-lo para que Henrique se lembrasse.

Querer saber mais, buscando respeitar aquilo que Lefebvre (1991) chama de humilde razão do cotidiano que se dá nos lugares ditos difíceis, como anuncia Bourdieu (1997), incorporando-a como espaço/tempo de uma criação de conhecimento válido e vital para s seres humanos, que em nenhum outro poderia ser produzido, exige do pesquisador que se ponha a sentir o mundo e não só olhá-lo, soberbamente, do alto ou de longe (ALVES, 2002, p. 16).

Ao falar do pesquisar no/dos/com o cotidiano de uma escola, Nilda Alves aponta o sentir o mundo como um dos princípios dessa maneira de fazer pesquisa, entendendo que as crianças pequenas também são pesquisadoras e estão percorrendo seu caminho em questionar e descobrir o mundo. Elas também sentem este mundo por meio de todos os sentidos, não só pela visão. Naquela situação, instintivamente, pedi para que a criança utilizasse outro sentido para perceber o mundo.

A sociedade que estamos vivendo é extremamente visual; o poder das imagens avançou junto com as tecnologias, TV e internet, por exemplo. O YouTube foi um grande aliado durante todo o ano de 2018, pois, nessa plataforma digital, encontrávamos diversos vídeos que respondiam a alguns questionamentos do grupo, assistimos a desenhos, músicas e canais científicos. Entretanto, sempre buscamos trabalhar com a experiência da criança em todos os seus sentidos nessa descoberta do mundo. Experimentar as possibilidades, o que dá certo ou errado, tocar nos objetos, escutar os sons e sentir os sabores.

Inclusive, esse dia de passeio pelo campus do Gragoata foi um momento de diversas experiências em contato com a natureza. As crianças puderam observar a Baía de Guanabara, seus sons, como o da barca atravessando de Niterói para o Rio de Janeiro e vice-versa. Uma tartaruga também nos deu a sua presença, e as crianças perceberam que ela nadava no meio do lixo. Experenciaram o seu próprio corpo ao subirem nas árvores, rolarem e correrem na grama. Todas essas experiências formam as crianças enquanto cidadãos que estão aprendendo a vivenciar o mundo e a questioná-lo.

Uma sala de aula sempre será construída de sujeitos que sabem uma série de coisas e deixam de saber outras, num processo incontrolável. [...] Ou seja, um currículo formal, precisa, em vez de prescrever uma experiência escolar, dialogar com as redes cotidianas da escola (MACEDO, 2011, p. 49).

Compreender que as redes de saberes que perpassam uma escola precisam influenciar no seu currículo, partindo do princípio de que as crianças já possuem conhecimentos prévios. Dessa forma, o ato de experimentar o mundo passa por essas redes cotidianas, sendo esse o caso de as crianças vivenciarem o campus do Gragoata. A EIUFF se localiza dentro desse campus; as crianças o exploram ao entrar e sair da escola, e percebem-no de diversas maneiras; logo, o currículo escolar precisa abranger esse “espaçotempo” enquanto parte integrante do seu cotidiano.

A EIUFF trabalha com um currículo que busca proporcionar às crianças a busca pelo conhecer o mundo e se conhecer através das vivências, experiências e a pesquisa. O ato de

pesquisar como um caminho construído por cada um à sua forma, de acordo com suas vivências e experiências, que fazem com que as crianças percebam o mundo e o questione.

Assim aconteceu com outra memória que guardamos na caixa, o martelo da escavação. A ideia de fazermos uma escavação surgiu quando uma das crianças trouxe das férias um presente para o Grupo Vermelho: esqueletos de dinossauros. Essa mesma criança, o Benjamim, sempre foi apaixonado pelos bombeiros e seu sonho era ser um, entretanto, depois de ter trazido os esqueletos, relatou a vontade de ser paleontólogo. Grande parte das crianças do grupo não conhecia essa profissão, e se interessou por pesquisar sobre o assunto. Para isso, utilizamos livros sobre paleontologia, vídeos e reportagens de jornal, e, no fim, resolvemos fazer uma experiência em que eles pudessem ter a vivência daquele assunto. No capítulo anterior, há uma memória escrita em formato de texto para Jornal Dinossauro de todos os Grupos Miau que conta sobre esse dia, a experiência que viveram.