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PASSOS E CATEGORIAS DE ANÁLISE

No documento 2018GlauciaKorb (páginas 56-60)

Com base na Teoria Semiótica Discursiva analisamos os discursos, relacionando-os aos estudos culturais. Como leitores, realizamos o percurso inverso ao do produtor do texto: partimos do nível discursivo e vamos em direção ao fundamental, para, assim, apreender as estruturas mais profundas que subjazem às construções discursivas. A partir da análise do nível discursivo, buscamos identificar, no discurso dos entrevistados, em interface com os dos estudos culturais, temas recorrentes (cadeias isotópicas) associados ao desuso da língua alemã na comunidade. Também observamos as marcas de pessoa, as quais são significativas para perceber o sentimento de pertencimento ou exclusão de um grupo social.

O nível narrativo nos permitiu compreender a trajetória desse fenômeno como um grande texto, observando os valores desejados por diferentes sujeitos envolvidos no processo e os jogos de força que atuam para que as transformações aconteçam ou não. Por fim, o nível

fundamental permitiu identificar oposições semânticas que estão no cerne desses discursos e, portanto, relacionadas ao processo de desuso da língua.

Relembramos que trabalhamos com as seguintes hipóteses, tecidas a partir das leituras preliminares, enfocando os discursos culturais:

a) desvalorização linguística relacionada às situações de poder econômico e social; b) preconceito linguístico relativo aos sotaques, à pronúncia, à mistura de expressões

que ocasionam a formação de novas palavras, entre outros; c) influência/interferência e aculturação pela instituição escolar;

d) uso do dialeto alemão restrito à oralidade depois de algumas gerações, o que estimula a perda de traços característicos, uma vez que os falantes não possuem registro escrito;

e) difusão das tecnologias e a globalização, que permitem o contato com a multiculturalidade e a diversidade existente no mundo.

Essas hipóteses levantadas estão aqui como um pano de fundo, uma vez que objetivamos confirmá-las ou refutá-las a partir das análises dos recortes dos discursos dos sujeitos em consonância com as leituras preliminares realizadas. Na medida em que fomos tecendo a análise dos discursos dos sujeitos, fomos também correlacionando os temas que apareceram nesses discursos com os fatores apontados nos estudos culturais, que constituem algumas das hipóteses (a, b, c, d, e) acima configuradas.

Abaixo o quadro de orientação com os passos para a análise:

Quadro 2 – Passos para a análise

Análise discursiva Categorias de análise

Nível discursivo

Categoria de pessoa (eu/nós x eles = pertencimento x exclusão de um grupo social)

Isotopias temáticas (entre os discursos dos sujeitos entrevistados e entre esses e os discursos culturais = identificação de fatores que influenciaram o desuso da língua)

Nível narrativo

Sujeito destinador26 (manipulador e julgador) Sujeito manipulado

Objetos valores desejados

26 Sujeito destinador é o actante narrativo “que determina os valores em jogo e que dota o destinatário sujeito da

competência modal necessária ao fazer (destinador-manipulador) e o sanciona, recompensando-o ou punindo-o pelas ações realizadas (destinador julgador)”. (BARROS, 2011, p. 85).

Transformações de estado/ações operadas Narrativa de privação ou liquidação da privação

Nível fundamental Categoria semântica sobre a qual se erigem os discursos analisados (A x B)

5 RECORTES DISCURSIVOS DE SUJEITOS TEUTO-BRASILEIROS CHAPADENSES: O DESUSO DO DIALETO ALEMÃO

Neste capítulo, desenvolvemos a análise dos recortes discursivos resultantes da transcrição das entrevistas realizadas com sujeitos teuto-brasileiros chapadenses, a fim de compreender a trajetória de desuso do dialeto de língua alemã em Chapada, identificando os

principais fatores que desencadearam e vêm desencadeando tal fenômeno. Esses descendentes participantes das entrevistas têm relação ou com os primeiros comerciantes alemães do município de Chapada, ou com a comissão emancipacionista, ou ainda com os governantes, conforme já especificado anteriormente, sendo que foram divididos em três grupos de acordo com a faixa etária27.

Por entender que o texto nasce da união de um plano de conteúdo (discurso) com um plano de expressão (materialidade semiótica), texto e discurso encontram-se numa relação de interdependência, pois todo discurso se materializa em forma de um texto. Por isso, a importância de se analisar o texto como “um todo de sentido” (BARROS, 2011, p. 07) e como um objeto de comunicação entre dois sujeitos, pois está situado em um lugar, entre objetos culturais, com determinadas formações ideológicas, o que nos permite depreender que está em relação com um contexto sócio-histórico (BARROS, 2011), isto é, cada sujeito entrevistado conviveu com diferentes gerações e realidades, aspectos esses que interferem na constituição dos seus discursos.

Nesse sentido, buscou-se, nos discursos dos entrevistados, identificar temáticas – de ordem geral e/ou particulares desta comunidade – relacionadas ao desuso do dialeto de língua alemã em Chapada. Para tanto, partimos do nível discursivo, onde se materializam os temas e se concretizam pontos de vista subjetivos que interessam ser investigados neste trabalho. Também abordaremos, o nível narrativo, que possibilita entender tal fenômeno (de desuso da língua) nos moldes de uma estrutura narrativa, em que sujeitos e antissujeitos disputam valores e efetuam transformações no sentido de obtê-los. Por fim, o nível fundamental possibilitará perceber as oposições semânticas de base sobre as quais se estrutura o processo de desuso da língua alemã no espaço escolhido para a realização deste estudo. Assim, os preceitos da Semiótica, além de nos auxiliarem a identificar os fatores responsáveis pelo desuso do dialeto alemão na comunidade, contribuem para compreendermos, também, a trajetória da língua alemã no município de Chapada.

Na análise, apresentamos a interpretação dos discursos seguida dos recortes discursivos em que as temáticas abordadas puderam ser evidenciadas. Inicialmente,

27 Relembramos que dividimos os entrevistados em três grupos a partir da faixa etária, ou seja, dos 60 anos em

diante (grupo 01); dos 40 aos 60 anos (grupo 02); e, dos 20 aos 40 anos (grupo 03), que também serão especificados, respectivamente, por geração 01, geração 02 e geração 03. Ao nos referirmos aos discursos dos sujeitos que participaram da pesquisa, os números 01, 02 e 03 serão utilizados para identificar o grupo ao qual o sujeito pertence. Após esse número será utilizado um código de letras, que corresponde às iniciais do nome do entrevistado, seguido por outros dois números que correspondem à idade do sujeito. Segue exemplo do sujeito identificado como 1DO63, que é sujeito do grupo 1 (dos 60 anos em diante); DO: código correspondente às iniciais do nome do entrevistado; e, 63 (sessenta e três): idade do entrevistado.

analisamos recortes discursivos do grupo 01, seguidos pelo grupo 02 e depois 03, sendo que em alguns momentos, as gerações e seus discursos são relacionados entre si em virtude de recorrências constatadas, isto é, as isotopias.

No documento 2018GlauciaKorb (páginas 56-60)