CAPÍTULO II: PESQUISA DE CAMPO
3.7. Paternidade e Maternidade: a construção do parentesco
No primeiro capítulo desta pesquisa, procuramos desmistificar as questões pertinentes ao biologicismo do parentesco. Piscitelli (1996) cita Rubin, Yanagisako, Strathern, Collier e Rosaldo em suas lutas para desnaturalizar conceitos relacionados às polaridades macho e fêmea no qual o parentesco é baseado na biologia humana e em diferenças naturais. Bourdieu (1996), Dutra (2007), Fonseca (2005), Heilborn (2004), BUTLER, (2003a), contribuíram para construir nosso campo teórico sobre este processo de desmistificação.
Cabe aqui compreender que conjugalidade nem sempre se reflete em parentalidade e que ambos são aspectos que podem “caminhar” separadamente. A conjugalidade se trata de uma associação entre duas pessoas que passam a administrar uma vida em comum (HEILBORN, 2004). Já a parentalidade envolve conceitos de “conectividade”, um desejo de associações sociais que envolvem hierarquias e grupos de pessoas que buscam relações profundas e duradouras de parentesco. A parentalidade na atualidade é considerada, levando-se em conta os valores de afinidade social em detrimento ao passado, aonde se considerava somente os fatores biológicos para a construção da mesma. (FONSECA, 2007)
Grossi (2003) nos acrescenta que o modelo tradicional de nomear parentesco (pai, mãe, filho, filha, nora genro, avô, avó, tio, tia, sobrinho, sobrinha), passa a ser questionando pelos
casais homossexuais. A tradição se “quebra”, por exemplo, num lar onde uma criança é criada por duas mulheres, ou seja, ela possui não uma mãe e um pai e sim, duas mães.
Outro fator relevante ao tema refere-se à afirmativa de Butler (2003a), como citado no primeiro capítulo deste trabalho, na qual existe uma tendência a se dissociar parentesco de casamento. Isto se dá pelo fato de países como a Alemanha, França e Estados Unidos, por exemplo, começarem a reconhecer algumas formas de “casamento gay”, porém, com a exclusão de direitos de adotarem filhos e de terem acesso às tecnologias de concepção que são garantidas aos pares heterossexuais casados.
Cada casal aqui apresentado constrói sua conjugalidade e sua parentalidade de maneira particular. Em comum possuem o fato de além de ser um núcleo conjugal, buscam também formarem grupos parentais. Também não há unanimidade na atitude de se tornarem pais. Tais discussões são construídas com conversas que envolvem sentimentos ora comuns ora ambíguos.
O casal Xênia e Fernando estão atualmente se preparando para ter o primeiro filho, estão apreensivos, mas devido ao “relógio biológico” de Xênia estão decididos que não há mais como esperarem.
Pelas conversas com o casal, fica claro que Fernando não está querendo assumir este novo papel de pai em sua vida, mas que respeita as questões que envolvem o desejo de Xênia em querer ser mãe e também respeita o fato dela estar com 35 anos e segundo seus médicos esta ser uma idade aonde seus óvulos ainda não envelheceram, fato que começará a acontecer nos próximos meses e anos. (Diário de Campo)
Sentem que podem passar problemas por questões referentes a serem ou não bons pais, às viagens de estudo e de lazer que haviam programado e sob questões referentes à liberdade que possuem agora e que poderá ser cerceada com a chegada do futuro filho. Vivendo entre o medo e o desejo, vão caminhando juntos entre exames e preparações para a futura maternidade de Xênia e da paternidade de Fernando.
“Tenho medo de não ser um bom pai, não sei também como é que vai ficar nosso tempo pra estudar, namorar e viver sossegado, mas acho que é agora ou nunca”.
Xênia por sua vez, está apavorada com a questão de sentir dor durante a gravidez. [...] se poderá pegar seu filho no colo devido aos problemas de saúde da coluna ou se conseguirá trabalhar menos para olhar mais o filho durante a infância do mesmo. (Diário de Campo)
Manoela e Manoel já não têm mais planos de terem filhos, são pessoas permissivas demais com os que possuem. Existe uma liberdade excessiva que acaba por dar uma autonomia ao filho mais velho de Manoel de se manter num quase isolamento constante. Ao filho mais novo, a liberdade faz com que o pequeno rapaz se torne por vezes, inconveniente, mal educado e cansativo, pois é necessário que “o mundo gire a sua volta” então os pais, de pleno acordo “o fazem girar”. Além disso, relatam a perda da liberdade e uma questão em comum com o casal Xênia e Fernando que é a questão da idade ideal para uma mulher ser mãe.
Percebe-se que a paternidade e a maternidade foram vividas por ambos de forma traumática. Após Visconde, ficou claro que nunca mais teriam outro filho. “Desde bebê ele dava trabalho pra dormir, comer, sossegar”, conta Manoela. Manoel não comentou nada sobre o assunto, mas balançava a cabeça num tom afirmativo às palavras da esposa. O fato de tornarem-se pais tirou uma liberdade que possuíram durante muitos anos antes do casamento. Como Manoela estava próxima aos quarenta anos assim que começaram a ficar juntos, concluíram que deveriam ter um bebê. Contaram sobre as noites que passaram em branco por causa do filho e da dedicação do pai, que não se eximiu de tomar conta de Visconde da mesma forma que a mãe. (Diário de Campo)
“Durante o fim de semana que passei na casa, observei um casal que luta pela sua harmonia, possui formas não convencionais de cuidar do filho, mas que de certa forma funciona para conter toda a agitação do mesmo. Colocaram, por exemplo, naquele final de semana, uma gangorra no meio da sala, ou seja, Manoel fez furos na laje do apartamento e fixou um balanço desses que se encontram num parquinho bem no meio da sala de televisão.” (Diário de Campo)
Percebo que quando um casal “erra” assumidamente em conjunto, esta também é uma maneira de construir sua conjugalidade. A identidade conjugal adquirida pelo casal se faz através de pontos de acordo em comum sejam eles positivos ou não. O igualitário se dá aqui pelo viés daquilo que possuem através de um acordo.
Durante os encontros com Rafaela e Maria reconheci, através de suas palavras, uma jovem família que busca entre erros e acertos construir uma relação harmoniosa e duradoura. Em relação à maternidade explicitaram que possuem intenções futuras quanto ao assunto. Buscam construir sua relação conjugal através de um velho modelo conhecido: a compra da casa própria e a gravidez para gerarem seus descendentes.
Com Rafaela, a companheira sentiu pela primeira vez o desejo de “ser uma
família” e faz planos de uma casa maior no futuro e de terem um filho ou dois. “Talvez eu possa engravidar de um e ela de outro”. (Diário de campo)
Com Eliéu e Orlando ambos são unânimes em afirmar que não querem ter filhos. São um casal que está empenhado em conquistar uma estabilidade financeira.
não pensa em união religiosa, não querem adotar uma criança como muitos casais de amigos estão desejando (Orlando concorda com Eliéu)