2.1 A paternidade no direito brasileiro
2.1.2 Paternidade real e paternidade socioafetiva
Em juízo sempre se buscou a chamada verdade real, ou seja, aquela considerada da relação de filiação decorrente do vínculo de consanguinidade. Dessa forma, a paternidade real é aquela que fundamenta-se com base na verdade biológica.
Sendo assim, Toaldo e Flores (2012, p. 59) dissertam sobre a paternidade biológica e que esta “[...] fundamentava-se por uma presunção que se referia única e exclusivamente aos filhos havidos do casamento, ficando à margem os interesses daqueles filhos havidos de relações não matrimonializadas.”
Após muitos testes e tentativas, descobriu-se o exame de DNA, onde se tornou possível o conhecimento das regras de transmissão hereditária, proporcionando uma certeza de 99,99% no reconhecimento da origem genética de uma pessoa.
Sob esse aspecto, Canezin e Eidt (2012, p. 13) discorrem a respeito da mudança que o exame de DNA trouxe no mundo jurídico e quais os benefícios que estas trouxeram:
Em meados da década de 1980, com o progresso da ciência, principalmente no campo da engenharia genética, tudo mudou. O exame de DNA (ácido desoxirribonucleico) tornou-se acessível a todos, proporcionando uma certeza de 99,99% no reconhecimento da origem genética de uma pessoa. Esse avanço causou enormes repercussões no mundo jurídico que, até então, vinculava, de maneira indissociável, a filiação ao matrimônio, deixando de buscar a verdade biológica que se escondia por detrás das presunções legais. Passou a ser direito fundamental de toda pessoa identificar a sua origem genética e as ações de investigação de paternidade, bem como as negatórias de paternidade tornaram-se cada vez mais comuns.
Verifica-se, portanto, que o exame de DNA confirma a paternidade real existente entre pai e filho, analisando o vínculo biológico existente. Porém, este exame não atribui a paternidade ou maternidade a alguém.
Nesse sentido, os referidos autores (2012, p. 13) afirmam que o exame de DNA “revela o verdadeiro genitor, o qual nem sempre se confunde com a figura do verdadeiro pai, visto que este está ligado pelos laços de afeto, mas não necessariamente pelos laços sanguíneos.”
Surge então a paternidade socioafetiva, estabelecida da convivência, do amor, e dos laços de afeto e carinho que unem pais e filhos. Para Toaldo e Flores (2012, p. 59):
Para que a paternidade se estabeleça, não basta a comprovação de um exame genético, ainda que uma determinação judicial, fundamentada em exame científico, diga quem é o pai. A paternidade, em seu sentido mais autêntico, não se fundamenta apenas na verdade biológica, antes, está alicerçada na afetividade.
A paternidade socioafetiva é um vínculo que não se desfaz, uma realidade muito presente em vários âmbitos familiares atuais e que não pode ser ignorada pelo Direito.
Indiscutível o fato de que não é suficiente o exame científico de DNA para haver o reconhecimento de uma paternidade, pois, muito embora se revele por meio de referido exame quem é o pai biológico, mesmo assim já existindo um vínculo afetivo entre a criança e alguém, uma terceira pessoa a quem esta tem consideração de filho e este se considera como se fosse o pai verdadeiro, é esse vínculo que será valorado [...].
Podemos observar que, após consolidados os vínculos afetivos entre pai/mãe e filho, este deve ser observado em contraposição aos critérios biológicos, devendo ser levado em consideração que a paternidade biológica jamais poderá substituir os laços de afeto construídos entre pais e filhos.
Ocorre que, a filiação socioafetiva não possui previsão normativa especifica no Direito brasileiro, somente são encontradas decisões Jurisprudênciais a cerca do tema. Dessa forma, esta deve ser identificada no sistema jurídico, interpretando as normas cabíveis no Código Civil de 2002 e da Constituição Federal de 1988, observando os princípios que possam permitir que a filiação socioafetiva também tem guarida jurídica.
Nesse sentido, Carvalho (2012, p. 115) refere que:
Não cabe, neste viés, a pretensão de apreender o fenômeno da filiação socioafetiva por meio de definições jurídicas fechadas, nem a pretensão de dar um rol taxativo de hipóteses dessa filiação, sob pena de se proceder a um engessamento das possibilidades de verificação do fenômeno social. O Direito não tem a tarefa de definir, de antemão, os contornos da relação filial socioafetiva, acabando por excluir algumas relações que venham a brotar, mas sim tem a de estar rente à realidade, pois são as próprias relações sociais que impõem o seu reconhecimento e seus traços.
Nota-se que a paternidade socioafetiva vem ganhando forças e está cada vez mais presente no nosso Direito. Para Toaldo e Flores (2012, p. 61) “a socioafetividade na relação paterno-filial estará presente quando estiver caracterizada a posse de estado de filho.”
Tais autores (2012, p. 61) dissertam que:
Os filhos afetivos nascem, obra de uma relação de afeto construída dia a dia, com demonstração aparente de carinho, ficando em segundo plano a origem genética. É o afeto que confere à criança o estado de filho. Aquele filho que nasceu de outro pai, que tem origem genética distinta, passa a ser filho do coração.
Na paternidade socioafetiva, contrária da biológica, busca-se a felicidade mútua, o carinho e o amor existente entre pai e filho, este fornecendo sempre a criança os cuidados necessários para sua sobrevivência, onde se fortalecem cada vez mais com o passar dos anos.
Sob esse aspecto, Neves et al (2012, p. 102) dissertam que:
Assim, a afetividade permeia a relação de filiação, qualquer que seja o modo de constituição, não sendo mais possível visualizar a relação entre pais e filhos e o exercício inerente ao poder familiar sem levar em consideração o princípio jurídico do afeto. Diante do exposto, nota-se que o afeto estabelecido entre pais e filhos, é o elemento sustentador do modelo de família insculpido na Constituição Federal, que, aliado ao interesse do filho, estabelece e consolida a relação da filiação socioafetiva. Na paternidade socioafetiva, pai não é aquele ligado por laços biológicos, ou seja, aquele que gerou, mas sim por laços de afeto, determinada por um ato voluntário daquele que cria o filho.
A paternidade socioafetiva, é estabelecida como um suporte da estabilidade social e emocional na relação entre pais e filhos, se sobrepondo a verdade real, ou seja, a verdade biológica.
Nesse sentido, é a posse de estado de filho que dá origem ao reconhecimento da paternidade socioafetiva. Para Toaldo e Flores (2012, p. 62):
A posse de estado de filho revela sua importância quando surgem conflitos decorrentes, por exemplo, entre a paternidade jurídica e a verdade real, ou quando é comprovada a verdade biológica da paternidade, mas a posse de estado de filho acontece com um terceiro que não é o pai genético. Resulta, então, a paternidade socioafetiva, na qual o pai não detém vínculo sanguíneo com seu filho, e sim laços de afeto, e ainda assim cuida, dá carinho, protege, educa e alimenta, participando ativamente de sua criação como se pai verdadeiro fosse.
Portanto, a paternidade socioafetiva está relacionada com a posse de estado de filho, em que será estabelecido o vínculo paterno-filial, prevalecendo sempre o melhor interesse da criança.
A paternidade socioafetiva está alicerçada na afetividade, diferentemente da paternidade biológica onde só estabelece o vínculo entre pai e filho fundamentando-
se no reconhecimento da origem genética destes. Motivos estes, dão lugar cada vez mais a esta modalidade de filiação baseada nos laços afetivos.