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Patologia social: conceitos de normal e patológico

4 MEDICALIZAÇÃO DA MENOPAUSA, BIOPODER E CLASSE SOCIAL

4.1 Medicalização e controle social dos corpos femininos

4.1.2 Patologia social: conceitos de normal e patológico

As diferenças conceituais entre normal e patológico, cunhadas por Georges Canguilhem, ajudam a situar onde se encontra a medicalização da menopausa, assim como a noção honnethiana de patologia social, sobre a qual a doença deve ser entendida como uma análise social, além dos aspectos fisiológicos. Aprofundar o debate sociológico acerca da patologia social, como parte do desenvolvimento da teoria do reconhecimento de Honneth (2008), é fundamental no empreendimento da análise da medicalização feminina na menopausa, uma vez que conceitos de normalidade e de patologia não fazem sentido do ponto de vista

29 Comunicação em 10.04.2017

organicista, mas sim dentro do debate crítico sobre normatividade que encontra base na própria teoria honnethiana.

Nas esferas do reconhecimento nas relações pessoais, família, amizade e amor, no mercado e no Estado, há formas de liberdade que podem ser exercidas também de modo patológico. Apesar de afetar os indivíduos de uma sociedade também psicologicamente, a patologia social não tem o sentido do acúmulo de patologias ou transtornos psicológicos individuais (HONNETH, 2011). Para tanto, o entendimento da realidade social na contemporaneidade, através do contexto aqui dado, deve ser ampliado para o viés de reconhecimento da pluralidade e das racionalidades femininas que estruturam a vida humana no social.

Destarte, a análise da patologia social diz respeito às duas vias da dinâmica entre indivíduo e comunidade, aos processos de individuação e socialização, não a partir da análise de apenas um indivíduo, mas da sociedade como um todo. Ao ser tratada como uma patologia, a menopausa tira da mulher o protagonismo da sua experiência de vida diante do início do envelhecimento. Uma das principais consequências dessa perda é o sofrimento feminino30. Quando expandimos os conceitos de saúde e bem-estar social para a análise social, não se pode mais ter como ponto de referência o indivíduo e, muito menos, uma concepção organicista, que presuma funções exercidas pelos papeis dos indivíduos.

Esses conceitos devem ser entendidos, segundo a concepção de Honneth (2008), a partir de um sentido de um mal que acomete uma sociedade e se manifesta nas relações sociais, mesmo que reflita diretamente na estrutura psicológica dos sujeitos. O mal a ser problematizado está relacionado ao não reconhecimento do sofrimento no fenômeno social da menopausa, causando muitas vezes o isolamento social da mulher.

Cada vez mais plurais, as demandas da modernidade compostas pelo feminismo, movimentos gays e outras políticas em torno da sexualidade e lutas por reconhecimento, abrangem especialmente políticas que buscam a afirmação de minorias étnicas e culturais. Aqui, a luta pelo reconhecimento passa pelas políticas de gênero. Honneth (2008) mostra que as

30A noção de sofrimento social como fenômeno coletivo é usada aqui a partir da perspectiva de Alain Ehrenberg

(2008), que a coloca como uma categoria política no campo prático e social diante dos processos de subjetivação do indivíduo.

formas de reconhecimento estão vinculadas a tipos de desrespeito cuja experiência pode motivar em termos práticos os sujeitos para a emancipação. O processo prático das experiências de desrespeito mobiliza indivíduos e grupos para ação para uma luta por reconhecimento.

O diagnóstico das patologias sociais, observadas na experiência do desrespeito ou do 'sofrimento', sempre ancorado na deformação de uma práxis humana constitutiva, deve ele mesmo permitir apontar para sua superação prática (HONNETH apud MELO, 2015, p.19).

As disputas em torno de injustiças ligadas a padrões culturais de representação, como as demandas aqui postas, ocorrem no momento em que se acentuam as desigualdades materiais criando um fenômeno patológico devido às injustiças sociais presente nas sociedades capitalistas. Para Honneth (2011), os fenômenos de injustiça material também produzem “patologias” que motivam indivíduos e grupos a lutar por reconhecimento. Em relação às lutas de reconhecimento a partir da problemática de gênero, a autora Nancy Fraser (2007) afirma que as representações femininas devem ser tratadas como conflitos sociais, já que dizem respeito à exclusão política, devendo ser levada em consideração para que seja atribuída uma igualdade política de voz para as mulheres. “Em muitos casos, as lutas por reconhecimento estão dissociadas das lutas por redistribuição” (FRASER, 2007, p. 102).

Dentro de movimentos sociais como o feminismo, segundo a autora, tendências ativistas, que encaram a redistribuição como um remédio para a dominação masculina, estão cada vez mais dissociadas das tendências que olham para o reconhecimento da diferença de gênero. Para Fraser (2007, p. 103), o reconhecimento é uma questão de ética: “justiça, hoje, requer tanto redistribuição quanto reconhecimento; nenhum deles, sozinho, é suficiente”. Para pensar as formas de dominação na perspectiva do gênero, Fraser incorpora a teoria de reconhecimento honnethiana, que estabelece os padrões de reconhecimento, a saber: o amor (que gera autoconfiança e amizade), o direito (trata do autorrespeito) e a solidariedade (autoestima, reconhecimento e interação social).

A autora acredita na necessidade de criar um conceito amplo de justiça para acomodar tanto as reivindicações defensáveis de igualdade social quanto as de reconhecimento da diferença. Ao problematizar a teoria do reconhecimento a partir das demandas de gênero, Fraser (2007) defende a dimensão da representação que precisa ser tratada como decisiva para os conflitos sociais. A representação defendida por Fraser diz respeito às formas específicas de exclusão política, mas que devem ser assimiladas para permitir a igualdade política de voz para

as mulheres. Por isso, a autora propõe uma redistribuição de reconhecimento para se pensar a justiça social no tocante ao gênero feminino.

Pensando no objeto, podemos discorrer sobre a necessidade feminina de reivindicar o reconhecimento honnethiano do estado menopáusico, sem estigmas, como algo natural do ciclo da mulher, como de fato é. E ainda pelo direito de autonomia ao permitir à mulher o acesso às informações sobre a menopausa, a fim de tomar decisões compartilhadas (seja com intervenção medicamentosa ou não) com os profissionais de saúde sobre ações para combater os sintomas. As lutas de reconhecimento social de gênero propostas por Fraser objetivam uma ação orientada para favorecer a equidade, problematizando-se a cultura como um lugar de disputas por definições e de luta por sentidos simbólicos.

As mulheres ainda são colocadas à margem do exercício da cidadania, como a negação da autonomia para decidir o que fazer com o corpo delas no caso de uma possível intervenção médica, como se não fossem capazes de tomar qualquer decisão, uma vez que elas têm recebido papeis secundários e de submissão na nossa sociedade ao longo dos anos. A estratégia central de Fraser é romper com o modelo padrão de reconhecimento da identidade. Nesse processo, o que exige reconhecimento é a identidade cultural31 peculiar de um grupo.

O não reconhecimento consiste na diminuição de tal identidade pela cultura dominante (a patriarcal) e na consequente perda da subjetividade dos membros do grupo, as mulheres na menopausa. Isso, por sua vez, requer que os membros do grupo se unam a fim de remodelar sua identidade coletiva, através da criação de uma cultura própria. Desta forma, “no modelo de reconhecimento da identidade, a política de reconhecimento significa política de identidade” (FRASER, 2007, p. 106).

Com isso, a identidade feminista passa então a ser reforçada pela condição de sujeito ativo e capaz de exercer transformações sociais necessárias à emancipação do gênero. Assim, para Fraser (1994), as feministas exigem que o estado (podemos pensar o Estado através do Sistema Único de Saúde, que deve propor ações ao grupo aqui discutido) esteja disposto a responder às suas necessidades, operando para fomentar e debater as reivindicações políticas.

31 A autora pensa a identidade cultural e pós-colonial na perspectiva de Stuart Hall (2003) e Homi k. Bhabha

E uma das reivindicações fundamentais do movimento feminista é a garantia dos direitos da mulher nas esferas públicas, políticas, econômicas e domésticas (FRASER, 2007).

Mas, para ter uma voz ativa pelos direitos à informação e à saúde, por exemplo, as mulheres precisam se reconhecer em toda a sua subjetividade, até perceber que a menopausa não é doença que justifique a intervenção médica, muito menos fomentar as representações depreciativas sobre a idade, a classe social, o próprio corpo, a sexualidade e, finalmente, o envelhecimento. Ao obter acesso à informação, elas podem compreender, no próprio processo de envelhecimento, as mudanças provocadas pela menopausa e assim se preparar para a entrada na velhice.

Diante da problemática que por ora se apresenta, é importante ampliar a compreensão do significado de patológico para tentarmos entender essas dinâmicas que envolvem a política de dominação na sociedade contemporânea, no que diz respeito às políticas biomédicas, através das quais interferem diretamente na subjetivação do feminino diante da menopausa, sobretudo no que se refere à desigualdade de gênero. Sabe-se que as fronteiras entre o normal e o patológico na sociedade atual são muito tênues, e cada vez mais ambíguas e instáveis.

A medicalização de condutas classificadas como anormais se estendeu a praticamente todos os domínios de nossa existência. Por isso, a obra O normal e o patológico (2009), de Georges Canguilhem, nos ajuda a orientar a crítica da medicalização a partir desses dois conceitos. As diferentes visões acerca do que pode ser concebido como saúde ou doença interferem diretamente nas políticas terapêuticas implicadas por elas. Canguilhem (2009) critica a visão de que o patológico seria apenas uma variação quantitativa do normal.

As inúmeras possibilidades fisiológicas e contextuais no processo da vida não podem ser normatizadas para que se afirme a existência de saúde ou de doença. O autor questiona a visão de que a doença possa ser efetivamente uma realidade objetiva, alheia ao processo de vida do indivíduo. Há um adoecimento, um mal-estar, que se estende para além dos limites do corpo, que está na sociedade (CANGUILHEM, 2009). A partir de uma leitura fenomenológica de Merleau-Ponty, o autor analisa a consciência da doença pelo sujeito e o seu caráter relacional:

É o anormal que desperta o interesse teórico pelo normal. As normas só são reconhecidas como tal nas infrações. As funções só são reveladas por suas falhas. A vida só se eleva à consciência e à ciência de si mesma pela inadaptação, pelo fracasso e pela dor (CANGUILHEM, 2009, p. 83).

Quando se associa o conceito de saúde ao de normalidade, entendida como frequência estatística, qualquer anomalia ficará inevitavelmente associada à patologia. Dentro desta perspectiva, portanto, é arriscado demarcar as fronteiras entre normalidade e patológico quando estiverem limitados unicamente ao aspecto fisiológico. Essa perspectiva justificaria, assim, a medicalização na menopausa sob vários aspectos, desde a naturalização do corpo feminino até ao conceito de controle (e manipulação) acerca deste corpo para delimitar a anormalidade quando a mulher deixa de menstruar.

Analisar as dificuldades implícitas na oposição destes conceitos seria difícil, sem questionar a natureza dessa dicotomia, especialmente sob uma visão foucaultiana do biopoder. Falar da biopolítica da população, segundo a estudiosa no assunto Sandra Caponi (2009, p. 534), implica aceitar um processo complexo que tem duas faces, a saber: a do domínio vital, que pauta a reprodução da saúde e da morte na esfera social; e a das políticas higienistas e psiquiátricas desenvolvidas no século XIX.

Com o pretexto e a justificativa de melhorar a população, “classificaram uma série de condutas que, sob a categoria de anormalidade, podem começar a ser medicamente controladas” (Ibid., p. 534). Para Paul Rabinow (2006), o sofrimento estabelece o estado de doenças, e não as mediações normativas ou os desvios padrão. Destarte, o conceito de normalidade atribuído pela medicina moderna para definir o que é patológico, através de média ou da frequência estatística de uma população, tem criado sérios problemas de entendimento entre os termos normalidade e saúde.