Atividades de aprendizagem
Aula 7 – Patrimônio histórico edificado e sociedade
7.2 Patrimônio cultural edificado
No Brasil a valorização do patrimônio cultural se deu a partir da década de 1930 com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), pela Lei Federal 378, de 13 de janeiro de 1937, cuja organização foi regulamentada pelo Decreto-Lei n. 25, de 30 de janeiro de 1937 (BRASIL, 1937). Apesar da grande evolução da noção do patrimônio e de como tratá- -lo, até a década de 1960 a política de proteção continuava direcionada ape- nas a grandes edifícios históricos que representavam a elite da sociedade. Nosso país ainda via nossa herança cultural a partir da visão pós-colonização. A preservação e o destaque eram dados somente para as habitações da elite, enquanto os vestígios dos subalternos eram dignos de desdém e desprezo. O trabalho escravo nunca foi visto como forma de criação de valores cultu- rais, muito menos a cultura de nossos índios.
Negros e brancos pobres eram vistos nos livros escolares como trabalhadores, mas não construtores de cultura. Assim a educação formal também contribuiu para a ampliação de uma cultura de não valorização no nosso real passado.
Desse modo é compreensível a distância entre o patrimônio cultural e a maio- ria da população brasileira, uma vez que esta não reconhece nele nada seu. Foi só a partir da década de 1980 que, com movimentos sociais, o patrimônio cul- tural começou a ser mais valorizado e principalmente entendido pela população. Aos poucos nosso país criou uma consciência da importância da valorização de nossa cultura (monumentos históricos, festas típicas e belezas). O patri- mônio passou a constituir uma coleção simbólica unificadora, que procurava dar base cultural idêntica a todos, embora os grupos sociais e étnicos presen- tes em um mesmo território fossem diversos.
Patrimônio significa algo que pertence a alguém. Etimologicamente, signi- fica “herança paterna” na verdade, a riqueza comum que nós herdamos como cidadãos, e que se vai transmitindo de geração a geração.
O conceito de patrimônio cultural é vasto, não se restringe apenas a imóveis oficiais isolados, igrejas ou palácios, mas na sua concepção contemporânea se estende a imóveis particulares, trechos urbanos e até ambientes naturais de importância paisagística, passando por imagens, mobiliário, utensílios e outros bens móveis, ou seja, compreendem as particularidades ou especifici- dades de um local, região ou sociedade.
A principal característica de um patrimônio cultural é que a sua conservação seja de interesse público, seja por sua vinculação a fatos memoráveis da história do lugar e de seu povo, seja por seu excepcional valor arqueológico, etnográfico, bibliográfico ou artístico.
De acordo com Klamt (2008), uma forma de conceituar o patrimônio cultu- ral é dividi-lo em categorias:
a) os elementos pertencentes à natureza e ao meio ambiente, os recursos naturais são os sítios e paisagens da natureza considerados excepcionais por suas qualidades intrínsecas e por seu valor ambiental e que tornam o sítio habitável. Ex.: rios, peixes, cachoeiras, árvores, cavernas, etc.;
b) o intelectual, ligado às técnicas, o saber e o saber-fazer, compreendendo toda a capacidade de sobrevivência do homem em seu meio ambiente;
c) os bens culturais propriamente, os bens de ordem emocional, engloban- do toda a sorte de coisas, objetos, artefatos e construções obtidas a par- tir do próprio meio ambiente e do saber-fazer humano.
De acordo com a Constituição Federativa do Brasil de 1988, art. 216 (BRA- SIL, 1988):
“Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza mate- rial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artís- tico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”
O órgão que identifica, reconhece, promove e protege o patrimônio em nível fe- deral é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), ligado ao Ministério da Cultura. Em nível estadual temos o Instituto do Patrimônio Históri- co e Artístico Estadual (IPHAE). Em muitos estados e municípios, as secretarias é que são encarregadas de proteger o patrimônio em nível regional.
Entretanto, não podemos esquecer que, antes de ser um papel do governo, são as pessoas que devem proteger os bens culturais, materiais e emocionais de sua localidade.
O IPHAN divide o Patrimônio Cultural em dois grupos: imaterial e material. Patrimônio Cultural Imaterial ou Inatingível trata-se da nossa herança que não pode ser tocada, mas que se sente no coração, que se imagina, que se encontra no imaginário das pessoas.
É entendido como aquele em que as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, instrumentos, objetos, artefatos e lugares são reconhecidos e constantemente recriados pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. Na lista de bens imateriais brasileiros estão a festa do Círio de Nossa Senho-
ra de Nazaré, a Feira de Caruaru, o Frevo, a capoeira, o modo artesanal de fazer Queijo de Minas, as matrizes do Samba no Rio de Janeiro, a festa do Boi Bumbá no Amazonas.
O Governo Federal por meio do Decreto lei 3.551/2000 criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI) e instituiu como formas de reconhe- cimento, valorização e proteção do patrimônio Imaterial o registro em livros temáticos e o inventário, são eles: Livro dos Saberes; Livro das Celebrações; Livro das Formas de Expressão e Livro dos Lugares.
O Patrimônio Material ou Tangível é o conjunto de bens que contam a história de uma geração através de sua arquitetura, vestes, acessórios, mo- bílias, utensílios, armas, ferramentas, meios de transportes, obras de arte, documentos.
É protegido pelo IPHAN, com base em legislações específicas. É formado por um conjunto de bens culturais classificados e registrado segundo sua natu- reza nos quatro Livros do Tombo: Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; Artes Aplicadas; Belas Artes; e Histórico.
Considerados importantes por razões históricas, arqueológicas, artísticas, arquitetônicas, tecnológicas, afetivas e formadoras da memória de uma co- munidade, o patrimônio material está dividido em bens móveis: coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arqui- vísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos; e bens imóveis: núcleos urbanos (onde estão incluídos os patrimônios históricos edificados ou arquitetônicos), sítios arqueológicos e paisagísticos, bens individuais que atestam a história de uma dada sociedade.
Entre os bens materiais brasileiros estão os conjuntos arquitetônicos de cidades históricas como Ouro Preto (MG), Paraty (RJ), Olinda (BA) e São Luís (MA), o Teatro Amazonas (AM) ou paisagísticos, como Lençóis (BA), Serra do Curral (Belo Horizonte, (MG), Grutas do Lago Azul e de Nossa Senhora Aparecida (Bonito, MS), o Corcovado (Rio de Janeiro, RJ), o Encontro das Águas (Manaus, AM). Patrimônio Histórico Edificado são construções representativas, que por seus estilos, época de construção, técnicas construtivas utilizadas, entre outros, são reconhecidas como patrimônio arquitetônico( vide figuras 7.1 e demais presentes neste caderno e as demais que postarmos no AVEA) No Brasil o reconhecimento formal, via tombamento, ocorre em três níveis: municipal, estadual e federal.
Livros do Tombo
A expressão Livro de Tombo, provém do Direito Português, onde a palavra tombar tem o sentido de registrar, inventariar inscrever bens nos arquivos do Reino. Atualmente o tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público com o objetivo de preservar, por intermédio da aplicação de legislação específica, bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo que venham a ser destruídos ou descaracterizados
O patrimônio arquitetônico ou edificado é uma fonte e um suporte de informa- ções ricas em conteúdo, assim como o livro, o jornal, a fotografia e outros. Além de servir ao conhecimento do passado, o patrimônio histórico-cultural é um testemunho de experiências vividas que permitem ao homem com- partilhar e ampliar sentimentos de pertencer a um mesmo espaço, a uma mesma cultura e desenvolver a noção de algo em comum, compondo a identidade coletiva.
Nossa memória social será mais significativa quando o que foi vivido por nossos antecessores começar a representar um fator importante para nossa consciência coletiva. Portanto, preservar o patrimônio cultural é garantir que a sociedade tenha maiores oportunidades de perceber a si própria.
A preservação e a conservação são necessárias para um resgate da história e memória do conjunto em que esses patrimônios arquitetônicos estão inseridos. Nesse espaço também há lugar para o novo e as fontes de informação sobre esse patrimônio servirão de resgate da memória para as gerações seguintes. Entende-se por preservação todas as ações que beneficiam a manutenção do bem cultural. Por exemplo: criar leis para garantir a integridade do patri- mônio, criar mecanismos para viabilizar a realização de projetos de restau- ração, estabelecer parâmetros para sua segurança e o cuidado com o meio ambiente que circunda o local. Enfim, todas as ações que colaboram para garantir a integridade do bem que se deseja preservar.
A conservação não se limita somente em ações direcionadas na matéria do objeto. Ela visa interromper os processos de deterioração, conferindo esta- bilidade à obra. Para tanto promovem ações para controlar os agentes que podem provocar a deterioração do bem cultural, como os biológicos (cupins, fungos, etc.), atmosféricos (temperatura e umidade), luz (natural, artificial), poluentes e o ser humano (manuseio, acondicionamento e transporte inade- quados, vandalismos e roubo).
A preservação do patrimônio cultural edificado é considerada uma base para a evolução cultural do povo que o desenvolveu e representa um “passo” para o desenvolvimento da arte e da arquitetura na história da humanidade. Assim, recuperar e resgatar a memória arquitetônica de uma cidade é uma tarefa que deve ser buscada junto à comunidade, a fim de que se possa au- xiliar na formação de uma identidade local.
Vale ressaltar que o Patrimônio cultural além de sua importância na constru- ção da identidade de uma comunidade também apresenta interações signifi- cativas com outros importantes segmentos da economia como a construção civil e o turismo, ampliando exponencialmente o potencial de investimentos.