Até o momento nesta tese, procuramos analisar como a historiografia entende e caracteriza as camadas mais privilegiadas da sociedade mineira colonial que optamos por chamar de elites locais ou coloniais. Fizemos, para os nossos sujeitos, uma delimitação mais específica, a fim de entender nos pormenores quem eles eram e como se configuravam. Buscamos também explanar sobre as concepções de educação que pudemos observar nesse período em que a escola era ainda muito embrionária; apresentamos uma concepção ampliada de família, com diferentes arranjos observados no contexto que vão muito além daquele estalecido pela Igreja e pelos preceitos Tridentinos. Procuramos entender como oficialmente eram as possibilidades de se distribuírem as heranças e analisamos o quê, como e para quem os nossos sujeitos, membros distintos dessa sociedade, deixavam os seus espólios, na intenção de alcançar o papel do legado de um patrimônio educativo para a manutenção e perpetuação desses privilégios.
A partir de agora, a intenção é demostrar como esse patrimônio educativo era legado nos cotidianos dos diferentes tipos de famílias encontrados na documentação.
Buscamos, assim, entender as estratégias adotadas por esses grupos familiares e perceber o papel da educação na busca pela distinção social desses sujeitos.
Estudos demonstram que na América Portuguesa, incluindo a Capitania de Minas Gerais, a capacidade de leitura e escrita era restrita a um número pequeno de pessoas. Como já mencionado, o domínio da escrita era principalmente desenvolvido no segmento composto por homens brancos e abastados.261 Isso, contudo, não significa que a sociedade colonial fosse uma sociedade pouco letrada, ao contrário.
Apesar do limitado número de pessoas que sabiam ler e escrever, os moradores das Minas utilizavam-se do escrito e da leitura no seu cotidiano em diversos níveis de interação: para se comunicar, para fazerem anotações relativas aos bens e aos negócios, aos escritos pessoais, ou para legar seus bens e últimas intenções em seus testamentos. A escrita fazia parte do dia a dia inclusive daqueles que não haviam tido acesso ao aprendizado das primeiras letras. Estes podiam ter
261 Fonseca (2009); Morais (2009); Vartuli (2014).
seus escritos elaborados pelas mãos de terceiros, que podiam ser pessoas de confiança ou escrivães. Ao analisar a feitura das cartas de alforria em sua tese, Morais demonstra a importância do escrito para a sociedade mineira setecentista:
Em uma sociedade na qual a palavra escrita se encontrava disseminada, tanto os sujeitos capazes de ler e escrever, quanto os que não dominavam essas técnicas, sabiam que os acordos firmados por escrito e assinados possuíam mais valor do que os que se baseavam na oralidade e, ainda, que a posse de determinados documentos poderia garantir poder. (Morais:2009-186)
Nesse contexto, o nível de letramento dos indivíduos possibilitava agregar a eles distinção e, em alguns casos, alguma mobilidade social.262 Assim sendo, é de fundamental importância que busquemos compreender de forma mais detida quais os níveis de letramento de alguns dos sujeitos aqui abordados. Essas análises nos permitirão observar a relação entre o nível de letramento desses homens ricos com os tipos de patrimônio educativo por eles legados e assim compreender o papel desse capital cultural como capital simbólico de distinção social.
Análises das assinaturas
Para o que propomos fazer agora, optamos por empregar uma metodologia que utiliza a análise de assinaturas para entender o nível de letramento por meio da elaboração de uma escala de literacia desenvolvida pelo professor Justino Pereira de Magalhães (1994). Combinadas com outras informações acerca da vida desses sujeitos e suas relações sociais, essa análise de assinaturas apresenta-se como um caminho possível para que possamos compreender a capacidade literácita desses sujeitos.
Para Justino Magalhães (1994), as assinaturas no plano histórico são sinais mais universais e documentados referentes ao comportamento alfabético e literácito do sujeito. Elas são um registro gráfico com relevantes marcas de padronização no que tange às dimensões pessoais, socioculturais e socioprofissionais. De acordo com o autor, é possível utilizar as assinaturas “como
262 Ver Fonseca (2009).
recurso e por via indireta a capacidade para assinar o próprio nome, como elemento de informação, relativamente à capacidade alfabética”.
Desse modo, para a realização dessas análises, de acordo com o mesmo autor, há que se observar fatores internos – como o conhecimento da “cultura gráfica” (a caligrafia dominante do período pesquisado) – e fatores externos – como as profissões, posição socioeconômica, ocupação de cargos administrativos ou obtenção de patentes militares, e as circunstâncias históricas, os contextos de iniciação à escrita e de reforço. Dessa forma, entendemos que não é possível enquadrar os sujeitos na escala levando-se em consideração apenas as assinaturas; assim, buscamos relacioná-las, o quanto possível, com esses outros fatores.263
Ainda que tenham alguns limites, as assinaturas são um dos mais importantes indícios da relação com a cultura escrita daqueles que viveram nos Setecentos e Oitocentos.264 Assim sendo, mostram-se, quando associadas a essas outras variáveis citadas acima, como importantes indicadores de letramento, possibilitando-nos acessar informações de extrema relevância para entendermos os processos educativos pelos quais esses indivíduos passaram, bem como ajudando-nos a construir suas trajetórias educativas e a relação dessas com o legado que deixam. Essa escala apresenta-se da seguinte forma:
263 Destacamos que não pretendemos aqui traçar o perfil daqueles que possuíam o domínio da leitura e/ou escrita, uma vez que compreendemos que para tal seria necessário um levantamento serial mais significativo. Contudo, acreditamos que as análises das assinaturas e de outros escritos, quando houver, combinadas com as variáveis propostas pelo autor e outras que se mostraram significativas para nós, nos ajudam a compreender a relação desses sujeitos com a cultura escrita.
Com esse intuito, tais análises estão sendo apresentadas em diversos momentos ao longo das nossas análises.
264 Outros trabalhos que utilizaram a mesma metodologia são Maria do Céu Alves (2003), abordando assinaturas na Mafra–Portugal/século XVII; Morais (2009), que analisou assinaturas de testadores em São João Del Rei/séculos XVIII e XIX; e Paula (2016), que analisou assinaturas de tutores em Vila Rica/século XVIII.
Tabela 10 – Escala de níveis de leitura e escrita.
NÍVEL ESCALA DE ASSINATURAS
NÍVEIS DE LEITURA E ESCRITA
1 Não assina (siglas,
sinais-assinaturas) Não sabe ler nem escrever
2
Assinatura imperfeita, rudimentar de “mão
guiada”
Apenas lê e escreve mal, apenas lê e escreve o nome,
apenas lê, apenas escreve ou faz o nome.
3
Assinatura normalizada, completa
(pode ser abreviada)
Apenas lê e escreve, escreve sofrivelmente,
escreve, lê e escreve alguma coisa.
4 Assinatura caligráfica;
estilizada.
Lê e escreve sofrivelmente, escreve.
5 Assinatura
pessoalizada; criativa.
Lê e escreve bem ou uma formação acadêmica
equivalente.
Fonte: MAGALHÃES (1994:317-319).
Para a realização dessas análises, optamos por fechar o foco em alguns casos representativos. Acreditamos que deste modo conseguimos aprofundar nossas observações de forma qualitativa. Nesse intuito, dividimos as famílias em três tipos, por serem esses os mais comuns nas fontes analisadas. Primeiro trabalharemos com as famílias formadas por homens casados, seus filhos legítimos e, em alguns casos, ilegítimos/naturais. Depois traremos à luz outro tipo de família muito comum nas comarcas estudadas: os homens solteiros, seus inúmeros filhos ilegítimos/naturais e suas mães, que algumas vezes eram escravas e, em alguns casos, escravas mesmo dos pais de seus filhos. Por fim, observaremos como os homens solteiros e sem filhos, que percebemos em maior número na comarca do Rio das Mortes, destinavam os legados relativos à educação.
Esses casos permitem-nos perceber mais nitidamente essa correlação desenvolvida pelas famílias entre os capitais social, cultural, econômico e simbólico.
Por meio das trajetórias agora analisadas, podemos constatar como os homens ricos legavam educação e, especialmente, educação voltada para as letras aos seus descendentes nas diferentes configurações das famílias. Assim, acreditamos que, ao nos aproximarmos desses patrimônios educativos e das estratégias utilizadas para educar essas proles, conseguimos observar como isso se reflete na perpetuação ou não desse lugar de distinção e privilégios das mesmas.
4.1 - Famílias tradicionais – a fé e as letras Família do Capitão José Ribeiro de Carvalho
O primeiro caso a ser tratado é o da família do Capitão José Ribeiro de Carvalho,265 morador da Vila de Sabará, na Comarca do Rio das Velhas. Já citado anteriormente, aparece indicado na Lista dos Homens Ricos como se ocupando de negócios.266 Era natural da Freguesia de Santo Adrião, Arcebispado de Braga, e fixou-se nas terras mineiras, onde construiu para si significativa posição.
Ribeiro de Carvalho era um homem que possuía habilidade com as letras. Em seu inventário há vários recibos, vales e outros escritos feitos por ele que demonstram familiaridade com o escrito. A imagem abaixo traz a assinatura do Capitão José Ribeiro de Carvalho e serve para observarmos tal familiaridade. Sua escrita mostra-se firme e feita com demostra-senvoltura. Para realizar esmostra-se tipo de escrita, que podemos entender como sendo de nível 5 na escala literácita acima, o assinatante precisava se submeter a muito treinamento. Se não somos capazes de afirmar que o alto nível de letramento do capitão foi determinante para o patrimônio educativo legado à sua prole, ao menos podemos inferir que seus descendentes foram fortemente influenciados pelas habilidades do patriarca dessa família, como veremos a seguir.
265 CSO-I(31)257; Carta Patente Capitão de Ordenança no Sabará/PT/TT/RGM/D/0004/76457.
266 No seu inventário, não consta a relação de bens, o que ajudaria a vislumbrar as atividades exercidas por ele, mas se percebe que seus negócios eram diversificados, envolvendo comércio e atividades creditícias.
Figura 1 - Assinatura do Capitão José Ribeiro de Carvalho.
Fonte: MO/CBG – IBRAM CSO-I (31)257.
Ribeiro de Carvalho morreu em 1770, sendo sepultado no cemitério da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo da Vila de Sabará, da qual fazia parte.
Quando de sua morte, deixou declarados como seus herdeiros nove filhos, sendo dois deles filhos de seu primeiro casamento com Dona Úrsula Coelho de Avelar, já falecida.
Esses filhos eram chamados João e Úrsula, ele religioso professo, e ela religiosa ainda não professa à época, segundo as palavras de José Ribeiro de Carvalho em seu testamento. Nesse documento, declarou ainda que ele tinha seis filhos com a atual esposa, Dona Quitéria Maria de Barros.
O filho que acaba por fechar nossa conta em nove é Antônio, que José teve no tempo de solteiro com uma parda de nome Antônia Rangel de Abreu. Antônio vivia na companhia de seu pai, seus outros irmãos e Dona Quitéria. Sobre esse filho ilegítimo/natural, diz em seu testamento: “O instituo, juntamente com meus outros filhos, como meu herdeiro para que este possa herdar igualmente como os outros meus filhos. Declaro que sou tutor deste meu filho e que possuo uma conta corrente da legítima deste”. 267
Observemos a composição familiar no esquema abaixo:
267 Testamento trasladado no Inventário do mesmo. CSO-I(31)257
Fonte: Inventário de José Ribeiro de Carvalho. Elaborado por nós.