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Paul Newman era mais do que um grande ator

No documento DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS (páginas 198-200)

SEG, 29/09/08

POR PAULO MOREIRA LEITE |

Passei o fim de semana lembrando velhos filhos de Paul Newman. Ouvi entrevistas e vi análises. Poucos anos antes de morrer, ele contou que trabalhava cada vez menos, descansava cada vez mais. Já não conseguia fazer muita coisa, disse. Perguntaram se estava cansado de tudo. Ele deu uma resposta para guardar: “Não dá para se aposentar da vida.”

Eu acho que a lição de vida Paul Newman é muito mais do que uma ótima aula de interpretação, disponível em filmes inesquecíveis como “Gata em Teto de Zinco Quente”, “Ausência de Malícia” e “Butch Cassidy e Sundance Kid”, para ficar em três exemplos.

Ele era um grande ator — mas vamos lembrar que Hollywood teve outros grandes atores. Também era considerado um ator bonito — vamos lembrar, de novo, que não era o único em sua geração.

Eu acho que Paul Newman usava seus filmes para demonstrar que a vida era mais importante que o cinema. Defendia seu trabalho como parte de sua integridade. Se a industria do cinema procura transformar atores e atrizes em operários embrutecidos numa fábrica de futilidades milionárias, ele tinha uma postura de

resistência.

Fazia questão de escolher papéis e só fez um filme que era uma operação caça níquel descarada, um certo “Inferno na Torre” — catástrofe na época dos filmes1catástrofe.

Falando sobre seu método para aceitar uma oferta de trabalho e rejeitar outra, contou que no início da carreira procurava personagens que pudessem lhe ensinar alguma coisa. E que, mais tarde, acontecia o inverso: procurava personagens aos quais pudesse transmitir algum complemento.

Na verdade, eram dois caminhos para chegar ao mesmo lugar: entender a condição humana, contribuir para aperfeiçoá1la. Encarnou bêbados, derrotados e desajustados, representou frustrações profundas e lutas difíceis, dando rosto e voz para dramas e tragédias de nosso tempo. Seus melhores filmes não tinham um final feliz. Retratavam impasses, dúvidas, pontos de interrogação em velhas convicções da sociedade contemporânea. Alguns atores representam personagens. Newman era capaz de se expressar através deles.

Como ensinou aquele filósofo, nada do que era humano lhe era estranho. E é dessa forma que se entende sua generosidade, que o levou a montar uma fábrica de alimentos orgânicos que não deixava uma única nota de 1 dólar — e a gastar 250 milhões de dólares em ações de solidariedade sem fazer disso um projeto de auto1marketing.

Paul Newman não teve uma carreira construiu uma obra — ele próprio, o personagem mais difícil na vida de cada ser humano. Encontrou um lugar e soube defendê1lo. Deixou de ser um ator para tornar1se uma referência da cultura e uma consciência da sociedade americana de seu tempo.

Paulo Moreira Leite http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/2008/09/29/o1ator1que1era1 mais1do1que1um1grande1ator/

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O Pai que trocou a escola do filho por filmes

(OGlobo - 24/05/2009 05:00:07)

Escritor canadense conta como passou a se relacionar melhor com jovem ao organizar sessões de cinema.

Eduardo Fradkin

Oex-crítico de cinema e escritor canadense David Gilmour (homônimo do guitarrista do Pink Floyd) estava prestes a fazer um livro sobre como superar decepções amorosas com mulheres e já tinha até uma editora para lançá-lo, quando seu filho Jesse abriu-lhe os olhos.

- Ele me disse: "Ninguém vai ler isso. Não é para o público feminino, e os homens não compram livros desse tipo. Por que você não escreve sobre os três anos que passamos vendo filmes?" - relata Gilmour, em entrevista por telefone.

O pai seguiu o conselho, e o resultado é "O clube do filme", sucesso mundial que será lançado no Brasil amanhã pela editora Intrínseca. A obra narra uma história real: Jesse, aos 16 anos, estava sem rumo na vida, reprovado em várias matérias na escola. David, então, fez-lhe uma proposta singular. O garoto poderia deixar a escola e não precisaria arranjar trabalho. Poderia dormir até tarde e fazer o que quisesse, mas teria que assistir a três filmes com David por semana e debatê- los.

- Ele realmente odiava a escola. Eu acredito muito na educação, sou professor universitário em Toronto. Mas Jesse era um caso especial. Algo na personalidade dele fazia com que lhe fosse penoso ficar horas sentado na sala de aula. Era algo fisicamente doloroso. Isso se tornou um problema entre nós, porque eu queria que ele terminasse a escola, então ficava cobrando os deveres dele. Nossa relação se tornou uma briga constante. Percebi que, no fim das contas, eu não poderia forçar um moleque de 1,93 metro a fazer o que era necessário para concluir o ensino médio. Tudo o que eu conseguiria era destruir nossa relação e levá-lo a sair de casa. Em seis meses, é o que teria acontecido. Eu o teria perdido - alega David.

O escritor ressalta que aparentemente nada havia de errado na personalidade do filho:

- Ele não tinha problemas comportamentais ou intelectuais. Era sociável, falante. Apenas odiava a escola.

Garoto-problema se tornou roteirista e estuda atuação Hoje, Jesse está com 23 anos. O que anda fazendo?

- Para a surpresa de todos, ele acaba de escrever e estrelar seu primeiro curta-metragem, de dez minutos, e também escreveu o roteiro de um longa que será filmado em algum momento durante o ano. Um famoso produtor canadense o leu e gostou do texto. Foi uma surpresa para mim e a mãe dele, pois não esperávamos que ele se interessasse por atuar ou escrever roteiros. Há mais ou menos um ano, ele decidiu que era o que queria fazer.

No fim do livro, Jesse resolve voltar para a escola e faz um curso intensivo de três meses para prestar um teste de admissão. Ele passa. David diz o que aconteceu depois disso:

- Ele entrou na Universidade de Toronto e ficou um ano estudando lá. Mostrou a todos que podia ser um universitário, mas disse que descobriu o que queria fazer, que era escrever um roteiro, e abandonaria a universidade para realizar aquilo. Foi para a Tailândia e três meses depois

apareceu com o roteiro. Outra surpresa é que Jesse se revelou um bom ator. A mãe dele é atriz e o preparou para o curta de dez minutos. Ela me disse que ele tem um dom natural para atuar. Ele vai fazer isso no próprio filme. Está começando a tomar aulas de atuação.

Todavia, David não atribui ao cinema a ligação afetiva construída com o filho.

- Nós não nos aproximamos por causa dos filmes. Nós já nos adorávamos. A escola era o problema. No momento em que eu disse para ele que não precisava mais ir à escola, ficou tudo bem. Jesse precisava de duas coisas. Precisava de tempo para se tornar quem ele seria. Tinha só 16 anos. Nessa idade, nenhum garoto sabe o que quer. Também precisava de uma figura

exemplar para a vida no mundo adulto. Se eu não servisse de modelo, ele o encontraria no seu grupo de amigos, e isso poderia ser uma encrenca. A tendência dos jovens é escolher como modelo o garoto com a personalidade mais forte, que pode vir a ser um delinquente ou um traficante. Eu acredito que adolescentes precisam de seus pais muito mais do que admitem - afirma David.

No documento DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS (páginas 198-200)