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2. Capítulo II: Moda e Arte na Belle Époque

2.5. Paul Poiret adentra o mundo da moda e da alta-costura

Após todos os elementos apresentados sobre arte, Art Nouveau, Art Déco e moda, mostraremos como a figura de Paul Poiret se encaixou nesse contexto em seu início de carreira.

Para falar sobre essa inserção de Poiret no contexto da moda, utiliza-se de alguns conceitos feitos por Pierre Bourdieu em obras como O poder simbólico (1992) e A economia das trocas simbólicas (2007). Nelas, o autor trabalha com conceitos como campo, habitus e poder simbólico.

O campo pode ser compreendido como uma estrutura ou microcosmo social que possui certa autonomia, mas que não é imóvel e que constantemente se relaciona com elementos dentro dele. Quanto mais estruturado um campo é, mais autonomia ele tem.

Dentro desse campo estrutural, existem disputas de forças entre os agentes ou indivíduos que fazem parte dela, buscando o capital ou poder simbólico que os colocam no centro do campo, sendo ele uma espécie de acúmulo de símbolos que são reconhecidos como importantes pelos sujeitos que fazem parte do campo. O habitus que movimenta o sujeito dentro desse contexto, podendo ser visto como o produto das relações entre os agentes sociais com as diversas relações estruturais de tal contexto e traduzido como estilos de vida, padrões morais, estéticos, etc. O sujeito ocupa um lugar definido por eixos que podem ir ou não em direção ao centro e, quanto mais perto do lugar central, melhor na sociedade está o sujeito. Quem consegue manipular o habitus a seu favor e está dentro do campo que detém o “poder” de tal estrutura e, quanto mais poder ou capital simbólico acumulado dentro do contexto do campo, mais centralizado fica o sujeito.

O campo da moda e da alta-costura, no período tratado nessa dissertação, ainda estava sendo construído. Os sujeitos que faziam parte dele ainda estavam sendo definidos, assim como suas estratégias e formas de trocas de capital simbólico. Neste tópico, mostramos como Paul Poiret enfim conseguiu se colocar no campo da alta-costura, acumulando seus primeiros indícios de capital simbólico e as estratégias que utilizou que o empurraram cada vez mais para o centro do campo que, afinal de contas, é mutável.

Em sua autobiografia (2009), Poiret descreve sua rotina na Maison Doucet – na qual ingressou ainda muito jovem, como já foi citado – e o início de sua realização pessoal no mundo da costura e da Moda (imagem 19). Ele fazia de tudo para ganhar importância dentro da Maison e chegou a ser chefe do departamento da alfaiataria. Lá, ele conheceu os mais importantes

clientes de Doucet e também participava das criações de novos modelos toda semana. De acordo com Bolton e Koda (2007, p. 13), foi um manto que ele fez para a atriz Réjane para uma peça chamada Zaza que garantiu a ele a sua fama. Suas criações pessoais ainda seguiam bastante o modelo da época e tinham grande influência do Art Nouveau, inspirando-se em seu mestre. Poiret começou a criar sua própria independência e a sustentar suas opiniões devido à sua personalidade forte, o que gerou algumas discussões com seu pai. Essas questões de divergência de opiniões e ações também afetaram a relação com Jacques Doucet, e por isso ele teve que deixar a Maison. Entretanto, na época em que saiu de lá, ele chegou a ser chefe do departamento de costura, mostrando como ele conseguiu acumular um capital de prestígio.

Imagem 19. Uma das primeiras criações de Poiret, ainda na Maison Doucet.

Dois meses depois cumpriu um período de obrigatoriedade do exército, retornando para o mundo da moda em 1901 para trabalhar na Maison Worth. Esta foi criada por Charles

Frederick Worth, mas passou a ser cuidada pelos seus filhos Gaston e Jean após sua morte em 1895. Gaston foi mais simpático com Poiret e disse que a Maison era “como um grande restaurante que se recusava a servir outra coisa senão trufas. É, portanto, necessário criar um departamento para as batatas fritas” (2009, p. 30). As “batatas fritas” seriam roupas mais simples para o cotidiano, e foi Poiret que cuidou desse novo departamento. Entretanto, Jean era contra essa ideia e, segundo Poiret (2009, p. 31):

M. Jean Worth não ficou muito feliz em ter introduzido em sua Maison um elemento que, em sua opinião, rebaixava seu nível. Ele não gostava muito de mim, porque em sua visão eu representava um novo espírito, no qual havia uma força (ele sentiu) que poderia destruir seus sonhos.

Jean tentou humilhá-lo diversas vezes durante o período em que esteve na Maison, e, segundo Bolton e Koda (2007, p. 13) ele não foi o único a se incomodar com as criações de Poiret. Uma princesa russa chamada Bariatinsky achou um manto feito por ele com linhas que lembravam um quimono como muito “simples” para seu gosto. Os autores afirmam que ela exclamou “que horror; conosco, quando pessoas de classes mais baixas nos incomodam correndo nos pés de nossos trenós, fazemos eles terem suas cabeças cortadas e colocadas em sacos como esse (manto)” (2007, p. 13). Entretanto, esse episódio não impediu a fama de Poiret de crescer, mas o incentivou a procurar abrir seu próprio negócio. Uma casa vazia na rue Auber fez com que ele começasse a concretizar seus planos de abrir sua casa de costura. À procura de apoio, ele foi até Gaston Worth e disse (2009, p. 34):

Você me pediu para criar um departamento de batatas fritas. Eu fiz isso. Estou satisfeito com isso e espero que você também. Mas espalha-se pela casa um odor de fritura que parece incomodar muita gente. Assim penso em me mudar para outro quarteirão, fritando batatas por minha conta. Você poderia pagar pela minha frigideira?

Poiret tenta buscar o mesmo discurso utilizado por Gaston quando o contratou, provavelmente para inspirar alguma sensação nostálgica e mais simpatia na esperança de conseguir um empréstimo. Gaston disse que entendia a impaciência de Poiret e admirava sua iniciativa, mas que não podia nem sonhar em investir em outro negócio que não fosse o seu, desejando-lhe boa sorte. Para poder conquistar seus objetivos, Poiret teve que contar com a ajuda da mãe, pois seu pai não fazia mais questão de ampará-lo. Em 1903, a Maison Poiret foi inaugurada.

Ao longo deste capítulo discutimos sobre moda, arte e mostramos o início de carreira de Paul Poiret e como ele acumulou capital simbólico suficiente para ter o prestígio de abrir sua própria Maison dentro do campo da moda e da alta-costura. Assim, o capítulo seguinte abordará especificamente os costureiros, as casas de costura, as lojas de departamentos, em cujo contexto iria se destacar Paul Poiret e suas principais criações e influências após abrir a prória Maison.