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3 O Marxismo Verde e a teoria da “crise eco lógica” do capitalismo

3.2 Paul Sweezy e o neomarxismo norteamericano

O surgimento do debate a cerca da teoria marxista nos Estados Unidos foi sin- tomaticamente resultante da falência de seu modelo produtivo que, tendenciosamente monopolista, deu margem para grandes crises econômicas; em contraposição à ideolo- gia de uma suposta “prosperidade universal” proporcionada pelo “livre comércio”, reli- giosamente repetida pelos tradicionais economistas, políticos e publicitários americanos. Segundo RESNIK;WOLFF, a ordem econômica americana foi empalada por seu próprio

sucesso, e conduzida para uma queda dos lucros por sua própria abundância4, fato gerado

pela expansão multinacional das grandes empresas americanas e o aumento de seu poder de controle sobre a economia (monopólio), sobre a política e sobre os meios midiáticos. O “sonho americano” se tornou o pesadelo de muitos, tão logo o enfrentamento da dura face do capitalismo e sua tendência a contínua, progressiva e interminável busca pela produção da mais-valia, mostrou seus efeitos danosos.

Paul Sweezy foi o primeiro autor, norte americano, a olhar devidamente para este sistema e iniciar um estudo metódico, a partir do marxismo, sobre a sua compreensão. Em seu livro The Theory of Capitalist Development, publicado pela primeira vez em 1942, e que lhe rendeu um espaço especial no pensamento econômico hodierno, não só no contexto americano mas em termos globais (tendo em vista a sua tradução e publicação em diversas línguas). O autor abre o prefácio de seu texto afirmando que “não existe, na literatura inglesa, um razoável estudo analítico de compreensão na economia política marxista. Este livro tem o objetivo de preencher esta lacuna” 5; dando a abertura inicial para que o tema do Capitalismo e da teoria Marxista passassem a integrar o campo de debate entre os economistas norte-americanos. Tal projeto deu origem, posteriormente, ao que fora chamado de “The New Left”, e não implicava unicamente numa leitura ortodoxa de Marx mas, numa extensão desta para abarcar novos fatos históricos, propondo análises e soluções originais para alguns dos principais problemas do desenvolvimento capitalismo americano, em especial o capital monopolista, e servindo de inspiração à toda geração de leitores americanos de Marx e, precisamente, ao que constitui nosso interesse, sua abordagem ecológica. Para RESNICK e WOLFF (1985, p. xi)

Sweezy apresentou uma espécie de marxismo aplicado: as análises do estado, o monopólio das empresas capitalistas, a economia internacio- nal, o imperialismo e o fascismo. Para aqueles não familiarizados com a tradição prévia dos escritos marxistas na Europa, o livro fornece uma entrada emocionante e verdadeiramente inspiradora, para o mundo da teoria marxista6. (Tradução nossa)

Em seus estudos sobre a teoria marxista da “crise capitalista”, analisou de que modo se constrói a tendência do capitalismo à produção cada vez maior de produtos, em detrimento das possibilidades de venda e, consequentemente, dar vazão a produção da mais-valia, fenômeno qual ele denominará de “underconsumption”, assim como outros problemas apresentados por Marx (SWEEZY, 1981). Graduou-se em Harvard em 1931, momento em que o mundo passava por importantes transformações, como: colapso na 4 “The American order was impaled upon its own profitable successes, driven to the negation of profits

by their very abundance” (RESNICK; WOLFF, 1985, p.31).

5 “There exists in English no reasonably comprehensive anaytical study of Marxian Political Economy.

This book is intended to fill the gap” (SWEEZY, 1942, p.vii).

6 “Sweezy showed a kind of applied Marxism: analyses of the state, monopoly capitalist enterprises,

the international economy, imperialism and fascism. For those unfamiliar with the prior tradition of Marxist writings in Europe, the book provided an exciting and genuinely inspiring entry into the world of Marxist theory” (RESNICK; WOLFF, 1985, p.xi).

bolsa de valores de Wall Street, conhecida popularmente como The Big Cash, o que levou a quebra de muitos bancos (Sweezy era filho de banqueiro); inicio da “Depressão” da década de trinta e a ascensão de Hitler ao poder. Logo cedo, passou a se reunir com um grupo de pesquisadores com intuito de debater sobre o socialismo e as teorias marxistas, sob a orientação e coordenação dos professores Joseph A. Schumpeter e Alvin Hansen. Em seu doutoramento em Harvard, em 1937, entra em contato com o pensamento de John Maynard Keynes, e a partir da influência dos estudos que desenvolveu anteriormente, passa a ver o mesmo como uma “extensão” do pensamento marxista, pelo menos no que tange a teoria da crise capitalista. Em 1938 passa dirigir um curso, como professor contratado da Universidade de Harvard, sobre “Economia Socialista”, direcionando o seu intento para a construção de um “ramo autêntico e rigoroso do Marxismo” (SWEEZY, 1942, p.vii), dentro do pensamento norte-americano.

Em 1966, publica o livro Monopoly Capital: An Essay on the American Economic

and Social Order (BARAN; SWEEZY, 1966) com a co-autoria de Paul A. Baran, e sob

a direta influência dos economistas Keynesyanos e de professores do MIT, a saber: Paul A. Samuelson and Robert M. Solowonde, com quem desenvolve uma interlocução entre a teoria marxista e a keynesiana, propondo ao final que as depressões econômicas e os ciclos de estagnação do capitalismo poderiam ser prevenidos através de uma mistura entre política monetária e fiscal. A proposta é precedida de uma profunda análise da concentração econômica nos EUA, a expansão global do ciclo de consumo, o fenômeno das multinacionais, que passa a ser a cartilha de debate dos neo-marxistas norte americanos integrantes do movimento “The New Left” (RESNICK; WOLFF, 1985) 7.

A experiência da Guerra na vida econômica e políticas das nações, ocorrido na época em que desenvolvia a sua tese contida na Theory of Capitalist Development, fez com que Sweezy observasse a questão da absorção da mais-valia por parte do Estado Americano, para o investimento militar, e apontando-a como base para o fracasso das es- tratégias do governo em lidar com a crise capitalista. Parte da teoria contida em emphThe Monopoly Capital é dedicada a demonstração de que o investimento americano em aper- feiçoamento do poder bélico e militarismo, bem como a adoção de uma política inter- nacional de cunho “imperialista”, podem ser compreendidos como estratégias de relação íntima, fruto de imperativos econômicos (SWEEZY, 1942). A necessidade de escoamento da mais-valia, identificado como ponto chave para a resolução do problema da super- produção capitalista, e elemento fundamental para livrar da crise a enorme industria e produção americana, acabaram por se converter em mecanismos em prol do aumento do lucro das empresas multinacionais, o que ocasionou a criação de monopólios internacionais de grande influência sobre as decisões políticas do Estado Americano (RESNIK;WOLFF, 1985), bem como de outros países no mundo. Este destaque, rendeu uma importante 7 “It is no exaggeration to say that those themes stressed in Monopoly Capital became basic characte-

ristics of radical thinking throughout much of the American left subsequently” (RESNICK; WOLFF, 1985, p.xii).

crítica à atuação dos EUA na guerra do Vietnam. Segundo Sweezy (1942, p. 18)

Somos levados inevitavelmente à conclusão de que, pelo menos durante os últimos vinte anos, o capitalismo americano não foi capaz, em ne- nhum momento, de alcançar altos níveis de produção e emprego, exceto por meio de enormes gastos relacionados à guerra por parte do Governo Federal. ( ... ) Neste momento, no entanto, devemos fazer uma pausa para uma pergunta: É sem dúvida um fato, que o capitalismo americano tornou-se cada vez mais orientado para o militarismo e para o imperia- lismo, contudo, não é possível que outras formas de gastos do governo (aliados, naturalmente, com políticas adequadas em áreas como a fisca- lidade e controle de preços) sejam capazes de alcançar resultados eco- nómicos comparáveis ou até mesmo mais impressionantes?8. (Tradução

nossa)

Além desta contribuição, Sweezy propõe em seu The Monopoly Capital, uma saída para a compreensão do problema racial e das rebeliões ocorridas nos EUA, conceituadas como sintomas da adoção desta política imperialista (SWEEZY, 1942). O investimento de dinheiro na industria bélica e as políticas de expansão do poder econômico de certas empresas, associado a estagnação resultante da incapacidade do sistema em absorver, naturalmente, a mais-valia, fez com que as classes sociais oprimidas, trabalhadores, a população pobre em geral, em especial os negros, vitimas de uma sociedade construída pela lógica do capital, se rebelassem contra a estrutura social e, principalmente, identificassem o governo como cúmplice da exploração (BARAN; SWEEZY, 1966). Tais contribuições constituíram a base dos trabalhos desenvolvidos pelos neo-marxistas de sua geração, em especial dos amigos com que formou a revista Monthly Review, e que estarão associados também às discussões da “New Left” americana. O emprego enfático da terminologia marxista, conforme feita por Sweezy, em detrimento da utilização comedida característica da literatura européia, deu o primeiro impulso para a utilização da metodologia marxista ao lado dos outros instrumentos dos economistas da época 9.

Paul Sweezy também foi o primeiro autor americano a anunciar uma “crise cien- tífica” no marxismo, no confronto das proposições teóricas de Marx e no desenrolar dos eventos do sec XX e XXI 10. Segundo ele, existem duas saídas existentes para o enfren- tamento de tal crise: uma delas seria a negação total da teoria marxista, bem como a 8 “We are led inescapably to the conclusion that at least for the last twenty years American capitalism

has at no time been able to achieve high levels of production and employment except by means of enormous war-related expenditures by the Federal Government. (...) At this point, however, we must pause to ask a question. It is certainly a fact that American capitalism has become increasingly geared to militarism and imperialism, but is it not conceivable that other forms of government expenditure (coupled, of course, with appropriate policies in such fields as taxation and price control) would be capable of achieving comparable or even more impressive economic results?” (SWEEZY, 1942, p.18).

9 “the use of Marxist terminology, while quite restrained and limited when measured against Euro-

pean Marxist literature, was nonetheless considerable in terms of its American readers’ standards” (RESNICK; WOLFF, 1985, p.xvi).

10 Segundo Sweezy (1980, p. 135-137) “I want to suggest that Marxism, considered as a science of

history and society, hás in certain important respects reached a stage of crisis in Khun’s sense. The underlying paradigm, together with the normal, to which it gave rise, have in the course of the last century produced an interpretation of the history of modern world which is enormously powerful and which has had a profound influence far beyond the community of Marxists (...) I think it is no

adoção de uma visão “agnóstica e cínica”; por outro lado, re-situar a teoria marxista, a partir da análise de suas “anomalias”, e confrontá-la à realidade de uma sociedade “pós- revolucionária” (SWEEZY, 1980). Frustrado com o não desenrolar histórico das previsões de Marx, Sweezy afirma que é possível pensar num modelo de sociedade obtido a partir da emancipação proletária, contudo, para além do binômio capitalismo-socialismo. Esta sociedade “pós-revolucionária” seria construída gradativamente a partir de focos revolu- cionários e novas formas de intervenção política sobre a produção da “mais-valia”, como a realidade vista nos países de Terceiro Mundo.

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