• Nenhum resultado encontrado

Paulo popular e a Educação de Freire: a práxis freiriana

FERNANDA 4 De Paulo Gabriel

4. O ARAGUAIA E SUA (A)GENTE: Um cardume não se afoga

4.1 Participação na Educação do Araguaia

4.1.4 Paulo popular e a Educação de Freire: a práxis freiriana

A importância da educação popular para a transformação social, que reconstrói com Paulo Freire sua base estruturante, estará presente nos relatos abaixo, nos mostrando como a práxis emancipatória florescia, em toda sua boniteza, no Araguaia.

Aqui, nos envolveremos na educação popular em vários momentos do Araguaia, trazendo, nas palavras de cada entrevistada, o seu ponto de vista sobre como a educação popular se apresentava nas práticas pedagógicas e no dia a dia. Às vezes até repetitivo, a la Freire, mas com causos da vivência experienciada.

Sempre é bom reforçar a importância de cada pessoa dessas ter uma história, uma construção diferente de vida, o que reforça os distintos olhares sobre a transformação social.

Nice e Luiz: E o Moura que tinha mais domínio do Paulo Freire, de toda a metodologia, ele fazia tipo assim, capacitação com a gente também. Ele tinha já um conhecimento maior. Foi o multiplicador. [...] Porque a gente tava na faculdade em 68 então essa discussão já tava fervendo no meio estudantil. [...] É porque teve as Ligas Camponesas, onde ele começa a desenvolver toda a teoria e isso a gente tinha notícia, que a repressão tava batendo duro. As lideranças lá das Ligas e tudo, deve ter morrido muita gente, muita gente presa. [...] Eu acho que um dos princípios da educação popular é que o povo tenha educação, não é aquela coisa que o saber vem só da academia, dos letrados, eu acho que a ideia principal da educação é que o povo tem saber, constrói saber, achei muito legal quando seu pai e sua mãe foram falar lá no SEMIEDU que tem muito essa ideia de que eles é que foram trabalhar com arte, cultura lá. E eles começaram falando que não, que o povo já tinha uma cultura local, eles colaboraram, acrescentando outras linguagens [...] e eles tem fotos que mostraram lá, a parte cultural que já existia ali na região. Aí vem o Paulo Freire que vai reforçar isso, isso daí não pode ser ignorado, todo trabalho de educação tem que valorizar essa base [...] e quando você vê hoje o governo instaurando uma base curricular nacional comum, isso é uma coisa absurda, não é a mesma coisa nunca, uma criança lá do Araguaia não...é você ignorar que existe o saber local [...] então sempre essa coisa assim que a luz vem de fora, não do local, eu acho muito bacana essa questão da educação popular por isso, é reconhecer que existe um saber. Esse povo não viveu sem cultura, quer dizer, toda sociedade humana tem educação, tem cultura, e como é que você ignora isso? só se for muito tapado mesmo. (entrevista com Nice e Luiz, 14 de junho de 2018, Goiânia/GO)

Judite: Eu consegui fazer alfabetização de adultos com o método Paulo Freire. [...] Trabalha com temáticas com a criança, trabalha lá fora, brinca, faz comidinha, faz o que for e depois faz o pequeno texto desde o começo, trabalhar com o texto, com palavras geradoras. [...] Então a escola começou a ser muito legal, eles acreditaram, quando eles receberam no final do primeiro ano os caderninhos dos alunos, que tinha

entrado sem saber de nada e tava fazendo bilhetinho, entendeu? [...] O que eu achei assim que foi interessante, que a gente também não conseguia mais ser outro professor diferente, entendeu? Tinha um acompanhamento individualizado, tinha uma estratégias de manter o aluno lendo. [...] Quando tava assim no meio do processo tinha um menino Munduruku que falou assim pra mim 'professora eu quero conhecer esse Paulo Freire [...] porque esse Paulo Freire me libertou dos planos de aula da secretaria' [...] tudo pronto, elefante, girafa, não sei o quê, entendeu? Tava lá na salinha deles [...] daí quando eles entenderam como que seria e foi super legal. [...] A gente fazia assim, a gente dava a aula pra eles, com tema deles, porque Paulo Freire fala...não é pra fazer de conta, então a gente dava aula na temática deles, na época lá foi demarcação já, que era a briga que tava lá numa das áreas que a Dilma não quis reconhecer a coisa do território. [...] Daí que nós descobrimos que dava super certo você sair daquele beabá [...] e depois trabalhar com método Paulo Freire [...] não é com as crianças, é com qualquer idade você trabalha [...] então depois disso eu comecei a investir nesse método em todo lugar que eu ia. [...] E daí essa aprendizagem vai se multiplicando e vai se atualizando em cada lugar com as suas diferenças, com as suas formas próprias de entender a educação, pra que que eles querem a educação lá, pra que que é importante estudar, isso me move muito, porque [...] tem muita resposta, tem assim um ar de satisfação quando eles sacam que podem pegar a coisa na mão deles e tocar, não precisa esperar. (entrevista com Judite, 2 de junho de 2018, Goiás Velho/GO)

Lourdes: É uma escola que pensa a comunidade como um todo, não só a escola em si, dar aula pras crianças, mas pensa sobretudo nos pais dessas crianças, a vida, a continuidade da vida, ali no lugar. Então se mistura a educação escolar com a educação popular. Então a gente adotava o método Paulo Freire [...] um método pensado pra adulto mas a gente fazia algumas adaptações e pensava também como trabalhar com a criança [...] de forma que ao mesmo tempo que você tá trabalhando a palavra com criança, a leitura, você também tá ajudando essa criança a pensar, a se conhecer enquanto pessoa naquele lugar e dentro daquelas relações que estavam em conflito naquela época. [...] A escola tinha um papel muito importante nesse sentido. E aí trabalhava as músicas selecionadas que tinha um cunho bem educativo nesse sentido, os teatros, os cânticos da igreja. [...] Acho que o que ficou de interessante naquele lugar é esse propósito de fazer uma educação que pense o sujeito como um todo, pense a comunidade como um todo e não só dentro das quatro paredes da escola. [...] Educação popular ela extrapola a educação escolar, se é que a gente pode falar de educação escolar como educação popular, mas como eu tenho uma visão da escola onde eu comecei, que a gente não separava muito, não tinha esse corte, isso aqui é educação popular, isso aqui é educação escolar. A gente tentava fazer dentro da escola uma educação popular. Eu acho que a educação popular ela extrapola e ela é mais que a educação escolar, e foi a educação popular desenvolvida naquela região por meio do teatro, de diversas formas artísticas, sindicatos, a igreja [...] tem uma importância tão grande e ela que faz nós estarmos aqui hoje. [...] Então eu vejo que a educação popular construída, feita naquela região, ela é algo muito maior e que é difícil da gente sintetizar porque ela está em várias pessoas, em vários lugares e de várias maneiras, em várias instituições. (entrevista com Lourdes, 4 de junho de 2018, Goiânia/GO)

Cidinha: Pra mim educação popular é isso, é esse trabalho que eu desenvolvo com os povos indígenas até hoje, trabalhando a questão da educação, da educação como um todo, não dizendo a educação escolarizada como superior mas a educação de cada povo, cotidiano, as lutas pela terra, as lutas pelo espaço, o território também urbano, que o povo morador de rua trabalha, a gente desenvolve esse trabalho de educação popular com eles, pra se fazer respeitado dentro daquele território que cada grupo escolhe pra viver, isso pra mim é educação popular, é não colocar a educação escolar

acima da educação da base educacional de cada grupo que eles representam, pra mim educação popular é isso, é uma educação mais politizada pra conscientização da constituição do ser de cada um e é também acima de tudo considerada uma educação coletiva e não individualizada mas a educação para a coletividade, pra mim isso é educação popular. (entrevista com Cidinha, 1 de junho de 2018, Goiás Velho/GO) Adailton: Eu acredito muito nessa educação que considera esses valores culturais, o ensino não pode estar desvinculado desses aspectos culturais e nesse sentido eu acho que a educação popular ela se torna bastante forte porque não tem jeito de fazer educação popular desvinculando desses aspectos políticos, sociais e culturais. É impossível desvincular isso. Então pensar uma educação acrítica, no sentido que a disciplina não vai se envolver, não vai falar do assunto da política, da cultura, por exemplo, eu sou da matemática, ensinar que 2 mais 2 é 4 e pronto, isso qualquer escola, qualquer educação dá conta. A educação popular ela vai além disso, então mesmo que as estruturas da onde que eu atuo ela é pensada em outra matriz mas o que eu trago dessa formação, dessas vivências, é nessa perspectiva de partir acreditando que quem tá ali já tem uma formação, você não pode anular isso, é empoderar esse ser que está vindo buscar essa formação e essa formação que a universidade ou a escola tem que oferecer ela não pode apagar essa formação que essa pessoa já traz consigo. (entrevista com Adailton, 1 de junho de 2018, Goiás Velho/GO)

Essas narrativas nos remetem à fala de Ciço, lavrador mineiro que Carlos Brandão entrevistou. Diz ele:

Agora, o senhor chega e pergunta: “Ciço, o que é educação?” Tá certo. Tá bom. Então veja, o senhor fala: “Educação”; daí eu falo: “Educação”. A palavra é a mesma, não é? Mas então eu pergunto pro senhor: “‘É a mesma coisa? Aí eu digo: “Não”. Eu penso que não. Educação…quando o senhor chega e diz “educação”, vem do seu mundo, o mesmo, um outro. Quando eu sou quem fala vem dum outro lugar, de um outro mundo. Vem dum fundo de oco que é o lugar da vida dum pobre, como tem gente que diz. Comparação, na sua essa palavra vem junto com quê? Com escola, não vem? Com aquele professor fino, de roupa boa, estudado […] Do seu mundo vem um estudo de escola que muda gente em doutor. É fato? Penso que é; mas eu penso de longe, porque eu nunca vi isso por aqui. Então eu digo educação e penso enxada, o que foi pra mim. (BRANDÃO, Carlos. 1980, p.7)

São mundos diferentes, de privilégios e injustiças, visões de mundo discrepantes, lugares de fala distintos, que, na perspectiva da ideologia dominante, coloca os saberes acadêmico e erudito superiores a esse saber popular de Ciço.

Lourdes “dá um cavalo de pau” nesse preconceito e afirma que a educação popular está presente nos saberes de Ciço, extrapola ao dizer que esse saber é maior que a educação escolar do professor fino de roupa boa. Uma aprendizagem que vai se atualizando em cada lugar com suas diferenças, como disse Judite. Uma educação

para a coletividade, como defende Cidinha. A boniteza do educador popular em reconhecer que existe um saber das sujeitas, como lembraram Nice e Luiz. E concluindo com Adailton, não há condição de se fazer educação popular desvinculada dos aspectos sociais, políticos e culturais.

A vida presente nas práticas apresentadas é impressionantemente pulsante, nos comove e sopra uma esperança freireana. Falta isso na atualidade, falta a humanidade nas educações, a proximidade das pessoas envolvidas. O pensamento crítico oriundo dessa formação transforma vidas, realidades e comunidades. Será que estamos prontos para reerguer essa educação popular dentro dessa conjuntura que nos assola? Quem topa?