Diante das considerações apresentadas ao longo deste capítulo, retomo agora meus objetivos para me ater diretamente a eles e responder às questões que basearam esta pesquisa. O objetivo geral da investigação foi analisar como se desenvolve um verbete enciclopédico na Wikipédia por meio da negociação de sentidos via PCE (LOWRY et al., 2004; PINHEIRO, 2013), entendendo essas práticas na perspectiva dos novos letramentos.
O que os dados mostraram, a esse respeito, permitem-me concluir que o verbete enciclopédico “Brasil” se desenvolve a partir de práticas de novos letramentos, na medida em que a organização e a negociação de sentidos se dá por meio de “values and priorities and sensibilities” (LANKSHEAR; KNOBEL, 2007, p. 7) muito diferentes em relação aos letramentos até então. Quando comparamos as características desses letramentos (ver Quadro 3) e das mentalidades envolvidas (ver Quadro 2), fica claro que os valores essenciais - como inteligência coletiva, expertise distribuída, compartilhamento, colaboração e participação - estão na base não só dos princípios da Wikipédia, mas também nas práticas sociais dos participantes naquele espaço. Essa afirmação parece fazer sentido não porque eles vivam essa nova ética de modo entusiasta e em uma democracia heterárquica pacificamente desgovernada, mas justamente pelo contrário: porque, a cada edição em que os usuários doam seu trabalho, sem saber se este será reconhecido e permanecerá no verbete, ou se será ignorado e descartado, os usuários da plataforma aceitam disputar sentidos nessa nova lógica.
Ainda no escopo do objetivo geral, as PCE atuam no verbete enquanto possibilidades de participação e organização. Isso porque, conforme apresentei nos Tópicos 1 e 2, as características que a taxonomia apresenta não se manifestam no verbete enquanto definidoras da participação, o que se poderia fazer em um ambiente mais fechado, distribuindo papéis e atividades e orientando quanto às estratégias, ao controle do documento
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e aos modos de escrita. Na verdade, a única organização que a Wikipédia determina é que o modo de controle de documento é compartilhado, uma vez que todos têm o controle simultâneo de todas as partes, com responsabilidade distribuída igualmente entre todos também. A partir dessa única determinação, todas as outras categorias permanecem em aberto, podendo ser determinadas (com maior ou menor controle) pelos próprios usuários. Assim, as atividades, os papéis, os modos de escrita e até as estratégias de escrita são apropriados por cada usuário de acordo com seus interesses, como fez Flávio, por exemplo, ao operar muitas vezes em paralelo, ou como tentou fazer Eugênio, que buscou ser líder, mas se resignou à descoberta de que toda escolha pessoal esbarra na aceitação (ou não) da comunidade.
Diante dessas reflexões, o primeiro objetivo específico (analisar de que maneira os usuários da Wikipédia se organizam na produção de um verbete em termos da taxonomia das PCE) já pode ser atendido para responder à questão: 1.1) Como as atividades, os papéis, os modos, as estratégias e o controle de documentos são definidos nessa produção? Como já apontei anteriormente, as atividades e os papéis são definidos a partir dos interesses de cada um em negociação com os interesses e necessidades da comunidade. As possibilidades estão disponíveis e cada um pode atuar como deseja e com o envolvimento que deseja, mas sem garantias de que será aceito. Nos papéis vistos na análise, aparecem diversas opções, com a especificidade de um documento que, além de textual, é multimodal e hipermodal, o que incluía nas responsabilidades de trabalho, além de papéis mais comuns como revisor ortográfico e editor de conteúdo, papéis especializados de editor de imagens, diagramador e revisor de hiperlinks, por exemplo.
Igualmente relacionadas à natureza do documento, as atividades de escrita apresentaram duas características peculiares: o apagamento de barreiras definidas (que separam a revisão inicial da revisão final, por exemplo, como demonstrei no Tópico 2) e a adaptação das atividades em um espaço sem pré e pós-produção, o que obrigou o brainstorming e a organização do brainstorming a se incorporarem ao processo de escrita, por exemplo, conforme apresentei no Tópico 1. Essas características permitem perceber que, no contexto do verbete analisado, a taxonomia das PCE se manifesta de maneira mais fluida e dinâmica, porém, ainda assim há papéis e atividades que se configuram, ainda que de maneira diferenciada.
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Com base no modo de controle de documentos e as estratégias de escrita, é possível concluir também que, com exceção da estratégia de autor único, as demais apareceram pelo menos em algum momento do documento, indicando que a liberdade do espaço e as peculiaridades da Web 2.0 permitem que, sem evitar as disputas e negociações, todas elas possam ser usadas.
Por fim, os modos de escrita também deixam as possibilidades abertas, tendo por base a organização de locais diferentes, síncrono ou não, com a particularidade de que esses critérios de síncrono e assíncrono também estão sendo ressignificados, na medida em que a tecnologia da Wikipédia força, muitas vezes, os usuários a esperarem as respostas e edições uns dos outros por não ser possível visualizá-las antes da publicação. Menos comum, porém não impossível, é o trabalho produzido a partir do mesmo local, que ocorre normalmente quando professores editam com alunos em escolas (casos que apareceram na pré-análise, mas acabaram não entrando no recorte da análise) e nos edit-a-thons (ver nota de rodapé 1).
Tais particularidades que permeiam o verbete e se fazem presentes a todo o tempo reforçam a necessidade de examinar o segundo objetivo específico da pesquisa, que pretendia refletir acerca dos sentidos negociados no processo de produção do verbete, considerando suas especificidades enquanto objeto da Web 2.0 e das PCE enquanto novos letramentos. A questão que deriva dessa reflexão é: 2.1) Como ocorre a negociação de sentidos e como esse processo dialoga com os novos letramentos e a Web 2.0? Como mostram as análises, a negociação de sentidos ocorre via PCE enquanto possibilidades e potencialidades de meios de expressão, disputa e interação. Assim, em vistas da escrita colaborativa em um espaço da Web 2.0, os sentidos são negociados via: (i) interação direta nas páginas de discussão; (ii) interação direta e indireta via comentários no verbete (documentados no histórico de edição); e (iii) por meio das próprias edições textuais, hipertextuais e multissemióticas, colocando em disputa direta sua edição com a do outro (pelos processos de reversão) ou aproveitando a edição do outro para juntar às suas próprias ideias e criar uma terceira versão do documento.
Nesse exercício de disputa que, como mostrei, nem sempre é pacífico, é interessante notar também como algumas atividades e papéis incitam mais a disputa do que outros. Deriva dessa noção, por exemplo, que as atividades de brainstorming (Tópico 1) tendem a ser mais acirradas do que as de revisão (Tópico 2), embora nenhuma delas ocorra de modo totalmente pacífico. Além disso, alguns papéis tendem a ser menos polêmicos, às vezes
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passando quase despercebidos - como no caso de Flávio quando ocupava o papel de revisor da nova ortografia, conseguindo inclusive atuar de modo paralelo, já que nesse papel ele optou por não se envolver em outras partes e, ao mesmo tempo, a comunidade também não se envolveu na “parte dele”, o que permitiu que a escrita se organizasse de tal forma.
Ainda em relação à disputa, é perceptível que a comunidade está em constante mudança. Comparando os dois tópicos apresentados, vemos, por exemplo, que no primeiro não há a presença de um líder – há quem busque a liderança, mas ela não é estabelecida e esse papel fica vago – e, diante dessa ausência, a comunidade se organiza de modo mais disputado. Já no Tópico 2, com a liderança de João sendo aceita pela comunidade e os wikipedistas mais conscientes em seus papéis e atividades, as disputas se dão de modo mais organizado, pacífico e até hierarquizado a partir do líder. Como consequência, mesmo em situação de guerra de edição, a dimensão da disputa é menor, e até mesmo a atuação do administrador é diferente: enquanto no Tópico 1 Eugênio, Adauto e os demais wikipedistas estabeleceram uma grande guerra, com dezenas de reversões e aparente perda de qualidade do verbete, no Tópico 2, ao primeiro sinal de guerra de edição, um administrador já interveio.
Nesse processo de negociação de sentidos, as características da Web 2.0 e dos novos letramentos aparecem o tempo todo, influenciando diretamente muitas das disputas, como os dados mostraram. Assim, a heterarquia, a inteligência coletiva, a experimentação e a colaboração (dos novos letramentos) dialogam diretamente com os ideais de confiança no usuário, experiência rica, participação e de eterno beta (da Web 2.0), constituindo, juntos, não só um cenário, mas um desafio para os participantes que, por vezes, demonstraram dificuldade com o novo ethos, principalmente no que diz respeito às reconfigurações da presença/ausência de uma autoridade (como Eugênio, no Tópico 1).
Por fim, vale destacar a interferência das tecnologias nas negociações analisadas. Isso porque, muito além da tecnologia enquanto nova técnica permitir e viabilizar o projeto ao conectar pessoas e edições para colocar em prática a inteligência coletiva, interessa-me aqui reconhecer que a tecnologia interfere no documento e nas relações com e entre os seres humanos. É um espaço onde as agências humanas já se manifestam metafisicamente, isto é, de forma incorpórea e mediadas por um simulacro (BUZATO, 2016), e as relações sociais se dão nessas condições – tanto é que é por meio do seu login de cadastro que os usuários ganham reputação e se transformam em autoridades ou párias, independente de serem
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especialistas no assunto em suas profissões cotidianas ou adolescentes em formação no plano de suas vivências concretas.
No verbete em específico, vimos ainda que a ferramenta confunde as noções de sincronismo e, consequentemente, as estratégias de escrita; vimos também que a obrigatoriedade da publicação incita a reconfiguração do brainstorming e de sua organização; que as configurações técnicas ditam regras ao limitar o espaço do verbete, interferindo em decisões editoriais para remoção de conteúdo; que guerras de edições podem ser evitadas com a utilização sugerida da página de discussão; que a formatação técnica do modo de controle de documentos interfere diretamente nas demais categorias de PCE; que o papel de vigia, que só é possível graças à programação do sistema, influencia o multissinóptico (ao viabilizar que muitos vigiem muitos) e exerce grande influência nas disputas e na qualidade das estabilizações.
Assim, é perceptível que as PCE ocorrem via mediação dos agentes (humanos e tecnológicos) e a viabilidade do projeto, como já acreditava Soares (2013), parece se dar realmente pelas contribuições humanas, porém, facilitadas e amplificadas pela atuação das ferramentas tecnológicas. Retomando o exemplo do vigia, fica claro que esse papel não seria possível sem um usuário que se cadastrasse para receber notificações de vigilância e atuasse a partir disso revertendo vandalismos e aprimorando edições; por outro lado, não seria possível vigiar de maneira tão rápida e precisa sem uma ferramenta que fizesse a notificação.
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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como já definem O’Reilly (2005) e Lankshear e Knobel (2007), a Wikipédia é, de fato, um artefato característico da Web 2.0 e dos novos letramentos. Muito além de ser apenas um princípio editorial, essas características estão presentes em todo o espaço, e a todo momento se apresentam para o usuário, seja como problema, seja como desafio, seja como solução.
Analisar uma prática social nesse cenário foi uma oportunidade de ver escancarado o que preconiza o novo ethos, mas, para além disso, vê-lo em movimento, em circulação, em conflito. É quase cair na armadilha de achar que uma nova ética acompanha necessariamente uma nova política, e que todas as soluções criativas advêm do novo, enquanto os problemas são reflexos do velho. É, enfim, dar um passo adiante e perceber que não se pode construir democracia sem negociação, sem disputa, e que uma nova ética não elimina o restante de nossa bagagem, pelo contrário: com a tecnologia, ela a expõe.
Nessa comparação entre o novo e o velho, entre o “2.0” e o anterior, a ambivalência fica evidente até mesmo no nome da Wikipédia: enquanto “wiki” se refere ao software que permite a redação coletiva de um documento em um espaço aberto na web, além de, enquanto termo, significar “veloz”; “pédia”, por sua vez, vem do sufixo grego “pedia” e significa educação. Assim, enquanto o primeiro se relaciona com a Web 2.0 e a natureza dos novos letramentos, o “pédia” recupera a formalidade da enciclopédia (enquanto autoridade). A essa ambivalência se relaciona a dicotomia que precisamos superar (e esse trabalho visa contribuir para isso) entre a idolatria da Wikipédia como uma ferramenta revolucionária e a demonização desse espaço, que não teria nenhuma credibilidade.
Independente do amor ou do ódio nutrido à plataforma, o fato é que a Wikipédia é a enciclopédia do nosso tempo - da cibercultura, da Web 2.0, dos novos letramentos - e representa valores e características efervecentes da contemporaneidade, da mesma forma que no passado a Barsa foi marco do velho ethos. Assim sendo, acredito eu, torna-se necessário que a escola comece a dialogar com artefatos como a Wikipédia - já que os alunos a conhecem e a utilizam, não seria positivo ensiná-los a pesquisar nesse espaço e conhecer seu ethos?
Desmistificar certas crenças pode ser uma das contribuições deste trabalho, na medida em que apresento dois tópicos de um verbete e, portanto, consigo mostrar detalhes
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que, para leitores que não atuam como wikipedistas, devem passar despercebidos. Nesse processo, é possível perceber a quantidade de editores e seu envolvimento com o trabalho no verbete, as negociações em busca de consenso, as discussões acaloradas por pequenos detalhes e, o que considero mais surpreendente, a doação do tempo e do conhecimento que os participantes oferecem voluntariamente.
Como busquei trazer na teoria, a Web 2.0 é um divisor de possibilidades e potencialidades, que oferecem a qualquer produsuário (BRUNS, 2006) a oportunidade de produzir - conteúdo, interação, conhecimento. Essa produção, porém, ainda é mistificada em muitos aspectos, e é preciso olhar com atenção para as práticas sociais para perceber que a completa heterarquia não existe; que autoridades não foram completamente abandonadas; que os conflitos não só permanecem como ainda são amplificados em consequência da necessidade de negociação. Nesse cenário, os novos letramentos estão disponíveis em espaços informais de aprendizagem social, e lidar com a heterarquia e a ampliação da democracia se torna um dos grandes desafios.
Para os wikipedistas, o desafio é aprender a lidar com o conflito, que com relativa facilidade se expande para uma guerra de edições, e conseguir atuar de maneira colaborativa: reconhecendo o outro e sua contribuição, e se esforçando para produzir a partir de uma combinação entre o “eu” e a comunidade. Em outras palavras, construir, de fato, a inteligência coletiva. E, nesse processo, conseguir negociar com as ambivalências e conflitos: hierarquia x heterarquia; autoridade x dispersão; velho x novo; individual x coletivo; insider x outsider.
Para o letramento escolar, o desafio é se relacionar com esses espaços, reconhecer seu potencial, perceber suas armadilhas, incorporá-los à educação (ou, ao menos, suas diversidades cultural e linguística), compreender suas perspectivas e encarar o multi - modal, sinóptico, semiótico. É entender também que, embora espaços como a Wikipédia não sejam totalmente heterárquicos, as autoridades ali são construídas lá mesmo, e qualquer título ou poder que se traga de outras realidades não tem valor lá.
Na produção do verbete, a heterarquia se mostrou, de fato, como uma presença dominante e desafiadora, mas também não exclusiva. Aliás, as práticas de letramento nesse contexto demostraram, inclusive, que na negociação de sentidos o valor de uma edição não é determinado somente pelo seu conteúdo, mas também pela reputação de quem o publica (o que acaba sendo uma via de mão dupla, já que essa reputação pode ser tanto positiva quanto negativa). Diante da reputação de cada um, a comunidade assume uma tendência para aceitar
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ou rejeitar suas edições e, ainda, os papéis e as atividades que cada usuário venha a (tentar) desempenhar.
Em diversos cenários de produsagem, assim como na Wikipédia, os papéis se mostram fluidos, inclusive a liderança, que costuma ser conquistada por meio da contribuição e da expertise do participante, em vez de determinada ou mesmo eleita pela comunidade. Com isso, uma nova possibilidade de organização de produção de conteúdo e de conhecimento se apresenta, o que pode contribuir para repensar o papel do professor na contemporaneidade, especialmente no que concerne aos novos letramentos.
De modo mais específico, é um convite para repensar também a própria taxonomia das PCE, que se baseia em fluxos e formatos para produções de escrita colaborativa, mas não trata das relações sociais que se dão ou podem se dar nesses contextos de produção (hiper)textual – e que são marca caracrterística dos novos letramentos. Vale lembrar que essas relações são determinantes na produção colaborativa, já que, como os dados mostraram, a própria atuação nas categorias das PCE é condicionada à aceitação da comunidade. A taxonomia, nesse cenário de Web 2.0 e novos letramentos, é impactada pelas particularidades dessas relações, que conferem maior fluidez e dinamicidade às PCE e as modelam conforme as características dessa ética: mais heterárquica, dispersa e em constante mudança. Em outras palavras, a taxonomia foi moldada a partir dos letramentos anteriores e da mentalidade industrial para atender às necessidades dessas práticas; observando-a, porém, em PCE vinculadas aos novos letramentos, ressignificações e desestabilizações começam a surgir.
Outra mudança marcante que as práticas no verbete revelam dizem respeito à noção de autoria. Ainda que eu não tenha uma proposta para definir a autoria em espaços como a Wikipédia, o que posso dizer a partir desta dissertação é que o conceito está sendo desestabilizado nesse cenário para se afastar de noções como propriedade textual e se aproximar de uma perspectiva mais coletiva e compartilhada. Como mostram as PCE do verbete, a criação de conteúdo e conhecimento e, consequentemente, a autoria, são conceitos que estão cada vez mais ligados a processos e menos a indivíduos. E, embora eu tenha trazido os usuários com seus nomes (ainda que trocados por outros fictícios), esse formato tem por objetivo dar visibilidade ao processo de escrita e às relações construídas nele, e não às pessoas individualmente. Para o leitor da Wikipédia, todas as individualidades se perdem e se apagam;
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o que fica (e o que lhes importa) é o trabalho que esses anônimos construíram e a materialidade que se originou da inteligência coletiva na forma de um verbete enciclopédico.
Como busquei demonstrar, nesse cenário o novo ethos já se faz presente, e a tecnologia permite ao ethos se colocar e se viabilizar, ao mesmo tempo que a Wikipédia incorpora em seu projeto a ideologia e os valores do novo, estabelecendo ainda um novo jeito de lidar com a tecnologia. Retomando a metáfora do vírus da varíola e da arma de fogo (MCLUHAN, 1996) que apresentei no início do Capítulo Teórico para contestar a ideia de que uma invenção tecnológica não carrega traços de valoração, percebo que a ideia de mediação de Latour (1994) me ajuda a compreender a Wikipédia: sua viabilização e seus sucessos se dão justamente por esse caminho. Isso porque, se por um lado, apenas a tecnologia da plataforma wiki e as possibilidades oferecidas pela Web 2.0 não conseguiriam sozinhas criar e manter esse projeto funcionando, por outro, os wikipedistas não teriam condições de contribuir da forma que contribuem sem a presença dos recursos tecnológicos. A consolidação do projeto ocorre, portanto, graças às novas tecnologias e ao novo ethos, mas somente se forem utilizados e apropriados pelas pessoas – ou seja: se houver mediação entre a tecnologia e o ser humano.
Encaro, assim, esse trabalho na perspectiva de um verbete - como uma versão, uma edição. Espero que alguém possa aproveitá-lo para construir algo a partir dele. Algo novo, mas que não é exatamente novo porque se baseia em outras edições e referências, porque não se constrói do nada, porque não existe sem negociação e porque não se encerra quando fica pronto. E, uma vez publicado, torne-se disponível e, nessa disponibilidade, seja posto em relação para interagir, colaborar, disputar e, enfim, ressignificar.
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