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PDE: ações propostas para a realização do PNE e do Programa Mais

3.4 Políticas culturais na educação brasileira

3.4.1 PDE: ações propostas para a realização do PNE e do Programa Mais

Os compromissos acordados pela legislação brasileira para garantir o direito ao desenvolvimento integral da criança e do adolescente estão bem representados na Constituição Federal de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente

ECA, Lei n.8.069/1990 (BRASIL, 1990), na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional

LDB, Lei n.9.394/1996 (BRAS

IL, 1996). O previsto nessa legislação é trazer “para o

centro do planejamento das políticas públicas a garantia do direito à proteção integral de

crianças e adolescentes” (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 1999a, p.12).

Porém, sabemos que tais determinações são pouco articuladas na prática, sendo sua efetividade limitada.

No ano de 2007, o governo federal apresentou à sociedade brasileira o Plano de Desenvolvimento da Educação

PDE sob a justificativa de equalizar oportunidades de acesso a uma educação de qualidade. O PDE nasceu, então, para possibilitar a articulação dos princípios constitucionais e a Política Nacional de Educação

PNE, que está sustentado em seis pilares: i) visão sistêmica da educação, ii) territorialidade, iii) desenvolvimento, iv) regime de colaboração, v) responsabilização e vi) mobilização social.

Esses são desdobramentos consequentes de princípios e objetivos constitucionais, com a finalidade de expressar o enlace necessário entre educação, território e desenvolvimento, de um lado, e o enlace entre qualidade, equidade e potencialidade de outro. O PDE busca, de uma perspectiva sistêmica, dar consequência,

em regime de colaboração, às normas gerais da educação na articulação com o desenvolvimento sócio econômico que se realiza no território, ordenado segundo a lógica do arranjo educativo local, regional ou nacional (BRASIL, 2007, p. 1).

O PDE é, portanto, um plano executivo que se organiza em torno de quatro eixos norteadores: i) educação básica, ii) educação superior, iii) educação profissional e iv) alfabetização. Pretende, por meio de ações diversificadas, identificar e sanar as adversidades da educação brasileira. Para que se concretize este objetivo prevê também ações de combate a problemas sociais que julgam interferirem diretamente no aprendizado de qualidade. As ações elaboradas devem, pois, ser executadas com a colaboração da União, estados e municípios e são compostas por mais de quarenta programas e ações, sendo um deles o Programa Mais Educação.

O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação

Fundeb, instituído em 2007

antigo Fundef (1998-2006)66

também faz parte do plano executivo do PDE. O Fundeb é a subvenção financeira que garante que as ações se realizem e se firmem. Para a educação em tempo integral, é calculado um acréscimo na porcentagem, sendo 25% a mais do custo aluno/ano para o ensino fundamental e 30% para o ensino médio.

O Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, instituído por meio do Decreto n. 6.094, de 24 de abril de 2007 (BRASIL, 2007b) também integra o programa estratégico do PDE firmando um compromisso entre a União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Representado em 28 diretrizes, possui como propósito identificar e reunir boas práticas pedagógicas que possam caracterizar o bom desenvolvimento do aluno. São consideradas como o conjunto de boas práticas pedagógicas:

 Estabelecer como foco a aprendizagem;

 Alfabetizar as crianças até no máximo, os oito anos de idade;

 Acompanhar cada aluno da rede individualmente;

66 O Fundef foi instituído pela Emenda Constitucional n.º 14, de setembro de 1996, e regulamentado pela Lei n.º 9.424, de 24 de dezembro do mesmo ano, e pelo Decreto nº 2.264, de junho de 1997. Foi implantado, nacionalmente, em 1º de janeiro de 1998, quando passou a vigorar a nova sistemática de redistribuição dos recursos destinados ao Ensino Fundamental. A maior inovação dele consiste na mudança da estrutura de financiamento do Ensino Fundamental no País(1ª a 8ª séries do antigo 1º grau), ao subvincular a esse nível de ensino uma parcela dos recursos constitucionalmente destinados à Educação. A Constituição de 1988 vincula 25% das receitas dos Estados e Municípios à Educação. Com a Emenda Constitucional nº 14/96, 60% desses recursos (o que representa 15% da arrecadação global de Estados e Municípios) ficam reservados ao Ensino Fundamental. Além disso, introduz novos critérios de distribuição e utilização de 15% dos principais impostos de Estados e Municípios, promovendo a sua partilha de recursos entre o Governo Estadual e seus municípios, de acordo com o número de alunos atendidos em cada rede de ensino.

 Combater a repetência, por estudos de recuperação ou progresso parcial;

 Combater a evasão;

 Ampliar a jornada;

 Fortalecer a inclusão educacional das pessoas com deficiência,

promover a educação infantil;

 Instituir o programa de formação e implantar plano de carreira, cargos

e salários para os profissionais da educação;

 Valorizar o mérito do trabalhador da educação;

 Fixar regras claras, considerados mérito e desempenho, para nomeação

e exoneração de diretor de escola;

 Promover a gestão participativa na rede de ensino;

 Fomentar e apoiar os conselhos escolares, etc. (BRASIL, 2007, p. 24)

Tais diretrizes foram desdobradas de evidências empíricas que as legitimam e a adesão ao Plano de Metas significa mais do que o conhecimento dessas diretrizes. Significa o compromisso dos gestores municipais com sua concretização no plano local. O Regime de Colaboração e o Plano de Ações Articuladas

PAR67, instituído em 2007, pretendem alcançar um parâmetro para que todo esse empreendimento encontre o apoio no desenvolvimento institucional. Visam, assim, a regularização de metas em longo prazo e proteção do que foi adotado. Pretendem com isso evitar as descontinuidades das ações, o que é muito comum quando há alteração do grupo de trabalho.

Com objetivo de aumentar a qualidade da educação pública, o PDE (BRASIL, 2007b) procura superar algumas dificuldades do PNE e para acompanhamento do ensino básico desenvolve um indicador único, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica

IDEB. Criado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira

Inep, visa medir a qualidade do aprendizado nacional e estabelecer metas para a melhoria do ensino.

Para acompanhamento da qualidade da educação básica foram criados, também em 2007, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica

Saeb e a Prova Brasil, por meio dos quais são aplicados testes padronizados para diagnóstico e questionários socioeconômicos em larga escala, sob a responsabilidade do Inep/MEC. As médias de

67 A partir da adesão ao Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, os estados e municípios elaboram seus respectivos Planos de Ações Articuladas. Para auxiliar na elaboração do PAR, o Ministério da Educação criou um novo sistema, o SIMEC – Módulo PAR Plano de Metas -, integrado aos sistemas que já possuía, e que pode ser acessado de qualquer computador conectado à internet, representando uma importante evolução tecnológica, com agilidade e transparência nos processos de elaboração, análise e apresentação de resultados dos PAR.

desempenho nessas avaliações subsidiam o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica

Ideb.

A Prova Brasil, juntamente com os dados do Censo Escolar da Educação Básica

Sistema Educacenso, faz o mapeamento de regiões e permite, assim, a identificação da qualidade da educação pública de cada rede e de cada escola. Essa ação possibilita detectar o local onde as enormes desigualdades regionais não garantem o direito de aprender e onde práticas pedagógicas resultavam em uma aprendizagem satisfatória.

O Programa Mais Educação, por sua vez, estabelecido no âmbito do PDE, foi instituído pela Portaria Interministerial n.17/2007 (BRASIL, 2007a), com uma concepção interssetorial que envolvia os Ministérios da Educação

MEC, da Cultura

MinC, do Meio Ambiente

MMA, do Esporte

ME, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

MDS, da Ciência e da Tecnologia

MCT e da Secretaria Nacional de Juventude, sob a coordenação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade

Secad e da Assessoria Especial da Presidência da República, por meio do Programa Escolas-Irmãs e o Ministério da Defesa. Essas parcerias foram desenvolvidas a partir da premissa de que o lugar de crianças, adolescentes e jovens é na escola, por isso a adesão da proposta pelas redes de educação e o compromisso dos Estados e municípios foram fundamentais para se pensar uma escola pública de qualidade que propusesse intensificar o diálogo.

O programa é de responsabilidade da Secad/MEC em regime de colaboração com a Secretaria da Educação Básica

SEB. Já o apoio financeiro se dá por intermédio do Programa Dinheiro Direto na Escola

PDDE, do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação

FNDE.

Constitui-se, assim, como uma das ações do PDE e uma estratégia do governo federal para conduzir a ampliação da jornada escolar e a sistematização curricular na contingência da Educação Integral. A premissa desse modelo de educação é que a formação do estudante também acontece além dos muros da escola, com a participação da família e da comunidade.

Essa estratégia promove a ampliação de tempos, espaços, oportunidades educativas e o compartilhamento da tarefa de educar entre os profissionais da educação e de outras áreas, as famílias e diferentes atores sociais, sob a coordenação da escola e dos

professores. “Isso porque considera que a Educação Integral, associada ao processo de

escolarização, pressupõe a aprendizagem conectada a vida e ao universo de interesse e

possibilidades das crianças, adolescentes e jovens” (BRASIL, MINISTÉRIO D

A ECUCAÇÃO, 2009c, p.13).

É atribuído ao Programa também o desafio de reconhecer e dialogar com experiências educacionais que acontecem dentro e fora das escolas. Desse modo, a cultura local e os currículos escolares devem se ajustar. Os dilemas da qualidade da educação devem ser combatidos por meio desta metodologia, que pensa o conhecimento interligado à ampliação do tempo de permanência dos alunos na escola, o aumento dos espaços educativos, aproveitando os locais da comunidade e do bairro e neste possível diálogo e troca de saberes entre escola e comunidade.

Como o objetivo do programa Mais Educação é a conquista efetiva da escolaridade dos estudantes através da ampliação de experiências educadoras, as práticas realizadas além do horário precisam estar sincronizadas com o currículo e os desafios acadêmicos. Segundo o texto da proposta do MEC, esse trabalho tem como objetivo auxiliar na construção de espaços de interseção de tal forma que os conhecimentos escolares tenham condições de trocas com os conhecimentos locais e vice-versa. Espera- se, assim, colaborar para a elaboração de um paradigma de educação integral que reúna diversas áreas, experiências e saberes (BRASIL, MINISTÉRIO DA ECUCAÇÃO, 2009c, p.13).

O Programa Mais Educação atende, prioritariamente, escolas de baixo Ideb, situadas em capitais, regiões metropolitanas e grandes cidades em territórios marcados por situações de vulnerabilidade social, que requerem a convergência prioritária de políticas públicas e educacionais. (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2009c, p.8).

Segundo a regulamentação do MEC, as ações educacionais desenvolvidas são organizadas com atividades nomeadas

macrocampos

e são: i) acompanhamento pedagógico; ii) meio ambiente; iii) esporte e lazer; iv) direitos humanos em educação; v) cultura e artes; vi) cultura digital; vii) promoção da saúde; viii) comunicação; ix) investigação no campo das ciências da natureza; x) educação econômica. A escola pode escolher entre três a quatro

macrocampos

e optar por cinco ou seis atividades de cada um deles. É obrigatório para todas as escolas o

macrocampo

de acompanhamento pedagógico.

Segundo o caderno

Passo a Passo

do Programa Mais Educação (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2013), o professor responsável pelo acompanhamento pedagógico e administrativo do Programa deve ser vinculado à escola e dedicar de 20 a

40 horas ao Projeto. É de responsabilidade das secretarias municipais, estaduais ou distritais assegurarem a instituição ou não da figura do

professor comunitário

para atender aos coletivos escolares, coordenar o processo de articulação com a comunidade, seus agentes e seus saberes e, ao mesmo tempo, ajudar na articulação entre os novos saberes, os novos espaços, as políticas públicas e o currículo escolar.

As atividades também podem ser acompanhadas por estudantes universitários, em processo de formação específica nos

macrocampos

e com habilidades reconhecidas pela comunidade, estes por estudantes do ensino médio e estudantes da Educação de Jovens e Adultos

–EJA. “Recomenda

-se a não utilização de professores da própria escola para atuarem como monitores, quando isso significar ressarcimento de despesas de

transporte e alimentação com recursos do FNDE.” (BRASIL, MINISTÉRIO DA

EDUCAÇÃO, 2014, p.19).

As escolas públicas que fazem parte do Programa Mais Educação podem escolher pela relação de Escola-Comunidade nos moldes do Programa Escola Aberta, uma parceria entre o Ministério da Educação e a UNESCO, que defende a abertura das escolas nos finais de semana para que aconteçam atividades de educação não formal voltadas para o lazer, as artes, a cultura, o esporte, formações iniciais para o trabalho e geração de renda. O objetivo é fazer com que esses lócus sejam utilizados para a promoção da cidadania e que sejam compartilhados e respeitados os diferentes saberes.

Segundo Noleto (2003), o Programa Escola Aberta foi implementado antes do Programa Mais Educação, no ano de 2000, em comunidades urbanas em situação de risco e vulnerabilidade social. Sob os princípios de democratização dos lócus, redução de violência escolar e a transformação da prática pedagógica para resgatar o interesse dos discentes e a comunidade pela escola, o Programa Escola Aberta oferece oportunidades de acesso ao lazer, ao esporte, à cultura e às artes. É visto como uma estratégia de combate às desigualdades e propõe mudanças na vida de crianças e jovens em situação de pobreza e uma

reorientação

à participação da comunidade nos processos de ações educativas e formação para cidadania.

O ambiente escolar se torna o cenário apropriado para o desenvolvimento de ações, e se inicia uma discussão sobre a transformação da prática pedagógica, no sentido de redefinir o papel da escola, sempre com a valorização da Educação para Paz. O resgate do interesse pela escola por intermédio de atividades que despertam um maior interesse da juventude, como o esporte, as artes e o lazer, é um discurso constante.

Atualmente subsidiado pelo FNDE, o processo se realiza sob a égide da União em escolas públicas com atividades nos finais de semanas por pessoas e/ou instituições que atuam de forma voluntária, escolhidas de acordo com a demanda da comunidade, preferencialmente, por aquelas que valorizem os saberes e fazeres da localidade e organizadas por uma equipe local formada por integrantes da escola e da comunidade, com a orientação da secretaria de educação. (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2014b, p.28). Sendo assim, o ambiente escolar se torna o cenário apropriado para o desenvolvimento de ações. Destarte, defendendo a bandeira da qualidade no campo educacional, o Estado, repensando a educação para o novo milênio sustentou o discurso do Programa Mais Educação, ancorado no projeto Compromisso Todos pela Educação, ou simplesmente Todos pela Educação

TPE.