2 REVISÃO DA LITERATURA
2.4 A evolução da dengue e as políticas e ações de controle da
2.4.1 PEAa (Programa de Erradicação do Aedes Aegypti)
Seguindo um fluxo temporal, em 1996, o Ministério da Saúde criou o “Programa de Erradicação do Aedes aegypti – PEAa”, que tinha foco na abordagem da dengue hemorrágica. Tal programa trabalhava em cima de componentes: entomologia; operações de campo de combate ao vetor Aedes aegypti; vigilância de portos,
aeroportos, fronteiras, saneamento, informação, educação e comunicação social; vigilância epidemiológica e sistema de informações; laboratório; desenvolvimento de recursos humanos; e legislação de suporte. O programa sofreu ajustes e foi implementado no decorrer do triênio 97/99. Contudo, não obstante as tentativas tenham sido evidentes, bem como sua aplicabilidade, o plano não obteve êxito.
Segundo Ferreira et al (2009), a criação desse programa era pautada no contexto de menores custos no combate ao mosquito, em um longo prazo. Contudo, logo se percebeu que as condições mantidas pela própria população, os hábitos e condições de vida apresentados, eram plenamente favoráveis ao desenvolvimento e manutenção de focos do Aedes aegypti. O ambiente ideal para formar criadouros era uma realidade fática no cenário brasileiro e o acúmulo de lixo, os depósitos de água parada e a baixa colaboração da população, pareciam ser elementos que compactuavam para frustrar quaisquer planos de erradicação da dengue no território brasileiro.
Silva, Mariano e Scopel (2008) abordam que o PEAa resultou no fortalecimento das ações contra a dengue, pelo aumento dos recursos utilizados, ainda que a baixos custos, mas muito pautada na atividade de campo e na participação ativa das três esferas de governo. Como o mosquito da dengue é altamente domiciliado, houve um esforço por parte da gestão em saúde, no sentido de repensar a participação da comunidade no processo de prevenção da dengue.
Em 1955 e 1973, o mosquito da dengue havia sido erradicado no Brasil, talvez, pela epidemia não ter apresentado, naquele cenário, proporções tão gigantescas quanto as atuais. Ainda, há de se considerar que os fatores que favorecem a proliferação do mosquito vão ganhando, com o passar do tempo, adaptação às condições humanas que favorecem tal crescimento.
Viana e Ignotti (2013, p. 246), defendem que “o fator abiótico chuva é importante para a produção de larvas, pupas e ocorrência da dengue”. No estudo que realizaram, verificaram que “as infestações ocorreram principalmente entre os meses de maior índice de precipitação pluviométrica nas diferentes localidades”. Nas áreas que foram englobadas no estudo descrito, “a maior incidência da doença coincidiu com os meses chuvosos que também foram os meses mais quentes do ano no país”.
Silva et al (1998) defendem que todo programa deve se fundamentar em dois constituintes básicos, que são o saneamento básico e a educação, elementos esses que parecem ter sido desconsiderados quando da aplicação do Programa de Erradicação do Aedes aegypti (PEAa). Conforme prediz Silva, ao que se observou, deu-se ênfase à aplicação de venenos na água e no ar, destacando os riscos à saúde que esses produtos podem causar, sendo neurotóxicos e alergênicos. Conclui o pensamento fazendo a afirmação de que “a prioridade do programa está apontada para o combate ao mosquito, que é a terceira fase da cadeia de transmissão [...], levando à inadequação de procedimentos para o seu controle” (SILVA et al, 1998, p. 877).
Foram inúmeras tentativas de ajustes do programa, no intuito de que desse certo em sua pretensão. Contudo, não se pode creditar êxito às ações que não consideram, em primeiro plano, a saúde da comunidade como prioritária. Tentar erradicar um mosquito, visando extinguir o vetor da dengue, mas causando outros diversos problemas de saúde à população, traria outros problemas de saúde púbica, como em cadeia.
A respeito das taxas de incidência de dengue, vale uma ressalva sobre o modo como se obtém seu cálculo, para fins de formação de índices. De acordo com o Ministério da Saúde e do DATASUS, a taxa de incidência da dengue corresponde ao número de novos confirmados de dengue (clássico e febre hemorrágica do dengue - códigos A90-A91 da CID-10), por 100 mil habitantes, na população residente em determinado espaço geográfico, no ano considerado. A definição de caso confirmado de dengue baseia-se em critérios adotados pelo Ministério da Saúde para orientar as ações de vigilância epidemiológica da doença. O cálculo se dá pela seguinte fórmula:
Número de casos novos confirmados de dengue (todas as formas) em residentes
__________________________________________________________ x 100.000
População total residente no período determinado
Essa é a forma mais comum e eficaz de medir e estabelecer parâmetros para comparar a frequência das doenças em populações. E é baseado nesses parâmetros
que o Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde buscam estratégias, através da aplicação dos programas, para o combate ao vetor Aedes aegypti, na tentativa de redução desses índices.
Houve um ajuste operacional do PEAa que ocorreu no ano de 1998, onde se fazia uma abordagem sobre o que seria “erradicar” o mosquito da dengue, no contexto de saúde pública. Mesmo diante de tais alinhamentos, o programa permaneceu sem gerar grandes resultados. Assim, seguiram-se os investimentos em tentar conter o agravo epidêmico causado pelo mosquito Aedes aegypti, que atinge o Brasil em quase sua totalidade. A FUNASA, em 2001, lançou o Manual de Normas Técnicas – Instruções para pessoal de combate ao vetor. Assim, havia a pretensão de ‘treinar’ trabalhadores e comunidades com o intuito de controlar o vetor da doença.
Programas verticalizados não têm manifestado sucesso, por apresentarem variadas falhas estruturais e é imprescindível que a gestão se envolva diretamente em questões complexas como essa, de grande monta para o contexto de saúde. O envolvimento e a distribuição de responsabilidades entre os Estados e Municípios são alicerces para que as execuções de planos extensos em abrangência dêem certo.
Assim, tendo por frustrados os objetivos traçados pelo PEAa, surge o PIACD, na busca do controle efetivo do mosquito Aedes aegypti e dos índices de dengue no território brasileiro.