4 MULTILETRAMENTOS E MULTIMODALIDADE
4.2 MULTIMODALIDADE
4.2.1 Pedagogia dos multiletramentos: “o que” e “como” – Designs e fatores
A proposta da Pedagogia dos multiletramentos apresentada por The New London Group (2000) subdivide-se em “o que” é e “como” aplicá-la. A primeira parte consiste nos designs de significação (designs of meaning) – Design disponível (Available designs), Designing e Redesigning, e nas dimensões de significação (dimensions of meaning) – Design linguístico, Design visual, Design sonoro, Design gestual, Design espacial e Design multimodal, ao passo que a parte seguinte aborda os aspectos teóricos da Pedagogia dos multiletramentos – Prática situada, Instrução aberta, Enquadramento crítico, Prática transformada.
The New London Group (2000, p. 19, tradução nossa) afirma que “professores e diretores são vistos como designers de processos e meios de aprendizagem, não como chefes
ditando o que aqueles a seu cargo devem pensar e fazer20”, assim o termo design diz respeito enquanto estrutura organizacional dos produtos ou do processo de fazer design, de criar ou produzir e “é um processo no qual o indivíduo e a cultura são inseparáveis”21 (COPE;
KALANTZIS, 2000b, p. 201, tradução nossa). Inicialmente, essa concepção de produção apoia- se em três elementos que, juntos, enfatizam a construção de significados como um processo ativo e dinâmico e não algo orientado por regras cristalizadas: Design disponível, Designing e Redesigned.
Os Designs disponíveis, conforme The New London Group (2000), são recursos que incluem as gramáticas da linguagem e de outros sistemas semióticos, como o filme, a fotografia, ou os gestos, além da “ordem do discurso” (propõe-se a captar a forma como diferentes discursos se relacionam, dialogam uns com os outros). Por discurso, o grupo (THE NEW LONDON GROUP, 2000) entende-o como uma configuração de conhecimentos e suas habituais formas de expressão, que possui estilo – a configuração de todas as características semióticas em um texto (como a relação da linguagem com o layout e as imagens) e gêneros. Estes “são formas de texto ou de organização textual que surgem de uma particular configuração social ou de relacionamentos particulares dos sujeitos em uma interação”22 (THE
NEW LONDON GROUP, 2000, p. 21, tradução nossa), refletem os seus objetivos e possuem aspecto intertextual a outros textos – as relações dialógicas (BAKHTIN, 2018).
O Designing é um processo de formação emergente de significado que envolve representação e recontextualização e está conectado aos Designs disponíveis, mas não é apenas sua reprodução: “o Designing transforma o conhecimento pela produção de novas construções e representações da realidade23” (THE NEW LONDON GROUP, 2000, p. 22, tradução nossa) e sempre envolve a transformação dos Designs disponíveis, fazendo novo uso de materiais antigos. Ler, ver e ouvir são instâncias do Designing, pois à medida que leitores e ouvintes encontram textos como Designs disponíveis, é possível basear-se neste como um recurso para fazer novos significados.
O Redesigned, por sua vez, segundo The New London Group (2000, p. 23, tradução nossa), “[...] pode ser criado ou reproduzido em relação aos recursos para a construção de
20 Teachers and managers are seen as designers of learning processes and environments, not as bosses dictating
what those in their charge should think and do.
21 Design is a process in which the individual and culture are inseparable.
22 [...] are forms of text or textual organisation that arise out of particular social configurations or the particular
relationships of the participants in an interaction.
significado disponível nos Designs disponíveis24”, de modo que também não se trata apenas de reprodução ou criação. Além disso, o Redesigned é consolidado em padrões de significado histórica e culturalmente recebidos, ao passo que é também produto único da criação humana – um significado transformado (THE NEW LONDON GROUP, 2000). Ao considerarmos que toda materialidade provém de uma materialidade anterior a ela, em tudo há Redesigned – há ressignificação conforme ocorrem mudanças sociais.
De modo geral, o conceito de Design abordado pelo TNLG (THE NEW LONDON GROUP, 2000) enfatiza as relações entre os meios de significação recebidos (Designs disponíveis), a transformação desses meios em seu uso híbrido e intertextual (Designing) e, por fim, a condição de ser ressignificado (Redesigned). The New London Group (2000) afirma que a metalinguagem da construção de significado aplica-se a todos os aspectos do processo. Percebe-se que de distintas formas é possível hibridizar os designs, pois, em uma aprendizagem plena, eles ocorrem de modo natural e fornecem os recursos necessários para que o aluno se torne autônomo e consiga cumprir todas as etapas propostas para realizar a ressignificação com êxito.
Além disso, na leitura é igualmente possível encontrar os designs de significação: o leitor possui o livro como um Design disponível; estabelece as relações conforme progride em sua leitura – Designing; e, ao final, há um novo significado ou a ressignificação conforme suas experiências leitoras. Essas experiências são subjetivas e particulares, em algumas situações podem possuir semelhanças à medida que os leitores interagem e dialogam, no amplo sentido do termo, como visto sobre as relações dialógicas em Bakhtin (2018), estendendo-a também à interação entre leitor-autor. Em relação a isso, Cope e Kalantzis (2000b, p. 226, tradução nossa) afirmam que
os leitores, afinal, nunca foram mais receptores de textos, pois escolhem o que leem; eles leem o máximo de um texto que lhes interessa; e eles leem em textos o que eles farão. O significado na literatura é tanto em sua recepção quanto em sua produção. Há sempre interação entre o mundo dos artistas e o mundo das audiências, seja como aplausos, seja como vendas, ou críticas. De fato, a interação com o público torna-se um foco principal na maioria dos momentos da arte, a partir de compromissos teatrais que necessariamente incorporam o público ao valor de choque da arte moderna. Todos são meios interativos25.
24 [...] may be variously creative or reproductive in relation to the resources for meaning-making available in
available designs.
25 Readers, after all, have never been more receivers of texts for they choose what they read; they read as much of
a text as interests them; and they read into texts what they will. The meaning in literature is as much in its reception as in its production. There is always interaction between the world of artists and the world of audiences, whether as applause, or ticket sales, or reviews. Indeed, interacting with audiences becomes a prime focus in most moments
A segunda parte do que é a Pedagogia dos multiletramentos, as dimensões de significação, trata da criação de uma metalinguagem e que se torna um dos objetivos do Projeto Internacional dos Multiletramentos: desenvolver uma gramática funcional acessível educacionalmente (THE NEW LONDON GROUP, 2000). Esse material inclui o textual e o visual, assim como as relações multimodais entre os diferentes processos da construção de significado.
The New London Group (2000) esclarece que a metalinguagem precisa ser flexível e aberta para que professores e alunos sejam capazes de escolher as ferramentas disponíveis e se sentirem autônomos para criar suas próprias ferramentas. Assim, o principal objetivo da metalinguagem é “[...] identificar e explicar as diferenças entre textos e relacioná-los aos contextos culturais e de situação em que eles parecem funcionar”26 (THE NEW LONDON
GROUP, 2000, p. 24, tradução nossa). É relevante compreender que isso não diz respeito à imposição de regras, padrões ou privilegiar determinado discurso, o TNLG esclarece que são sugestões de análises para auxiliar nos significados apontados pelos Designs.
A partir dessas considerações, são apresentadas seis áreas da gramática funcional, muito importantes no processo de significação: Design linguístico, Design visual, Design sonoro, Design gestual, Design espacial e Design multimodal, sendo que o último é diferente dos demais porque representa os padrões de interconexão entre as demais dimensões e os relaciona dinamicamente. A Figura 2 concatena-os no intuito de auxiliar o modo como todos estão integrados, bem como os elementos que compõem cada um.
of art, from theatrical engagements which necessarily incorporate audiences to the shock value of modern art. They are all interactive media.
26 [...] to identify and explain diferences between texts, and relate these to the contexts of culture and situation in
Figura 2 – Sistemas multimodais
Fonte: Rojo (2013, p. 24), adaptada de The New London Group (2000, p. 26)
The New London Group (2000) define-os: o Design linguístico é a linguagem como sistema de construção de significado; o Design visual considera as imagens, o layout da página e a forma como estão entrelaçados ao texto, por exemplo; o Design sonoro são os efeitos de áudio; o Design gestual aborda a linguagem corporal; e o Design espacial destaca o significado dos espaços, seus ambientes e arquitetura. O Design multimodal entrelaça-os de modo que os textos multimodais serão compostos por esses designs – não na sua totalidade, mas em pelo menos dois desses (os textos impressos, por exemplo, contemplam os designs visual e linguístico). Além disso, todo o sistema, pelo viés estético e performático, é importante na encenação desses modos por meio da linguagem.
Para que uma teoria pedagógica tenha êxito, é importante que considere as concepções sobre como a mente humana funciona na sociedade e nas salas de aula, bem como sobre a natureza do ensino e da aprendizagem. O TNLG (THE NEW LONDON GROUP, 2000) destaca que o conhecimento humano está inserido em contextos sociais, culturais e materiais. Para isso, no que tange aos aspectos teóricos da Pedagogia dos multiletramentos, The New London Group
(2000) apresenta uma integração complexa de quatro fatores: Prática situada, Instrução aberta, Enquadramento crítico e Prática transformada.
A Prática situada é constituída a partir de experiências próximas dos alunos (Designs disponíveis) (KALANTZIS; COPE, 2000), de seus contextos, os quais serão dialogados em sala de aula pelo professor. Conforme Rojo (2012, p. 30), possui um significado particular e “remete a um projeto didático de imersão em práticas que fazem parte das culturas do alunado e nos gêneros e designs disponíveis para essas práticas, relacionando-as com outras, de outros espaços culturais”. Na Instrução aberta, o objetivo consiste na conscientização e no controle sobre o que está sendo ensinado (KALANTZIS; COPE, 2000), a partir do que o aluno já conhece e realizou. Nesta etapa, são sistematizadas as práticas vivenciadas, os gêneros e designs familiares aos alunos e de seus processos de produção e recepção, além de estabelecer critérios para uma análise crítica (metalinguagem) (ROJO, 2012).
O objetivo do Enquadramento crítico, de acordo com Kalantzis e Cope (2000), é auxiliar os alunos a interpretar os contextos sociais e culturais que são particulares do Designs de significação e os envolve em um aprofundamento sobre o que estudaram. Por último, na Prática transformada transfere-se a construção de significado para a realidade: os alunos devem criar e executar, de modo reflexivo, novas práticas incorporadas em seus próprios objetivos e valores (THE NEW LONDON GROUP, 2000).
Essa parte teórica da Pedagogia dos multiletramentos, assim como ocorre com os designs de significação, deve ser incorporada nas práticas docentes de modo espontâneo para um ensino efetivo. É importante que a Prática situada surja das necessidades do grupo para que haja interesse dos alunos na aprendizagem, logo diferentes grupos demandam diferentes necessidades. Assim, as demais etapas irão contribuir expressivamente na formação crítica do grupo em relação ao seu contexto, que foi o ponto de partida, para que a Prática Transformada aconteça plenamente, dentro do escopo que fora proposto.
As aulas em que os textos literários são trabalhados possuem as mais diversas práticas, quando acontecem. Entretanto, eles podem e devem ser trabalhados dessa forma, surgindo a partir de uma Prática situada. A próxima seção versa sobre o letramento literário e alternativas para que as práticas leitoras se tornem relevantes e prazerosas para os alunos.