O livro Pedagogia scientifica107 foi produzido por Deodato de Moraes a partir dos conteúdos e das lições ministradas na primeira parte do programa do Curso Superior de Cultura Pedagógica. Esse livro deveria ser, segundo Deodato, o primeiro volume de uma série que pretendia publicar cada uma das partes do programa do curso, o que não chegou a acontecer.
Tratava-se de uma obra que, segundo adverte seu autor, é fruto de “[...] observações proprias realisadas no Brasil e em confronto com as pesquisas estrangeiras” (MORAES, s/d, p. 12) na realização do programa do CSCP. Na parte introdutória do livro, Deodato elogia a participação dos professores capixabas no curso e diz: “[...] tudo quanto aqui está discutido se encontra applicado com firmeza e intelligencia na Escola Activa Brasileira de Victoria, graças aos esforços de uma plêiade brilhante de professores capichabas, honra e gloria do magistério brasileiro” (MORAES, s/d, p. 13).
Do ponto de vista material, o livro constitui-se de 403 páginas, dividas em 24 capítulos (mais anexos). Publicado pelas oficinas do Diario da Manhã, foi impresso em papel de boa qualidade. A capa possui informações sobre o CSCP, o título, o autor e a fonte da publicação, além da inscrição “Primeiro volume” – mais uma indicação da intenção de publicar outros volumes. Na lombada, além do nome do curso e do título da obra, é possível verificar, também, o preço de venda do livro: 20$000.
Em seu interior, o livro possui diversas ilustrações entre fotografias do CSCP, figuras, gráficos, quadros, tabelas e esquemas, a maior parte nas cores preta e branca. As fotografias aparecem sempre impressas em um papel do tipo acetinado e mais claro, diferente das partes textuais, em um papel mais poroso.
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O livro que tenho em mãos não apresenta data de publicação na capa, na quarta-capa, na lombada e em nenhuma de suas páginas. No entanto, referências feitas por outros autores a ele indicam 1930 como o ano de sua publicação.
Nas páginas iniciais, estão transcritos o decreto que abre o CSCP e a resolução que determina o programa completo do curso. Seu sumário dá uma noção daquilo que o autor pretendia abordar, entre teorias, conceitos e exames, dentro do que ele estava chamando de “Pedagogia científica”. Para Monarcha (2009, p. 267-268), o livro era
[...] quase um dicionário de iniciação de análise da experiência infantil [e] colocava em feixe uma multiplicidade de saberes antes em estado de dispersão, com o fito de nomear coisas e fenômenos antes desconhecidos. Extenso e não destituído de ambições, o programa ‘Pedagogia Científica’, considerava a psicanálise como arma preventiva das afecções neuróticas e outras doenças mentais.
O conteúdo de Pedagogia scientifica indica a preocupação em instruir os professores sobre as bases da Pedagogia que se pretendia ensinar a eles. Com relação a isso, o sumário do primeiro capítulo do livro detinha-se em três aspectos: o “caráter científico da moderna pedagogia”; “os estudos fisiopsíquicos da criança” e a “árvore pedagógica”. Desse modo, o primeiro conteúdo ministrado aos cursistas do CSCP pretendia apontar as relações existentes entre a Pedagogia e a ciência:
Fonte: Moraes (s/d). Fonte: Moraes (s/d).
Figura 24 – Capa do livro Pedagogia
scientifica, de Deodato de Moraes
Figura 25 – Sumário do livro Pedagogia
A pedagogia, sciencia da educação, de militar que era no seu começo, pois, só preparava homens para a guerra, de religiosa que foi mais tarde, toma vulto com as ultimas applicações cientificas, com os últimos trabalhos de Kant, de Fichte, Herbart, Bain, Spencer e tantos outros, e desgarrando-se dos ferreos laços da metaphysica, vae, pouco a pouco, perdendo a sua parte mysteriosa e dogmatica, deixando de ser um feixe de regras e de preceitos, para se constituir sciencia concreta, essencialmente pratica e eminentemente moral e social (MORAES, s/d, p. 17).
Nessa concepção, a Pedagogia ganhava status de ciência moderna que atraía todas as nações do mundo e as mais altas inteligências, tornando-se objeto de reflexão de muitos cientistas. A ciência pedagógica nutria-se de todos os demais campos científicos, com a finalidade de observar e de estudar a infância e sua natureza, a fim de, a partir de tal conhecimento, produzir os alicerces de uma nova educação. Esse era, segundo Moraes (s/d), o caráter verdadeiramente científico da nova Pedagogia. Deodato, crítico das elaborações do passado, defendia uma Pedagogia científica que superasse a Pedagogia fruto de um “empirismo grosseiro” sem nenhuma base científica, motivo pelo qual fracassou. Dizia ele:
Abstracta, dogmatica e mysteriosa, sahia a sciencia educativa, não dos gabinetes de observação e experimentação, mas da penna dos pensadores, philosofos, que chegavam a elaborar planos de cultura geral e, ás vezes, systemas educativos inteiros, sem nunca terem ido a uma escola sem conhecerem as modalidades da natureza infantil (MORAES, s/d, p. 55).
Assim, Moraes (s/d, p. 18), a partir das leituras que fazia da educação nova, defendia o conhecimento que o professor precisava ter sobre a criança em todos os âmbitos, que ele resumia nos planos físico, psíquico e moral, como princípio básico para o desenvolvimento da Pedagogia Nova. Traçava, assim, o perfil do professor que pretendia formar e que esperava que, a partir dali e pelas mãos daqueles professores, fosse também formado, pois, para ele,
Nenhum professor poderá colher bons resultados do seu trabalho, desconhecendo as diversas variações por que passam o corpo e o espirito de uma creança. Desconhecendo a natureza de seu discípulo, encontrar-se-á elle nas mesmas condições de um homem que sendo agricultor não conhece a natureza productora do solo, sendo médico, desconhece os orgams e as funcções do corpo e sendo carpinteiro, não sabe distinguir as differentes espécies de madeira com as quaes trabalha.
Deodato de Moraes apregoava, dessa maneira, os princípios de uma Pedagogia Nova que, para ele, poderia ser resumida em quatro aspectos fundamentais capazes de lhe atribuir
cientificidade – três dos quais pensados por Vasconcellos Azevedo108 e, o último, acrescentado por ele mesmo: o estudo científico da criança, a associação eficaz entre médico e educador, a colaboração entre a família e a escola na obra educativa e o ambiente social.
Nessa direção e ao enfatizar a necessidade dos estudos da criança, Moraes compreende que a Pedagogia alimenta-se de outras áreas de estudos, tais como a Psicologia, a Anatomia, a Sociologia, a Higiene, entre outras, e conforma-se como que na figura de uma árvore, “[...] cujas raízes são constituídas por essas innumeras sciencias e cujo tronco se bifurca, apresentando-nos – de um lado, folhas e fructos bem nutridos, que correspondem aos escolares normaes, e do outro lado – os anormaes com todas as suas deficiencias physicas, psyquicas e moraes” (MORAES, s/d, p. 21).
Dentro do programa de “Pedagogia científica” do curso, os aconselhamentos de Deodato de Moraes passavam pela ideia de que o conhecimento científico da criança deveria partir de exames especiais que tivessem como foco desde os fatores hereditários, colhidos na família, até anamneses do estado físico e psíquico de cada criança. Para todos esses exames, Moraes (s/d) apresenta, passo a passo, as fichas e cálculos que deveriam ser feitos baseados
108
Trata-se de António Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (1880-1939), pedagogo e psicólogo português, envolvido com o debate da escola nova (DINIZ, 2002).
Figura 27 – Gráfico desenvolvido por alunos do CSCP
Fonte: Moraes (s/d, s/p). Fonte: Moraes (s/d, s/p).
em estudos já desenvolvidos sobre essas questões. Sobre isso o livro traz, também, os exercícios realizados pelos alunos do CSCP, como é o caso dos gráficos produzidos a partir dos exames e anamneses feitos por Luiz Edmundo Malisek e José Elias de Queiroz e, em anexo no livro, as fichas e exercícios correspondentes ao conteúdo estudado.
Com isso, a nova Pedagogia confiava ao professor o papel de investigador da vida da criança por meio de análises, as mais variadas, que envolviam exames somáticos: morfológicos (conformação física geral do educando), antropológicos (composição de caráter corpóreo), antropométricos (estatura, peso, envergadura, circunferências, força, robustez, capacidade pulmonar, postural), fisiológicos (crescimento visceral, biológico, metabolismo, alimentação, puberdade), fisiopsicológicos (relativo às sensações). A realização de exames contribuiria para compreender a criança e conduzi-la ao ensino que levasse em conta as suas particularidades. Os exames poderiam ajudar a conduzir as crianças ao desenvolvimento intelectual, de acordo com as suas necessidades.
Ao analisar historicamente as práticas de aferição de medidas que envolviam uma “antropometria antropológica”,109
Blanckaert (2001) diz que elas passaram a contribuir para se conhecer melhor a espécie humana e servir para detectar desvios da raça e tendências evolutivas da humanidade. A finalidade das técnicas antropométricas era atuar na regulação da população e de sua saúde.
Na análise do autor, a forma aplicada dessa ciência era a eugenia e, juntamente com ela, diversas áreas de conhecimento, entre as quais a educação a utilizaria como mecanismo de controle social. No programa de formação de professores no Espírito Santo, esse também era tema presente. A eugenia dialogava com a ideia de hereditariedade, consanguinidade e puericultura, sobre o que Moraes concluía: “[...] cabe á educação não só controlar as heranças, e permittir o aproveitamento maximo e efficiente dos bons attributos, mas, e muito principalmente, promover o aproveitamento intensivo de todas as índoles, de todas as disposições innatas boas ou más” (MORAES, s/d, p. 52).
Com base nisso, as medidas serviriam principalmente para orientar o professor na organização do ensino, pois, por meio dos exames, seria possível produzir fichas das crianças, o que constituiria suas carteiras biográficas:110 uma ficha completa que conteria todos os
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O autor informa que essas práticas foram cientificizadas e profissionalizadas em 1919, quando o americano Ales Hrdlica a definiu como polo de pesquisa pura. A busca por esse tipo de técnica já vinha trilhando caminhos desde finais do século XIX.
110
A Carteira Biométrica criada por Deodato de Moraes para uso na Escola Activa de Ensaio é extensa e comporta todos os dados que seriam necessários coletar das crianças, tais como: julgamento psicológico, exame fisio-psicológico, exames somáticos e antropológicos.
dados biométricos dos alunos. Esses registros poderiam contribuir para a divisão das crianças em grupamentos homogêneos. Para Monarcha (2009, p. 236):
[...] as práticas biométricas, de uma parte, institucionalizavam os testes de rendimento escolar (ou pedagógicos) em matérias como linguagem, aritmética, estudos sociais e ciências naturais; de outra parte, intentam dar conta da heterogeneidade dos contingentes, identificando a variedade de tipos mentais revelados pela escola [...].
O curso ministrado por Deodato pretendia ensinar aos seus participantes o passo a passo para a obtenção de medidas. Para auferi-las, ele indicava a utilização de determinados aparelhos, segundo ele simples e de baixo custo, muitos dos quais poderiam ser construídos pelos próprios educadores, conforme instruía ao longo do livro (e do curso). O livro é ilustrado com uma série de fotografias em que Deodato aparece vestido de branco a realizar a medição das crianças que frequentavam a Escola Activa de Ensaio.
As imagens mostram, também, o aparelhamento tecnológico da Escola Activa de Ensaio. Ainda que houvesse sugestões de menor custo – as que, por certo, seriam utilizadas
Fonte: Moraes (s/d, s/p). Fonte: Moraes (s/d, s/p).
nas escolas do Estado em que os preceitos chegassem –, pelo menos a escola que se pretendia como modelo dispunha de equipamentos avançados.111
Ainda com o foco nos testes, um tema importante de ser abordado no programa do CSCP, referente à Pedagogia científica, diz respeito às elaborações de Deodato sobre a educação dos sentidos das crianças. Temática a que são dedicados, mais diretamente, cinco capítulos do livro:
Quadro 5 – Capítulos do livro Pedagogia scientifica dedicados ao estudo dos sentidos da criança CAPÍTULO TÍTULO SUMÁRIO DO CAPÍTULO Capítulo IX Exame physio-
psychologico Sistema nervoso
Systema nervoso; constituição do apparelho nervoso. Sensação. Acto reflexo. Acto voluntario. Mecanismo da intelligencia. Exame pratico da refletividade e da motilidade. Defeitos de linguagem Capítulo X Exame physio-
psychologico
Sensação. Propriedades essenciaes da sensação. Exame da sensibilidade physica. Regras do exame da sensibilidade. Embaraços da sensibilidade
Capítulo XI Sensações tactis Sensibilidade tactil. Sensibilidade táctil local. Sensibilidade barica. Sensibilidade thermica. Anomalias
Capítulo XII Sensações visuais Poder de accommodação. Associação funccional e movimento dos olhos. Acuidade visual. Sensibilidade chromatica. Sentido visual espacial
Capítulo XIII
Sensações auditivas Sensações auditivas. Sons. Suas qualidades. Ruídos exame pratico, acuidade auditiva. Localisação de sons e ruídos, senso rythmico. Sensações gustativas. Exame pratico. Anomalias. Sensações olfactivas. Exame pratico
Capitulo XIV
Sensibilidade interna Sensibilidade geral interna. Sensibilidade dolorifica. Sentido das necessidades orgânicas. Sensibilidade muscular. Sensibilidade funccional dos apparelhos motores. Sensibilidade geral dos nervos. Sentido muscular: activo, passivo, da resistência, da posição, da distancia. Sentido do equilíbrio. Sentido cenesthesico
Fonte: Moraes (1930).
Deodato baseia-se em experiências científicas realizadas no exterior para afirmar que o desenvolvimento dos sentidos interfere no aperfeiçoamento intelectual. Para ele era necessário que os sentidos das crianças estivessem em pleno funcionamento para que a aprendizagem pudesse ocorrer:
E’ por isso que affirmamos ser necessário em primerio lugar cuidar de desenvolver os sentidos, isto é, fazer com que a creança veja melhor, ouça melhor, sinta mais perfeitamente, para depois se cuidar do enriquecimento da sua intelligencia. Uma creança que ouve bem e vê melhor, aprende com mais facilidade (MORAES, s/d, p. 25).
111
A matéria publicada no Diario da Manhã sobre a primeira conferência realizada por Deodato de Moraes, no âmbito do Grupo Escolar Gomes Cardim, indica que a escola já contava, naquele momento, com um aparelhamento avançado para o uso na área de Psicologia experimental, por exemplo (COMO..., 1929).
Os intelectuais afetos à nova proposta de educação passam a se preocupar com as questões relativas à educação dos sentidos, tendo em vista que é por meio do desenvolvimento dos sentidos da criança que o conhecimento poderia ser também desenvolvido. Essas eram discussões caras não somente ao aprendizado na sala de aula como, também, à educação física das crianças, já que o corpo era considerado como a base de tudo o que se deveria ensinar.
As análises de Bermond (2007) sobre as relações de autores vinculados às ideias da Escola Nova, com as prescrições publicadas na Revista de Educação Física (do Exercito) apontam afinidades das prescrições sobre a educação dos sentidos das crianças com as ideias rousseaunianas. Segundo a autora,
A idéia de que os sentidos são as portas de entrada do conhecimento também se encontra relacionada com a idéia de que o desenvolvimento físico é a base do desenvolvimento mental, que por sua vez também se relaciona com a idéia de se atentar primeiramente para a educação corporal, ou a ‘educação negativa’, para posteriormente, atentar para a formação intelectual, quando a razão já estiver formada (BERMOND, 2007, p. 79).
A perspectiva da educação dos sentidos no livro Pedagogia scientifica possuía relação com a formação para o trabalho. Os capítulos dedicados ao estudo dos sentidos das crianças são iniciados por fotografias das práticas da Escola Activa de Ensaio em que as crianças aparecem exercitando os sentidos nas salas de trabalho da Escola Activa de Ensaio.
Figura 30 – Aula activa de photographia na “Escola Activa Brasileira de Victoria”
Desse modo, o livro Pedagogia scientífica organizava as ideias que se desejava propagar entre os professores no Espírito Santo, de modo que, se o curso não poderia atingir a todos, as concepções e métodos de ensino que nele foram ministradas deveriam, de alguma maneira, chegar aos professores das escolas capixabas.
Pedagogia scientifica surgia como um primeiro volume que integrava não somente a teoria que embasava a escola activa capixaba, mas, principalmente, os exemplos práticos que poderiam ser adotados como modelos a serem seguidos pelos professores das escolas. Assim, entre as intenções que cercavam o livro de Deodato de Moraes, estava sua utilização como orientação pedagógica ou como diretriz para o professorado capixaba.
Entendo que os cuidados que cercavam a produção material do livro, o fato de ele poder ser localizado em bibliotecas de todo o Brasil e, ainda, Deodato de Moraes ser paulista e circular nacionalmente em diversos âmbitos são indícios possíveis para a compreensão de haver intenções de que o livro figurasse como modelo e circulasse por outros Estados.