OURO PRETO E OS GRUPOS DE ESQUERDA
2. PEDIDOS: a Veracidade.
b. Caso positivo, alertar a Cia. de Alumínios Minas Gerais.
98 APM. DOPS. Pasta 3813. Investigações diversas. 99 APM. DOPS. Pasta 3767. Jornal do Povo. 100 APM. DOPS. Pasta 5489. Fichas de identificação.
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c. Seu verdadeiro nome.
d. Outros dados julgados úteis.101
A essa altura, Sebastião Francisco havia sido cassado, retornando, no entanto, à câmara, beneficiado por um mandado de segurança. Ape- sar de seu retorno, renunciou em 1965, só voltando a aparecer como vereador em 1971. Se a suspeita da 4ª RM procedia, talvez tenha tentado proteger-se obtendo emprego em Salto ou mesmo optado por atuar poli- ticamente de outra maneira.
Seja como for, continuava a despertar o respeito dos militantes de esquerda. Como relata Victor Vieira de Godoy, aluno da Escola de Far- mácia na época da ditadura, foi na década de 1960 que Antônio de Pádua Rodrigues, o Tonico, membro da União Colegial Ouro-Pretana (UCO), promoveria o encontro entre o petebista e Hélcio Pereira Fortes, secun- darista e membro do GLTA que, nos anos posteriores ao golpe, procurou rearticular o PCB na cidade, integrou-se à Corrente Revolucionária (CR), dedicou-se à luta armada, ligou-se à Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighela, sendo torturado e assassinado pela ditadura em São
Paulo no ano de 1972, aos 22 anos102: “imediatamente Hélcio passou a ido-
latrar Sebastião Maria Preta e João Barroso, sem perder ocasião para ‘épa-
ter la bourgeoisie’ ouro-pretana e consolidar sua fama de contestador”103.
101 APM. DOPS. Pasta 0067. Investigações a suspeitos.
102 Cf. Relatório da Comissão Nacional da Verdade: mortos e desaparecidos políticos. Brasília: CNV,
2014, v. 3, “Hélcio Pereira Fortes”. Outros jovens que viveram em Ouro Preto tiveram percurso semelhante. Dentre os membros do Grupo dos Onze de Mariana achavam-se Geraldo Goulart do Nascimento e seu filho Helber José Gomes Goulart, ambos ligados ao PCB. Helber também viria a compor a CR e a ALN, tendo sido preso, torturado e assassinado em 1973, aos 29 anos. Cf. Relatório da Comissão Nacional da Verdade: mortos e desaparecidos políticos. Brasília: CNV, 2014, v. 3, “Helber
José Gomes Goulart”. O mesmo ocorreu com Antônio Carlos Bicalho Lana, estudante nascido em Ouro Preto que também participou da CR e da ALN, tendo sido torturado e morto em São Paulo, em 1973, aos 24 anos. Relatório da Comissão Nacional da Verdade: mortos e desaparecidos políticos, v. 3,
“Antônio Carlos Bicalho Lana”. Os assassinatos de Hélcio, Helber e Antônio Carlos foram de respon- sabilidade do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandava o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do II Exército em São Paulo.
103 GODOY, Victor Vieira. “Com Hélcio no Café Pushkin”. In: FORTES, Délcio Pereira (Org.). Hé-
lcio. Belo Horizonte: Usina do Livro, 2017, p. 48. João Barroso, morador de Ouro Preto, atuou na ALN, chegando a deslocar-se para Governador Valadares e Ipatinga, onde, em 1970, mantinha con- tatos com Newton Moraes, militante que estudava na Escola de Minas e foi preso em 1971. Outro contato de Newton era justamente Antônio de Pádua Rodrigues. APM. DOPS. Pasta 4002. CODI BH. Moraes foi preso e torturado após frustrada tentativa de assalto a um banco em Belo Horizonte, sendo também expulso da Escola de Minas.
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Aliás, logo após o golpe de 1964, no mês de novembro, foi lan-
çado o primeiro número de A voz do G.L.T.A., cuja equipe de direção
era composta por Antônio de Pádua Rodrigues, Hélcio Pereira Fortes, Victor Vieira Godoy e Júlio C. Chaves. Nele, Tonico publicou um artigo intitulado “Analfabetismo no Brasil”, no qual, procurando tratar o tema em perspectiva histórica, dizia que a “continuidade da herança colonial compromete todos os esforços de desenvolvimento”. Tanis Pueréxy, por sua vez, em texto chamado “Quem quer levantar o dedo”, lembrava que certos lugares de Ouro Preto, como o Morro da Queimada, a rua da Fu- maça e o Veloso, eram “paragens universais” com nomes trocados, isto é, lugares de pobreza existentes por toda a parte – “por exemplo, no Rio de Janeiro chamava-se Favela do Esqueleto”. Eram lugares com “frio, fome, inquietude, desespero, ódio, fraqueza moral, amor, desconfiança em si próprios e outras tantas características da humana gente”. Exigiam, pois, uma “renovação”, que excluísse totalmente “as origens do nosso sen- timento de culpa: inércia, egoísmo, farisaísmo, e um rosário de outras
coisas que cada um conhece em si mesmo”.104
No número seguinte, em dezembro, Antônio de Pádua dava sequên- cia à análise sobre o analfabetismo, salientando que os projetos educa- cionais não poderiam excluir a população adulta nem desvincular-se de mudanças mais amplas, como as que diziam respeito à industrialização: “É indispensável, constitui fator de imperativo nacional, [realizar] as modificações das estruturas brasileiras. Caso contrário, qualquer plano,
qualquer projeto não passará de simples paliativo”.105 Em outubro e no-
vembro de 1965, por sua vez, no sétimo número, Tonico voltava à carga com “Ou isto, ou aquilo”:
Não é possível. Basta de humilhações!
Ou colocamos as coisas nos devidos lugares, ou não sei o que acontecerá. A coisa é muito grave. Ninguém entende ninguém.
104A Voz do G.L.T.A., n. 01, novembro de 1964, p. 3 e 5. 105A Voz do G.L.T.A., n. 02, dezembro de 1964, p. 6.
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As palavras já não significam nada, é a própria mistifica- ção. Em suma, é a prostituição.
“Bom dia”, “Democracia”, “Liberdade”, “Honra”, etc. etc.... Desvirtuaram tudo, as palavras perderam a sua essência. Senão vejamos:
“Bom dia”, perderam a consideração para com tal expres- são.
Até na polícia, antes dos espancamentos, dos interroga- tórios, ou cousas semelhantes, o inquisidor saúda as suas vítimas. Bom dia!
Mas as cousas não ficam aí, assumem proporções desas- trosas.
“Democracia”, cada dia vestem-na de um jeito (embora cada sistema tenha a sua concepção, podendo encará-la como cousa inteiramente diversa). O que não se admite é que cada dia tenha uma interpretação nova.
“Honra”, na questão francesa com o Marrocos, os colonia- listas tanto falaram de “Honra da França” para justificar tudo e qualquer coisa que levou um jornalista francês a dizer: “A rigor, honra, atualmente, não quer dizer nada, é apenas um equivalente de troço ou treco”.
Estão usando as palavras em vão, desvirtuando-as, colo- cando-as como que numa clandestinidade, tudo pelo mau uso deliberado.
Como poderão os homens entender-se se quebram a digni- dade das palavras? Com que vocabulário poderão expres- sar os seus pensamentos e as suas convicções? Será com este?
Chega de esculachos, chega de massacres. Ou devolvemos as palavras a sua identidade, ou, ao primeiro reboliço, o primeiro tiro, e a coisa ficará preta.
É hora de lançarmos um brado de alerta em defesa da in- tegridade das palavras, para salvarmos a nossa própria.106
106A Voz do G.L.T.A., n. 07, janeiro de 1965, p. 8. Nesse mesmo número, como em outros, encon-
tra-se a contribuição de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde: “A voz do patrono”. Diga-se de passagem que exatamente nessa época o patrono do GLTA telefonou ao embaixador chileno reque- rendo que fosse aceito o asilo do advogado Antônio Ribeiro Romanelli, que na ocasião encontrava- se escondido no Rio de Janeiro.
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