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Pedro, Pedra e Ministros: Interdiscursividade em uma Crônica

2. Analisando as pedras

2.1. Pedras: deslocamentos e (res)significações

Sob o pressuposto de que o “funcionamento da linguagem se assenta na tensão entre processos parafrásticos e processos polissêmicos” (ORLANDI, 2005, p. 36), em que a paráfrase representa diferentes formas de dizer o mesmo dizer já sedimentado no imaginário coletivo e que a polissemia representa o deslocamento e a ruptura de processos de significação, observaremos como a questão das pedras se faz presente no corpus deste trabalho e como essa noção é (res)significada e/ou deslocada ao longo dele.

A primeira referência a pedras (desconsiderando momentaneamente a que se encontra sob a forma “cálculo renal” no título “Aos portadores de cálculo renal e ministros”, sobre a qual discorreremos mais adiante) encontra-se na introdução da crônica. Ao dizer que

“O material usado por Deus para fazer o mundo foi a pedra.”, o locutor desloca a noção judaico-cristã, fundamentada na Torá e no Antigo Testamento bíblico, de que Deus criou o mundo com sua própria voz6. Esse deslocamento serve de suporte para o locutor, que faz da pedra o fio intradiscursivo a permear toda sua crônica. Ao ser referenciada como parte da criação, denota-se a ideia de que a pedra sempre esteve presente no mundo e, indo além, de que o próprio mundo é formado a partir do uso de pedras.

Na frase seguinte, “E fez pedra de todo material.”, o locutor transmite a ideia de que todos os elementos encontrados na natureza são formados a partir da pedra. Essa interpretação é possível utilizando como base o esquecimento número dois (PÊCHEUX, 1975 apud ORLANDI, 2005). Nesse caso, a expressão “pedra de todo material” pode ser deslocado em

“pedra de carbono”, “pedra de ouro”, “pedra de urânio” e assim por diante, incluindo a essa noção quaisquer outros elementos conhecidos.

Em seguida, o locutor prossegue discorrendo sobre a importância da pedra ao dizer

“Quando o homem quis continuar a obra do Criador, valeu-se da pedra e com ela fez maravilhas”. A noção de que a pedra é a base para a criação de tudo é, então, estendida quando se atribui ao homem, à semelhança de Deus, o poder de criar a partir do uso de pedras que, desta forma, não é apenas útil (dado que o mundo inteiro foi criado a partir dela), mas também “faz maravilhas”, reforçando sua relevância. Neste momento, então, pedra é significada como “material utilizado pelos homens para criação”.

Muito mais do que uma simples criação, o locutor valoriza a inspiração humana ao designá-las de “maravilhas” e faz remissão às Sete Maravilhas do Mundo Antigo (Pirâmides de Quéops, Jardins Suspensos da Babilônia, Estátua de Zeus em Olímpia, Templo de Ártemis, Mausóleu de Halicarnasso, Colosso de Rodes e Farol de Alexandria), que são majestosas obras artísticas e arquitetônicas, portanto obras feitas de pedras.

O locutor prossegue fazendo uso do discurso religioso ao mencionar mais duas passagens bíblicas para aludir a pedras7. A primeira refere-se à conversa entre Jesus Cristo e Pedro. Interdiscursivamente, este trecho remete a Jesus Cristo, que afirma ser Pedro “pedra” e que sobre esta “pedra”, referindo-se a si mesmo, construiria sua igreja. Isso se evidencia no trocadilho por parte de Jesus Cristo entre o nome Pedro, que deriva do grego petrós,

6 De acordo com diversas passagens bíblicas no livro de Gênesis, que apresentam a criação sob o comando divino de “Disse Deus...”. (Gênesis 1:3, 1:6 e 1:9).

7 A saber, respectivamente, Mateus 16:18 e João 8:1-11.

significando “pedra, pedregulho”, e a si próprio como petra, do grego, “rocha”8. Neste trecho, tem-se pedra como “fundamento, alicerce”. Convém notar que, anteriormente a esse excerto, é dito que “A pedra dá uma noção de perpetuidade, de duração.” e, logo a seguir, “Cristo disse a São Pedro: ‘Tu és pedra’”, ambas conectadas pela conjunção conclusiva “assim”. Desta forma, é possível inferir, no âmbito interdiscursivo, que a ideia de igreja enquanto instituição é “algo perpétuo, de longa duração”.

Na segunda referência bíblica, fala-se interdiscursivamente do relato bíblico de uma mulher acusada de adultério que, prestes a ser apedrejada, tem sua vida salva por Jesus Cristo, quando a defende com o conhecido dizer, “Quem nunca pecou atire a primeira pedra”9. Neste contexto, pedra remete a um “objeto de punição e/ou de condenação; símbolo de vergonha”.

No entanto, ao dizer que somente aquele “não pecou” é que deve atirar a primeira pedra, Jesus Cristo desautorizou o ato de apedrejamento, comum à cultura judaica de então. Em direta oposição a isso, também é possível significar pedra como “objeto de salvação”. Essa observação é possível quando levada em consideração a frase anterior “E com ela defendeu todos os homens”.

O locutor novamente remete-se à pedra no trecho seguinte, mas como “concreção;

massa sólida, formada por agregação de sais minerais em torno de material orgânico no rim, na vesícula, etc.”10, remetendo-se ao “cálculo renal” apresentado no título e evidenciado em uma sequência de três segmentos (entre outros observados ao longo do corpus, mas que não serão diretamente comentados), quando é dito que Deus (I) “deu aos nossos frágeis corpos fabricar pedras”; (II) “Já me fez produzir pedras de colesterol e urobilina”; (III) “fez minha máquina de pedras produzir ditas de ácido úrico, de cálcio e outras que o laboratório ainda não me revelou”.11 Em comum, os trechos apresentam o sentido de “pedras produzidas pelo corpo humano” e que, necessariamente, são um “problema e/ou empecilho ao bem-estar”.

Ainda sob o aspecto de pedras como um problema renal, o locutor traça um paralelo entre o poema de Carlos Drummond de Andrade “No meio do caminho”, e seu próprio cálculo renal, relacionando o “caminho” e a “pedra” drummonianos a “ureter” e “cálculos renais”, respectivamente. Em seguida, ele confirma que a intencionalidade de Drummond ao compor esse poema é discorrer sobre cálculos renais ao citar outro poema de sua autoria intitulado “Confidência do Itabirano”, cuja última estrofe segue a seguir:

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!12

Ao referir-se aos dois últimos versos acima, o locutor não só atesta que Drummond discorria sobre as dores de cálculos (“como dói”), mas também faz outra referência a pedras

8 Pertence ao escopo deste trabalho apenas a citação desses dados, não cabendo aqui sua exegese.

9 Conforme o relato em João 8:7, que diz, “Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse:

‘Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela’.”

10 Fonte: <http://aulete.uol.com.br/cálculo/>. Acesso em 30 de abril de 2014.

11 Grifo nosso.

12 Fonte: <http://drummond.memoriaviva.com.br/alguma-poesia/confidencia-do-itabirano/>. Acesso em 30 de abril de 2014.

ao citar a cidade natal de Drummond, Itabira, que em tupi significa “pedra que brilha” (itá,

“pedra”; byra, “que brilha”).

A questão da pedra como cálculo renal também é referenciada no que diz respeito a seus possíveis tratamentos. Primeiramente, discorrendo sobre as possibilidades da medicina popular, o locutor cita, entre outros tratamentos alternativos, o uso do chá de “quebra-pedra”, espécie de planta (Phyllanthus tenellus) que, dentro do discurso popular, acredita-se apresentar propriedades diuréticas e de combate a cálculos renais. Em outro momento, o locutor faz referência à medicina tradicional, ao falar sobre o procedimento denominado

“litrotipsia”, marcando mais uma alusão a pedras (do grego lithos, “pedra”; trîpsis,

“esmagamento ou trituração”).

A partir da noção de pedra como cálculo renal, o locutor traça um paralelo entre pedras com o ofício presidencial de gerenciar ministros quando diz “…li as declarações do presidente Lula de que sofria para mexer as pedras do ministério” e “Criou-se no Brasil a cultura de que pedra de demitir ministro é como cálculo renal: dói.” Em ambas referências, relaciona-se a dinâmica de trabalho ministerial sob o ponto de vista do presidente, incluindo a exoneração de ministros, como um processo difícil, complicado ou mesmo “doloroso”, à semelhança de expelir cálculos renais. Isso é confirmado na referência direta aos ministros como sendo pedras (“problema, estorvo”) pelo caminho. Isso é evidenciado no trecho final

“‘Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas, que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.’ E não era ministro.” Para efeito de organização, este trecho será melhor apresentado posteriormente, quando serão discutidas questões de ambiguidade.

Apresentando de forma concisa a questão das pedras encontradas neste corpus analisado, temos, então, o seguinte quadro:

Quadro 1 – Pedras: deslocamentos e (res)significações.

Sentidos para pedra Referência

objeto de criação

“O material usado por Deus para fazer o mundo foi a pedra.”

“E fez pedra de todo material.”

“Quando o homem quis continuar a obra do Criador, valeu-se da pedra e com ela fez maravilhas.”

Pedro (do grego, petrós, “pedra, pedregulho”) Jesus Cristo (do grego, petra, “rocha”) igreja enquanto instituição

fundamento; alicerce

“A pedra dá uma noção de perpetuidade, de duração.

Assim Cristo disse a são Pedro: ‘Tu és pedra’.”

objeto de condenação / salvação “E com ela defendeu todos os homens: ‘Quem nunca pecou atire a primeira pedra’.”

cálculos produzidos pelo corpo humano

“Aos portadores de cálculo renal” (título)

“Foi tão ampla a fórmula de Deus para fazer pedras que deu aos nossos frágeis corpos fabricar pedras.”

“Já me fez produzir pedras de colesterol e urobilina, que me levaram a vesícula.”

“(…) fez minha máquina de pedras produzir ditas de ácido úrico, de cálcio e outras que o laboratório ainda não me revelou.”

“Voltando à rota do meu cálculo (…).”

“ (…) bombardear a pedra com uns 5.000 tiros de ultrassom para destruí-la e transformá-la em areia.”

“(…) e aquele friozinho misturava-se com a febre de sonhos de cristais de cálcio, poliedros brilhantes vazando pela minha bexiga.”

“Era mesmo de cálcio.”

Itabira (do tupi, itá, “pedra”; byra, “que brilha”)

“E vi que Drummond completava sua inspiração renal quando dizia que Itabira era uma ‘fotografia’, mas ‘como dói!’.”

tratamento para cálculo renal: chá de quebra-pedra; litotripsia (do grego lithos, “pedra”;

trîpsis, “esmagamento ou trituração”)

“ (…) e não recusei os chás caseiros (…) que iam desde cabelo de milho, caroço de bacuri e de melancia, raiz de chanana e quebra-pedra (…).”

“Em seguida, uma sessão de litotripsia.”

Gerenciamento de ministros

“Nesse flagelo, li as declarações do presidente Lula de que sofria para mexer as pedras do ministério.”

“Criou-se no Brasil a cultura de que pedra de demitir ministro é como cálculo renal: dói.”

“Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas, que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho." E não era ministro.”

Percebemos por meio desse quadro que as diferentes (res)significações de pedra (de pessoas a objetos, de meio de salvação à forma de condenação, de remédio à doença, de nome de cidades ao cenário político) tecem o fio (inter)discursivo que o locutor utiliza para sustentar seu ponto de vista e, por meio dele, revela sua ideologia, sobre a qual discorreremos adiante.

Em relação aos deslocamentos, além da questão da criação do mundo a partir da pedra (já relatado anteriormente), destacamos o trecho que se encontra no excerto “E com ela defendeu todos os homens: ‘Quem nunca pecou atire a primeira pedra’”. Este trecho remete ao relato bíblico da mulher que, tendo sido acusada de adultério, é trazida por mestres da lei e fariseus até Jesus Cristo para que este emitisse um parecer sobre se ela deveria ser apedrejada ou não. Jesus, então, diz que a primeira pedra deveria ser atirada por aquele que não tivesse pecado. Ao fazer isso, Jesus Cristo defende, então, a mulher, e não os homens que pretendiam executá-la. O locutor desloca essa noção original de que Jesus Cristo estaria defendendo a mulher de seus acusadores e a ressignifica em “defendeu todos os homens”, estendendo, assim, a defesa aos homens em geral, incluindo-se a si mesmo.