CAPÍTULO IV OBRAS SELECCIONADAS
4.2 Algumas das pinturas atribuídas a Vasco Fernandes
4.2.1 O S Pedro e os quatro retábulos grandes das capelas da Sé de Viseu (1529 1535)
A testemunhar a existência de Vasco Fernandes na cidade onde detinha oficina, chegaram até aos nossos dias, apenas, os registos escritos dos pagamentos de foros ao cabido da Sé de Viseu. “Estes dão-nos conta da presença do pintor no período cronológico entre 1515 e 1535. Dentro desta baliza temporal podemos incluir, no seu processo criativo, a encomenda feita pelo Bispo D. Miguel da Silva de cinco retábulos para as capelas do interior e para o claustro da Catedral da cidade (1529-1535)” (SALGUEIRO, 2012: 190).
Assim, o monumental S. Pedro assume-se como um dos ícones do talento de Vasco Fernandes e uma das pinturas mais notáveis do património português numa escala excepcionalmente grande, comum aos restantes quatro retábulos executados para o mesmo espaço catedrático e para o mesmo encomendante. Neste estudo, as predelas destas cinco pala, embora sejam foco do nosso interesse - foram efectuados exames de área e análises laboratoriais -, os resultados decorrentes da analítica efectuada serão considerados, apenas, em âmbito de conjunto unitário dado que, segundo a historiografia da arte - reflexão estética que, logicamente, não descuramos -, tanto as predelas da pintura S. Pedro, como todas as outras, a nível de execução pictórica atestam o pincel “de dois pintores distintos com capacidades desiguais” (RODRIGUES, 2000: 373). No seguimento desta análise estilística, sentimo-nos impelidos a suplantar estas mesmas diferenças expressivas para as restantes pinturas das pala, impelidos pela premissa de que “A intervenção de Gaspar Vaz nestes projectos, especialmente no Pentecostes, no Baptismo de Cristo e no conjunto das predelas dos cinco retábulos, tidos tradicionalmente como obra do Grão Vasco, justifica alguns desníveis de qualidade” (RODRIGUES, 2000: 106).
148 Além de que, na nossa modesta opinião, apenas sobre este políptico, poderia e versar, em exclusivo, uma
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A colaboração de Gaspar Vaz nestas pinturas torna-se por demais evidente quando comparadas com o S. Pedro, pois a linguagem característica deste discípulo manifesta-se na repetição de elementos do cenário – capitéis e azulejos do pavimento, mas em versão mais simplificada -, revelando-se nos erros de perspectiva, bem como na modelação de uma série de pormenores anatómicos, especialmente das mãos – com dedos longos e hirtos (fig. 8).
Fig. 8 – a) Mãos pintadas por Gaspar Vaz, Anunciação, MNSR; b) mão pintada por Vasco Fernandes,
Visitação, Lamego. ©Lab. HERCULES, projecto ON-FINARTS (Sónia Costa).
Os retábulos da Sé de Viseu, cuja estrutura – painel central (Pala) com três pequenas tábuas de predela149 -, se revela completamente original no contexto da pintura portuguesa
da época, começaram a ser mudados do local para onde haviam sido inicialmente destinadas. A partir de 1630, data em que o Calvário foi transferido para a capela funerária de D. João Vicente, em momentos diferentes, todos os retábulos começaram a ser transferidos. Em 1758, exceptuando o Calvário, foram retirados para a sacristia, local onde, em 1843, Oliveira Berardo refere a existência dos outro quatro retábulos e doze painéis de menor dimensão, relativos às actuais cinco predelas. Assim, em 1888, Joaquim de Vasconcelos elaborou o primeiro esquema de atribuição das predelas às cinco pinturas retabulares que, desde então, foram sendo trocadas (RODRIGUES, 2000: 358).
149 Na sua génese, “um retábulo em pala é um retábulo constituído por uma grande pintura num só tramo e
respectiva série de pequenas pinturas na predela todas associadas ao mesmo tema iconográfico, de que são exemplo este conjunto de cinco pinturas” (SALGUEIRO, 2012: 53).
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A_SÃO PEDRO B_ SÃO SEBASTIÃO C_CALVÁRIO
D_BAPTISMO DE CRISTO E_PENTECOSTES
Fig. 9- As cinco pala das capelas da Sé de Viseu com as actuais predelas. ©Lab. HERCULES, projecto ON-FINARTS (Sónia Costa).
Em 1900, Maximiano de Aragão (ARAGÃO, 1900)150, publica um documento
escrito por Luís Botelho Pereira151, cónego da Sé de Viseu, datado de 1607, a propósito do
restauro do retábulo S. Pedro, no qual legitima o facto de “não o mandei pintar de novo por ser feita por mão de Vasco Fernandez , a qual mandei alimpar e retocar algumas
150 Ilustre historiador viseense a quem se deve o primeiro estudo monográfico acerca de Vasco
Fernandes, bem como, a esse propósito, a descoberta da primeira prova da existência histórica deste pintor.
151 Este documento original encontra-se no arquivo documental do Museu Grão Vasco (Viseu, AMGV/ LIV/
161 cousas (...) que me pareceo ser erro grande mandar fazer outra pintura que os pintores deste tempo confessão que não se fará outra tam boa tam perfeita e bem acabada” (SARAIVA, 2007: 84).152 Repare-se na importância atribuída, desde sempre, ao artista.
Em 1918, voltaram a ser transferidos, desta vez para a sala do capítulo – sempre dentro do espaço da Sé Catedral, primitivo espaço do Museu que agora as acolhe, o Museu Grão Vasco.
4.2.1.1 O S. Pedro
Grão Vasco encontra o seu pincel associado ao S. Pedro e aos restantes quatro retábulos do conjunto encomendados (Fig. 9) muito provavelmente, pelo bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, o qual terá sido pintado para a capela lateral direita da Sé de Viseu, em 1529 (CARVALHO, 2011: 189)153. Concretamente, acerca do S. Pedro, estamos de acordo
de que foi das pinturas mais protegidas (RODRIGUES, 1992: 159), dada a precoce consciência dos visienses de que esta integra o corpus de obras da mão do “mítico” Grão Vasco, factor determinante para o impedimento a muitos actos de “beneficiação”.
De excepcional escala, esta pintura sobre madeira de castanho154 comporta a
dimensão de 215 cm (altura) x 233 cm (largura), enquanto cada pintura da sua actual predela compreende a dimensão média de 48 cm (altura) x 69 cm (largura). Desde 2004, o S. Pedro encontra-se com a predela que, segundo a linha interpretativa de Dalila Rodrigues, tem correspondência pelo sentido iconográfico mas também pela forma como é estruturada a composição cromática das três pinturas (incidência da luz) - S. João Evangelista e Santo André, S. Bartolomeu e S. Judas Tadeu, S. Paulo e S. Tiago Maior - em relação ao painel principal (RODRIGUES, 1992: 190). Alguns exemplos deste percurso historiográfico das predelas encontram-se traduzidos no cronograma da tabela 6.
152 Ressalve-se o facto de que, apesar de concordarmos com a historiadora da arte que tão bem conhece e
investiga acerca de Grão Vasco, Dalila Rodrigues, de que documento “constitui uma importante prova de
autoria” (RODRIGUES, 1991: 43) não a consideramos uma prova irrefutável pelo que, por este motivo,
entendemos não a integrar no que consideramos o nosso “núcleo duro” comparativo e de autoria incontestável.
153 Embora também na Sé de Viseu, os quatorze painéis do altar-mor (em exposição no Museu Grão
Vasco) não foram contemplados no presente estudo, dado que continua a não haver uniformidade de
vistas quanto à sua atribuição (GUSMÃO, 2004: 243; CARVALHO, 2011: 189).
154 Vd. PROCESSO DE PINTURA – Restauro número 95/71. Lisboa: Biblioteca da Conservação e dos
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Tabela 6 - Cronograma ilustrativo de algumas referências relativas à autoria artística do S. Pedro, bem como atribuição das três pinturas que compõem a predela.
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