O Primeiro encontro entre o autor francês e o Imperador pode ser visto no diário do próprio autor francês, tirado do livro de Georges Raeders, que pode ser visto em integra nos Anexos deste estudo. Vários autores descrevem tal encontro como um dos grandes destaques das viagens do Imperador, nesta ocasião Victor Hugo, ao apresentar Dom Pedro II a seu neto, como “Vossa Majestade”, Dom Pedro II diz ao jovem: “Meu filho, há apenas uma majestade aqui, é Victor Hugo.” Tal encontro impressiona tanto o autor francês que este descreve o Monarca brasileiro como neto de Marcus Aurélio, uma alusão ao sábio Imperador romano, que reinou entre os anos 160 e 180.119
Esta ocasião marca o início de uma troca de cartas entre o Imperador e o autor que será parte da analise deste trabalho, porém sem as cartas em si disponíveis, será analisado no “Capítulo 4” a repercussão desta, através de Anais do Senado e outros documentos.
É inegável a influência que o pensador Francês tem na sociedade brasileira. Muito engajado politicamente, ele mostra sua crítica a assuntos da época, como a pena de morte, como forma de exemplificar suas posições políticas, defendidas em suas correspondências, é visto uma de suas cartas a Lord Parlmeston em 11 de fevereiro de 1854:
Je mets sous vos yeux une série de faits qui se sont accomplis à Jersey dans ces dernières années. Il y a quinze ans, Caliot, assassin, fut condamné à mort et gracié. Il y a huit ans, Thomas Nicolle, assassin, fut condamné à mort et gracié. Il y a troisans, en 1851, Jacques Fouquet, assassin, fut condamné à mort et gracié. Pour tous ces criminels la mort fut commuée en déportation. Pour obtenirces grâces, à ces diverses é poques, il a suffi d`une petition des habitants de l`île. [...] Maintenant quittons Jersey et venons à Guernesey. Tapner, assassin, incendiaire et voleur, est condamné à mort. A l`heure u`il est, monsieur, et au besoin les faits que je viens de vous citer suffiraient à le prouver, dans toutes les consciences saines etdroites la peine de mort est abolie; Tapner condamné, un cri`élève, les pétitions se multiplient; une, qui s`appuie énergiquement sur le principe de l`inviolabilité de la vie humaine, est signée par six cents habitants les plus éclairés de l`île. [...] Les pétitions vous sont remises, monsieur. Vous accordez un sursis. En pareil cas, sursis signifie commutation. L`île respire; le gibet ne sera point dressé. Point. Le gibet se dresse. Tapner est pendu. Après réflexion. Pourquoi?120121
119G. RAEDERS, 1944, p. 40. 120 L. SILVA, 2016, p. 169.
121 Em tradução de Luiz Eudásio Capelo Silva:
Eu coloco sob vossos olhos uma série de fatos que ocorreram em Jersey nesses últimos anos. Há quinze anos, Caliot, assassino, foi condenado à morte e, depois, agraciado. Há oito anos, Thomas Nicolle, assassino, foi condenado à morte e, depois, agraciado. Há três anos, em 1851, Jacques Fouquet, assassino, foi condenado à morte e, depois, agraciado. Para todos esses criminosos a morte foi comutada em deportação. Para obter essas graças, nessas diversas épocas, foram suficientes uma petição dos habitantes da ilha. Agora, saiamos de Jersey e vamos a Guernesey. Tapner, assassino, incendiário e ladrão, é condenado à morte. Nessa situação em que ele está, senhor, e sendo os fatos que acabo de lhe citar o suficiente para lhe provar, em todas as consciências sanas e direitas a pena de morte está abolida. Tapner condenado, um grito surge, as petições se multiplicam; uma, que se apoia energicamente no princípio da inviolabilidade da vida humana, está assinada por mais de seiscentos dos
Nesta ocasião Victor Hugo defende a abolição da pena de morte, mostrando exemplos de comutação da pena, por vontade popular, apelando a consciência do Lorde, para que fizesse o mesmo por Tapner, um assassino confesso.
De acordo com Luiz Silva, outro tema engajado por Victor Hugo é a escravidão, em 1826 o escritor publica o livro Bug-Jargal que tem como personagem principal um negro envolvido nas revoluções escravas na ilha de Santo Domingo. Victor Hugo pode não ter a condição do negro no século XIX como sua pauta política central, mas é inegável que através de seus escritos sobre a liberdade humana, o escritor defende a igualdade de todos, inclusive dos negros.122
Portanto é possível ver, em cartas e obras de Victor Hugo, que este é engajado politicamente com lideranças mundiais em favor de temas de seu interesse, neste caso estudado, refletido nos temas da Pena de Morte e a Escravidão.
É possível notar, com a exposição deste capítulo, a interação de Dom Pedro II com os pensadores franceses, Louis Pasteur e Victor Hugo, mostrando assim os assuntos que estes tratavam em suas correspondências pessoais. Este intercâmbio de ideias também demonstra os recorrentes interesses do Imperador, não voltados para sua vida pessoal, mas nos assuntos de importância ao Império, como visto na insistência do tratamento da febre amarela, em suas cartas com Louis Pasteur.
mais esclarecidos habitantes da ilha. [...] As petições são enviadas, senhor. Você concorda com um recurso. Em casos semelhantes, recurso significa comutação. A ilha respira. A forca não será montada. A forca é montada. Tapner é pendurado. Após reflexão. Por que?
4 REFLEXO DO INTERCAMBIO DE IDEIAS NA POLÍTICA BRASILEIRA
Com a utilização de documentação concreta, este capítulo trará repercussões tangíveis entre o intercâmbio de ideias de Dom Pedro II e suas ações, buscando nos discursos das “Falas do Trono”123 sua atitude diante tópicos discutidos anteriormente, como a medicina e a pena de morte, e em discursos proferidos no Senado, acessados nos Anais do Império,124 em que tal intercâmbio é reconhecido por políticos da época, além de busca nas próprias cartas e discursos do Monarca em que o Imperador demonstra o resultado destas discussões acadêmicas em suas políticas.125 Também será buscado em periódicos do século XIX, acessados na Biblioteca Nacional Digital, se é possível demonstrar alguma repercussão disto na sociedade brasileira.126
Este capítulo, portanto, será Bibliográfico e Documental, buscando livros e documentos que reflitam de forma tangível refletir as atitudes e ideias demonstradas previamente.