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PELAS TRAMAS E (DES)CAMINHOS DO LABIRINTOESCOLA

labirintoescola compõe-se de corredores longos, coloridos e

conectáveis, derivando-se para compartimentos, os quais estão ligados a outros compartimentos ou a outros

corredores. Os

compartimentos são cercados por paredes com porta e janelas, nos quais encontramos móveis correspondentes ao tamanho das crianças e alguns brinquedos organizados por prateleiras, muitos dos quais fechados em caixas ou inacessíveis à altura das crianças. As atividades ou (re)produções ficam fixadas às paredes, que também, na maioria dos casos, estão a uma “altura segura” a que as crianças não têm acesso.

Tais apontamentos remetem a muitos outros centros de educação infantil em que os espaços são organizados de modo muito similar, nos quais as crianças passam a maior parte do tempo da sua rotina diária. Ainda que os brinquedos estejam acessíveis, não se pode, muitas vezes, brincar com eles, ou, quando se é “permitido” brincar, nem todos podem ser utilizados. Nos momentos de chegada e/ou saída, as crianças, esperam sentadas nas cadeiras, manipulando massinha ou mesmo apenas sentadas em suas cadeiras, aparenta-nos que, nesse espaço, uma calmaria inquietante devesse tomar conta do ambiente.

Figura 5 - Por onde pisar... Artista: Flaviafou

Mas o corpo aparentemente estático não se permite ficar imóvel. Na aparente quietude, há constante movimento.

As crianças são puro movimento e, sentadas em suas cadeiras, não se permitem ficar estáticas, e o pensamento em movimento é materializado em seu corpo vibrátil. Suas pernas não param quietas nas cadeiras; a entrada de qualquer criança ou adulto na sala é motivo para correr em busca de um abraço; um risco na mesa transforma-se em caminho para os dedos; o espelho é ótimo para caretas; o vento que bate nas atividades penduradas produz movimentos e sons que0 parecem hipnotizantes. Os olhares se entrecruzam e as dobras produzem intensidades inimagináveis. E, mesmo nesses momentos de aparente calmaria, o labirinto vai transformando-se em dobras e redobras. Nesse sentido, “[...] o lado de fora não é um limite fixo, mas uma matéria móvel, animada de movimentos peristálticos, de pregas e dobras que constituem um lado de dentro: nada além do lado de fora, mas exatamente o lado de dentro do lado de fora” (DELEUZE, 1998, p. 104).

Figura 6 - O movimento nunca cessa Fonte: Arquivo pessoal

O movimento das crianças nunca cessa, e isso é muito forte quando chegam a outro tipo de compartimento, que pode até ter paredes por todos os lados, mas o sol que bate no chão cimentado e na copa da árvore, a qual faz uma sombra fresca, leva aquele corpo vibrátil a se movimentar de modo intensivo. As folhas que caem ao chão, as sementes que encontram e o encontro com uma formiga e sua família transformam os caminhos, criam outros percursos e bifurcações; logo, outras derivações aparecem, e o labirinto começa a se organizar. Abalos sísmicos são produzidos, formando uma composição entre as forças da natureza. Movimentam, assim, as paredes que formam os compartimentos e, por sua vez, reorganizam o modo de caminhar. Por isso, por entre essas paredes moventes, solúveis, líquidas, não é possível percorrê-lo com guias em decalque e/ou modelos que nos indiquem uma direção para a saída. Por exemplo, não há a possibilidade das seguintes indicações: fique próximo às paredes e pegue sempre a mesma direção (direita ou esquerda), vá marcando o caminho para saber se já passou por aquele lugar ou fixe uma corda na entrada para poder voltar, quando quiser, para o ponto inicial. Não é possível. Pelo próprio movimento do pensamento do corpo intensivo das crianças, as linhas indicativas dobrar-se-iam logo em outros caminhos, poderiam transformar-se em brincadeiras como amarelinhas, pista para carrinhos ou para os próprios dedos.

Portanto, esses lugares que aparentemente nos indicam uma saída simplesmente não existem. Sempre surgem passagens secretas, escotilhas, janelas que se transformam em portas, fissuras que surgem incessantemente no chão pelo movimento das paredes. “Poder-se-á apenas procurar com que pontos se liga aquele por onde se entrar, por que cruzamentos e galerias se passa para ligar dois pontos, qual é o mapa do rizoma e como é que este, de repente, se modifica se se entrar por qualquer outro ponto” (DELEUZE, GUATTARI, 2017, p. 9). Percorrê-lo requer que se esteja atento às bordas, às ranhuras e aos processos de (des)reterritorialização do pensamento pelas emaranhadas linhas do plano de imanência.

Por conseguinte, ao caminharmos pelo labirintoescola, não ficamos fixados em um espaço, tampouco preocupados com os compartimentos, e sua organização muda a todo o instante, fazendo com que, ao passarmos por alguma abertura, achemos que estamos saindo, mas, na verdade, estamos entrando. Nunca é possível saber com exatidão. Nesse trânsito de idas e vindas, ao sermos afetadas por um signo, paramos um pouco, pois algo passou e fez uma dobra no labirinto do pensamento. Por isso, pouco importa em qual compartimento estamos, o que nos interessa são as potências da vida que atravessam o corpo vibrátil do cartógrafo e coloca-o em um processo de composição com

as crianças e suas produções. E nessa grupalidade os currículos vão ganhando força, movimento e se atualizando, deslocando o pensamento e provocando outros modos de viver as aprendizagens intensivas e extensivas das crianças.

Por vezes, o movimento foi tão intenso, que, aos deslocarmos o pensamento, quase perdemos o ar; paramos um pouco e vimos como as paredes do labirinto mudaram de posição. Tais movimentos são provocados por abalos sísmicos produzidos por crianças e professoras, onde o chão sofre um tremor e as paredes do labirinto se compõem de outro modo, pois os processos de des-re-terriorialização provocam a mudança de percursos, reorganizando, assim, o próprio modo de caminhar.

Nesses deslocamentos, o labirinto vai compondo-se e transformando-se. Os compartimentos ora “demarcados” com nomenclaturas que os definem para espaços determinados na rotina da escola, como salas de aula, pátio e refeitório, vão ganhando outros usos. Afinal, os currículos, como nômades, habitam todos os lugares, e, se não podemos prever como alguém vai aprender, tampouco há como supor que o currículo não pode ser pensado e produzido em espaços pouco usuais, como no pátio. Por esse motivo, ao caminharmos pelas encruzilhadas do labirintoescola, nunca sabemos por onde estamos

Figura 7 - Dobras no pátio Fonte: Arquivo pessoal

andando. Para nós, isso pouco importa, pois as aprendizagens e os currículos acontecem em todos os lugares, muitos dos quais nem sequer conseguimos entender ou perceber, porque as dobras e redobras se derivam ao infinito.

Desse modo, o período de deslocamento pelo labirintoescola aconteceu durante seis meses, na periodicidade de uma vez por semana. Percorremos os espaços dentro da escola e fora dela, afinal, na pesquisa cartográfica, depois que se coloca em processo de composição no campo de problematizações, nunca sabemos onde vamos parar.

Transitamos, assim, pelos compartimentos, no desejo de composição com as fabuloinvenções das crianças, as quais indicavam as pistas por onde caminhar. Algumas professoras preferiram que a composição com as suas crianças acontecesse nos espaços “coletivos”, o que foi pura potência, pois sempre havia alguma criança que queria saber um pouco mais sobre aquele novo habitante do labirintoescola, e isso oportunizou que conversas fossem disparadas com aquelas crianças. Às vezes, produzimos algumas brincadeiras no canto do pátio, ou ainda recebemos um abraço apertado.

Outras professoras permitiram que a composição acontecesse dentro da sala de aula, e, no início, começamos a nos aproximar de algumas salas e percorrê-las, até que uma professora demostrou desejo maior de composição. Fixamo-nos, assim, na sala do grupo 4, que corresponde a crianças de 3 a 4 anos. As conversas sobre a dissertação transpassavam os nossos dias. Nas composições curriculares, fabulávamos e movimentávamos o pensamento com as invenções infantis, brincávamos e nos deslocávamos pelas dobras e redobras das crianças. As produções da sala de aula afetaram o modo como ambas as professoraspesquisadoras passaram a compor o campo de problematizações da pesquisa. A professora relatava acontecimentos dos outros dias da semana em que não estávamos na escola, e relatávamos como estava a nossa escrita e as produções de dados para a pesquisa.

Todavia, a professora encerrou o seu contrato, deixando a escola, o que gerou certo desconforto ao grupo de professoras. Para onde iria a mestranda? Para qual sala iria seguir a sua pesquisa? O medo ou o julgamento, às vezes, geram certa insegurança, pois, conforme já mencionamos, há um desejo quase que desesperador pelo previsível, estável. Tentamos algumas composições dentro das salas de aula, mas as intensidades eram capturadas, mesmo com a boa vontade das professoras que nos recebiam. Também sentimos o corpo controlado. O corpoescola resistia. Diante disso, afastamo-nos por duas semanas da escola. No retorno, as professoras logo começaram a verbalizar: está sumida? Está tudo bem? O caminho trilhado pelo cartógrafo tem as suas incertezas, mas isso, para

nós, é potência de composição. Recomeçamos a nos aproximar, começamos pelo pátio, e logo a professora do grupo 4 e uma professora do grupo 5 começaram a permitir a composição com as suas produções. Contudo, já estávamos em novembro, o que fez que a cartógrafa estivesse ainda mais atenta às dobras sutis que transformaram o labirinto.

Sendo assim, fomos traçando caminhos e percursos movimentando o nosso desejo em afetos e afecções em mundos compossíveis com as fabuloinvenções das crianças, já que “tudo se faz por ressonância dos disparates, ponto de vista sobre ponto de vista, deslocamento da perspectiva, diferenciação da diferença e não por identidade dos contrários” (DELEUZE, 2009, p. 181). Por esse modo, tais forças se ligavam positivamente com a diferença, com as quais compomos sentidos diferenciais sobre os currículos, as fabulações e as crianças, criando mundos, trajetos pelo labirinto e aprendendo com as crianças a potência de criação de mundos possíveis com as suas fabuloinvenções.

Em meio a uma polifonia de vozes no momento