3. A cidade negada
3.1. Pelotas: uma cidade moderna
Pelotas no final do século XIX experimenta a ampliação e formação do perímetro urbano com profundas transformações na forma de organização do território e do espaço. Tal processo foi fortemente influenciado pelos princípios da modernidade, que alterou os padrões estéticos da cidade a fim de implantar o modelo de “reformas urbanas” ocorridas no Brasil durante o período republicano. De acordo com Siqueira (2008), a urbanização no ideário republicano modificou as características das cidades, intervindo esteticamente na paisagem, orientada pelos princípios urbanísticos europeus –especialmente o modelo francês, que serviu de referência para os projetos nacionais. “A importação dos padrões do chamado ‘primeiro mundo’ aplicados a uma parte da cidade ou da sociedade contribuiu para que a cidade brasileira fosse marcada pela modernização incompleta ou excludente” Maricato (2000, p. 123).
Foi nesse período que se produziu as primeiras ideias a respeito do planejamento urbano, no sentido de ordenar e normatizar uma cidade que crescia, trazendo as consequências de uma industrialização capitalista. Por conta desse crescimento da população de trabalhadores, os chamados “problemas urbanos” multiplicavam-se. Foram criados então, os primeiros planos intitulados códigos de posturas, código de construção, planos de embelezamento e saneamento. Tais medidas de reforma urbana foram diretamente influenciadas por um urbanismo desenvolvido na Europa que se manifestou nos projetos das cidades jardins, na ampliação da malha viária, verticalização, criação de parques e projetos de arborização Siqueira (2008).
As obras de embelezamento e saneamento articuladas com ações em saúde foram influenciadas pelas ideias higienistas que tinham por objetivo tornar a cidade
salubre, organizada e arejada. Assim, foram realizadas intervenções de abastecimento de água e tratamento de esgoto e ações voltadas para a saúde da população urbana, pelas campanhas de vacinação e inspeção das moradias populares Siqueira (2008). Cabe destacar que essas práticas tinham um caráter de polícia, a população era fiscalizada, as casas invadidas e até mesmo demolidas com objetivo de manter a salubridade.
Também houve intervenção nas formas de ocupação, através da imposição de uma cultura urbana, que alterou profundamente as formas de relação com o espaço e com os modos de habitar. Os governos assumiram o papel na gestão, fiscalização controle e normatização das formas de ocupação do espaço urbano, associado há um conhecimento técnico sobre o espaço e sobre o corpo dos habitantes, através de uma “aliança entre saber médico e a engenharia” Siqueira (2008). Nesses termos, pode-se concluir que as primeiras intervenções urbanas acabaram por definir uma concepção de cidade de caráter claramente higienista onde “A higiene da cidade torna-se um tema da administração púbica e os engenheiros sanitaristas se transformaram nos grandes pensadores urbanos do país” (SIQUEIRA, 2008).
O mito de origem fundador da modernidade urbana é a crença de que cidade por excelência é o lugar do progresso e do desenvolvimento. No caso brasileiro, continua Siqueira (2008), “a modernidade veio de fora”, promovida por uma elite que buscou adaptar as estruturas coloniais aos ideários modernos. Ou seja, de acordo com o autor, é possível pensar que o processo de urbanização no Brasil foi um projeto civilizatório. No mesmo sentido, retendo a ideia de Carvalho (2003), a cidade moderna fundamentada nos princípios republicanos serviu de instrumento de colonização. Ao consolidar-se, a República impõe uma cidade burguesa, com objetivo de tornar-se símbolo de “poder e pompa frente à Europa”, afirmando-se como espaço de civilização e de progresso. De acordo com Fernandez (2010), os princípios modernistas impostos à América Latina foram elementos definitivos na história de segregação e exclusão das cidades latino-americanas.
Para a compreensão sobre o processo de urbanização da cidade de Pelotas a partir das influências modernas, buscou-se o trabalho de Soares (2000), porque o autor analisa a urbanização como um processo de incorporação do ideário da modernidade a
partir das intervenções de saneamento, como principais difusoras das ideias higienistas, o que tornou possível adaptar a morfologia urbana às necessidades de uma cidade industrial emergente. Sendo assim, podemos considerar que foi a partir do saneamento que a morfologia urbana foi transformada, configurando uma cidade que se desenvolveu à luz da modernidade.
Pensando em termos de materialidade e a incorporação dos ideários modernos, o autor traz duas representações arquitetônicas importantes para elucidar essa questão. A primeira delas é com relação ao afastamento da igreja matriz (Catedral São Francisco de Paulo), do poder central (Prefeitura Municipal), o que simbolizou a adesão ao movimento de secularização. A segunda é referente ao traçado da cidade na forma de um tabuleiro de xadrez, de linhas retas e ruas largas, mostrando a influência do traçado cartesiano e do pensamento positivista (SOARES, 2000).
Ainda segundo o autor, Pelotas estava afinada com as cidades que passavam pelo processo de industrialização e pelos ideários modernos. Isso se deve as suas características socioculturais e econômicas: Pelotas tinha uma elite letrada, formada pelos filhos das famílias abastadas que, ao estudarem na Europa, acabavam por incorporar os princípios positivistas de ordem e progresso, possibilitando a difusão das ideias higienistas (SOARES, 2000). Com relação aos aspectos econômicos, Pelotas tinha uma economia desenvolvida devido à produção de charque a ponto de as charqueadas colocar a cidade no circuito do fluxo internacional em decorrência da atividade de exportação.
O processo de agregação de valor à produção do charque, pelo do aproveitamento dos subprodutos, possibilitou a implantação das indústrias e do comércio na cidade Soares (2000). De acordo com Xavier (2010), Pelotas chega a seu apogeu econômico em 1870 sem ter resolvido as questões relacionadas ao abastecimento de água. Situação que a impedia de se destacar como uma cidade moderna, em consonância com os grandes centros urbanos. Torná-la uma cidade moderna era desejo dos charqueadores e, por esse motivo, afirma-se que foram eles que conduziram Pelotas ao encontro da modernidade (XAVIER, 2010).
A cidade crescia economicamente, deve-se destacar que se tratava de desenvolvimento típico da sociedade brasileira, isto é, misturou formas avançadas com
estruturas conservadoras. No caso de Pelotas, o progresso se desenvolveu tendo com base a estrutura escravocrata “a cabeça na modernidade e mão na chibata” (SOARES, 2000).
Como já foi dito, por volta de 1870, a cidade vivia seu apogeu econômico, mas convivia com sérios problemas sanitários, em consequência da atividade econômica ligada ao charque e por conta de um processo de urbanização. Com relação aos aspectos físicos e geográficos, a cidade se caracterizava por apresentar um clima úmido – o que favorece o acúmulo de água parada, consequentemente, a proliferação de doenças de vinculação hídrica. No ano de 1855, Pelotas viveu a grande epidemia da cólera, que teve início nas charqueadas (XAVIER, 2010).
Soares (2000) relata que o governo municipal da época adotou uma série de medidas sanitárias, através da criação de uma diretoria de higiene que funcionava com poder de polícia. Eram realizadas inspeções nas moradias, o controle e vigilância das pessoas que chegavam à cidade, tanto pelo Porto, como pela Estação Férrea. Também era de responsabilidade dessa diretoria manter a ordem social, “combatendo a vadiagem e embriaguez, o saneamento era essencialmente como uma questão de polícia e de repressão policial”. (SOARES, 2000).
Para os charqueadores, a implantação da modernidade passava diretamente pela implantação da estrutura do saneamento. Foram feitos vários investimentos nesse sentido, começando pelo abastecimento de água no ano de 1875 com a construção da Hidráulica Pelotense, posteriormente com a construção das primeiras redes de esgoto no ano de 1914. O governo da época incentivou a vinda de engenheiros dos grandes centros do país, uma elite intelectual com influência europeia para promover o planejamento sanitário e a realização das obras de saneamento que a cidade necessitava. Bem como a importação de tecnologias e os objetos como tubulações de ferro e bronze, caixas d’água e chafarizes (XAVIER, 2010).
É interessante analisar que a importação de modelos, técnicas e procedimentos com relação às questões de infraestrutura urbana permanece nos dias atuais, uma tendência de pensar a cidade de “fora pra dentro”. As grandes obras de saneamento que estão acontecendo na cidade nesse momento, como a construção da Estação de Tratamento de Água São Gonçalo, segue tal tendência, buscando replicar projetos
pensados para outras cidades do Estado do Rio Grande do Sul. O que é preciso estar atento é para as escolhas políticas na aplicação de modelos urbanísticos, uma vez que a disputa de ideias é fundamental para a estruturação do espaço. Haverá sempre a busca de referências para a produção do espaço, a questão é o que esses modelos de infraestrutura urbana motivam para a qualidade das relações sociais.
Uma questão central para esse trabalho é considerar que essas medidas higienistas que instauraram a modernidade urbana, alteraram profundamente os modos de habitar. A moradia aparece como lócus de todo o tipo de intervenção, no sentido de produzir uma narrativa oficial sobre a cidade. Como observa Xavier (2010), a questão da moradia foi a principal ação higiênica e social do prefeito Pedro Osório. Era necessário evitar os cortiços e as habitações coletivas. A cidade se desenvolvia economicamente, consequentemente, era preciso intervir nos modos de vida dos trabalhadores. O prefeito não só promoveu moradias salubres e incentivou a construção de moradias populares através de isenção de impostos das indústrias que construíssem moradias para seus trabalhadores, como estimulou a organização de uma sociedade de construtoras para promover a construção de moradias particulares (XAVIER, 2010). É
possível perceber nesse período a formação de um capital imobiliário associado ao governo local, na construção, e uma concepção de cidade que se modernizava.