Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro Percorrer correndo corredores em silêncio Perder as paredes aparentes do edifício Penetrar no labirinto O labirinto de labirintos Dentro do apartamento [...] Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília Em cada um matar um membro da família Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia O que aconteceria de qualquer jeito Mas eu prefiro abrir as janelas Pra que entrem todos os insetos “Janelas Abertas nº 2”, Caetano Veloso, 1972.
Como a eterna construção que se propõe a ser, provisória e movimentada como um canteiro de obras, esta pesquisa não terminou. Ela apenas precisou ser concluída pela força maior dos recortes necessários à sua delimitação - desde os cortes sutis das escolhas que operaram a construção do objeto, até a execução da guilhotina dos prazos, este imperativo categórico.
O esforço de amarrar as pontas soltas do emaranhado de fios - desencapados e irradiando energia - não impediu que novas pontas surgissem, provocando outras dissipações instantâneas de energia, com explosões, calor e faíscas. Tratamos, afinal, de uma conjuntura que se impõe para além de recortes e delimitações - e que não para, nem nos permite parar.
O canteiro provisório e movimentado da obra sem fim, no entanto, procurou se organizar. Sinalizações para orientar os visitantes tentam tornar a experiência menos caótica. Mas o fio de Ariadne é sempre uma memória do percurso, das escolhas de
caminhos possíveis já realizadas. O fio auxilia o backtracking de recuperar o trajeto já feito, sem apontar a possível saída - ou as possíveis saídas.
As paredes bem delimitadas do labirinto, afinal, não impedem que nos percamos nele, muito pelo contrário! Os caminhos definidos são a matéria do labirinto, são o que o constitui, embaralhando a orientação espacial pela multiplicidade de itinerários.
Mas também não precisamos pensar no labirinto como um percurso necessário até a saída, um desafio aprisionador em que alcançar o fim - de preferência pelo caminho mais curto - seja o elemento mais importante. Podemos pensar o labirinto como um ambiente de experimentação e desafios, em que todos os múltiplos e possíveis caminhos importem, mais até do que achar a única saída possível, se.
Cornelius Castoriadis, em Encruzilhadas do Labirinto (1977), chama atenção para a complexidade da nossa sociedade, em dimensão labiríntica:
A entrada do labirinto é imediatamente um dos seus centros, ou melhor, não sabemos mais se existe um centro, o que é um centro. De todos os lados, as galerias obscuras partem, emaranham-se com outras que vêm não se sabe de onde, que vão talvez a parte alguma (CASTORIADIS, 1987, p. 7).
Deleuze, em A dobra: Leibniz e o Barroco (1988), utiliza o labirinto para explicar o conceito de espaço a partir de Leibniz. O espaço, assim, se configuraria como um labirinto em número infinito de dobras, como uma cidade é composta por quadras, ruas, casas, quartos, móveis. Temos dobras dentro de dobras, indefinidamente. Dobras como origamis, conformando espaços. Diz-se que um labirinto é múltiplo, etimologicamente, porque tem muitas dobras: “O múltiplo é não só o que tem muitas partes, mas o que é dobrado de muitas maneiras” (DELEUZE, 2007, Ibid., p.14).
O labirinto é, portanto, um cruzamento de caminhos, derivações e bifurcações que se atualizam nos encontros. A multiplicidade de planos que se entrecruzam impossibilita o traçado de um único plano ou o percurso de um único trajeto previamente definido. Nas tramas e dobras, haverá sempre uma possibilidade de outros ensejos, planos e possibilidades que vão se derivar em outras tramas e dobras. Assim,
[...] há sempre uma inflexão que faz da variação uma dobra e que leva a dobra ou a variação ao infinito. A dobra é a potência como condição de variação, como se vê no número irracional que passa por uma extração de raiz e no quociente diferencial que passa pela relação de uma grandeza e de uma potência. A própria potência é ato, é o ato da dobra (DELEUZE, 1991, p. 34).
Esta pesquisa não fugiu de sua natureza labiríntica, por mais que tenha se esforçado em indicar seus percursos e intencionalidades, para evidenciar as escolhas operadas ao longo do trajeto. Neste momento, podemos tentar olhar para trás do alto, em perspectiva. Podemos - como sugere Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano (1980), tentar olhar para o caminho labiríntico percorrido, para tentar transcender seus limites:
Aquele que sobe até lá no alto foge à massa que carrega e tritura em si mesma toda identidade de autores ou de espectadores. Ícaro, acima dessas águas, pode agora ignorar as astúcias de Dédalo em labirintos móveis e sem fim. Sua elevação o transfigura em voyeur. Coloca-o à distância. Muda num texto que se tem diante de si, sob os olhos, o mundo que enfeitiçava e pelo qual se estava “possuído”. Ela permite lê-lo, ser um olho solar, um olhar divino. Exaltação de uma pulsão escópica e gnóstica. Ser apenas este ponto que vê, eis a ficção do saber (CERTEAU, 1994, p. 169).
Tentando alcançar este ponto de vista mais alto, na ficção do saber, vemos no início do percurso as dinâmicas de formação da rede de escolas, que agora se esvazia. Construídas sob o signo da modernidade e da colonialidade, as unidades escolares refletem concepções elitistas e segregadoras de sociedade. Operando dispositivos biopolíticos de controle dos corpos, as escolas se inserem nas dinâmicas de segregação socioespacial da cidade, orientada pela lógica do capital, excludentes por natureza.
Procurando decompor às unidades mínimas os caminhos que levam ao fenômeno do esvaziamento, delineamos as escolhas metodológicas da pesquisa e seus fundamentos. Percebemos a intencionalidade das operações de desmonte da rede, acompanhando as ações de expansão e universalização do acesso. Impondo a precarização ao atendimento que deveria se democratizar, as ações deslocam a exclusão para outros pontos da trajetória escolar, como a permanência e a conclusão. A escolarização segue perpetuando o ordenamento segregador dos corpos, dentro da cidade igualmente segregada, em seu processo de expansão metropolitana.
A partir da triangulação entre as leituras, as observações, os dados e vozes que cercam o fenômeno, identificamos algumas unidades de análise. A partir dos feixes de sentido da ordenação dos corpos como dispositivo de controle, das pulsões de vida como propulsoras das ações e das implicações da economia neoliberal no sujeito - o homo oeconomicus - delineamos a operação da biopolítica do esvaziamento escolar, no período em questão.
Estruturado pelo racismo, o gerenciamento da miséria por meio da violência, executado pelo estado neoliberal, se manifesta na criminalização e genocídio da juventude preta e pobre, sendo o encarceramento em massa mais uma expressão dos “massacres administrativos” operados pela biopolítica governamental. Seus impactos no processo de escolarização são vislumbres do impacto social, de onde são derivados. A lógica que movimenta esses dispositivos segue operando desde nossa colonização, sendo a exclusão escolar apenas um de seus aspectos visíveis.
Buscando novas possibilidades de trajetos, encontramos em Hannah Arendt as definições da vida ativa, imprevisível e irreversível. Com uma afirmação da vida - para além de toda operação biopolítica, que se expressa em todos os corpos ausentes, todas as operações de apagamento e silenciamento como as que seguem em curso - a filosofia da natalidade pode fazer o (re)nascer uma novidade radical na educação.
Retomando as Janelas Abertas Nº 2, poderíamos “penetrar o labirinto” e agir diante dos assombros e pulsões tanatológicas "até que a plenitude e a morte coincidissem um dia, o que aconteceria de qualquer jeito". Mas preferimos "abrir as janelas para que entrem todos os insetos", em aceitação ao externo que se apresenta.
Não abrimos as janelas para apenas nos queixar do cenário que ela mostra. Não estamos lamentando a mudança invariável da configuração da escola de outrora. Não culpamos o real por não ser a paisagem ideal. Procuramos, com esta pesquisa, uma abertura irrestrita ao real, o exterior com “todos os insetos” que o compõem, procurando a potência dos corpos - mesmo os ausentes.
Procuramos identificar as concepções de escola e analisar as configurações da biopolítica do esvaziamento escolar em nossos recortes de tempo e espaço. Procuramos denunciar contradições inerentes ao processo, mas também anunciar possibilidades neste caminho labiríntico, que tentamos observar do alto.