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Pensamento liminar uma ponte para escuta do outro

O trânsito de matrizes corporais compõe uma prática pedagógica onde se encontram presentes diferentes princípios motores, descrevê-la e situa-la a partir do lugar de seus praticantes ainda que sugere movimento de deslocamento da escuta em direção para as palavras do outro.

O professor Walter Mignolo discorre como exercício da crítica moderna, e os modos de descrição das sociedades latino americanas e suas dinâmicas culturais, são produzidos a partir de um lugar que se fala sobre, o discurso onde os seus sujeitos e seus atos são falados. As vozes, o ponto de vista e suas epistemes são referidas através de enunciados erigidos sobre os modos de concepção e pensamento moderno ocidental, o que o autor chama de diferença colonial.

Para o autor, a diferença colonial se configura a partir das relações de poder e saber da colonialidade, que compreende o processo histórico da colonização- invasão latino-americana territorial e política em período colonial, ela condiz o processo formação e manutenção de relações onde as diferenças culturais e epistêmicas são consideradas e categorizadas a partir de perspectivas do corpo de conhecimentos da modernidade ocidental. No seu trabalho Histórias locais/projetos globais o autor afirma que o conhecimento abstrato “é uma competência de todos os seres humanos, e não apenas daquelas pessoas que vivam em um certo período histórico, em certos locais geográficos e falem um pequeno número de línguas específicas” (MIGNOLO, 2003, p.159).

21 Tomamos o termo embranquecimento refere-se a destituição das características e singularidades

das manifestações e culturas afro brasileiras em favor de uma possível aceitação pelo público e pelos parâmetros modernos ocidentais. Este tipo de processo suplanta parte da sofisticação intrínseca aos sistemas de conhecimento e saberes, fazeres e suas formas de expressão da afrodescedentes, resultado estruturas raciais desiguais num mesmo sistema. Ver: SCHUMAN, Lia Vainer. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. Disponível em: <<http://www.ammapsique.org.br/baixe/encardido- branco-branquissimo.pdf>>. Acesso em: 10 dez. 2018.

A elaboração de uma crítica cultural pode partir de um lugar de fronteira, ou o que o autor denomina como pensamento liminar, que buscar trazer para o registro escrito o olhar a partir dos lugares de enunciação habitados pelos sujeitos da experiência cultural, e pela própria experiência do sujeito que escreve. Na fronteira dentre as experiências que compõe o estudo que emergem as noções e ferramentas para pensar-descrever a dança e práticas pedagógicas em dança negra, elaboradas nas fronteiras dos fazeres e saberes hegemônicos, adentrando as formas de enunciação do corpo que dança e dos seus sujeitos.

O pensamento liminar demarca um território onde nem sempre as descrições delineadas a partir de corpo de conceitos externos alcançam complexidade das relações das culturas locais e suas histórias, ocorrendo a produção o que o autor chama de exterioridades. As exterioridades são os discursos – práticas emergidas nas bordas, num lugar outro dos modos de olhar e descrever pertencentes a colonialidade do saber, operam a um lugar onde os conhecimentos gestados nas culturas “periféricas” são lugares que possuem seus termos e meios de enunciação. O autor enfatiza um pensamento liminar, ou pensamento de fronteira como modo de visibilizar a voz e as sensibilidades das culturas indígenas e na américa, nesse sentido que o corpo e dança mediados nos estudos decolonias são corpos políticos. O autor aponta para o caminho de apropriação do lugar da exterioridade como forma de dar visibilidade e sentido aos sabres das culturas subalternas decorrentes da colonialidade (MIGNOLO, 2014).

Com isso o autor busca contribuir com a discussão da retomada do que chama de “pluriversalidade” das formas de pensar e conhecer. Versar a partir dos saberes plurais, mas a partir da experiência do sujeito que dança, onde seu corpo e sua pedagogia elaboram seus próprios termos para se auto investigar, e nos fornecem rastros para aprender com eles.

No exercício do aprender com as pistas da sua trajetória e a partir de conhecimentos forjados no movimento de encontro e fusão de saberes-fazeres de corpo que noções como encruzilhada aproximam-se destes processos de emergência de fazes a partir da combinação-associação e conhecimentos díspares. Como assinalado por Weber e Dantas, os processos cênicos, de criação, e pedagógicos, que caracterizam as práticas corporais afro brasileiras demandam noções que contemplem sua singularidade, pois se configuram como práticas corporais associadas (música, voz, gesto) e detém formas de produção e

transmissão de conhecimento pautadas por princípios como oralidade e ancestralidade22, que a depender dos casos não detém o registros escritos, são história e sistemas de pensamento que se grafam no e através do corpo (gesto, música voz) (WEBER; DANTAS, 2017).

Pedagogias geradas na cena e na sala, a dança afro, suas sensibilidades e fazeres são garfados no corpo de quem pratica. Na captura destes sentidos que podemos descrever uma dança da diáspora negra, desta forma a noção de encruzilhada como processo de fusão-hibridização, em uma analogia aos baobas africanos, a autora Leda Maria Martins assinala o papel da cultura negra na América como fissura e subversão de uma ordem do saber hegemônico na colonialidade, elas se constituíram lugares de encruzilhadas, interseções, inscrições e disjunções,

fusões e transformações, confluências e desvios, rupturas e relações, divergências, multiplicidade(...)23 na pluralidade de movimentos-relações que a práticas culturais

negras engendram que busco a encruzilhada como lugar de enunciação para descrever acurar pedagogias negra em dança de King.